3. HAYVAN HAKLARI
3.2. Türkiye’de Hayvan Hakları
2.2.1 - Elementos conceituais de populações tradicionais e indígenas brasileiras
O uso dos termos “povos tradicionais”, “populações tradicionais”, “populações locais” ou “sociedades tradicionais” é complexo e abrangente. Contudo, conforme Cunha e Almeida (2001) a abrangência não pode ser transformada em confusão conceitual. Também as palavras “índio” ou “indígena”, alegoria32 criada pelos
colonizadores europeus é emblemática. “O termo índio foi uma expressão homogeneizadora e estereotipada da complexidade sócio-
31 A coleta e organização dos dados são apresentadas no Capítulo 4 –
Instrumentos e Métodos.
32 Conforme Ferreira (2010, p.95-96) alegoria significa “Exposição de um
pensamento sob forma figurada; Ficção que representa uma coisa para dar ideia de outra. Chalmers (2002, p.110) diz que o modernismo de Oswald de Andrade usa a figura do índio como alegoria da nacionalidade e metáfora de canibalismo (devoração dos valores culturais do estrangeiro e sua transformação num produto cultural autóctone, assimilando a técnica avançada do colonizador à técnica “atrasada” da cultura periférica ao sistema cultural dominante). “(...) o índio enquanto personagem foi representado de outra forma, ou seja, como busca de uma identidade brasileira e latino-americana esfacelada ou difusa, em que mito e realidade se cruzam” (PEIXOTO et al., 2004, p.136). A figura de Macunaíma, obra modernista de Mario de Andrade, é uma alegoria da miscigenação, do caráter e moral do povo brasileiro.
cultural desses povos, mas que foi engendrado e aceito por populações não brancas”, situa Silva (2010, p.84).
Little (2002, p.02) salienta que “no Brasil, esse grande leque de grupos humanos costuma ser agrupado sob diversas categorias”: “populações”, “comunidades”, “povos”, “sociedades”, “culturas” e cada uma tende a ser acompanhada por um dos seguintes adjetivos: “tradicionais”, “autóctones”, “rurais”, “locais”, “residentes”, entre outros.
Perrelli (2008, p.385) enfatiza que o “termo ‘população’ parece ter pouco compromisso com a historicidade que confere diferenças culturais a um determinado grupo de pessoas” e a “denominação ‘povo’ é uma categoria atrelada à lógica do Estado-Nação.”33 Neste sentido,
segundo a autora, a categoria “sociedade” parece ser mais aceita por pesquisadores brasileiros, sendo inclusive adotada pela pesquisa realizada pelo Núcleo de Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas do Brasil (NUPAUB) da Universidade de São Paulo (USP) que resultou no relatório “Biodiversidade e Comunidades Tradicionais no Brasil”34, organizado por Diegues et al. (2000).
Assim, neste relatório estamos utilizando a noção de “sociedades tradicionais” para nos referirmos a grupos humanos culturalmente diferenciados que historicamente reproduzem seu modo de vida, de forma mais ou menos isolada, com base em modos de cooperação social e formas específicas de relações com a natureza, caracterizados tradicionalmente pelo manejo sustentado do meio ambiente. Essa noção se refere tanto a povos indígenas quanto a segmentos da população nacional que desenvolveram modos particulares de existência, adaptados a nichos ecológicos específicos. (DIEGUES et al., 2000, p.22).
33 Segundo Bresser-Pereira (2007) O estado-nação, que, como sua própria
denominação sugere, tem o estado como seu elemento constituinte fundamental, é o principal resultado político da revolução capitalista. O Estado-nação surge quando uma sociedade que está se transformando em nação possui força suficiente para se dotar de um Estado e controlar um território.
34Trabalho solicitado pela Coordenação de Diversidade Biológica (COBIO), do
Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal (MMA) e apoiado pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq).
A distinção entre populações indígenas e não indígenas está no conceito de etnia e no reconhecimento de uma continuidade sociocultural, histórica e identitária. São consideradas populações tradicionais não indígenas os grupos: caiçara, açoriano, caipira, babaçueiro, jangadeiro, pantaneiro, pastoreio, quilombola, ribeirinho/caboclo amazônico, ribeirinho/caboclo não amazônico (varjeiro), sertanejo/vaqueiro e pescador artesanal.
Barrera-Bassols et al. (2006, p.122) asseveram que existem povos tradicionais em diversas realidades sociais, com diferentes tipos de cultura, história política e formas de subsistência. No entanto, eles compartilham duas características fundamentais: (1) sua condição de povos subordinados e, (2) seus esforços de resistência para preservar o seu patrimônio cultural e histórico identificando-se contra a homogeneização ou assimilação cultural.
Allegretti (1994) diz que o conceito de populações tradicionais está atrelado ao processo histórico de formação das Unidades de Conservação (UC) de Uso Sustentável na Amazônia, as Reservas Extrativistas – RESEX. Contudo, para Silva (2010, p.84) “não existe um modelo de população tradicional.”
O que existe são populações que por causa de algumas características gerais, podem ser denominadas como “tradicionais”, em que pese esses aspectos comuns não serem os mesmos em todos os ambientes, nem do ponto de vista quantitativo, nem qualitativo. As diferenças existem e são claramente justificadas, pois essas populações estão colocadas em realidades próprias de cada território, o que lhes inflige processos sócio-culturais e econômico-ambientais peculiares a seus contextos. Essas diferenças relacionam-se ao meio em que vivem, ao sistema de produção e proximidade com mercados consumidores, bem como ao modo de vida que levam cotidianamente, ao nível de suas organizações, tradições e construções simbólicas herdadas. (SILVA, 2010, p. 84).
Ao ser questionada sobre quem são povos tradicionais brasileiros, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha (2008, p.03), responde:
Os direitos que se reconhecem hoje a povos tradicionais em geral se fundamentam nos serviços ambientais que eles prestam. A exceção são os povos indígenas cujos direitos têm um fundamento diferente: baseiam-se no fato histórico de que são eles os primeiros ocupantes. Tendo isso em mente, a definição de povos tradicionais torna-se simples. São os povos que aderem a uma tecnologia e a práticas semelhantes às que vigoravam tradicionalmente e que não são lesivas ao meio ambiente.
Contextualizando a formação das sociedades tradicionais, Arruda (1997) argumenta que a colonização portuguesa em solo brasileiro no século XVI implantou um modelo sociocultural de adaptação ao meio, com ocupação do espaço e utilização dos recursos naturais marcadamente influenciadas pelas populações indígenas. Estas práticas de exploração intensiva de recursos naturais desenvolveram-se em várias regiões brasileiras, desencadeando o surgimento e crescimento de núcleos populacionais com produção econômica baseada na monocultura, extrativismo e trabalho escravo. “O litoral no ciclo do pau- brasil, o Nordeste no ciclo da cana-de-açúcar, os Estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás no ciclo do ouro e pedras preciosas, os Estados de Amazonas e Pará no ciclo da borracha, etc.” (ARRUDA, 1997, p.82).
Por essas vias se plasmaram historicamente diversos modos de ser dos brasileiros, que permitem distingui-los hoje, como sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litora, caipiras do Sudeste e centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo- brasileiros, teuto brasileiros, nipo-brasileiros etc. Todos eles muito mais marcados pelo que têm de comum como brasileiros, do que pelas diferenças devidas a adaptações regionais ou funcionais, ou de miscigenação e a culturação que emprestam fisionomoa própria a uma ou outra parcela da população. (RIBEIRO, 1995, p. 21).
Populações miscigenadas, geradas durante o fluxo migratório da colonização, refugiam-se em áreas menos povoadas e ricas de recursos naturais, desenvolvendo modos próprios de subsistência, baseadas principalmente na coletividade. Algumas populações não indígenas assumem as formas de organização dos povos indígenas, criando uma “cultura rústica”. As “características desta ‘cultura rústica brasileira’ estão ainda hoje nas comunidades humanas em regiões isoladas do país e exemplos empíricos são as comunidades caiçaras, os sitiantes e roceiros tradicionais, comunidades quilombolas, comunidades ribeirinhas, os pescadores artesanais, os grupos extrativistas e indígenas” (ARRUDA, 1997, p.92).
No modelo de “cultura rústica” as famílias são as unidades de produção e consumo que, através de relações de ajuda baseadas na reciprocidade (na instituição do “mutirão”, nas festas religiosas, etc.) se articulam umas com as outras em estruturas frouxas, mas mais abrangentes que constituem os ‘bairros rurais”. Embora relativamente autônomos, esses “sitiantes tradicionais” sempre mantiveram certa relação de dependência com os pequenos núcleos urbanos, com os grandes proprietários rurais e as autoridades locais, expressa nas categorias de meeiros, parceiros, posseiros, pequenos proprietários e colonos. (ARRUDA, 1997, p.82).
Também para Diegues et al. (2000), as populações tradicionais não-indígenas (caiçaras, ribeirinhos amazônicos, sertanejos, etc.) receberam forte influência indígena, traços evidenciados nos modos de preparação de alimento, cerâmica, técnicas de construção de instrumentos de caça e pesca, entre outros
.
Um aspecto relevante na definição dessas culturas tradicionais é a existência de sistema de manejo dos recursos naturais marcados pelo respeito aos ciclos naturais, e pela sua exploração dentro da capacidade de recuperação das espécies de animais e plantas utilizadas. Esses sistemas tradicionais de manejo não são somente formas de exploração econômica dos recursos naturais, mas revelam a existência de um complexo de
conhecimentos adquiridos pela tradição herdada dos mais velhos, por intermédio de mitos e símbolos que levam à manutenção e ao uso sustentado dos ecossistemas naturais. (DIEGUES
et al., 2000, p.20).
Os autores citados destacam como especificidades que compõem os atributos de populações tradicionais e indígenas:
a) Dependência frequentemente, por uma relação de simbiose entre a natureza, os ciclos naturais e os recursos naturais renováveis com os quais se constrói um modo de vida;
b) Conhecimento aprofundado da natureza e de seus ciclos que se reflete na elaboração de estratégias de uso e de manejo dos recursos naturais. Esse conhecimento é transferido por oralidade de geração em geração;
c) Noção de território35 ou espaço onde o grupo social se
reproduz econômica e socialmente;
d) Moradia e ocupação desse território por várias gerações, ainda que alguns membros individuais possam ter se deslocado para os centros urbanos e voltado para a terra de seus antepassados;
e) Importância das atividades de subsistência, ainda que a produção de mercadorias possa estar mais ou menos desenvolvida, o que implica uma relação com o mercado;
f) Reduzida acumulação de capital;
35 A posse e uso de determinado domínio geográfico ou território, gera o
sentimento de pertencimento ao local como um espaço de vida, onde há garantias e direito ao plantio e colheita, a criação de espaços para o desenvolvimento de práticas coletivas como escolas e postos de saúde, entre outras, além de espaço destinado aos mortos. Para Gallois (2004, p.39), “A noção de terra indígena diz respeito ao processo político-jurídico conduzido sob a égide do estado, enquanto à de “território” remete à construção e à vivência, culturalmente variável, da relação entre uma sociedade específica e sua base territorial”. Vale ressaltar que o conceito de “território indígena” abarca aspectos cosmológicos (GERMAN-CASTELLI, 2004), além do elemento “terra indígena”. Segundo Lima e Vieira (2012, p.08) “o território envolve associações ao espaço através das experiências vivenciadas por pessoas que reafirmam seus vínculos identitários.”
g) Importância dada à unidade familiar, doméstica ou comunal e às relações de parentesco ou compadrio para o exercício das atividades econômicas, sociais e culturais;
h) Importância das simbologias, mitos e rituais associados à caça, à pesca e a atividades extrativistas;
i) Tecnologia utilizada que é relativamente simples, de impacto limitado sobre o meio ambiente. Há uma reduzida divisão técnica e social do trabalho, sobressaindo o artesanal, cujo produtor (e sua família) domina o processo de trabalho até o produto final;
j) Fraco poder político, que em geral reside com os grupos de poder dos centros urbanos;
k) Auto identificação ou identificação pelos outros de se pertencer a uma cultura distinta das outras.
Retomando a reflexão desta seção, Cunha e Almeida (2001) situam que, obstante as populações tradicionais tenham assumido os povos indígenas como modelos, a categoria ‘populações tradicionais’ não os inclui. A separação assenta-se sobre uma distinção legal fundamental: os direitos territoriais indígenas não são qualificados em termos de conservação. Todavia, do ponto de vista teórico e conceitual, segundo Silva (2010, p.86) pode-se, perfeitamente, colocar os povos indígenas no rol das assim denominadas populações tradicionais.
Geralmente, as populações indígenas não são colocadas como populações tradicionais, talvez porque apresentem diferenças e especificidades históricas no seu processo de vivificação frente ao Estado, apresentando legislação e amparo institucional próprios, e estão ligadas à Fundação Nacional do Índio (FUNAI). (SILVA, 2010, p.86).
De acordo com Diegues e Arruda (2001), os povos tradicionais não somente convivem no e com a natureza, mas também pensam sobre ela, “elaboram categorias próprias com as quais nomeiam, classificam, ordenam e experimentam a sua eficácia nos planos práticos, simbólico e espiritual.” Para Pinheiro et al. (2006) estes povos não são sinônimos de populações atrasadas, nem seus saberes, muitas vezes caracterizados
como uma antecipação da sociedade futura, por serem conservacionistas em relação à natureza.
Contudo, advertem Lima e Pozzobon (2005, p. 50), “a categoria “índio” não está necessariamente associada à sustentabilidade, nem a de “branco” à insustentabilidade, embora se atribua às sociedades indígenas a herança da sustentabilidade e à população branca o papel oposto.”
O que faz um grupo social ser identificado como tradicional não é a localidade onde se encontra, ele pode estar em uma unidade de conservação, terra indígena, terra quilombola, à beira de um rio da Amazônia, num centro urbano, numa feira, nas casas afro-religosas, nos assentamentos da reforma agrária, enfim, não é o local que define quem elas são, mas sim seu modo de vida e as suas formas de estreitar relações com a diversidade biológica, em função de uma dependência que não precisa ser apenas com fins de subsistência, pode ser também material, econômica, cultural, religiosa, espiritual, etc. (MOREIRA, 2007, p.36).
Em geral, essas comunidades coexistem com grupos de poder hegemônico nos centros urbanos e; sua noção de (não) pertencimento está na autoidentificação ou identificação pelos outros de se pertencer a uma cultura distinta das outras. Importante registar que “há entre eles um grande conhecimento empírico do mundo em que vivem e das particularidades do ecossistema regional” (ARRUDA, 1997, p.89).
Como ressaltando por Lima e Pozzobon (2005, p.50-54), “não são os atributos de etnicidade, classe ou orientação econômica de um dado segmento social que definem, por si, seu comportamento em relação ao ambiente, mas a conjugação particular de suas características sociais em um dado momento e lugar.” Segundo os autores citados, os povos indígenas amazônicos são formados pelos seguintes grupos sociais:
a) Povos indígenas de comércio esporádico – ocupam as áreas menos acessíveis e que estão mais distantes das rotas de mercado. São populações que ainda mantêm inalterados seus conhecimentos “mitógenos” sobre o ambiente; natural - grupos indígenas que mantêm
relações comerciais recorrentes com a sociedade local e regional demonstram compreender bem melhor as operações monetárias e o valor relativo das mercadorias.
b) Povos indígenas de comércio recorrente - abrange uma grande diversidade de situações sociais – incluindo, na verdade, a maioria dos povos indígenas da Amazônia –, cujo traço comum é o fato de que a produção para a venda já é incorporada nas práticas culturais. Em geral, trata-se de povos localizados ao longo das principais vias de comunicação.
c) Povos indígenas dependentes da produção mercantil - grupos que, ao perderem sua capacidade de produzir diretamente os principais recursos para sua sobrevivência, passaram a depender do mercado para obter o consumo básico. Entre os grupos que compõem esta categoria, a pior situação é a das terras indígenas pequenas e localizadas nas proximidades de centros urbanos. Porque apresentam altas densidades demográficas e elevadas demandas sociais de consumo, os recursos naturais que constituem a base da subsistência de outros grupos, como a caça e outros produtos da extração florestal, foram esgotados;
d) Pequenos produtores “tradicionais” - população originária do processo de colonização ibérica da Amazônia. Desde o início, este camponês moderno (produto do projeto colonial mercantil), recebeu de forma impositiva um padrão cultural de consumo de artigos manufaturados que, por ser um dos requisitos para se aproximar da condição de civilizado, foi a razão por que se tornou produtor voluntário de mercadorias. Coletor de drogas do sertão, de borracha, de castanha, de juta e malva, agricultor de pequena escala, caçador, pescador etc., foram vários os trabalhos que lhe couberam ao longo dos diversos ciclos que caracterizaram a história econômica da Amazônia.
Estudos que investigam a relação entre seres humanos e plantas, a etnobotânica36 tem incluído os saberes das populações tradicionais (BÜTTOW et al., 2009), que “fornecem respostas
36A Etnobotânica aborda a forma como as pessoas incorporam as plantas em
suas práticas e tradições culturais (BALICK; COX, 1997). Pode ser caracterizada como “a disciplina que se ocupa do estudo do conhecimento e das conceituações desenvolvidas por qualquer sociedade a respeito do mundo vegetal; esse estudo engloba tanto a maneira pela qual um grupo social classifica as plantas, como os usos que dá a elas” (GERMAN-CASTELLI, 2004, p.88).
importantes tanto para problemas de conservação biológica, como para questões direcionadas para o desenvolvimento local”, explicam Giraldi e Hanazaki (2010). Povos tradicionais e indígenas tem seu conhecimento derivado de uma forte base espiritual e segundo Posey (1999) nestas culturas, o conhecimento é universal e localmente expresso. Seus conhecimentos sobre o ambiente não são determinados pela ação do homem e a natureza, mas regidos por forças invisíveis e seu local (território) é tratado como espaço sagrado.
Conforme citam Posey e Dutfield (1996), o direito que povos indígenas reivindicam é anterior à formação dos Estados atuais e às formações das sociedades colonialistas. As diferenças entre conhecimento tradicional e conhecimento indígena, segundo Mugabe (1998) está nas reivindicações políticas feitas por ambos, sendo àquelas feitas por povos indígenas, mais amplas. Contribuindo com a questão German-Castelli (2004) cita que as comunidades locais, que incorporam estilos de vida tradicionais, são inflexíveis em suas demandas pela posse da terra, segurança econômica, e controle local sobre os recursos e tomada de decisões. Porém, em geral, eles não expressam estas demandas em termos de direitos de soberania e autodeterminação, assim como fazem os povos indígenas.
Continuando com a autora, “embora alguns dos direitos reivindicados pelos povos indígenas e pelas comunidades locais se sobrepõem, as demandas dos povos indígenas tratam de uma identidade política e étnica separada do Estado dentro do qual vivem, enquanto que as demandas dos grupos não-indígenas não.” Neste sentido, “reter” sua identidade como forma e conteúdo singular é, para os povos indígenas marcar uma identidade única e assim, ter garantias de seus direitos como “povos” (GERMAN-CASTELLI, 2004, p.202).
No âmbito legal, o Estatuto do Índio, Lei nº 6.001, de 19 de Dezembro de 1973, retrata a visão predominante na década de 1970, de preservar a cultura dos povos indígenas, integrando-os à cultura do homem branco, destinando à escola a função de promotor da integração. O mesmo documento, em seus aspectos legais, em seu artigo 3º define:
I - Índio ou Silvícola - É todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional. (BRASIL, 1973).
A Constituição Federal de 1988 não especifica critérios de identidade indígena, apenas institui as competências do Estado em demarcar as terras dos povos indígenas e garantir os seus direitos básicos. No capítulo VIII, artigo 231 do referido documento,
São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. (BRASIL, 1988).
Com a promulgação da Convenção 169 da OIT em 2004, há premissas que passam a garantir ser a “consciência da identidade indígena” critério fundamental para definir quem são os indígenas. Ainda que esses documentos oficiais firmem sérios compromissos com a questão da autoidentificação indígena, na prática, não é o que se assiste, pois atualmente podem ser diversos os interesses que levam à adoção dos termos autoidentificação ou autoafirmação da identidade indígena37.
Ao se referir a grupos indígenas brasileiros, essa pesquisa adota a expressão “população indígena”, entendendo-a “como um conjunto de habitantes de um território” (FERREIRA, 2010, p.1677), como uma categoria que constitui o “povo brasileiro”, assim como outras populações tradicionais existentes no país.
37 Segundo Ferreira (2010, p. 244-245) Autoafirmação: Necessidade íntima do
indivíduo de impor-se à aceitação do meio; afirmação. O termo
Autoidentificação não consta no referido dicionário. Na seção 2.2.3 - Situação
de povos indígenas brasileiros segundo o Censo IBGE 2010- segundo dados do IBGE entre os fatores que incentivam sujeitos a se autodefinirem “indígenas” está o acesso a benefícios ou “incentivos governamentais”(IBGE/2010, 2012(c)). Outro fator a ser ressaltado é acesso ao ensino superior por meio da Lei de Cotas, Lei nº 12.711/2012, com critério de cor (preto, pardo ou índio) autodeclarado. Disponível: http://portal.mec.gov.br/cotas/perguntas- frequentes.html. Acesso em 16 de setembro de 2015.