O plenário apreciou a denúncia do desaparecimento de Rubens Paiva em reunião no dia 13 de julho de 1971, com a leitura do voto do relator, o senador Eurico Rezende. O processo em si já estava no órgão desde 3 de fevereiro quando o deputado Pedroso Horta entregou a carta de Eliana Paiva para formalizar a denúncia. Mais tarde, foram anexadas as cartas de Eunice ao CDDPH e o recibo de devolução do automóvel dirigido por Rubens Paiva quando foi preso – documento entregue pelo próprio DOI-CODI à família.
O relator do caso, senador Eurico Rezende (Arena/ES) recebeu a denúncia após ela ser enviada inicialmente ao senador Filinto Muller, líder da Arena no Senado.104 Ao examinar o
caso, Rezende apresentou um parecer no qual assumiu a versão divulgada pelos militares de
que Rubens Paiva foi levado para indicar “a casa onde poderia estar um elemento que trazia correspondências dos banidos domiciliados no Chile” quando foi resgatado.105 Ele sustentou
sua análise nos dados descritos na Sindicância feita no âmbito do I Exército e referenciou no
parecer a “perícia pormenorizada”, além de citar trechos do relatório do tenente Armando
Avólio Filho sobre o exame do carro incendiado.
Depois, o relator utilizou as notícias da imprensa, que se limitaram a registrar a versão
do Exército, para chancelar seu argumento: “a imprensa, pelos seus mais importantes e idôneos
órgãos, nas edições do dia imediato ao das ocorrências, já afirmava que o desaparecimento do dr. Rubens Beyrodt Paiva fora obra de terroristas.” 106 O relator ignorou a vigência de censores nas redações e o contexto de controle exercido pelo governo militar sobre as empresas
103 O deputado Nina Ribeiro leu a Sindicância na tribuna da Câmara dos deputados.
104 Rezende, natural de Ubá em Minas Gerais, fez a carreira na vida pública no Espirito Santo. De acordo o historiador Levy Soares da Silva (2013), o político iniciou a trajetória na vida pública na União Democrática Nacional (UDN) e foi eleito deputado estadual em 1950, reeleito em 1954, quando se tornou líder do partido na Assembleia Legislativa do Espirito Santo. Em 1962, conquistou uma vaga de senador pelo estado e foi reconduzido ao cargo em 1970. Rezende ainda foi vice-líder da UDN e mais tarde foi vice-lider da Arena no Senado. Em 1978, durante o governo do presidente Ernesto Geisel, Eurico Rezende tornou-se o líder do governo no Senado, o que possibilitou sua indicação para ser governador do Estado do Espírito Santo (1979- 1983), por meio de sufrágio indireto. Nessa trajetória resumida é possível perceber sua ascensão política em meio ao regime militar.
105 Arquivo Nacional, Fundo SNI: Ofício AC_ACE_15330_001, p.56. 106 Idem.
jornalísticas, conforme mencionado no capítulo 1. Sobre o desencontro de informações relatado por Eunice em sua carta, o parlamentar disse:
Provado, como ficou, que o bando criminoso se apossara do Dr. Rubens Beyrodt Paiva na madrugada de 22 de janeiro, é óbvio que, em 3 de fevereiro, o paciente não se encontrava em qualquer dependência do I Exército. Dentro do sentimento nacional, tão dignificado pelos estremecimentos da solidariedade cristã, brutalmente ferido, no lamentável episódio, participamos, com as nossas emoções, da angústia da família atingida pela maldição e pela covardia do terrorismo. Mas há de se reconhecer e proclamar que nenhuma responsabilidade pelo evento pode ser inculcada às autoridades do País, cuja luta indormida no combate à subversão vem se desenvolvendo, obstinadamente, com a confiança, o reconhecimento e o apoio da opinião pública.107
O parecer de Rezende já era esperado pelos integrantes da oposição no Conselho. Na tentativa de ganhar tempo e evitar o arquivamento prematuro, Horta apresentou mais documentos para os conselheiros e solicitou que a sessão do julgamento do caso fosse pública, permitindo o trabalho da imprensa, “uma vez que nada temos a esconder, que a sessão se torne pública, presentes representantes da imprensa nacional e estrangeira. Não temos o que esconder. Ninguém tem o que esconder à exceção dos criminosos responsáveis por este sequestro.” 108 O deputado indicou a necessidade de tomada de depoimentos dos militares envolvidos na ocorrência, além de Eunice, Eliana, Renée Paiva, de duas madres do colégio Sion e de Cecília Viveiros de Castro. E foi a partir desse momento que surgiu a primeira testemunha da prisão de Rubens Paiva. No novo relato ao CDDPH, Eunice explicou a importância de Cecília:
Depois de solta, soube pelo meu advogado, dr. Lino Machado, que as pessoas que foram presa no Galeão com as cartas eram dona Cecília Viveiros de Castro (a que reconheci por fotografia no registro do CODI) e Marilene Corona, irmã da nora de dona Cecília. O filho e a nora de dona Cecília estão asilados em Santiago, no Chile (...) Alguns dias depois procurei dona Cecília em sua residência, acompanhada por duas freiras do Sion que ouviram todo o relato que ela fez da sua prisão. A certa altura ela nos contou que no dia 20 de janeiro
à tarde fora acareada com Rubens no quartel da 3a Zona Aérea, ao lado do
aeroporto Santos Dumont e que mais tarde foram os dois conduzidos para o CODI, no quartel da PE da Barão de Mesquita onde ficaram presos. Ela ouviu distintamente, por mais de uma vez, Rubens durante a noite soletrar o sobrenome Beyrodt Paiva que os soldados não conseguiam escrever. Esta é a
última notícia que temos de Rubens. Ninguém mais o viu.109
Não se sabe com precisão se antes ou depois desse encontro, mas Cecília escreveu uma carta para Eunice em 30 de junho de 1971, relatando os momentos que passou ao lado do
107 Ibidem, p. 57 108 Ibidem, p. 9. 109 Ibidem p 65.
deputado cassado na 3a Zona Aérea e depois no DOI-CODI. Ela tinha sido professora de duas filhas do casal Paiva no Colégio Sion, no Rio de Janeiro. O documento é registrado por Marcelo Rubens Paiva:
D. Eunice. Tendo lido nos jornais notícias desencontradas e mesmo alarmantes, imagino o sofrimento da senhora e das meninas, minhas ex-alunas do Colégio Sion, quanto ao paradeiro do dr. Rubens. Gostaria de minorar, de algum modo, a sua angústia, dando-lhe conhecimento do que sei a respeito do seu marido. No dia 20 de janeiro último, estando eu no quartel da 3ª Zona Aérea próximo ao aeroporto Santos Dumont, quartel onde permaneci por algumas horas, fui transportada por elementos que usavam trajes esporte e que se diziam das Forças Armadas, para o quartel da Polícia do Exército, o DOI, que era mencionado pelos mesmos elementos como “Aparelhão”. Sentado, ao meu lado, no automóvel, estava seu marido, o Dr. Rubens Paiva. Chegando no mencionado quartel, fomos desembarcados eu e seu marido. A senhora deve compreender que ainda não me sinto em condições de descrever as horas angustiosas por que passei, mas posso garantir que, nesse mesmo dia, ouvi a voz do seu marido sendo interrogado. Ouvi perfeitamente quando ele declarava seu nome, estado civil, naturalidade etc. Ele estava ao meu lado, embora eu não pudesse vê-lo, de vez que tinha a cabeça coberta por um saco que me impedia a visão. Na noite de 20 de janeiro a 21 no mesmo quartel várias vezes me foi perguntado meu nome, ocasiões essas em que ouvi as mesmas perguntas serem dirigidas ao seu marido, que as respondia. Lembro- me de que, algumas vezes, ele dizia Rubens Paiva, e lhe exigiam o nome completo: Rubens Beyrodt Paiva. Ainda na manhã do dia 21 ouvi o dr. Rubens pedindo água, e esta foi a última vez que ouvi a sua voz, pois na tarde desse mesmo dia fui transferida para outro local. Esperando que esta notícia lhe traga algum consolo, faço votos de que brevemente esteja a família toda reunida e despeço-me com um abraço amigo para todos e especialmente para as minhas ex-alunas Vera, Eliana e Ana Lúcia. Cecília Viveiros de Castro.(CASTRO, Cecília, apud. PAIVA, 2015, p.158-159).
Diante das novas informações, o CDDPH decidiu adiar o exame do caso para analisar os documentos apresentados por Horta. A cautela apresentada foi semelhante ao julgamento do STM um mês antes, em maio. O caso ganhava certo destaque na imprensa e tinha recebido um tratamento diferente no Tribunal no Conselho com o simples protelamento das tomadas de decisão. Mas os esforços não foram suficientes para impedir o arquivamento dos processos em ambos os órgãos.