Nas próximas páginas, analisaremos algumas ações políticas empreendidas pelo Estado francês que resultaram na construção interdependente dos imaginários de língua e de nação, ainda que tal resultado não constituísse inicialmente o principal objetivo dessas ações. Veremos que o discurso, em sua função de legitimação de lugares sociais, concede autoridade, tornando-se mais que uma atividade: uma intervenção sócio-historicamente situada que acresce sentidos à memória coletiva, o que acaba por reiterar o valor dos mitos, seja pela validação ou pela desconstrução dos mesmos.
Um exemplo do poder simbólico dos mitos, que preferimos designar neste trabalho como imagens, é o lugar-comum apontado pelo cientista social Ricardo C. Coelho (2008:185), segundo o qual os franceses são um povo das letras. Por conseguinte, no que diz respeito à França, pode-se dizer que o orgulho nacional se exprime e se faz sentir, sobretudo pela língua francesa, fazendo dela uma expressão eminente desse orgulho, visto que, conforme Meschonnic (1997:42), é ela a condição social da realização dos sentidos de língua e de nação, que, portanto, só se realiza nas trocas comunicativas entre sujeitos, que, assim, constroem e compartilham esses sentidos mutuamente. O francês é, pois, um poderoso elemento da identidade francesa, porque engendra o sentimento de pertencimento, o que fica evidente nas menções aos Serments de Strasbourg, documento considerado como o marco inicial da história da língua francesa, uma vez que é a primeira atestação escrita da língua românica, o mais antigo estágio do francês de que se tem conhecimento. Mas esse documento atesta também, pela via linguística, a aliança que prenunciou a posse, um ano depois, pela assinatura do Tratado de Verdun (843), dos reinos de Louis le Germanique e Charles le Chauve. Ao prestarem juramento, em 842, um na língua do reino do
outro, ou seja, o primeiro em língua românica e o segundo em língua germânica, os dois monarcas fundaram duas entidades políticas europeias que se tornariam mais tarde, após algumas redefinições de fronteiras, o que chamamos hoje de França e Alemanha. No entanto, é importante acrescentar que esse gesto político se fez diante dos conselheiros e soldados dos dois reinos, os quais também juraram não apoiar seu soberano se esse não respeitasse seu próprio juramento. Assim, para que os termos dos juramentos fossem compreendidos por todos, já que os quadros de ambos os exércitos e conselhos reais eram compostos por falantes das duas línguas, que, em geral, não compreendiam o latim, lançou-se mão dos dois vernáculos. Destarte, mesmo que por razões práticas, a língua começou a se tornar um critério de pertencimento tanto político quanto social.
Quanto à Séquence ou Cantilène de Sainte Eulalie, que, como foi dito anteriormente, foi escrita por volta da mesma época dos Serments (em torno de 880), esse poema é uma evidência escrita da recomendação do Concílio de Tours (813), retomada no Concílio de Reims (1119), que consiste no uso da língua vulgar (rustica lingua romana) no momento das homilias. Há três ideias importantes a se salientar nesse fato: 1) a iniciativa precursora da Igreja Católica no campo da política linguística, ao buscar assegurar a eficácia de seu poder ao adequar a linguagem de certos textos e de parte das pregações; 2) a coexistência de falares distintos do latim, que compunham um conjunto suficientemente homogêneo para se fazer sentir como uma língua nova; 3) a coexistência do latim com essa nova língua, reiterando a distinção, em voga durante toda a Idade Média, entre língua de cultura ou das escrituras (que já não era a língua materna de ninguém) e língua rústica, inculta, local ou vulgar (que era a língua materna ou natural). Como será discutido mais adiante, essa última distinção só começará a se desfazer a partir do século XIII, com o trabalho de escritura das Grandes Chroniques de France, continuando, de forma coercitiva, ao longo dos séculos XV e XVI, com a prescrição do uso da “linguagem materna” em textos jurídicos, intentada por Louis XI e implementada pelos seus sucessores nos editos de 1490 e 1510, sob o reinado de Louis XII, e nos editos de 1531, 1535 e 1539, sob o reinado de François Ier. Porém, a identificação total da língua materna com a
língua de cultura só se dará no século XVII, com os trabalhos da Academia Francesa, que reforçarão o ensino do vernáculo, iniciado no século anterior pelo monarca que institui o Edito de Villers-Cotterêts (François Ier). Ao fundar o Collège
Royal (futuro Collège de France), em 1530, o rei convoca os seus tradutores a ocupar as cadeiras dessa instituição, os quais deveriam, por sua vez, enfatizar o estudo na língua da realeza.
Mas esse é apenas o ponto de partida da história do gênio da língua, na qual se destaca o papel do idioma no pensamento francês, o que significa dizer que a maneira de se exprimir nessa língua indica uma maneira de pensar, inclusive a maneira de pensar ou de imaginar a própria língua. Portanto, pensar ou imaginar em francês é pensar ou imaginar o francês e os valores da cultura que se exprime por essa língua. Ou ainda, segundo Maingueneau (1995) e Meschonnic (1997), é construir imagens discursivas.
Como veremos a seguir, as imagens do gênio da língua e da nação francesa construídas pelas elites letradas dos séculos XVII e XVIII continuam vivas no imaginário de tudo o que é francês, principalmente da perspectiva do estrangeiro.
O classicismo francês do século XVII, com seu prolongamento no século XVIII, é, ao mesmo tempo, o modelo do gênio, o inspirador de sua política e a razão que faz do classicismo e da identidade uma única e mesma causa.10
(MESCHONNIC, 1997 : 126, tradução nossa)
[...] para os franceses, a sua língua tem ainda um significado especial. [...] a memória do seu apogeu e predominância segue ainda bastante viva.
[...]
São precisamente a origem e o sentido aristocrático do francês que lhe dão o charme e a reputação de que ainda hoje desfruta no mundo [...]. (COELHO, 2008 : 170-176)
Seja na União Europeia, seja no mundo francófono, onde se inclui, evidentemente, o Hexágono,
10 No original: « Le classicisme français du XVIIe siècle, avec son prolongement au XVIIIe, est à la
fois le modèle du génie, l’inspirateur de sa politique, et la raison qui fait du classicisme et de l’identité une seule et même cause ».
[...] a política linguística da França tem uma coerência teleológica profunda, que a conduz a uma incoerência teórica e a estratégias variadas. Ela não defende em todos os lugares os mesmos princípios porque defende o francês em todo e qualquer lugar, ainda que não o reconheça em voz alta e mesmo que nem sempre saiba como fazê-lo. (CALVET, 2007 : 145)
Fumaroli (1994) sublinha que, ainda que a ideia de gênio seja um lugar- comum francês, essa ideia atravessou a história da França desde o século XVI com conotações variadas, a começar por seus sinônimos: o espírito ou o natural da língua e, consequentemente, da nação:
A correspondência entre o “natural” do caráter nacional e o “natural” da língua, [...] está implicada no campo etimológico e semântico que traz consigo a palavra gênio [...]. Estão aí traços permanentes da fisionomia francesa, tais quais eles foram percebidos na França e na Europa até o fim do Antigo Regime.11 (p. 216, tradução nossa)
Além disso, a definição recíproca que faz a identificação entre o povo e sua língua é uma garantia da permanência acrítica do gênio (MESCHONNIC, 1997: 324), cuja evidência é a correspondência quase exata entre os nomes das nacionalidades e os nomes das línguas (por exemplo, ser francês e falar francês). Assim, é possível dizer que a língua, como elemento da “check-list” identitária (THIESSE, 2001, 2006) ou inventário do patrimônio nacional, faz do gênio um traço hereditário simbólico, que identifica os “filhos da pátria”, ou seja, seus herdeiros por nascimento ou por naturalização, reiterando a necessidade da adesão coletiva a essa herança imaginária para a existência da nação.
No conceito de gênio, encontram-se também outras ideias, às vezes paradoxais, agrupadas pelos pensadores da língua e do ser francês ao longo dos séculos, constituindo o sentido dessa abstração. A partir das leituras realizadas no decorrer desta pesquisa, sobretudo das obras de historiadores da língua, chegamos à seguinte lista, que não se quer exaustiva, mas cujo fim é o de apenas especular sobre a amplitude e a diversidade do campo semântico de gênio: clareza, esplendor, franqueza, transparência, nitidez, pureza, inocência, castidade,
11 No original: “La correspondance entre le « naturel » du caractère national et le « naturel » de la
langue, [...] est impliquée dans le champ étymologique et sémantique que porte avec lui le mot génie [...]. Ce sont là des traits permanents de la physionomie française, tels qu’ils ont été perçus en France et en Europe jusqu’à la fin de l’Ancien Régime ».
sublime, nobreza, grandeza, majestade, realeza, glória, bom tom, honra, valentia, vigor, força, densidade, fluidez, doçura, graça, refinamento, elegância, polidez, beleza, sensibilidade, delicadeza, fineza, charme, vivacidade, simpatia, sociabilidade, convivência, cortesia, galanteria, riqueza, variedade, abundância, fecundidade, jovialidade, frescor, vitalidade, sensualidade, furor, eloquência, retoricismo, medida, harmonia, musicalidade, sonoridade, eufonia, amenidade, sobriedade, simplicidade, facilidade, estabilidade, ordem, precisão, certeza, brevidade, unidade, universalidade, diplomacia, probidade, laicidade, humanidade, razão, civilização, liberdade, igualdade, fraternidade.
Nas considerações sobre o “gênio da língua”, poder-se-á assim encontrar, aparentemente confusas, na realidade, reatadas por uma sutil e flexível contextura lógica e analógica, considerações sobre as letras, as palavras, a frase, as ligações, o ritmo, os versos franceses, mas também considerações sobre a monarquia, sobre o rei da França, sobre a nobreza francesa, emanação e representação do ingenium próprio à nação.12 (FUMAROLI,
1994 : 218, tradução nossa)
Já no Edito de Villers-Cotterêts, verificam-se prescrições quanto à clareza e à urbanidade no que concerne a linguagem nos assuntos do Estado, assim como a implementação de uma estratégia linguístico-jurídica de centralização do poder nas relações de suserania. Mas a língua, assim como o poder real, se impõe como um signo sagrado, mas de uma laicidade sagrada, que une fiéis numa comunidade (quase nacional), cuja vocação é a felicidade e o saber mundanos. Logo, ao tornar obrigatório o uso de um vernáculo nos textos jurídicos e administrativos, distingue-se a língua do Estado da língua da Igreja (o latim), o que pode ser interpretado como a primeira medida de separação entre esses dois poderes, visando a favorecer a centralização do poder monárquico. O vernáculo francês, ou seja, da França, entendido como o conjunto das línguas próprias a esse território, torna-se assim a expressão oficial do Estado absolutista, unificado, do ponto de vista jurídico, pela(s) língua(s), designada(s) como língua materna
12 No original: “Dans les considérations sur le « génie de la langue », on pourra ainsi trouver, en
apparence confuses, en réalité reliées par une subtile et souple contexture logique et analogique, des considérations sur les lettres, les mots, la phrase, les liaisons, le rythme, les vers français mais aussi des considérations sur la monarchie, sur le roi de France, sur la noblesse française, émanation et représentation de l’ingenium propre à la nation ».
(“en langage maternel françois”), não mais como língua vulgar (como ainda é designada nos editos de 1531 e 1535), em contraste com a língua erudita ou de cultura, o latim (DECROSSE, 1989). A partir desse momento, a língua materna passa a ser oficialmente reconhecida como uma língua de cultura, ou seja, a língua da cultura secular, não da cultura religiosa. Tudo isso evidencia uma maior identificação do Estado com o povo, isto é, do rei com o reino ou a “coisa pública” (res publica), o que estava em consonância com a política de centralização que se praticava a partir de então e que culminará com a República, onde a nação é, segundo Renan (1997), “um plebiscito de todos os dias” (p.32).
Segundo a historiadora da literatura e da língua francesa Hélène Merlin- Kajman (2003), devido à ambiguidade da expressão “langage maternel françois”, que pode ser e foi interpretada como qualquer língua em uso na França – uma vez que o multilinguismo era, de fato, o que se praticava em todo o território francês, inclusive na capital e na Corte –, o propósito principal do edito seria, então, demarcar linguística e politicamente a área de dominação do rei (e, portanto, a soberania do reino) em relação aos vizinhos (principalmente a Espanha, que tinha pretensões imperialistas) e à Igreja, que, pela fé, estabelecia seu império cristão (a Cristandade). Portanto, para essa autora, a língua francesa no singular era, nessa época, uma “ficção jurídica” (p.86), que pouco a pouco foi se materializando na escolha política de um dialeto de prestígio, porém mestiço, resultante do contato com os demais dialetos utilizados, que compunham o continuum multilinguístico francês do século XVI e dos dois séculos seguintes. Mas é essa ficção que inaugura a ideia de uma língua francesa, ou seja, uma língua da França, pela retomada do projeto de unificação do reino pela via linguística, projeto esse que, segundo a história, já se prenunciava nos Serments de Strasbourg, e que foi intentado, sobretudo, pelos antecessores de François Ier, Louis XI e Louis XII. Enfim, é essa “ficção jurídica” de uma única linguagem materna francesa que será evocada para justificar a intervenção do Estado nas práticas linguísticas mesmo recentemente, como em 1994, quando se votou a chamada lei Toubon (lei “relativa ao emprego da língua francesa”, que visa a limitar o uso de termos estrangeiros e mesmo coibir esse uso, por meio de multas, quando houver um
termo equivalente em francês, a fim de garantir que todo cidadão seja informado em sua língua).
Mas é a partir do século XVII, com a fundação da Academia Francesa (1635), que uma língua francesa vai se desenhar para desempenhar um papel importante nos assuntos nacionais, como, por exemplo, favorecer a hegemonia cultural das elites dirigentes de Paris, ignorando os regionalismos. O “bom uso” preceituado pelos acadêmicos do tempo da fundação dessa instituição, entre os quais se destacam Malherbe e Vaugelas, é aquele dos nobres e letrados da corte, entre os quais se incluem evidentemente o rei e seu séquito, assim como escritores e agentes do Estado. Entre esses últimos, destacam-se os membros da Chancellerie de France, que pode ser considerada a predecessora da Academia por seu trabalho de deliberação sobre os usos da língua pela administração real, e por sua participação na redação das Grandes Chroniques de France. A Chancelaria existe desde os primórdios da monarquia francesa. Ela é constituída por altos funcionários da administração do reino que atuam diretamente junto ao rei. São tesoureiros, oficiais, tabeliães, escrivães e secretários responsáveis por toda a documentação oficial, como cartas, tratados, editos e decretos. No século XIII, sob o reinado de Louis IX, as crônicas começaram a ser escritas, em francês, a pedido do rei, pelos monges da Abadia de Saint-Denis. Mas entre o final do século XV e meados do século XVI, a Chancelaria continuou o trabalho de escrita das crônicas.
No entanto, é o acadêmico François Charpentier que, em 1676, enfatiza, em sua Defense de la langue françoise pour l’inscription de l’Arc de triomphe, a relação entre a língua francesa e o gênio ou o espírito da nação, por ocasião da escolha da língua das inscrições em um arco do triunfo. Sua defesa do francês se apoia na ideia da “universalidade” crescente da língua, que era então adotada em outras cortes europeias, o que permitiria, ao mesmo tempo, difundir as glórias da França e reforçar a educação da nação e de seus vizinhos pelo exemplo de heroísmo do rei (Louis XIV) e do povo francês.
Tal defesa encontra apoio no fato de que, durante o século XVII, “o império universal do francês” se estendeu à América e à Ásia por meio das missões
jesuítas, às quais se seguiram a ocupação e o comércio de além-mar. Mais tarde, no século XIX, a expansão desse império para a África e outras regiões da Ásia reforçou as ambições do francês como língua internacional, status esse que a França se empenha em manter, mesmo após a independência de parte de suas colônias, através da criação de instituições como Le Haut Comité pour la défense et l’expansion de la langue française (1965), Le Conseil international de la langue française (1967), L’Agence de coopération culturelle et technique (1970) e L’Organisation internationale de la Francophonie (1998), com o propósito de promover e difundir as culturas dos países membros, os quais compartilham o uso da língua francesa. Aliás, o próprio termo francofonia, cunhado pelo geógrafo francês Onésime Reclus, no final do século XIX, ou seja, durante a expansão colonial, designa o conjunto de territórios onde o francês é utilizado, seja como língua materna, seja por opção, ou ainda, por imposição. Logo, o próprio termo denota difusão e promoção da língua e da cultura francesa, acompanhadas de suas respectivas imagens.
Além disso, ainda no século XIX, a anexação da Alsácia e de parte da Lorena à Alemanha após a Guerra Franco-prussiana (1870-71) inspirou tanto a construção como a desconstrução de imaginários durante a III República. É o que se verifica nestas palavras de Ernest Renan (1997), citadas de seu texto Qu’est-ce qu’une nation?, pronunciado numa conferência na Sorbonne em 1882:
O homem não é escravo nem de sua raça, nem de sua língua, nem de sua religião, nem do curso dos rios, nem da direção das cadeias de montanhas. Uma grande agregação de homens, sã de espírito e calorosa de coração, cria uma consciência moral que se chama nação.13 (p. 34, tradução nossa) Logo, segundo esse autor, os critérios etnoculturais apontados pelo linguista alemão Johann G. Helder (1744-1803) não são suficientes para legitimar uma nação. É preciso vontade e consentimento para escolher a que grupo pertencer, porém essa escolha nunca é aleatória, pois se fundamenta numa
13 No original: «
L’homme n’est pas esclave ni de sa race, ni de sa langue, ni de sa religion, ni du cours des fleuves, ni de la direction des chaînes de montagnes. Une grande agrégation d’hommes, saine d’esprit et chaude de cœur, crée une conscience morale qui s’appelle une nation ».
herança histórica comum, que estabelece vínculos de solidariedade. Em outras palavras, fundamenta-se em sentidos que exprimem pertencimento.
No entanto, pouco tempo depois da Grande Revolução de 1789, no final da Primeira República, já era evidente que o pertencimento à comunidade nacional não resultava (como na prática nunca resultou) de uma escolha cidadã, mas de uma intervenção estatal. O decreto do 2 thermidor an II (21 de julho de 1794) defende o combate às línguas regionais, aos dialetos e aos patoás, alegando que esses falares dividiam o povo, o que propiciaria a organização de movimentos rebeldes, contrários ao regime. Logo, tal instrumento de lei visava à uniformização dos usos linguísticos no território francês, onde só haveria lugar para uma única língua nacional, mais nenhuma outra, pois só assim seria possível colocar em prática os valores da República: a liberdade, uma vez que todos teriam acesso aos documentos do estado republicano, como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão; a fraternidade, pela compreensão mútua, e a igualdade, pelo reconhecimento da condição de cidadão através do uso compartilhado da língua nacional. Assim, pela força da lei, o francês é decretado como a língua oficial do país, podendo levar à prisão qualquer agente do poder público que insistisse em utilizar outro idioma. Mas tal lei foi logo suspensa (no mesmo ano), tendo em vista as dificuldades da sua aplicação, uma vez que a diversidade linguística na França não podia ser suplantada de uma hora para outra.
Na sequência dessa política, mas em termos mais democráticos, as leis Ferry de 1881 e 1882 instituíram o ensino gratuito, laico e obrigatório no país, com a uniformização dos programas, onde a língua francesa era o único meio de expressão do conhecimento. Apenas em 1951, com a promulgação da lei Deixonne, permitiu-se oficialmente, mas mediante autorização prévia, o ensino facultativo das línguas regionais nas escolas primárias.
Assim, da língua do rei à língua dos direitos do homem e do cidadão, o francês é um continuum de imagens, que, segundo Schnapper (2003: 80-84), se inscrevem em um projeto político de institucionalização da língua, a fim de favorecer a identificação (proto)nacional pelo enraizamento progressivo da ideia abstrata de nação nas práticas sociais.
Para concluir, retomemos a ideia expressa nas palavras que introduzem este capítulo, pelas seguintes palavras de Stuart Hall (2001):
[...] há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem [...] significado e importância à nossa monótona existência, conectando nossas vidas cotidianas com um destino nacional que preexiste a nós e continua