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Os resultados da avaliação neuropsicológica evidenciam que M.M. apresenta inteligência normal, entretanto com um baixo índice de QI na Memória operacional, que engloba os subtestes de Aritmética, Dígitos e Sequência de Números e Letras. A adolescente apresentou desempenho abaixo da média nos testes que avaliaram destreza motora, funções executivas e memória operacional fonológica e viso espacial e no subteste de Aritmética do Teste de Desempenho Escolar.

Em relação à cognição numérica, a adolescente apresentou altos níveis de Ansiedade Matemática, obtendo um baixo desempenho na execução de problemas matemáticos e cálculos aritméticos básicos e multidigitais de subtração e, finalmente na automatização da tabuada de multiplicação. O perfil neuropsicológico de M.M. é compatível com um quadro de discalculia do desenvolvimento.

Déficits no processamento de magnitudes não simbólicas tem sido associada às dificuldades de aprendizagem na matemática (Mazzocco et al., 2011; Costa et al., 2011; Pinheiro-Chagas et al., 2014), entretanto M.M. não apresenta déficits no domínio específico de cognição numérica aqui mensurado pela fração de weber. Dentre os domínios gerais que se associam a aprendizagem da aritmética, M.M. tem prejuízos mais acentuados nas funções executivas\memória operacional. Interessantemente a adolescente ainda não automatizou a tabuada de multiplicação, apesar de uma inteligência normal e práticas educativas adequadas. Em um texto de revisão, Woodward (2006) sugere que as duas principais abordagens para automatização dos fatos aritméticas são fundamentadas no 1) uso de estratégias de ensino dos fatos e no 2) uso de treinos cronometrados. Ambas as abordagens são dependentes de memória operacional uma vez que operandos e resultado precisam estar ativados simultaneamente para formação da rede neural de conexões (Ashcraft & Battaglia, 1978).

Déficits de funções executivas e memória operacional são comuns em transtornos do desenvolvimento, e por esta razão inespecíficos (Johnson, 2012). Todavia prejuízos nessas habilidades gerais são endofenótipo já também estabelecido na literatura para as DAM (para revisão Raguhbar et al., 2010). Um estudo longitudinal demonstrou que as habilidades de memória operacional se associaram fortemente com habilidades de cálculo independentemente de outras habilidades numéricas (Attout, Noël & Majerus, 2014). Em outro estudo semelhante, porém com um design transversal, o mesmo resultado foi demonstrado: a memória operacional foi preditora do desempenho de uma tarefa de problemas matemáticos independente das outras medidas como inteligência, conhecimento dos algoritmos das operações, processamento fonológico e habilidades de leitura e escrita (Swanson, 2004).

Embora as funções executivas possuam diferentes correlatos anátomo-clínicos, o córtex frontal é a principal região cerebral associada a este domínio (Goldberg, 2002). Já em relação a ativação cerebral relacionada a representação e processamento de informações numérica, Dehaene (2003) propõe que envolve uma rede composta pelo lobo frontal inferior esquerdo, giro angular esquerdo e giro fusiforme. Haveria assim uma sobreposição das regiões cerebrais. Além disso, uma metanálise de Kaufmann, Wood, Rubinstein e Henik (2011) encontrou que

crianças e adultos ativam regiões frontais quando estão executando tarefas matemáticas. Sendo assim os déficits cognitivos encontrados em M.M. podem o quadro de Discalculia do Desenvolvimento.

Adicionalmente é necessário discutir o impacto dos altos níveis de ansiedade de M.M. Um estudo longitudinal demonstrou que o baixo desempenho em matemática foi preditor da ansiedade matemática 7 anos depois em um grupo de adolescentes em um modelo de equação estrutural (Ma & Xu, 2004). No caso de M.M. sabemos que as dificuldades em matemática são persistentes desde o início do ensino fundamental, o que ao longo dos anos impactou diretamente sobre a autoeficácia matemática da garota e consequentemente influencia seus níveis de ansiedade. A crença de que não é capaz de realizar uma tarefa faz com que esta tarefa seja aversiva (Jain & Dowson, 2009).

No entanto, a relação ansiedade-desempenho é um caminho de mão dupla, uma vez que crianças e adolescentes com altos índices de ansiedade podem apresentar dificuldades no aprendizado. Muitas vezes a criança\adolescente busca por serviços de avaliação com suspeita de transtorno de aprendizagem e, após avaliação, detecta-se que o problema escolar é derivado da ansiedade matemática (Haase et al., 2013). Um estudo recente de nosso grupo de pesquisa demonstrou, inclusive, que aspectos mais cognitivos associados à ansiedade matemática (auto percepção da competência) influenciam diretamente o resultado em um teste de desempenho escolar. Tal influência, entretanto, só é detectada no subteste de aritmética, e não no subteste de escrita (Haase et al., 2012). Nosso resultado mostrou que, além de ser crucial para o desempenho, a ansiedade matemática é específica de domínio, como aqui encontrado nesse estudo de caso.

Finalmente, além de considerarmos as contribuições independentes da memória operacional e ansiedade matemática para a dificuldade de aprendizagem de M.M., é necessário considerar a interação entre estas duas medidas independentes. Uma vez que a ansiedade recruta recursos de memória operacional que deveriam ser direcionados para resolução de problemas matemáticos, por exemplo (Trezise & Reeve, 2015; Ashcraft & Kirk, 2001; Brunyé et al., 2013; Eysenck & Derakshan, 2011). No caso M.M. é possível levantar duas hipóteses que explicam o baixo desempenho na matemática: 1) os dois mecanismos contribuem para os déficits escolares independentemente, caracterizando um quadro de discalculia do desenvolvimento ou 2) os déficits de memória operacional são secundários aos altos índices ansiedade e M.M. apresenta é um quadro do Ansiedade Matemática. Desta maneira, com o intuito de testar nossas hipóteses, M.M. foi submetida a uma intervenção para ansiedade matemática que será descrita na próxima