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Türkiye Büyük Millet Meclisi (S. Sayısı: 413) fii

Belgede Dönem: 20 Yasama Yılı: 3 (sayfa 93-103)

Vi a harpa pela primeira vez num sonho... eu não sabia desta gaiola dourada. A harpa é uma presença humana. O meu refúgio, a minha vida. Eu sempre fui só, nunca tive homens, só a harpa. Eu lhe conto coisas e ela me responde, me transmite sentimentos, fantasias. O mais importante é que ela me transmite fé. Quando você toca harpa, você sente que existem outras dimensões. Certa vez um menino me perguntou: “Para onde vai a música quando você para de tocar?” Só as crianças conseguem fazer estas perguntas. Harpista

Numa perspectiva fenomenológica, a experiência mostra que uma música nos diz de muitos sentidos ou pode até nos dizer coisas diferentes em momentos distintos. Somos seus interlocutores, seus ouvintes. Não “penduramos” nela algum “conteúdo” nosso para depois ficarmos satisfeitos por essa obra ser capaz de sustentar a mensagem que colocamos ali.

A mesma consideração vale para a presença do artista no seu trabalho. Ainda que percebamos o empenho de um autor, isso não significa que saibamos o que ele quer dizer em sua obra. Talvez tenhamos de permanecer com a pergunta: “O que a música quis dizer, o que ela disse através do artista que se pôs a serviço dela, para que esse falar chegasse até nós, que não somos artistas?” No entanto, é preciso levar em conta as diferentes escutas.

Quando ocorre a possibilidade de encontro entre o músico e seu ouvinte, “no momento em que a música (objeto) me diz algo, está acontecendo um fenômeno que se poderia denominar ‘reunião’” (POMPÉIA, 1997, p. 46). Esse fenômeno se aproxima do conceito de “harmonia” que, na música, é a combinação de notas soando simultaneamente na condição de um diálogo musical. Afinal, “acorde” significa “concordante, ajustado, harmônico”.

Nesse instante é como se eu, a coisa e o artista estivéssemos novamente reunidos, uma união que pode nunca ter acontecido, mas que se dá no momento em que a obra de arte me toca. Existe aí uma sensação, uma tonalidade de revelação, algo que identificamos com a palavra “harmonia”. Reunião que não diz apenas de um eu colocado frente a uma outra pessoa. Diz também de um compartilhar com o outro algo que é de certa forma misterioso, mas que através do trabalho do artista emergiu e se tornou mais presente para mim, o espectador. E nesta vivência de uma reunião aconchegante dá-se a experiência da intimidade. (Ibid., p.46)

Qual seria então o desafio para o músico ao se abrir para o diálogo musical amoroso? Em contrapartida, o que ele pretende evitar quando se fecha?

Quando o músico se depara com outro que também toca ou escuta, podemos dizer que ocorre um “encontro”. Giovanetti (2007) define o termo “encontro” como “[...] uma situação onde o outro é aquele com o qual entro em relação”, ou seja, é preciso que o ato musical não funcione mecanicamente, indiferente aos prazeres e desprazeres da relação.

Para que ocorra um diálogo, ou, no caso específico, um diálogo musical, o músico precisa ser afetado, e ambos, músico e ouvinte, precisam significar, um para o outro, algo que caiba numa estrutural relacional, em que a visão do outro como sujeito seja fundamental e inacabada para que as possibilidades de fala possam sempre ser recriadas.

Quando o músico se fecha para o diálogo musical, sua possibilidade de lidar com um EU-TU é negada, e os vários processos de socialização e comunicação são interrompidos pela falta de “treinamento”, de uma verdadeira prática musical que abarque uma abertura sensorial própria da pessoa que toca ou escuta.

Optar por uma relação determinada pela técnica seria impor um domínio do EU-ISSO, sem a possibilidade de considerar o sujeito como construtor de relações intersubjetivas. Ao contrário, a execução da música precisa ser considerada no âmbito do diálogo, do nós, da escuta como experiência compartilhada entre eu- outro, no âmbito do ser e não apenas do fazer. A música dialogada, e não apenas tocada, transforma-se em expressão de subjetividades.

De acordo com Amatuzzi (1989), o ouvir abre-nos para o mundo e para os outros. A escuta como veículo de contato e de desenvolvimento dos sentidos corporais deve ser levada em consideração. É escutando o mundo que o sujeito, diante de suas diversas gesticulações, entra em contato com o outro e deixa-se afetar por ele.

Numa dimensão mais profunda, ouvir significa permitir ao outro participar de sua expressão. Segundo o autor, o ouvir vem antes do falar. É o ouvir, e não o falar, que nos abre para o mundo e para os outros. Escutar possui uma dimensão física, como presença imediata, concreta, de relação. Através da escuta, tem-se a consciência da existência de si mesmo e do outro com quem se comunica.

O encontro humano está eminentemente presente em nossa relação com o mundo. O que ocorre em mim que estou ouvindo é uma mobilização tanto em minha vida pessoal, como aqui, diante da pessoa como interlocutor. (Ibid., p. 71)

A escuta, inclusive a amorosa, pode, assim, ser descrita como um ouvir de maneira ampliada, que engloba várias outras dimensões da experiência além da sonora, como as dimensões biológicas, psicológicas e espirituais presentes na vida do sujeito. Escutar implica ser afetado por sentidos diferenciados e deixar-se atravessar pela percepção. No amor, a escuta constitui-se de forma diferenciada para cada sujeito, de acordo com a sua sensibilidade. Existem diferentes modos de conceber a escuta. Em algumas perspectivas, ela é tratada como inata; em outras, como passível de ser adquirida ou aperfeiçoada.

4.3.3. Histórias interiores de vida: os músicos que se pintavam de

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