K. Diğer Kısıtlamalar a. Lojistik Yapı
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Abordaremos, na sequência da estética da recepção, posicionamentos teóricos que nos parecem afirmar uma tentativa de conciliação das perspectivas histórica e hermenêutico-semiótica, no que respeita à utópica mas sempre renovada tentativa de definir ou descrever o que é, ou «quando é», poesia.
A explicação da relação íntima entre a poesia e o verso, a partir da emergência histórica da prosa como género, teria suscitado a substituição do conceito de poesia pelo conceito globalizante de literatura, facto este que teria, por sua vez, provocado a consideração da poesia como género do qual o verso seria, por algum tempo, a forma. Historicamente, o verso teria sido, nas realizações da língua, um lugar de pré-determinação e de determinação absoluta, e a prosa o modo de introdução da indeterminação. Posteriormente, o verso seria o lugar da indeterminação por excelência, fugindo, mesmo, à determinação sintáctico-semântica. Segundo Jean-Pierre Bobillot, na obra Vers, prose, langue – quelques propositions, o verso seria
o lugar «où la langue impose la subjectivité».55 «Escrever em verso» seria, para Bobillot, «réactiver dans la langue une marge de liberté» e o poema, portanto, lugar da existência da máxima liberdade e subjectividade.
Um dos autores mais representativos da estética da recepção, Wolfgang Iser, em The Repertoire,56 centraliza esta margem de liberdade e de subjectividade no leitor, conferindo-lhe, no entanto, fortes restrições provenientes da visão do literário como força modeladora:
Every textual model involves certain heuristic decisions: the model cannot be equated with the literary text itself, but simply opens up a means of access to it. Whenever we analyze a text, we never deal with a text pure and simple, but inevitably apply a frame of reference specifically chosen for our analysis. [...] our prime concern will be no longer the meaning of that text (the hobbyhorse ridden by the critics of yore) but its effect.
A ênfase dada por Iser à força modeladora e ao efeito do texto no leitor condu-lo a relevar também o acto de produção de imagens por parte do leitor, posição esta que não nos parece estar definitivamente distanciada da importância dada ao sentido por parte de alguns adeptos de posicionamentos linguísticos e da perspectivação estética da literatura. tal como defende um leque de referências para adequar o relacionamento do modelo com o texto literário, ao posicionar-se teoricamente age do mesmo modo, se é que é possível agir de outra maneira adentro de uma perspectiva teórica. Esta adequação do modelo pode surgir, em casos extremos, por infracção ou por paródia, ou ser meramente enunciada pelo uso da metalinguagem no poema. Do primeiro caso, a infracção ao modelo declarada pelo estatuto enunciativo do poema, relevamos o título e a
54 [1989: 107] 55
[1989: 46]
primeira das três estrofes da «Canção em moldes clássicos» de Cartografia
de Emoções, de Nuno Júdice:57
Tentei descrever o amor, do ponto de vista da razão, subvertendo o que a natureza humana dele pretende: um fim
para o desejo, para a desordem dos sentidos, para a falta de entendimento de quem vive solitário. Não sei o que descrevi: se esse conjunto de emoções que se concentra no instante da paixão, transformando a alma numa fogueira feita
de mágoa e alegria; se o instante em que toda a percepção é absorvida por ti, mesmo que tu me peças que não perca juízo e coração, ambos envoltos na estranha tormenta que os teus olhos desencadeiam.
Do segundo caso, a adequação transgressiva do modelo pela paródia, transcrevemos um poema de Sete Rios Entre Campos, de Adília Lopes:58
«seca-se o liber no alto do ulmeiro»
Vergílio, Bucólicas Seca-se o livro no alto do ulmeiro o anacronismo produziu o surrealismo mas não é só uma má tradução o livro caiu ao mar
57
[2001:169]
foi preciso enxugar o livro agora o vento abana as folhas do ulmeiro e as do livro (as folhas batem umas nas outras) e o livro é um fruto é um produto do ulmeiro
acham que um verso é pouco? quem não o aproveita
é mouco
Quanto ao terceiro caso, o da relevância através do uso de metalinguagem no poema, damos um exemplo de O aprendiz secreto, de António Ramos Rosa:59
O construtor terá sempre em conta a flexibilidade da brisa e o peso maciço do ser. A sua construção será contemplativa, abismada entre as falésias de mármore e o rio tranquilo que o envolve. Atento ao frémito do ser, à sua redondez corpórea e ao ritmo das suas configurações, construirá a sua branca morada no flanco abrupto do inexpugnável. Todas as paisagens serão unificadas segundo o princípio de individuação do ser e da sua integridade solar.
A presença do dizer do modelar no poema generalizou-se na segunda metade do século vinte como procedimento enunciativo, mas delineava-se implicitamente numa prática muito anterior. Jean-Michel Maulpoix considera, em La voix d´Orphée, que foi a partir do século dezoito que se presentificou no texto literário a passagem de uma atitude mimética para uma atitude modelar que modela e torna reconhecível a linguagem
literária e a especificidade da linguagem poética em função do destino social da escrita. A partir deste século, o lirismo visaria abolir a distância entre o sujeito e o mundo, e Maulpoix denomina-o, por isso, «lyrisme de
description»,60
justamente porque o lirismo surge então como expressão qualificativa, traduzida por realidades estilísticas, mas diferenciando, simultaneamente, descrição e sugestão. Esta diferença processar-se-ia num plano no qual a descrição seria ultrapassada pela sugestão, tal como o ser humano, quando posicionado entre o real e o ideal, se situa em função do desejo de absoluto e das suas possibilidades de realização.
Cremos que o posicionamento assumido por Henri Meschonnic, nas obra Le signe et le poème e no texto Pela Poética, sintetiza as perspectivas acima referidas, na medida em que articula a existência histórica do texto literário com as diversas possibilidades de meios de descoberta dos seus sentidos. Embora na primeira obra referida Meschonnic afirme que a linguagem poética assenta numa duplicidade, pois é simultaneamente semiótica e metasemiótica, na segunda obra mencionada defende que o texto literário é como que um «contentor de história, mundo e linguística»61 e defende que, numa obra literária, a palavra existe em vários planos mas esses planos não geram vários sentidos, cada sentido é que existe em vários planos, o que o leva a posicionar a relação entre o valor e a obra, em Pela
Poética,62 nos seguintes termos:
[...][o valor da obra] não vive senão do conflito entre a necessidade interior da mensagem individual (que é a criatividade) e o código (género, linguagem literária de uma época, etc.) comum a uma sociedade ou a um grupo, código que é o conjunto dos valores usados existentes - `lugares-comuns´.
59 [ed. ut. 2001:399] 60
[1989: 39]
Dos posicionamentos teóricos acabados de referir, interessa- nos relevar para o nosso trabalho a relação entre o indivíduo, a sociedade, a
temporalidade e o código, no que respeita, não só à literatura em geral
mas, mais particularmente, à poesia e ao uso da narratividade no poema. Importa-nos considerar o texto poético numa dupla articulação, como misto de sistema e criatividade, de objecto e sujeito(s), de forma e sentido, espaço de realização de modelos do cânone clássico ou do cânone hodierno. Através do estudo da poesia portuguesa mais recente, é nosso objectivo salientar uma via de abordagem da poesia que poderia contribuir, ainda que muito pontualmente, para, no dizer de Pozuello Yvancos, «[...] construirse una historia de las relaciones entre literatura y publico, una semiótica de la cooperación textual, una história de las categorias de la experiencia estética».63