No sentido de subalternizar o Outro, a História é um espaço de poder fundamental, nesse propósito e igualmente com a intenção inversa (Munanga, 1988, Silva e Silvério, 2003). O “vencedor” da guerra será aquele que narrará o fato. A narrativa da cultura ocidental representa, com propriedade, a aplicação de uma perspectiva única, aquela do “vencedor”. Evidentemente, não é apresentada “exatamente com essas palavras”, dissimula-se com os termos, “História Total”; “História Universal”; “História Nacional”, etc. Por outras palavras,
trata-se da História e do ponto de vista do opressor/explorador (Chesneaux, 1995; Dussel, 2005). “Os europeus acreditavam que sua pretensa superioridade sobre os negros africanos estava confirmada por sua conquista colonial” (Fage, 2010, p. 14-15). O ordenamento da História difere-se de acordo com os países e culturas.
Porém, para Jean Chesneaux o sistema quadripartite23 de organização da História
universal é um fato francês. “O quadripartismo tem como resultado privilegiar o papel do Ocidente na história do mundo e reduzir quantitativa e qualitativamente o lugar dos povos não-europeus na evolução universal” (Chesneaux, 1995, p. 95). A História é um instrumento intelectual de exercício de poder sobre os Outros. Os pontos escolhidos não tem sentido para imensa maioria da História da humanidade. A “História Contemporânea” é a única que designa um espaço para países da Ásia, África e América Latina. Diante disso, a maior parte da História do mundo é “negligenciada”.
Existe um provérbio africano que diz: “também o leão deverá ter quem conte a sua história. As histórias não podem glorificar apenas o caçador24”. Essa frase é muito empregada pela linha dos estudos pós-coloniais/decoloniais (Costa, 2006). Nele se encontra subentendido a ideia de que mais importante do que o “vencedor” contar a história do “vencido”, seria que o “vencido” narrasse a própria história. Definitivamente penso que é necessário o “subalternizado” contar sua versão (Spivak, 1988).
De repente, o “oprimido”, ou “marginalizado”, ao falar por si mesmo, não se reconheça como “vencido”. Ou melhor, talvez, nos diga que: a história de vencedor e vencido é uma construção colonial e imperialista fruto de uma pessoa e grupo carente e violento (Fanon, 1983; 1979). Logo, as outras perspectivas da História podem propor mais do que o “óbvio direito de falar” também “o não reconhecimento da subalternação”. Ao agir assim, faz com que não seja satisfeita a carência do suposto “vencedor” (Hegel, 2005). Mesmo diante de toda força expressa em sua máquina de guerra e outras formas e meios para a prática de violências rudimentares e sofisticadas. A Nathália discorre a respeito da relação do branco e a História.
Lourenço: O que significa ser branco no Brasil?
Nathália: Significa, muita coisa, a história do Brasil foi toda construída em cima de uma divisão racial. Ser branco no Brasil significa você ter acesso a uma série de direitos, a uma história, acho que o principal é isso. O branco tem acesso à própria história. A história do negro foi contada pelo branco, a história do branco foi contada por ele mesmo. Então, na verdade, a gente tem uma visão, uma perspectiva única no Brasil sobre a formação do país, sobre a organização política, da sociedade,
23 História Antiga, História da Idade Média, História Moderna, História Contemporânea.
dos movimentos sociais que é toda baseada na visão do branco. Isso faz com que a gente detenha, e eu, me coloco como branca, obviamente, a gente detenha acesso com maior legitimidade aos campos de poder. Eu acredito que ser branco no Brasil significa: “você poder ser mais” do que ser negro no Brasil.
A Nathália pontuou com propriedade o papel da História para o branco e para o negro. Enquanto um tem acesso à própria História o outro não. O branco também será aquele que conta a História do Outro. Assim ele legitima todas as suas ações. Ele enquanto o “senhor da História” fala de si e do Outro conforme seus propósitos. Desse modo, não há espaço para contestação e para outras perspectivas. Somente é considerado o ponto de vista do branco. Assim, ele constrói e amplifica o seu poder em cima de todos os Outros. Em novos momentos da entrevista, a Nathália revela maiores detalhes a respeito do papel do branco e da História.
Entrevistador: Há privilégios raciais por ser branco? Quais privilégios?
Nathália: Bom, o principal acredito que é em relação à história, como já contei, automaticamente quando você tem o poder da história, ela contada, pela sua perspectiva, quer dizer, o branco nunca é colocado como um grande algoz na nossa história apesar de todo o passado escravocrata. Apesar de tudo o que aconteceu com a população negra quando foi trazida da África para o Brasil. O que aconteceu com a população negra quando foi expulsa do campo para os centros urbanos. O branco nunca é colocado como um vilão, como algoz. Já o negro tem a identidade dele completamente “negativada”, isso faz com que a gente seja criada, educada, de forma a entender a superioridade do branco em relação ao negro como normal. A Nathália diz que a História descreve o branco sempre de maneira positiva, inclusive, como herói mesmo quando é o protagonista de horrores como no caso do tráfico de humanos. A narrativa do passado escrita pelo branco é o meio de tornar o branco superior ao negro, nisso, a escola é o espaço fundamental para execução desse propósito.
Lourenço: Qual o papel das teorias raciais para o branco?
Nathália: Então como eu estava falando a respeito da história, ela foi construída pelos acadêmicos, pela elite intelectual do Brasil, assim como as teorias sociais também, elas tendem a ter uma visão, uma perspectiva do lado do branco, normalmente. As teorias sociais, evidentemente, criticam a questão da discriminação, do preconceito e procuram através de dados, estatísticas, demonstrar a existência e possíveis soluções para o problema da questão racial, etc. Mas, ainda assim, pelo o que leio, vejo que, nas teorias sociais ainda falta incluir a perspectiva do negro dentro destas novas produções.
Há alguns intelectuais negros que começam a produzir obras, agora, de certo reconhecimento. Mas, isso é relativamente recente. Se a gente pensar na história do Brasil acho que o caminho é justamente esse. As teorias sociais ainda tendem a apresentar uma perspectiva dos autores brancos. Colocando o negro, muitas vezes, até quando estão criticando as relações raciais, colocam o negro na posição de uma vitima do processo. Ele que aceitou passivamente toda a questão da escravidão e depois a inserção no mercado de trabalho. Eles não colocam o negro como sujeito histórico que escreveu a história do Brasil junto com o branco. Junto com as demais raças ou etnias. Mas, eu acho que a teoria social está começando a incluir esta perspectiva do negro, tanto através de autores negros como através de pesquisas empíricas com ativistas negros.
Nesse trecho chama à atenção a fala da entrevistada quando diz que as teorias raciais apesar de sua importante contribuição no que tange a crítica às práticas de racismo, dão a entender que o negro aceitou “passivamente” a escravidão. De certa forma, “culpa” o oprimido pela opressão. Além disso, a história ao caminhar para modernidade, período pós- abolição, o negro não é descrito como sujeito histórico em par de igualdade ao branco. As teorias sociais têm mudado principalmente com a produção de pesquisadores negros, nisto expõem outras perspectivas. Porém, não possuem o mesmo reconhecimento que os pesquisadores brancos.
No próximo ponto da entrevista, a Nathália destacará que independente do pesquisador ser branco ou negro, o necessário é romper com a ótica branca, com a mentalidade excessivamente branca de quem escreve e analisa a História. Isto não diz respeito somente aos brancos, e sim, também aos não-brancos. Ele pode possivelmente se expressar com uma mentalidade branca, apesar de ser negro.
Lourenço: E os brancos não têm colaborado nesta parte?
Nathália: Sim, quando falo em relação aos ativistas negros, no caso, poderia ser uma pesquisa independente da raça ou da etnia do pesquisador. Eu acho que os brancos colaboram ao tentar quebrar esta perspectiva, esta visão excessivamente branca. Quando eu falo dessa visão excessivamente branca também não estou pensando na cor, ou na raça, ou na etnia do autor que esta escrevendo. Sim, na mentalidade que ele está utilizando para escrever.
A perspectiva aplicada é excessivamente branca, no entanto, quando tenta romper com a lógica aparecem os obstáculos. E eles podem vir dos próprios alunos brancos e negros ao requisitarem somente a ótica branca. O branco Drácula, aquele que “não se enxerga”; não se autocritica, na sua História encontra inúmeros razões para isto. A mesma narrativa serve para que ele reforce seu narcisismo, isto é, se considerar belo, único belo, “o mais belo dos belos”25. Por isso, pode vir a recusar o que não tem valor, a História não-ocidental. Ou mais concretamente, a História da África como mostra a entrevista da Elis, no trecho seguinte:
Lourenço: A História da África é obrigatória na graduação?
Elis: Na graduação, nós temos duas histórias da África, desde 1995, História da África I e II e a gente tem optativas na área de história das populações negras em Santa Catarina. Mas, não é obrigatório e faz quem tem interesse mesmo na temática, Além das disciplinas no mestrado que também são voltadas para estas somente com um único professor. Ele discute mais o ponto de vista teórico, esta hegemonia
25
Essa questão de estética é possível aludir as histórias infantis, a madrasta da Branca de Neve, pergunta, insistentemente: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?” A Branca de Neve é a mais bela afinal, ela é “branca como a neve”, uma brancura “superior” torna-a mais bela. Essas histórias infantis invadem o universo mental das crianças não-brancas e também das brancas.
teórica branca, ocidental. Enfim, que também não é só nas relações raciais, são relações de poder, presentes em tudo, nos nossos estudos. Aliás, nossos teóricos, em tudo. Nós precisaríamos ser refeitos porque “nossa”, a gente tem uma formação colonial. E pensar que foi na vida inteira, por isso é muito difícil tentar descolonizar a mente, como diz a minha orientadora. Isso é para vida inteira, para outras vidas e um pouco mais, porque nós infelizmente somos criados assim.
E o pior é que a maioria das pessoas não se dá conta de que isso é uma criação. Enfim, nós estamos sendo manipulados por esta coisa horrorosa e muita gente entra na Universidade assim e sai da Universidade assim. E o pior vai dar aulas e acessar Centros de pesquisas com esta mesma perspectiva. É um problema e quando vou ao laboratório sempre acabo conversando, ouvindo os relatos, as experiências da professora, em sala, do professor sobre as manifestações dos alunos contra o tema, contra a perspectiva teórico-metodológica. Porque eles querem teóricos europeus, eles querem teóricos ocidentais. Eles não querem teóricos não sei da onde? Eles não querem teóricos, não querem, alguns são tão loucos, quê loucos? São racistas e tudo o mais.
A Elis fez questão de pontuar que a resistência ao ensino de História da África também poder ser fruto de uma mentalidade racista. Logo, se trata de uma prática inscrita nesse modo de pensar. Assim esse estudante constrói obstáculos para outras perspectivas não- brancas, não-ocidentais. Eles constroem barreiras para pontos de vistas que podem contribuir com a desconstrução do seu racismo pessoal (Bento, 2002b).
No trecho seguinte, a Mara abordará a Lei nº 10.639/03, modificada para Lei nº 11.645/08, que torna obrigatório nas escolas do ensino público e privado a contribuição da história e cultura negra e indígena para sociedade brasileira. Ela disserta a respeito de sua contribuição social.
(O papel da Lei 10.639/03)
Mara: Olha, eu creio que sim. Muitos estudos mostram que as crianças mudam suas atitudes, seus posicionamentos, crianças nas salas de aula depois de estudarem a história de um rei africano, de determinado país da África, a cultura daquele país, isto, influencia. A escola é importante para saber da existência dessas histórias, porque o que foi feito um corte histórico, cortaram milênios, muitos mil anos da nossa história, e contam a partir da Grécia. Efetivamente sabemos que nossa história é enviesada, mesmo assim, é a partir da Grécia, através da Europa, esta história que é fortemente contada e está na lembrança da gente. Só que antes disso teve cinco mil, sete milênios de história, isso foi meio que podado, quando a gente começa a retomar este processo, gera, assim, uma formação diferente, a capoeira colaborou neste sentido.
Ao mesmo tempo em que a História é o método de construção da superioridade branca, ela também pode servir para a valorização de diferentes povos e culturas como iguais. Simplesmente, pelo simples ato de conhecer o mundo além do ocidental. A Mara no trecho
seguinte descreve a capoeira como exemplo para que o branco e o negro26 aprendam a
valorizar a contribuição negra para sociedade brasileira.
Lourenço: Existe o projeto Capoeira nas escolas?
Mara: Eu já tive, existem municípios que aprovaram o projeto capoeira na escola, entendeu? Mas, esta capoeira não é para a criança sair da escola um capoeirista. Esta capoeira na escola é um projeto para que as crianças saibam o que é capoeira, o que tem dentro da capoeira, conhecer o mestre Bimba, o mestre Pastinha. Se a criança depois que sair da escola e quiser, ou durante a escola, sei lá, virar um capoeirista ela vai saber o caminho. Ela já vai saber que existe, a maneira que funciona mais ou menos e tal, agora não é para formar capoeirista. Quando ensina candomblé dentro da escola não é para formar candomblecista, quando ensina jongo dentro da escola não e para formar jongueiro, é para a pessoa saiba que existe. As pessoas têm que saber qual é a historia. Saber que existe. Conhecer os personagens marcantes, conhecer como as coisas aconteceram. Acho, que neste sentido, muda muito a vida das pessoas, muda muito para os brancos que só tinham Tiradentes, Pedro Álvares Cabral. Existe um monte de referência branca na história do Brasil e pouco conhecemos de Zumbi que aparece uma vez no ano lá na escola.
A Mara detalha a importância de outras referências além de brancos, ou Zumbi dos Palmares, num único mês. A capoeira, o candomblé são conhecimentos e saberes fundamentais para que a criança branca obtenha uma visão de mundo mais ampla e desconstrua a ideia de superioridade atrelada a sua branquitude (Schucman, 2012).