O que, dizemos, significa um solitário motivo em um tapete oriental? A resposta rigorosa é: nada. Nisto, também, a cultura material assemelha-se com a linguagem. Uma palavra solitária não significa nada (...) Coisas e palavra isoladas são vazias, arbitrárias. A arbitrariedade as deixa quando elas obtém lugares em sistemas de inter-relação[ ...] (GLASSIE, 1999:47)49
49 Em inglês: “ What, say, does a lone motif on an oriental carpet mean? The rigorous answer is: nothing. In this, too, material culture resembles language. A lone word means nothing (…) Things and words are empty in isolation, arbitrary. Arbitrariness leaves them as they gain places in systems of interrelation”.
A partir do momento em que os contextos dos objetos são conhecidos eles deixam de ser completamente mudos, pois as associações que estabelecem com outros elementos fornecem as chaves para sua significação. Neste sentido, toda interpretação deste tipo de conteúdo se vê restringida pela análise do contexto (Hodder, 1986).
Uma definição de contexto é encontrada na obra de Hodder, desenvolvida nos termos de uma Arqueologia Contextual. Segundo ele, este termo pode ser definido como,
[...] a totalidade do meio-ambiente relevante. O contexto de um ‘objeto’ arqueológico (incluindo um traço, um sítio, uma cultura) é todas aquelas associações que são relevantes para seus significados. Esta totalidade, é claro, não é fixa em nenhum sentido desde que o significado de um objeto depende do que está sendo comparado com, por quem, com qual propósito e assim por diante [...]50 (HODDER,
1992:14,15)
Contextualizar compreende entrelaçar, conectar as coisas. Um objeto nunca significa nada por si mesmo, mas em uma teia de relações com outras coisas que compõem um contexto, um campo de significações (Thomas, 1996).
A interpretação arqueológica requer que as coisas sejam relacionadas com outras para fazer sentido ao que restou do passado. Desta maneira, um artefato sem proveniência tem valor limitado, visto que os significados somente podem ser abordados se os contextos de uso são considerados, se as diferenças e as semelhanças entre as coisas são levadas em conta (Hodder, 1986).
Para Hodder, a interpretação do significado será alcançada quanto mais ricamente forem tramados os dados, uma vez que uma grande quantidade de informações permite descobrir mais semelhanças e diferenças entre os materiais. Assim, a análise contextual implica movimentos constantes entre teoria e dados, entre objetos e contextos (Hodder, 1992).
Tendo em vista que a arqueologia é uma disciplina histórica, é importante considerar que todas as ações humanas são localizadas em contextos históricos que são específicos para cada cultura. Assim, quando se analisa alguma relação estabelecida entre uma cultura material e um grupo de pessoas, necessariamente deve-se inseri-la dentro do contexto histórico e cultural específico. Apenas para exemplificar, os objetos têm atributos materiais universais, como um machado para cortar árvore necessariamente deve ser elaborado com
50 Em inglês: “(...) the totality of the relevant enrironment. The context of an archaeological ‘object’(including a trait, a site, a culture) is all those associations which are relevant to its meaning. This totality is of course not fixed in any way since the meaning of an object depends on what it is being compared with, by whom, with what purpose and so on (…)”
uma determinada matéria-prima e deve apresentar marcas de uso específicas com a realização desta atividade. Entretanto, este mesmo machado está ligado a um contexto histórico particular, no qual pode estar associado a esqueletos femininos em um enterramento. Neste sentido, significa mais do que uma ferramenta utilitária, pois remete a outro tipo de significação, vinculada a questões como gênero existentes em determinada sociedade (Hodder, 1992).
Glassie (1999) propõe um modo de esquematizar a variedade contextual e organizar as categorias de informação dentro das quais os artefatos absorvem significância específica. Seu método compreende em considerar as coisas como textos, conjuntos de partes, nos quais os significados são trazidos quando os colocamos de volta aos seus contextos e os analisamos como partes de conjuntos. Um texto, um objeto neste caso, não tem apenas um contexto - têm muitos a cada movimento de associação. Dentro desta metodologia de análise, este autor sugere que os artefatos absorvem significância ao visionar contextos enquanto séries de ocasiões pertencendo a três classes mestres – criação, comunicação e consumo – as quais foram arranjadas por este autor, desta maneira, para contar de forma cumulativa as histórias de vida dos artefatos.
Para analisar os artefatos líticos e cerâmicos do sítio Morro da Formiga utilizo o esquema desenvolvido por este pesquisador, que compreende a inserção das coisas em contextos amplos que auxiliam a contar as histórias de vida dos objetos. Faço isto não apenas porque considero a abordagem contextual de grande valia, mas também em razão de que ao pensar os artefatos dentro destas grandes categorias há margem para considerar outros significados que possam ter surgido nos envolvimentos com as pessoas.
Gostaria de salientar que as interpretações que desenvolvi sobre a cultura material do sítio em questão foram baseadas no meu entendimento de que a ligação estabelecida entre o arqueólogo e o artefato material não é uma atividade contemplativa e passiva, na qual as informações são apenas extraídas dos objetos. O conhecimento sobre o passado, logo, é sempre produzido de forma ativa por este pesquisador, um sujeito ativamente interpretante que faz constantemente perguntas de uma forma dinâmica à cultura material. O arqueólogo, portanto, é um sujeito real que escava e pensa sobre um passado que também é real, nas palavras de Shanks e Tilley (1987).