• Sonuç bulunamadı

KAVRAMSAL ÇERÇEVE

DUYUŞSAL AMAÇLAR

2.14. Türkiye’de Yükseköğretimde Kalite Çalışmaları

Como parece ser característico de pesquisas que necessitem de trabalho de campo como forma de obter conhecimento de primeira mão, minha incursão inicial ao locus da pesquisa foi empreendida um tanto quanto às cegas. Os dois momentos mais propícios para observar os Congos de Milagres são a festa da padroeira de Milagres – Nossa Senhora dos Milagres –, que ocorre em agosto, e a da padroeira de Rosário – Nossa Senhora do Rosário –, que acontece em setembro, neste distrito de Milagres. Transcorria setembro de 2011, e eu, por não ter conseguido compatibilizar minhas atividades docentes com as exigências de uma viagem de pesquisa, já perdera a festa de Milagres. Não podia perder a festa de Rosário.

Assim iniciei o planejamento necessário à empreitada. Como não consegui com algumas pessoas conhecidas, o endereço do mestre dos Congos, parti num final de semana para aquela cidade da região do Cariri cearense, disposto a estabelecer o primeiro contato. O ônibus intermunicipal da empresa Guanabara levou de 09h30min a aproximadamente 18h, quase nove horas, para percorrer os quase 500 km que separam Fortaleza de Milagres, indo pela BR-116. Eu nunca havia estado em Milagres e não sabia se o mestre morava na sede ou em algum distrito. Havia feito anteriormente, por meio de um número de telefone localizado via internet, contato com a dona de uma pousada, com a qual tinha obtido informações acerca das diárias e reservado um quarto com ventilador. Chegando à rodoviária, peguei um táxi que me deixou na pousada.

Já instalado na pousada, naquela mesma noite indaguei se a proprietária conhecia os Congos de Milagres. Para minha surpresa, ela manifestou um vago conhecimento, mas tranquilizou-me, dizendo que ia se informar com os moradores de uma casa defronte à pousada, presumindo que eles poderiam fornecer informações mais precisas. Algum tempo depois, a dona da pensão disse que tinha conversado com os vizinhos e que eu poderia falar com eles, pois conheciam o mestre, embora não lhe tivessem uma convivência próxima. Ao falar com os vizinhos, na calçada de frente à residência deles, tive uma primeira impressão acerca de uma valoração estética com relação aos Congos: a dona da casa relatou que já os tinha

visto desfilarem pelas ruas da cidade com suas roupas características, com participação inclusive de crianças, e que era muito bonito. Para minha alegria, o dono da casa sabia em que rua o mestre morava, orientando-me como deveria fazer para chegar lá.

Na manhã do dia seguinte, caminhei rumo à casa do mestre seguindo as orientações recebidas no dia anterior. Após algumas perguntas, transeuntes indicaram-me a residência do mestre precisamente. Chegando lá, encontrei um senhor, que pensei fosse o mestre, sentado à calçada. Era seu filho. Informou-me que o mestre havia acabado de sair para Juazeiro do Norte, onde se somaria, junto com duas irmãs que lá residem, aos inúmeros romeiros que tomam parte na festa de Nossa Senhora das Candeias. Chamou, então, um rapaz, brincante dos Congos e neto do mestre, e pediu que ele me apresentasse à sua avó, esposa do mestre. Fui acolhido com a hospitalidade e a boa vontade dos moradores da zonal rural, ainda não contaminados pela desconfiança e reserva gerada pela violência nos moradores das grandes cidades. Após conversar com ela e com o neto por aproximadamente uma hora, durante a qual me mostrou com evidente orgulho fotos de homenagens ao esposo presas à parede da sala de visita, outras reveladas. Mencionou as frequentes visitas que o mestre recebe de estudantes de escolas da região e de pessoas de fora e aludiu ao fato de ele ter fotos grandes em locais importantes e de ter recebido homenagens. Terminada a conversa, anotei o número do telefone e o endereço completo da residência. Seja como for, foi no que resultou minha primeira tentativa de fazer um levantamento preliminar.

Esta minha primeira incursão a Milagres, se não proporcionou o tão esperado contato com o mestre dos Congos, Doca Zacarias, foi minha carta de apresentação, e voltei trazendo na bagagem a promessa de Dona Terezinha, esposa do mestre, de que lhe falaria a respeito de minha visita. Após algumas tentativas frustradas de estabelecer contato telefônico, finalmente obtive êxito, apresentei-me e falamos por alguns minutos, embora com o inconveniente de o primeiro contato ter se concretizado a distância. O mestre informou que a Festa de Nossa Senhora do Rosário aconteceria dia 16 de outubro, um domingo, quando o grupo de Congos iria se apresentar em devoção à santa, padroeira do lugar. Perguntei se poderia filmar a apresentação, e ele respondeu afirmativamente.

Para esta viagem contei com uma ajuda valiosa. A professora Lourdes Macena, que lidera o Grupo de Pesquisa em Cultura Popular do IFCE107, conseguiu que fosse disponibilizado um veículo sedan, conduzido por um dos motoristas da instituição, o sr. Flávio, para me levar a Milagres, uma vez que a pesquisa em curso também se insere no âmbito dos interesses do grupo. Conforme acertado, saímos do IFCE às 10h do dia 15 de outubro.

Chegamos a Milagres por volta das 16h e nos hospedamos na pousada em que fiquei por ocasião da primeira viagem. No final da tarde, o motorista, senhor Flávio, levou-me à casa do mestre. Foi o momento em que mantivemos o primeiro contato pessoal, tão importante para gerar um ambiente propício entre o pesquisador e seus informantes. A exemplo do que diz DaMatta, referindo-se a antropologia, o que o pesquisador busca, por meio do trabalho de campo, é estabelecer uma ponte entre dois universos de significação, e tal ponte ou mediação é realizada “de modo artesanal e paciente, dependendo essencialmente de humores, temperamentos, fobias e todos os outros ingredientes das pessoas e do contato humano.” (DAMATTA, 2010, p. 179). Já devidamente apresentado, depois de algumas conversas mais gerais, mestre Doca me forneceu as informações concernentes à apresentação do dia seguinte. Saímos de Milagres com destino a Fortaleza na manhã do dia 17 de outubro de 2012.

Com este relato inicial, ofereço ao leitor uma ideia de como se deu o impulso inaugural do trabalho de campo, a partir do qual as visitas subsequentes me apresentaram um terreno mais palpável e menos acidentado e menos obscuro. As viagens seguintes serão apresentadas de forma mais rápida.

No total, excetuando a frustrada tentativa de manter contato com mestre Doca, foram realizadas quatro visitas a Milagres: (1) de 16 a 17 de outubro de 2011, por ocasião da Festa da Padroeira de Rosário – Nossa Senhora do Rosário; (2) de 18 a 20 de novembro de 2011, quando foi comemorado 82 anos de mestre Doca; (3)

107 O embrião desse grupo de pesquisa foi o GPTEC – Grupo de Projeção Folclórica da Escola

Técnica Federal do Ceará –, formado em 1982. Hoje denominado ‘Mira Ira’, o grupo atua como Laboratório de Práticas Culturais Tradicionais do IFCE, envolvendo os participantes no estudo das práticas corporais e fomentando discussões acerca da dança, música e poesia que despertem nos integrantes o interesse pela pesquisa e o estudo da cultura popular tradicional, especialmente do povo cearense.

de 19 a 23 de outubro de 2012, novamente na festa de Rosário; e (4) de 05 a 08 de agosto de 2013, no período da Festa da Padroeira de Milagres – Nossa Senhora dos Milagres. Estive presente, ainda, à Festa de Nossa Senhora do Rosário, em Contagem (MG), no período de 04 a 07 de outubro de 2013, para vivenciar a participação dos integrantes do Congado dos Arturos, tradicional comunidade quilombola da região. A visita aos Arturos foi uma sugestão da banca de qualificação da presente pesquisa, que viu no conhecimento decorrente desta experiência de campo algo capaz de enriquecer a reflexão acerca dos Congos de Milagres.

A segunda visita teve como objetivo participar das comemorações do aniversário de 82 anos de mestre Doca. O evento foi promovido pela parceria SOAF- Casa de Cultura Guiomar Gomes. Foi oferecido ao mestre, familiares, integrantes do grupo de Congos e convidados um almoço na sede da SOAF. Ali foram exibidos vídeos gravados com mestre Doca e o grupo, e pessoas engajadas em contribuir para a sobrevivência do grupo, dentre elas Ana Geysa, da SOAF, e a professora Ana Nunes, da Casa de Cultura, discursaram acerca da importância dos Congos para a cultura milagrense, da necessidade de sua manutenção e de circunstâncias que ameaçam sua longevidade.

À noite, em frente da casa do mestre, ocorreu o que ele me disse tratar-se de uma “terreirada”. À tarde fora armado um palco, montado um equipamento de sonorização, penduradas bandeirolas de um lado a outro da rua na parte mais alta das fachadas das casas e alguns estandartes com o nome dos Congos e de grupos artísticos da SOAF e colocadas cadeiras plásticas para acolher o público. Quando escureceu, vários grupos convidados se apresentaram: grupos artísticos da SOAF, a Lapinha do Patronato Dona Zefinha Gomes – uma escola normal local, reisados e bois de distritos vizinhos e, fechando a noite, os Congos de Milagres, todos realizando curtas apresentações.

A terceira viagem foi destinada a presenciar, mais uma vez, a Festa da Padroeira de Rosário. Desta feita, levei comigo o cinegrafista Marcos Cortês, para garantir um registro de melhor qualidade técnica do que os que eu próprio fizera nas ocasiões anteriores. Além do registro da performance dos Congos no encerramento da festa, realizamos entrevistas com informantes cujos depoimentos avaliamos

fossem enriquecedores para aprofundar o conhecimento acerca do objeto de estudo. Foram eles: André108, artesão que havia ministrado uma oficina de confecção de souvenir com a temática dos Congos, que se dedica a trabalho voluntário na Casa

de Cultura; Cícera Figueiredo, que trabalha na SOAF, tendo função de auxiliar- administrativo, há quinze anos atuando na instituição109; José Hivantuyil Dantas, na época, Secretário de Cultura de Milagres e autor do projeto que tornou seu Doca um dos Mestres da Cultura do Ceará; e o próprio líder do folguedo, para minimizar as inúmeras interrogações que me obscureciam uma compreensão melhor da manifestação estudada.

O objetivo da visita seguinte foi registrar a participação dos Congos na Festa da Padroeira de Milagres. Não havia presenciado ainda a participação do grupo nesta festividade, quando a cidade entra em ebulição não só para festejar sua patrona, mas para vivenciar os vários momentos profanos que gravitam em torno do acontecimento religioso. Na ocasião, acompanhei a participação dos Congos, juntamente com vários grupos artísticos locais, na caminha que conduz a bandeira da santa da Praça Padre Cícero até a Igreja Matriz. Desta feita não foi possível levar cinegrafista; fui sozinho.

A viagem a Contagem (MG), como adiantei, foi uma recomendação da banca de qualificação do presente trabalho. Entendendo que há uma tradição de estudos envolvendo o universo do Congado mineiro nos meios universitários locais, a banca achou producente que eu vivesse a experiência de assistir a um congado do estado como forma de estabelecer um diálogo entre ele e os Congos de Milagres. Não para formular um juízo de valor, mas para identificar similaridades e diferenças.

Cheguei a Contagem dia 04 de outubro de 2013, hospedando-me no Contagem Centro Hotel. No dia de minha chegada, foi realizado o ritual do Candombe. Mas Jorge, integrante da comunidade dos Arturos, com que conversara

108 Ouvira Ana Geysa fazer menção ao trabalho do artista com os souvenirs dos Congos em sua

fala pública no almoço em comemoração aos 82 do mestre Doca, mencionado anteriormente.

109 Quando me dirigi à SOAF, minha intenção era conversar com Ana Geysa, dado seu esforço de

cooperação com os Congos, mas ela estava em viagem a serviço dos interesses da entidade. Contudo, Cícera recebeu-me com muita gentileza e concedeu informações importantes para o presente estudo.

por telefone para obter informações acerca da festa, advertiu de que se tratava de uma cerimônia restrita àquele agrupamento, sendo vedada a participação de estranhos. A primeira estratégia que adotei, então, foi ver, dentro da programação, que eventos seriam mais importantes para os objetivos da pesquisa, já que não poderia cobrir tudo sozinho.

No dia seguinte, como o primeiro acontecimento público de interesse para a pesquisa estivesse programado para as 19h30min, colhi informações com os recepcionistas do hotel, os quais, após me indicarem o caminho, informaram que talvez 15 ou 20 minutos de caminhada me levassem à comunidade dos Arturos. Então, parti e entre caminhadas e tomadas de informações a munícipes cheguei à entrada da propriedade do grupo. Nesta entrada principal há uma porteira de madeira, sustentada por duas ombreiras de 2,5 metros de altura, unidas em cima por uma trave do mesmo material, e uma passagem lateral com “mata-burro”. Pendurada à trave, uma placa informava: “Comunidade dos Arturos”.

Como a porteira estivesse entreaberta e não houvesse placa alguma de advertência para proibir a entrada de estranhos, adentrei-me nas terras e fui caminhando até chegar ao povoado. Após passar por algumas casas, cheguei à capela, na qual os preparativos para a festa ocupavam vários membros da comunidade. A capela estava sendo enfeitada. Num plano mais baixo que a capela, vi uma casa na qual um senhor idoso, mas exalando muita vivacidade, conversava com outras pessoas, sentado num banco de alvenaria defronte à casa. Perguntei algo acerca da festa a um casal de meia idade que estava sentado em outro banco de alvenaria no lado oposto da rua defronte à casa. Não souberam responder-me, sugerindo que me dirigisse ao senhor de frente, pois era um dos mais velhos da comunidade. Era seu Mário Braz da Luz, que fiquei sabendo posteriormente ser o capitão-mor do Congado dos Arturos.

Com uma receptividade dispensada a um conhecido da comunidade, deu- me algumas informações solicitadas. Para outras, mencionou pessoas que seriam mais indicadas fornecê-las. Com este encontro, inaugurei o contato que mantive com os integrantes da comunidade nestes três intensos dias em que estive por lá.

Tive a oportunidade de assistir (1) ao Levantamento da Bandeira da Festa, quando as guardas conduzem estandartes das guardas de Congo e Moçambique e dos santos homenageados até o ponto onde longos mastros110 deitados no chão esperam-nas. Ao chegarem ao local – na ocasião, na noite de sábado, dia 05 de outubro de 2013, a Casa de Cultura de Contagem e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário – as bandeiras são presas na extremidade dos mastros, que são suspensos e fixados no chão; (2) à Festa da Matina, a primeira devoção do dia, iniciada às 4h da madrugada, quando integrantes da comunidade reúnem-se na capelinha localizada na comunidade, fazem suas preces, cantam e, em seguida, saem até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário em cortejo, cantando e tocando seus tambores; (3) à Missa Conga, celebração católica na qual as guardas de Congo e Moçambique encarregam-se de executar os cânticos, acompanhados por seus tambores, pantagomes e gungas. Desta celebração participa toda a corte do Reinado, e há um momento especial para a bênção das coroas pelo padre celebrante. (4) ao desfile das guardas de Congo e Moçambique dos Arturos e guardas visitantes do interior mineiro, reunidas para a Missa Conga, que caminharam, após o final da celebração, da Igreja de Nossa Senhora do Rosário até a comunidade dos Arturos, onde os anfitriões ofereceram almoço aos visitantes. (5) à missa na capela da comunidade, celebrada pelo padre Antônio José Gouveia, que exortou os descendentes de Arthur a manterem sua tradição por meio da educação de suas crianças – várias das quais foram chamadas para frente do altar –, e conservarem sua independência política, não permitindo que tais questões ameaçem a união do grupo.

Enriquecido por tantas e tão variadas experiências, espero conseguir produzir uma interpretação apropriada no tocante aos Congos de Milagres, relacionando as múltiplas formas mediante as quais esta grande comunidade afrodescendente de irmãos do Rosário espalhados pelo Brasil mantem acesa sua fé em Nossa Senhora por meios de seus cantos e danças.

110

Os mastros são enfeitados com fitas ou ornamentados com papel crepom nas cores rosa e azul celeste, a tonalidade das camisas das guardas de Congo e Moçambique, respectivamente, as cores da túnica (rosa) e do manto (azul celeste) da imagem mais difundida de Nossa Senhora do Rosário. Entretanto, algumas imagens trazem Nossa Senhora do Rosário com o Menino Jesus. Nestas, sua túnica é vermelha e a do filho, rosa.

Benzer Belgeler