A ação humana sobre o meio sempre gerou, de uma forma ou de outra, impactos ambientais. No entanto, após a Revolução Industrial no Século XVIII, quando há uma intensificação no processo produtivo com a ajuda de máquinas, é que tais impactos ficam mais em evidência, já que os recursos naturais passam a ser consumidos de uma forma e a uma velocidade sem precedentes na história da humanidade. Consequentemente, diversos resíduos são gerados pelo processo produtivo com grande potencial poluidor. Aliado a esta questão soma-se o aumento populacional e seu crescente deslocamento para os centros urbanos13, mais contundente nas últimas décadas do século XX. O processo de industrialização, que por meio de inovações tecnológicas possibilitou crescente produtividade também foi responsável pela atração de muitos indivíduos, do campo para a cidade, em busca de trabalho e melhores condições de vida. Com maior produção, é necessário que se venda cada vez mais e se estabelece, assim, um padrão de consumo intenso. O ciclo de vida dos produtos torna-se cada vez menor e assistimos à obsolescência programada, ou seja, produtos que são concebidos para tornarem-se ultrapassados em curtíssimo tempo, a fim de manter um elevado nível de consumo, contribuindo para a lucratividade de quem os produz. Nas palavras de Conceição (2005, p. 27):
Nesse novo cenário (capitalista de produção), a ordem é produzir cada vez mais e vender sempre, propiciando, assim, um dinamismo no sistema de produção mundial que necessita desse „combustível‟ para não entrar em colapso.
Sabe-se que o uso que faz a espécie humana dos recursos naturais do planeta não diz respeito apenas à satisfação de suas necessidades básicas, estando intimamente relacionado com os padrões de consumo ditados por este modelo de desenvolvimento que coloca a humanidade diante do risco de um colapso, em função de sua insustentabilidade. Segundo Dias (2002, p. 15):
13 Segundo Dias (2002), “os seres humanos agora constituem uma espécie majoritariamente urbana. Mais de
70% das populações de Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental e Japão são urbanas. Cerca de 74% dos latino-americanos vivem em cidades. No Brasil, o IBGE (2001) anuncia que 81% dos brasileiros vivem em cidade.”
O desafio evolucionário humano está ocorrendo nos centros urbanos. As cidades são pontos emanadores de indução de alterações ambientais globais. Quase todo crescimento está ocorrendo nas cidades. Elas ocupam apenas 2% da superfície da Terra, mas consomem 75% dos seus recursos. As cidades tendem a ocupar o mesmo nicho global dentro da biosfera e explorar os recursos da mesma maneira. Esse modelo suicida está sendo replicado em quase todo mundo, gerando pressões cada vez mais fortes.
Para Conceição (2005, p. 80), “a sociedade torna-se a cada ano, mais urbana e consome, cada
vez com mais „fome‟ os recursos naturais como se fossem infinitos”. As conseqüências da
adoção desse modelo são níveis alarmantes de poluição atmosférica, contaminação dos recursos hídricos, a destruição da cobertura vegetal da terra, ocasionando intensos processos de destruição de habitats, pressões crescentes sobre a biodiversidade, erosão, perda de fertilidade do solo, desertificação, assoreamento dos rios, inundações, destruição da camada de ozônio, chuva ácida, aquecimento global dentre outros.
Além disso, temos o processo de concentração de renda e exclusão de significativa parcela da população dos meios para consumir ou mesmo para manter um padrão de vida razoável. Os indivíduos que migram do meio rural para a cidade em busca de uma vida melhor, muitas vezes não conseguem emprego, e, quando o fazem, são empregos cuja renda não lhes garante qualidade mínima de vida. Resta-lhes habitar em locais inadequados, trabalhar muito e, ainda assim, ter renda muito baixa e, por vezes, estar também excluído do mercado de consumo. A insustentabilidade se revela assim também na sua dimensão econômicosocial por meio da injusta distribuição dos bens produzidos.
A destruição dos recursos naturais e outras mazelas tais como a crescente exclusão social, duas faces do mesmo problema, têm repercutido e sensibilizado a população mundial para a urgência de se pensar em estratégias de preservação do planeta. A constatação de que o modelo atual de produção e distribuição não atende a todos homogeneamente, bem como exaure os recursos naturais e resulta na produção de volumes exorbitantes de resíduos, leva à necessidade de se adotar uma nova concepção de produção e de consumo.
Estas são as questões que a luta ambientalista da sociedade civil organizada, iniciada na década de 1960, vem denunciar e pretende combater. Percebendo as incompatibilidades do atual modelo de desenvolvimento, ganha força a necessidade de implementação de um desenvolvimento capaz de garantir a existência dos recursos naturais para além da geração atual, bem como assegurar uma justa e equitativa distribuição da riqueza. Nasce assim, a noção de desenvolvimento sustentável. Embora alguns autores entendam que
concentração do capital não deixa de pé, sequer as pessoas” (DEMO, 2005, p. 6), o
desenvolvimento sustentável pode ser definido como:
Aquele que harmoniza o imperativo do crescimento econômico com a promoção da equidade social e a preservação do patrimônio natural, garantindo assim que as necessidades das atuais gerações sejam atendidas sem comprometer o atendimento das necessidades das gerações futuras. (Relatório de Brundtland, Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1987, apud CONCEIÇÃO, 2005 p. 19).
A preocupação com esse quadro nefasto levou governos e instituições a iniciarem a discussão do tema em grandes encontros mundiais, inaugurado pela Conferência de Copenhagem, em 1945, seguida de outros igualmente importantes, dos quais podemos citar a Conferência da ONU sobre o Ambiente Humano (ou Conferência de Estolcomo) em 1972, a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (mais conhecida como Rio 92) e a Conferência de Kyoto, realizada no Japão em 1997. Tais eventos ora assumem caráter de tornar público os efeitos do atual modelo de produção e consumo, apontando a necessidade de mudanças, ora apresentam propostas de ações concretas para obtê-las, como por exemplo, a elaboração da Agenda 21, e ora tentam estabelecer restrições como a redução da emissão de gases poluidores na atmosfera, contida no Protocolo de Kyoto. Embora a preocupação com a preservação ambiental tenha reverberado pelo mundo e tenha sido tema de discussões com representantes de centenas de países em encontros importantes os resultados concretos obtidos ainda são muito tímidos. Referem-se principalmente à adoção de medidas, digamos, de redução de danos. Ainda que não coloquem em questão o modo de produção, tentam apenas minimizar seus efeitos.
Fica claro que a preocupação manifesta se dá em torno de como reduzir os níveis de poluição, depredação, pobreza e superpopulação, sem tocar na forma social de produção, ou seja, no capitalismo. Em que medida essas melhorias que vão, aparentemente, contra a lógica da própria dinâmica capitalista, conseguem ser suficientemente eficazes, é algo que somente dentro de algumas décadas poderemos saber (FOLADORI, 2001, apud CONCEIÇÃO, 2005, p. 94).