• Sonuç bulunamadı

Dentre os 156 pacientes avaliados, a maior parte possui baixa renda e baixa escolaridade, sendo que a baixa renda possivelmente interferiu na ingestão dietética, resultando em menor consumo, principalmente, de carnes, leite e derivados e frutas. A baixa escolaridade afetou o nível de conhecimento sobre a doença e também contribuiu para valores mais elevados de hemoglobina glicada.

Na maioria dos casos, a suspeita de diabetes detectada pela primeira vez na Campanha de 2001, se confirmou posteriormente (79,7% dos casos), sugerindo que este evento tenha sido uma iniciativa importante para a saúde pública, uma vez que o diagnóstico precoce do diabetes possibilita melhor resultado com o tratamento, colaborando com a prevenção de complicações, com a redução dos custos na saúde e com melhor qualidade e expectativa de vida para os portadores desta enfermidade.

Dentre estes indivíduos detectados com hiperglicemia pela primeira vez em 2001, 25,5% não procuraram assistência de imediato, o fazendo posteriormente, devido aos sintomas ou porque apresentaram hiperglicemia novamente (na entrevista atual). Este fato sugere que nem todos os indivíduos foram informados e conscientizados a respeito do resultado da glicemia e da conduta a ser tomada, sugerindo que em próximos eventos como este, sejam tomados cuidados para que isto não aconteça. Outra sugestão seria a busca ativa destes pacientes após a Campanha, pois não basta detectar os casos, é preciso tratá-los.

A maioria dos pacientes faz controle pelo SUS ou por meio de planos de saúde e não houve diferença na glicemia capilar nos diversos tipos de assistência, porém, um

quinto dos entrevistados não está recebendo nenhum tipo de assistência atualmente e apresentou valores mais elevados de glicemia capilar e maior consumo de açúcar que os em tratamento médico, sugerindo que o acompanhamento médico regular proporciona aderência ao tratamento, melhorando o controle glicêmico.

Dos pacientes que se tratam pelo SUS, menos da metade é atendida pelo programa específico de diabetes, demonstrando a necessidade do aumento de investimento neste programa para que o mesmo possa atender maior número de pacientes.

Quase metade dos pacientes relata não estar recebendo qualquer tipo de orientação dietética atualmente e apenas 19,2% recebem orientação realizada por nutricionista, sendo que, ser orientado por este profissional específico contribuiu para um maior fracionamento das refeições e para níveis mais baixos de glicemia pós- prandial, sugerindo que medidas devem ser tomadas para que o maior número possível de pacientes possam receber orientação nutricional adequada, visto que a dieta é um dos pontos mais importantes do tratamento, porém de difícil aderência, necessitando, portanto, de acompanhamento e incentivos constantes.

A maior parte dos entrevistados possui antecedente familiar de diabetes e, considerando a força da hereditariedade como fator de predição do diabetes, muitos trabalhos poderiam ser realizados com os familiares dos diabéticos, objetivando detectar os fatores de risco modificáveis e, ou, controláveis (obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada, intolerância à glicose, dislipidemias, hipertensão) e estabelecer medidas preventivas que possam evitar ou retardar o aparecimento futuro de diabetes.

A avaliação do conhecimento em diabetes mostrou que a maioria dos pacientes têm noções sobre alguns fatores causais do diabetes, suas complicações crônicas e tratamento, porém, estes conhecimentos são limitados pela falta de entendimento da fisiopatologia (obesidade, controle glicêmico) e pela falta de conhecimento sobre algumas medidas preventivas (cuidados com os pés, exames periódicos), fazendo com que os pacientes tenham dificuldade em relacionar sua conduta atual com o seu futuro a longo prazo.

Apesar da baixa escolaridade, medidas podem ser adotadas para melhorar o nível de conhecimento e a conscientização dos pacientes a respeito da doença, como, discussões em grupo, abordagens durante as consultas, cartazes, programações de sala de espera, entre outras. É importante que a família também participe para que possa compreender melhor a doença, as exigências do tratamento e possa assim apoiar e incentivar o portador de diabetes.

Medidas deveriam ser tomadas para facilitar o acesso regular dos pacientes ao oftalmologista. Com relação aos cuidados como os pés, os profissionais de saúde deveriam receber treinamento para saber reconhecer um “pé de risco” e tomar as devidas providências.

A maioria dos pacientes possui algum tipo de doença associada ou complicação do diabetes. A hipertensão (auto-referida) esteve presente na maior parte dos pacientes e a hipercolesterolemia (auto-referida) em quase metade. Entre as complicações do diabetes, as mais comuns foram os problemas circulatórios (membros inferiores), distúrbios visuais e disfunção erétil.

A hipertensão e as dislipidemias devem ser tratadas, assim como a hiperglicemia, como medida de prevenção de complicações. Para isto seria importante que o sistema de saúde oferecesse todos os medicamentos necessários, uma vez que a maioria dos entrevistados é composta por pessoas de baixa renda.

A maior parte dos pacientes faz algum tipo de tratamento, sendo mais comum a associação de dieta e medicação oral. Dos pacientes que possuem prescrição de algum medicamento para diabetes, 25% não o utilizam ou o fazem em quantidade menor que a recomendada pelo médico. O uso de insulina foi mais freqüente entre as pessoas diagnosticadas como diabéticas há mais de 5 anos, enquanto a ausência de tratamento foi mais comum entre aqueles com diagnóstico mais recente. Com relação ao controle glicêmico atual, aqueles cuja prescrição se baseia apenas na dieta obtiveram melhores resultados.

Menos da metade dos entrevistados realizam algum tipo de atividade física regular, sendo esta 2,2 vezes mais freqüente entre os homens. Não houve diferença entre obesos e não obeso e nem entre adultos e idosos. A caminhada foi o exercício mais praticado e não houve diferença, com relação à freqüência semanal e duração do exercício, entre os sexos, nem entre obesos e não obesos e nem entre adultos e idosos.

Os valores de pressão arterial sistólica, diastólica e glicemia capilar foram significantemente menores no momento atual que na Campanha de 2001, sugerindo que isto seja resultado de intervenções realizadas após a Campanha, visto que a tendência de controle das doenças crônicas é deteriorar-se progressivamente, quando a enfermidade não é tratada. Porém, mesmo havendo redução da glicemia capilar e da pressão arterial, o teste atual alcançou quase 70% de inadequação e a pressão arterial 61,6%, quando comparados às metas recomendadas de tratamento.

A maior parte dos pacientes apresentou exames bioquímicos laboratoriais acima dos valores recomendados, sendo que LDL-c, glicemia de jejum, HDL-c e Glicemia pós-prandial obtiveram os maiores percentuais de inadequação.

O excesso de peso (IMC > 25 para adultos e > 27 para idosos) esteve presente em 82,6% dos adultos e em 56,2% dos idosos. Pessoas obesas (IMC > 30) apresentaram maior chance de possuírem algum outro problema de saúde, especialmente hipertensão, e também possuíam maiores níveis séricos de hemoglobina glicada.

A perda de peso deve ser enfatizada e trabalhada como um dos objetivos mais importantes do tratamento do diabetes tipo 2, devendo-se abordar o paciente e também sua família.

A obesidade abdominal, avaliada pela circunferência da cintura, esteve presente em 71% dos homens e em 97,7% das mulheres, sendo esta diferença estatisticamente significante.

A prática de atividade física deve ser recomendada por todos os profissionais envolvidos na atenção ao diabético, sendo que as mulheres, por serem mais sedentárias e se apresentarem mais obesas, deveriam ser abordadas mais firmemente.

A idade inicial de ganho excessivo de peso parece ter influenciado a idade de diagnóstico do diabetes, uma vez que as pessoas que se tornaram diabéticas antes dos 60 anos, apresentaram idade inicial de ganho de peso significantemente menores. Esta questão deve ser sempre observada, refletida e trabalhada junto aos familiares dos diabéticos, para que evitem o ganho de peso excessivo, principalmente em etapas precoces da vida.

A avaliação do consumo alimentar qualitativo, por meio do questionário de freqüência alimentar, mostrou que os “alimentos” mais consumidos diariamente foram óleo de soja, adoçante, arroz, feijão, vegetais folhosos, pão francês e leite integral pasteurizado. A maioria dos portadores de diabetes relatou evitar açúcar, alimentos açucarados e gorduras saturadas.

Na análise do consumo quantitativo, por meio do recordatório da dieta habitual, verificou-se que os maiores percentuais de inadequação da dieta ocorreram para cálcio, fibras e percentual de carboidratos, gorduras monoinsaturadas e proteínas (em relação ao VET consumido). Os percentuais de lipídeos totais, saturados e polinsaturados, em relação às calorias totais, mostraram-se adequados para a maior parte dos entrevistados.

Considerando o consumo qualitativo e quantitativo, o profissional deve, portanto, aconselhar e prescrever a dieta individualmente, auxiliando cada paciente a se

alimentar da melhor forma possível, dentro da sua realidade socioeconômica e cultural, procurando sempre atingir a melhor adequação possível.

Os fatores de risco associados ao mau controle glicêmico atual foram: não fazer tratamento médico, possuir outras doenças associadas ou complicações, apresentar obesidade abdominal e consumir açúcar.

A glicemia capilar atual mostrou razoável correlação com a glicemia laboratorial de jejum e pós-prandial e com hemoglobina glicada, sugerindo que possa ser usada em outros estudos epidemiológicos, como alternativa rápida e simples para se estimar a situação de controle glicêmico de diabéticos e detectar novos casos suspeitos de diabetes.

Benzer Belgeler