Todos os anos, mais ou menos 600 ornitólogos, brasileiros e estrangeiros, reúnem-se no Congresso Brasileiro de Ornitologia, promovido pela Sociedade Brasileira de Ornitologia. No ano de 2009 o congresso foi no Espírito Santo e, como ave-símbolo do encontro, foi escolhido o jacu-estalo, Neomorphus geoffroyi dulcis, descrito por Emília Snethlage a partir de um exemplar coletado no rio Doce, no Espírito Santo, em 1927. Segundo os organizadores do congresso, foi o estudo da sua biologia um dos motivos da vinda ao Brasil de Helmut Sick que, em 1941, observou a reprodução da ave na natureza. Desde então quase não há relatos sobre o jacu-estalo. Talvez por insuficiente trabalho de campo100. Esta ave enigmática já havia intrigado Snethlage, que não conseguiu coletar seus ovos. Durante o período de incubação, encontrou alguns exemplares em termiteiros, o que a levou a pensar que ela punha seus ovos ali (Snethlage, H., 1930, p. 127).
Emília Snethlage, avis rara, vinha se mostrando uma personagem esquiva para a historiografia da ciência. Não apenas por ser a figura singular que, sem dúvida, era, mas por ter se movimentado por caminhos que só agora começam a ser percorridos pelos historiadores. Nancy Stepan (1976) investigou a ciência feita nos institutos de pesquisa no Brasil no início do século XX. Margaret Lopes (1997) debruçou-se sobre a ciência feita no Brasil nos museus de história natural no século XIX. Nelson Sanjad (2005) analisou a história de um destes museus, o Museu Goeldi, desde sua fundação até 1907. Estes historiadores sugeriram caminhos, questões, possibilidades de leitura. O estudo da trajetória de cientistas como Emília Snethlage oferece a possibilidade de verticalizar as abordagens propostas até aqui, e também de aumentar a abrangência dessas abordagens. Nesse sentido, a singularidade de Emília Snethlage oferece ricas possibilidades para o campo historiográfico. Ela foi uma mulher que construiu uma obra científica consistente atuando dentro de instituições, os museus de história natural, que ofereciam poucas oportunidades de acesso profissional às mulheres no início do século XX. Sua formação acadêmica ocorreu num momento de profundas transformações no campo disciplinar das ciências da vida. A pesquisa de doutorado
que fez, sob a orientação de Weismann, uma das figuras mais importantes nos estudos evolucionistas do período imediatamente posterior a publicação da obra de Darwin, imprimiu à sua formação a marca da ciência produzida nos laboratórios. Em contrapartida, seu trabalho de campo estava profundamente vinculado à tradição dos naturalistas. A vinda para o Brasil era uma opção de carreira para muitos cientistas estrangeiros, particularmente os alemães, que lutavam por posições em um âmbito institucional que, se formava grande número de profissionais, oferecia poucos postos de trabalho em contrapartida. Longas trajetórias científicas, como as de Haeckel, Weismann e Reichenow, foram responsáveis, por um lado, pela linguagem comum falada por cientistas como Goeldi e Snethlage mas, por outro lado, limitaram a mobilidade profissional de várias gerações acadêmicas. As principais posições, nos museus e nas universidades, foram ocupadas, durante muito tempo, pelas mesmas pessoas. Uma vez no Brasil, Snethlage associou seu nome, de forma indelével, à pesquisa de campo em ornitologia. Para isto contribuiu seu profundo interesse pela zoogeografia. A análise dos artigos que publicou permite perceber o desenvolvimento deste interesse. No período inicial de trabalho no Brasil, entre 1905 e 1914, adquiriu profundo conhecimento da geografia e da ornis da região amazônica, em especial do baixo Amazonas. A observação das aves no seu ambiente natural, juntamente com os estudos taxonômico-sistemáticos que desenvolveu a partir dos exemplares que coletou, das coleções do Museu Goeldi e dos museus europeus que visitou diversas vezes, permitiram-lhe o desenvolvimento de algumas concepções sobre o padrão e a forma de distribuição da avifauna amazônica. O movimento seguinte foi tentar determinar as zonas de transição e os limites desta avifauna. Posteriormente, seus estudos passaram a abranger todo o território brasileiro. A ampliação das suas investigações ornitológicas e zoogeográficas, ou seja, o rumo que seguiu sua trajetória científica, esteve ligada também a mudanças que ocorreram no âmbito institucional, como sua transferência para o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Não é possivel separar estas dimensões. A proposta historiográfica de Rojas (2000), de levar em consideração o indivíduo no contexto, ao mesmo tempo formando e sendo formado pelo contexto social e, por extensão, institucional, mostra-se, nesse sentido, particularmente frutífera. Com sua grande dedicação ao trabalho de campo, Snethlage “inscreveu seu nome no mapa” da ornitologia brasileira.
O reconhecimento da validade das atividades científicas, sua legitimação, costuma ser associada a um imaginário no qual predomina a retórica da objetividade.
Naomi Oreskes (1996) sugere que também o heroísmo participa desse processo, o que parece ser particularmente válido na trajetória científica de Emília Snethlage. A travessia que fez, percorrendo a região do interflúvio Xingu-Tapajós, em 1909, pode ser vista como uma metáfora, tanto da trajetória científica de Snethlage, quanto do próprio fazer historiográfico voltado para questões biográficas. Entre o Xingu e o Tapajós, entre a Alemanha e o Brasil, entre a ciência dos naturalistas e a de laboratório, entre o trabalho de campo e o de gabinete, entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”, entre os fazendeiros e os índios, entre cientistas alemães e instituições científicas brasileiras. Cada um desses campos representa uma confluência de fatores sociais, culturais, econômicos, institucionais, científicos. A análise da produção científica de Snethlage, permite reconhecer a coerência e consistência do seu trabalho científico. A “trajetória” cientifica, no entanto, ocorre num “entre-lugar”, não é uma teleologia. É um movimento no qual interagem, permanentemente, indivíduo e contexto. Os “entre-lugares” configuram territórios de exploração historiográfica, representam questões e possibilidades de pesquisa. Com a análise da trajetória científica de Emília Snethlage desenvolvida neste trabalho pretendeu-se colocar em destaque algumas destas questões.