A pesquisa científica no campo da sexualidade teve seu início na Europa, nos países anglo-saxões e germânicos. A repercussão desses estudos avançou internacionalmente, inclusive nos Estados Unidos, cujas observações refletiam pela ótica dos clínicos que observavam seus pacientes e, mais tarde, se basearam na população em geral. O início promissor foi interrompido pelo nazismo, que pôs um fim no desenvolvimento das pesquisas, a ideologia nazista e os problemas sociais e econômicos contribuíram para ruptura do desenvolvimento da pesquisa sexual e científica.
A partir do legado de Freud e Foucault, podemos trazer outros autores que tratam do tema sexo e sexualidade.
35 Para Valladares (2001, p.24) a expressão “sexo” não se limita apenas à
anatomia genital, a um mecanismo de reprodução ou fonte de prazer. Na espécie humana, sexo é muito mais que isso, abrange características físicas, aspectos psicológicos, éticos, culturais e morais.
Faria (2004, p.10) informa que o termo sexo “refere-se às diferenças anatômicas que, marcadamente diferenciam corpos” de homens e mulheres.
Segundo Guimarães (1995, p.23):
[...] sexo é relativo ao fato natural, hereditário, biológico, da diferença física entre o homem e a mulher, e da atração de um pelo outro, para a reprodução. No mundo moderno, o significado dominante do termo passa a ser ‘fazer sexo’, referindo-se às relações físicas para o prazer sexual. No senso comum é: ‘relação sexual’, ‘orgasmo’, ‘órgão genital’, ‘pênis’. Nunes e Silva (2000, p.74) diferencia sexo de sexualidade.
1) Sexualidade, essencial dimensão humana baseando-se nas características exclusivamente humanas de afetividade e erotismo; 2)Não está secundária à condição humana vinculada às demais habilidades e potencialidades, ela é uma marca única do homem presente na condição cultural e histórica do homem, este tudo que faz ou realiza envolve sua dimensão de ser sexuado. 3) Sexualidade é a própria vivência e significação do sexo, carrega dentro de si intencionalidade e escolha que a tornam dimensão humana, dialógica e cultural. 4) Primeira de nossas identidades é quando os pais disseram é menino, ou menina! Ainda que constituído a partir da marca genital; 5) Sexo é marca biológica, caracterização genital e natural, constituída a partir da aquisição evolutiva da espécie humana como animal [...] 6) Sexualidade,conceito cultural constituído pela qualidade de significação do sexo;”.
A Organização Mundial de Saúde – OMS (2000, p.17) define a sexualidade como:
A sexualidade humana forma parte integral da personalidade de cada um. É uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. A sexualidade não é sinônimo de coito e não se limita à presença ou não do orgasmo. Sexualidade é muito mais do que isso. É energia que motiva encontrar o amor, contato e intimidade e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas, e como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamento, sentimentos, ações e integrações, e, portanto à saúde física e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a sexualidade, a saúde
36 sexual também deveria ser considerada como direito humano básico. A saúde mental é a integração dos aspectos sociais, somáticos, intelectuais, emocionais de maneira tal que influenciem positivamente a personalidade, a capacidade de comunicação com outras pessoas e o amor.
Para Guimarães (1995, p.24) sexualidade é como “(...) um substantivo abstrato que se refere ao ‘ser sexual. Comumente é entendido como ‘vida’, ‘amor’, ‘relacionamento’, ‘sensualidade’, ‘erotismo’, ‘prazer’”.
Laplanche (1988, p. 619) comenta que, em seu sentido ampliado pela psicanálise, sexualidade:
[...] é toda uma série de excitação e de atividades presentes desde a infância, que proporcionam uma necessidade fisiológica fundamental (respiração, fome, função de excreção, etc), e que se encontram a título de componentes na chamada forma normal de amor sexual.
Indissociavelmente ligado a valores, o estudo da sexualidade reúne contribuições de diversas áreas, como Antropologia, História, Economia, Sociologia, Biologia, Medicina, Psicologia e outras mais.
Segundo os autores pesquisados, o sexo, portanto, é dado pela dimensão biológica, intrínseca ao ser humano, importante para a reprodução e evolução da espécie, definido por um conjunto de características anatômicas e funcionais (genitais e extragenitais),
A sexualidade é, de forma bem mais ampla, expressão cultural, construída historicamente. Cada sociedade cria conjuntos de regras que constituem parâmetros fundamentais para o comportamento sexual de cada indivíduo.
A sexualidade se manifesta pelos afetos e sentimentos, expressando-se na identidade, com uma ressignificação do sexo, de forma singular para cada indivíduo. Assim, a sexualidade também é parte integrante e indissociável da pessoa, não implicando necessariamente em seu aspecto reprodutivo, pois os valores sexuais e estilos de vida mudam de pessoa para pessoa.
A sexualidade tem grande importância no desenvolvimento e na vida psíquica das pessoas, pois, independentemente da potencialidade reprodutiva, relaciona-se com a busca do prazer, necessidade fundamental dos seres humanos.
37 Nesse sentido, a sexualidade é entendida como algo inerente, que se manifesta desde o momento do nascimento até a morte, de formas diferentes a cada etapa do desenvolvimento humano, sendo construída ao longo da vida.
Todavia, a sexualidade deve estar vinculada à construção de significados, associando valores às experiências corporais e estabelecendo regras para as práticas sexuais, como a masturbação, por exemplo, possibilitando a livre exploração ou impondo proibições e censuras. Todavia, os jovens nem sempre são reprodutores passivos e, por vezes, transgridem as regras disciplinadoras, inventam novas regras para os usos do corpo, ressignificam as relações com o outro, seja ele masculino ou feminino.
De acordo com Andrade (2005), desde “a infância toques e atividades com o próprio corpo e os corpos de outras pessoas proporcionam prazer e ganham uma especificidade erótica crescente, até alcançarem o prazer genital, a partir da adolescência”. Mas, a sexualidade não é apenas sensação física; é, sobretudo, o conjunto de significados atribuídos pelo indivíduo às experiências corporais prazerosas.
Portanto, se sexualidade é o conjunto de processos sociais que produzem e organizam a expressão do desejo e o gozo dos prazeres corporais, orientados a sujeitos do sexo oposto, do mesmo sexo, de ambos os sexos, ou a si mesmo, então, este vem a ser também um conceito cultural que diz respeito à forma como cada ser vivencia e significa o sexo, como defende Foucault (1997, p.100):
[...] não se deve conceber [a sexualidade] como uma espécie de dado da natureza que o poder é tentado a pôr em xeque, ou como um domínio obscuro que o saber tentaria, pouco a pouco, desvelar. A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não a uma realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação do conhecimento, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder.
Concordamos com esta perspectiva de Foucault quando afirma que é uma característica moderna incentivar o discurso sobre o sexo valorizando-o como “o segredo”.
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