• Sonuç bulunamadı

A concepção de palavra começa a se delinear passando pela linguagem, primeiro em Freud, nas pesquisas com os hieróglifos egípcios, nos textos de Karl Abel, depois nos sonhos, nos lapsos de fala, no “Signorelli” esquecido que virou outra coisa. Enfim, ele se vê dominado pelo inconsciente a tal ponto que o inaugura como um saber não sabido, como ninguém teria coragem de fazer nos áureos tempos positivistas das Ciências Naturais. Só Freud poderia descobri-lo, pois enfrenta a recusa e o escárnio que sofre e se mantém na sobriedade de uma ética de pesquisa convicta, é uma decisão apenas para gênios. Tal persistência legou-lhe um lugar de destaque entre as celebridades mais significativas do século XX.

Lacan, outro espírito impar, se tivesse vivido em Minas, seria chamado de “sujeito encrenqueiro”, mas de boa encrenca, é claro! Como de boa encrenca é o nosso Guimarães Rosa, que da palavra, deixou-me várias provocações até a Terceira margem do rio que, agora, é para mim, a terceira margem da palavra que procuro tecer na canoa do texto.

Esse Lacan que persistiu bravamente nos passos do mestre Freud apoiado por Althusser, no momento da ex-comunhão, recuperou a “peste”, antes que o simbólico da cultura de alguns espíritos menores a fizesse sucumbir em mais um saber entre tantos outros, regulados pelo poder esmagador das Instituições.

O estudo da linguagem em Lacan começa pelo estudo da paranóia, escutando aqueles que ninguém considerava sujeitos, aqueles da terceira margem, dando voz a alienados como ninguém fizera até então, não opção política ou semelhantes, mas porque o sujeito deveria estar sempre em primeiro plano, era ética da psicanálise. Depois, inicia o processo de cunhar os registros importantes do imaginário, do simbólico e do real, redesenhando uma nova Psicanálise, fora das entificações da “psicanálise americana”, que se emaranhou nas significações redutoras, apequenando a dimensão do inconsciente.

Miller propôs uma leitura de Lacan em três ensinos, para nos demonstrar os seus encadeamentos. Mas, como há vários Seminários de Lacan que ainda não foram publicados, outras leituras poderão advir do conjunto de sua obra que, segundo o próprio Miller (2001), “não para de encadear”.

Lacan, em seu ensino, sugere uma aposta: o significante novo. Um modo de fazer a passagem para outro registro, deslocando o sujeito das “estruturas individuais de alienação do saber” (MRECH, 1999, p. 16). Os circuitos de gozo e as instituições viciadas no “sentido” mantêm essa configuração na repetição e criam a falsa percepção que se imagina comum a todos os lugares, mas o sujeito não está na imagem, isso fura!

O “significante novo” é um modo de “criação” ao que se implica, navegar com a in- certeza, o que não quer dizer da impossibilidade de haver o “certo”, mas, simplesmente, haver um possível, ato que deve ser perseguido não como uma lei que paralisa, mas como uma aposta, como o risco que advém do sujeito que deseja um saber no movimento possível!

Inegavelmente, a possibilidade de navegar na incerteza revela a insuficiência humana que busca sustentar-se nas bases exclusivas do saber, nos tons de totalizações e portadores de verdades para, logo em seguida, ser subsumido diante do furo no indizível. Bem lembra Lacan (2003, p. 440) que “saber e verdade sofrem juntos e um pelo outro: essa é a verdade”. E, assim, resta ao sujeito a invenção diante do indizível do real, a verdade.

Como diria Forbes (2003a)100, “Pensar a educação, uma profissão do descompleto” não

é fácil, assim como a Psicanálise. É necessário uma desconstrução, “é necessários romper com o standard” (FORBES, 2003b, p. 3).

Quando comecei esta longa viagem, eu trazia de Minas a bagagem de um desconforto, limitação de minha margem, a “boa” angústia, e a esperança de um significante novo, embora nem era pensamento que essa aposta poderia ter nome algum. Percebi-me em uma “mística”101 de outra ordem que fazia a celebração com as idéias no desejo que as provocava. Mergulhar na biblioteca de Paulo Freire e no ensino de Lacan foi um caminho no descompleto que sou, no descompleto de Freire e de Lacan, que me remetia a “um esforço de poesia” (MILLER, 2003).

A ética da Psicanálise pode nos oferecer uma direção para nos inspirar a pensar sobre a educação, mesmo porque ela está isenta de pretender fundar uma ciência da educação, pois, baseando-se nas pistas de Freud, desloca de uma ética do imaginário para uma ética do real (BACHA, 1998, p. 97).

A linguagem que passa primeiro por Freud, pelos lingüistas e depois por Lacan sinalizou a direção rumo ao inconsciente. Paulo Freire, que começa seu pensamento pelo

100 Cf. I Colóquio Internacional da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Os professores

escutam a Psicanálise? março de 2003. São Paulo: NUPPE/IPLA. (mimeo).

registro do consciente, se vale da linguagem na dimensão de um sujeito inconcluso, falante de uma palavra oca e de uma verdadeira, que se depara com o indizível do próprio discurso.

Temos histórias contadas e, delas, procuramos fazer uma arqueologia que pretende achar pistas de um Freire entre linhas e páginas e a manifestação inconsciente que das suas idéias depreenderam.

Paulo Freire fez da responsabilidade por um “não-saber” a responsabilidade de sua liberdade, sem a tentação da certeza. E, nessa pista, continuarei a perseguir a rota do “inédito viável” que vim procurar nesse longo caminho. Mas ainda faltam alguns passos ou palavras até qualquer chegada e, essa é, contudo, uma aposta.

CAPÍTULO IV