BÖLÜM 3: PROF. DR. AMİRAN KURTKAN BİLGİSEVEN’E GÖRE
3.1. İslamiyet’in Kültürel Özellikleri
3.1.5. Türk İslam Felsefesi Tarihinde Teoloji ve Teolizm
A atuação prática de Luís Saia no SPHAN foi embasada em sua grande erudição historiográfica, confirmada pela ampla bibliografia utilizada em seus trabalhos, onde constavam volumes que abrangiam desde o século XVI até o XIX, os quais sublinhava, indicava, comentava, que se encontra no acervo da Biblioteca Luís Saia. Podemos afirmar que entre suas leituras estavam Dialectique de la nature (1955), de Friedrich Engels, O
Capital, de Marx, Introdução à lógica dialética (1960), de Eli de Gortari, lidos e fichados por
ele. Há também outras referências estrangeiras, como Éléments de Sociologie Religieuse, de Roger Bastide, O capital, de Karl Marx, Introdução a uma estética marxista, de György Lukács, Nueva clave de La filosofia, de Susanne Langer, que mostram a consonância de seu pensamento com as obras mais importantes do cenário intelectual do século XX. Entre as significativas obras de autores brasileiros há Casa-Grande & Senzala (1933) e Sobrados e
Mucambos (1936), de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de
Holanda, No tempo dos bandeirantes, de Belmonte, além de Os principais tipos de solos
Figuras 17 e 18. Livro de autoria de Roger Bastide, pertencente a Luís Saia, com a dedicatória do autor. Fonte: Biblioteca Luís Saia, IPHAN/SP.
O contato com a obra de Freyre, e também de Sérgio Buarque de Holanda, é explicitado por Saia: "Dois livros, Casa Grande e Senzala e Raízes do Brasil, respectivamente de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, contribuíram demais como tábua de salvação" Essa 'salvação' se refere a salvar os "interessados no estudo dos problemas brasileiros" de um "saudosismo aristocratizante dos Oliveira Vianna e do 'nacionalismo' de Ricardo Severo". (SAIA, 1972, p. 63).
Essa literatura adquiriu importante papel em sua obra. Lowande (2010, p. 85) discorre sobre uma leitura das referências de Saia, destacando, em sua visão, os aspectos que Saia mais aproveitou dessa historiografia: "é possível destacar ao menos três deles: 1) uma certa noção de processo histórico nacional, 2) a cultura material como fonte privilegiada e 3) a miscigenação como fator explicativo importante para a formação nacional". Saia utilizou essa base historiográfica e fez uma análise bastante original, segundo o autor, do processo evolutivo paulista, que teria certa autonomia com relação ao modelo nordestino, apesar das vinculações com fatores mais abrangentes. A arquitetura, assim como em Gilberto Freyre, foi apropriada como objeto importante e necessário para a compreensão da evolução regional paulista e nacional, e a casa, no bojo da investigação da formação nacional, passa a ser vista além da materialidade de sua construção, em suas questões mais complexas. E o fenômeno da mestiçagem cultural foi suporte fundamental para as ações de ampliação territorial com as atividades das bandeiras, por permitir a criação de estratégias de sobrevivência e povoamento em um ambiente estranho ao colono português, além de contribuir para a formação da casa bandeirista, uma vez que "[...] a arquitetura também encontrou o material mais adequado e a forma mais capaz de responder às características da sociedade paulista" (SAIA, 1955, p. 8).
A seleção das fontes de Saia acontecia, como observou Lowande (2010), em função dos valores que norteavam sua ação junto ao SPHAN e com base em um "pensamento crítico filosoficamente lastreado", e, no entanto, Saia não se preocupou em explicitar suas fontes. O autor conclui que
O conhecimento histórico entra como uma espécie de dado 'objetivo', cuja função seria fornecer as informações necessárias para a compreensão dos processos determinantes da arquitetura. Não há assim, ao que tudo indica, um critério de seleção do que seria válido ou não como conhecimento histórico, dando a impressão de que Saia ia pinçando aleatoriamente o que conhecia e o que subjetivamente considerava aceitável para a sustentação de suas hipóteses. Ora a autoridade dos autores fortalece seus argumentos, ora estes dados são apropriados sem menção alguma à fonte. 20
Saia atuou como crítico de arquitetura e urbanismo nas principais revistas de arquitetura do país, como a Acrópole, Habitat, AD Arquitetura e Decoração, e em revistas acadêmicas como a Revista de Engenharia Mackenzie. Foi um profissional atento aos movimentos sociais e estéticos que mediaram o campo da arquitetura e do urbanismo desenvolvendo uma ampla prática, de reflexão e ação.
A produção bibliográfica de Saia é extensa. Não nos prolongaremos sobre este tema21, visto que não é este o objetivo do trabalho. Apresentaremos uma síntese de seus principais textos22, e vamos analisar mais detidamente aqueles que forem de interesse para esta pesquisa.
Sombra Junior (2015, p. 45) mostra, em sua dissertação de mestrado, um artigo de Saia que, segundo o autor, foi descoberto recentemente, intitulado Origens da casa
brasileira, publicado na revista Panorama em 1936. Já nesse primeiro texto, Saia trata da
relação entre a origem da arquitetura popular brasileira e o meio rural, procurando estabelecer seus primórdios, além de abordar também a questão da identidade nacional relacionada com a identificação dos elementos tradicionais da arquitetura brasileira. Em 1939 foi publicado o texto O alpendre nas capelas brasileiras, no terceiro número da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e, no ano seguinte, Uma relíquia de
nosso patrimônio histórico, na revista Arquitetura e Urbanismo. Em 1944, foi a vez do livro Escultura Popular Brasileira, trabalho possibilitado por sua atuação na Sociedade de
Etnologia e Folclore, sobre 26 reproduções de ex-votos do nordeste brasileiro.
Em seu livro Morada Paulista, de 1972, Saia reuniu diversos artigos, publicados na revista Acrópole entre julho de 1955 e junho de 1956. Formando o primeiro grupo, intitulado Notas sobre a evolução da Morada Paulista, estão Nota prévia; Quadro Geral dos
Monumentos Paulistas; Notas sobre a arquitetura rural paulista do segundo século; A casa bandeirista; Esquema preliminar de um filme sobre moradas paulistas; Arquitetura de circunstância; Intermezzo roceiro; Economia de sobremesa; Ciclo ferroviário; Notas para a
21Uma análise ampla e detalhada da produção bibliográfica de Saia já foi realizada por alguns autores,
dentre os quais podemos destacar: ROLIM, Mariana de Souza. Luís Saia e a ideia de patrimônio. Dissertação (Mestrado), Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP, 2006; MAYUMI, Lia. Taipa, canela- preta e concreto: estudo sobre o restauro de casas bandeiristas. São Paulo: Romano Guerra, 2008; MASSERAN, Paulo Roberto. Op. cit., 2011; LOWANDE, Walter F. F. Op. cit., 2010.
22
Uma completa síntese da produção profissional de Luís Saia encontra-se em: FICHER, Sylvia. Os Arquitetos da Poli: Ensino e Profissão em São Paulo. São Paulo: Fapesp: EDUSP, 2005. p. 337-340.
teorização de São Paulo23 e Meditação melancólica. Já o segundo grupo, Notas
relacionadas com a tetônica demográfica de São Paulo, é composto de três artigos:
Geologia; Pedologia; Edafologia. Rolim (2006, p. 106-122) faz uma análise abrangente deste
livro, parte importante da bibliografia de obras sobre a história da arquitetura brasileira. Publicou ainda Utilização do concreto armado na restauração de edifícios
construídos com taipa, de 1944, na Revista Engenharia Mackenzie, e A Casa Bandeirista – uma interpretação em 1954, para as comemorações do IV Centenário da Cidade de São
Paulo, onde caracteriza a sociedade bandeirista, relacionando-a à emergência do fenômeno bandeirista puro24, valorizando o povo paulista e a mestiçagem.
A tese que Saia apresentou no concurso da FAUUSP de 1957, intitulada Da
Arquitetura, trata da criação arquitetônica. Inicia o trabalho indicando os problemas que
podem existir quando há falta de rigor conceitual durante o processo de criação, criticando a "[...] vocação irreprimível pela tradição. Inclusive quando pretende realizar, por um curioso processo de antecipação, aquilo que estima como objeto de futura tradição" (SAIA, 1957, p. 1). No decorrer do texto, faz uma crítica contundente ao ecletismo, e propõe, a fim de evitar uma arquitetura que a seu ver não possui valor, um exame dos elementos da criação arquitetônica, sendo eles os conceitos de tese, programa, organização do espaço, esquema construtivo, resultados plásticos e partido. Rolim (2006, p. 142) faz uma análise desta obra, e conclui que aqui "[...] Saia mostra não só sua visão da Arquitetura, mas um pouco da sua visão de mundo", indicando "[...] o comprometimento de Saia com a parte teórica da arquitetura, apesar de ele ter sido um homem de campo". Para ele, uma profunda interligação entre teoria e prática era fundamental, acreditando não ser
[...] possível um arquiteto não conhecer a história da arquitetura, não havia como ter uma produção correta e comprometida com a sociedade sem conhecer o que já havia sido feito e discutido e também o que estava sendo feito e discutido. Sem diálogo, sem debate, sem erudição, não se chegaria a lugar algum (Idem, p. 146).
23Este artigo substituiu Gran finale com rampas e pilotis, por ser "mais completo e um pouco menos irritado"
(SAIA, 2005, p. 10).
24
MAYUMI, Lia. Taipa, Canela-preta e Concreto: Estudo Sobre O Restauro De Casas Bandeiristas. São
A relevância desta obra para nossa pesquisa reside no fato de que Saia alude, em suas referências, à figura de dois importantes teóricos europeus do século XIX, citados no primeiro capítulo: Viollet-le-Duc e John Ruskin. Ele considera le-Duc um "[...] espírito libertado, quase revolucionário, combatedor dos módulos que haviam constituído a nota dominante dos pensadores antigos, interessado na valorização do gótico"25, e cita passagens de seus livros Entretiens sur l'architecture26 e Dictionnaire raisonné de l'architecture française du onzième au seizième siècle27. Do primeiro, ele cita trechos que
falam de razão, liberdade e progresso: "Nous devons marcher librements dans ce qu'on appelle la voie du progrèss" (VIOLLET-LE-DUC apud SAIA, 1957, p. 24), e um excerto traduzido: "A solução construtiva pertence ao domínio da razão" (VIOLLET-LE-DUC apud SAIA, 1957, p. 31).
Do segundo livro, Saia expõe no texto, referindo-se à parte em que fala sobre as transformações ocorridas na cidade de São Paulo no período que sucedeu à instalação da ferrovia até a revolução de 1930, que, nesse caso, "aquela simples verdade já enunciada por Viollet-le-Duc, de que o estilo é a conseqüência rigorosa dos princípios de estrutura, não foi minimamente atendida", pois "a conjuntura permitiu que a arquitetura tradicional introduzisse a presença de certas soluções características regionais, procedentes [...] de um sentimento das coisas profundamente vinculado à vida tradicional" (SAIA, 1957, p. 42). Complementando sua explanação, ele cita um trecho28 de le-Duc sobre estilo e
estrutura, e as etapas que devem ser seguidas para relacioná-los de modo moderno. Ele se refere também à obra The seven lamps of architecture29, de Ruskin,
transcrevendo uma parte30 onde o autor elenca o arranjo natural da arquitetura sob cinco
25
SAIA, Luís. Da arquitetura. Tese apresentada ao Concurso para provimento da Cadeira nº14, Teoria da
Arquitetura, da FAU/USP, set 1957, p. 24.
26
VIOLLET-LE-DUC, Eugène Emmanuel. Entretiens sur l'architecture. Morel, Paris, 1863-1872. Dois volumes e
um Atlas.
27VIOLLET-LE-DUC, Eugène Emmanuel. Dictionnaire raisonné de l'architecture française du onzième au
seizième siècle. Paris: Bance, 1861.
28
"Le style s'y trouve parce que la forme donnée à l'architecture n'est que la conséquence rigoureuse des principes de structure, lesquels procèdent: lère. desmatières à employer; 2ème. de la manière de les mettre en oeuvre; 3ème. Des programmes auxquels il faut satisfaire; 4ème. d'une déduction logique de l'ensemble aux details... le principe n'est autre chose que la aincérité dans l'emploi de la forme. Le style se dévelope d'autant plus dans les oeuvres d'art que celles-ci s'ecartent moins de l'impression juste, vraie, claire"
(VIOLLET-LE-DUC apud SAIA, 1957, p. 42).
29
RUSKIN, John. The Seven Lamps of Architecture. New York: Dover Publications Inc., 1989. 30
"Architecture proper, then, naturally arranges itself under five heads: devotional; including all buildings raised for God's service or honor. Memorial; including both monuments and tombs. Civil; including every
princípios. Mais adiante, analisando a produção contemporânea, Saia cita outro trecho, em que Ruskin define a arquitetura como "arte de arranjar e decorar os edifícios construídos pelo homem [...] de modo que a vista possa contribuir para a saúde, para a força e para o prazer do espírito" (RUSKIN apud SAIA, 1957, p. 34).
É possível perceber, neste trabalho sobre arquitetura moderna, que o posicionamento de Saia é favorável a le-Duc. Andrade (1993) discorre sobre as ideias deste arquiteto francês, mostrando que ele não foi apenas um teórico, historiador ou crítico, mas notavelmente um 'arquiteto militante', cujas ideias tinham base no pensamento de Comte e Proudhon, bem como na lógica cartesiana, que utiliza no desenvolvimento de seus conceitos. Seu pensamento levou, por muitos historiadores, à compreensão de sua obra como "[...] a expressão conclusiva do movimento principiado no século XVIII, [...] marcado pelo anseio de oferecer à arquitetura uma nova razão"31.
Esta seria a razão da ciência, que procurou conferir inclusive à arte, por uma explicação racional.
Na introdução do livro citado por Saia, Entretiens sur l'architecture, encontra-se "a máxima de seu pensamento", quando ele justifica o objetivo de seu trabalho.
C'est dans ce sens que j'entends écrire sur l'architeture; en cherchant la raison de toute forme, car toute forme a sa raison, en indiquant les origines des principes divers et leurs conséquences logiques, en analysant les productions les plus complètes de ces principes et les montrant ainsi avec leurs qualitès el leurs défauts; en faisant ressortir les applications que nous pouvons faire aujourd'hui des arts anciens (VIOLLET-LE-DUC apud ANDRADE, 1993, p. 41).
Fica evidente que Saia estava ciente da importância de Viollet-le-Duc, considerado por muitos como o primeiro teórico da arquitetura moderna. John Summerson escreveu que "there have been two supremely eminent theorists in the history of European architecture - Leon Battista Alberti and Eugène Viollet-le-Duc"32. Sabia também da
influência de Ruskin na Inglaterra em seu período de atuação.
edifice raised by nations or societies, for purposes of common business or pleasure. Militar; including all private and public architecture of defense. Domestic; including every rank and kind of dwelling-place"
(RUSKIN apud SAIA, 1957, p. 9).
31
ANDRADE, Antonio Luiz Dias de. Um Estado Completo que Pode Jamais ter Existido. Tese (Doutorado) -
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1993, p. 41.
É importante apontar para o fato de que ele os menciona não no contexto das teorias de restauro, mas no âmbito da arquitetura moderna, ao lado de grandes nomes da como Le Corbusier, Mies van der Rohe e Walter Gropius. Ainda que não mencione diretamente as teorias de restauro desses autores, podemos afirmar com certeza que Saia tinha conhecimento de sua obra, e que este fato certamente se refletiu no seu trabalho de restauração no SPHAN, como analisaremos mais adiante.
Um texto de grande importância e que deve ser analisado mais detidamente, é o artigo já citado Notas sobre a arquitetura rural paulista do segundo século, que foi publicado no oitavo número da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sob encomenda de Rodrigo Melo Franco de Andrade. Por sua magnitude, este texto também foi republicado, em forma de apostila, pelo Centro de Estudos Folclóricos do Grêmio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1950, com o título Notas sobre a arquitetura rural paulista, além de fazer parte da coletânea de textos que formaram seu livro mais difundido, Morada Paulista, de 1972. Foi o resultado dos inícios dos trabalhos do SPHAN em São Paulo, marcado pelo extenso levantamento do patrimônio colonial paulista. Com a publicação desse texto, Saia se tornou o primeiro estudioso a se deter sobre as residências rurais paulistas da época das bandeiras, e sua linha de pensamento resultou em um dos mais importantes trabalhos teóricos elaborados pelo arquiteto ao longo de sua profícua carreira, onde se pode entrever a formação de um método de investigação, objetivo e científico, que servirá de embasamento para suas posteriores intervenções de restauro.
As casas bandeiristas
No contexto da seleção do patrimônio arquitetônico a ser preservado, os símbolos eleitos para representar a morada paulista tradicional foram as 'casas velhas', denominação dada por Mario de Andrade às residências rurais do período colonial que encontrou em suas perambulações pelo estado de São Paulo em 193733, no início das
33
De acordo com Lemos (1993, p. 22), Mário teria nominado as casas exclusivamente por sua antiguidade, não compreendendo ou não aceitando o seu valor artístico ou histórico, sugerindo apenas um interesse histórico naquele momento.
atividades do IPHAN. Quase duas décadas depois estes exemplares viriam a ser conhecidos como "casas bandeiristas", tipos arquitetônicos que foram, em sua maioria, edificados durante o período das bandeiras, sobretudo aquele ligado às zonas de exploração aurífera, e cuja tipologia passou a existir, como mencionado anteriormente, configurando-se como uma forma de morar específica do planalto paulista, diferentemente das habitações rurais de outras regiões do Brasil do mesmo período, como as casas-grande do Nordeste.
As casas bandeiristas são construções representativas do período de reconhecimento, expansão e domínio de uma porção do território sul-americano, conhecido como ciclo das bandeiras paulistas, e foram eleitas símbolos da arquitetura colonial paulista por Luís Saia, através de uma interpretação da habitação paulista e em consonância com o esforço modernista e nacionalista de construir a memória nacional a partir dos vestígios coloniais, luso-brasileiros. Saia estabeleceu, com clareza, a relevância nacional das técnicas construtivas e partidos locais ao ligá-los ao modo de vida dos bandeirantes, estabelecendo, portanto, um forte argumento, favorável ao tombamento das edificações desse período34, conhecidas como 'patrimônio de pedra e cal'35. Esta
diretriz, no entanto, desconsiderava e desprezava as manifestações neoclássicas e a multiplicidade de estilos que constituiu o Ecletismo arquitetônico.36 Mayumi (2007, p. 30)
afirma que "os edifícios neoclássicos do Império, as experiências do século XIX e anteriores ao surgimento do estilo 'moderno' mereceram o desprezo consensual dos técnicos do IPHAN", e que a seleção dos restos do período colonial era a dificuldade enfrentada na época.
34LOWANDE, Walter F. F. Op. cit., 2010, p. 124-125.
35 Segundo Santos (2012), "a classificação 'monumentos de pedra e cal', que acompanha a tradição na área da
preservação de edifícios referindo-se à sua técnica construtiva, é desclassificada e renomeada como 'patrimônio de pedra e cal das elites'". Em seu artigo, a autora cita os autores "[...] que entendem a primeira fase de trabalho do Sphan como 'a sacralização da memória em pedra e cal (...) e a eleição de uma etnia, dita civilizada, em detrimento de outras à margem do processo'", como Antonio Nogueira (NOGUEIRA, Antonio
Gilberto Ramos. Por um inventário dos sentidos. Tese de doutorado em história, PUC-SP, 2002); Silvana Rubino (RUBINO, Silvana. O mapa do Brasil passado a limpo. Revista do Patrimônio, Rio de Janeiro, n. 24, 1996; Mariza Veloso Motta Santos (SANTOS, Mariza Veloso Motta. "Nasce a Academia Sphan". Revista do Patrimônio, Rio de Janeiro, n. 24; Lauro Cavalcanti (CAVALCANTI, Lauro (org.). Modernistas na repartição. Rio de Janeiro, UFRJ/MinC-Iphan, 2000). Esta postura contribuiu para marcar o SPHAN com um estigma que visava desmerecer o produto da sua ação, que estaria limitada ao cultivo das obras excepcionais das elites dirigentes.
36
ANDRADE, Mario de. Cartas de Trabalho, correspondência com Rodrigo Melo Franco de Andrade (1936-
Desde o início de suas atividades no Estado de São Paulo, tem o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional encontrado, entre as peças recenseadas no planalto, um tipo de residência rural que várias razões induzem a considerar como solução arquitetônica típica para os fazendeiros abastados do século XVII, naquela região. De fato, a experiência de vários anos de pesquisas, além de acusar para os exemplares desse tipo de construção uma identidade de época, técnica e funcionamento, não ofereceu base para qualquer argumento razoável, contrário a esta hipótese37.
Após as primeiras décadas do século XVIII, as mudanças do modo de vida do paulista teriam interferido negativamente na pureza do conceito, o que o levou a classificar os exemplares em dois grupos, o dos exemplares "puros" nitidamente seiscentistas onde todas as constantes estavam presentes; e o dos exemplares tardios, nos quais a ausência de algumas constantes refletiriam a degeneração do sistema social e econômico consolidado38. Nestes exemplares mais tardios surge outro alpendre posterior, destinado a afazeres domésticos e às refeições, enquanto o fronteiro se destinava à recepção social ou às refeições dos hóspedes.
A explicação proposta por Luís Saia indica fatores de ordem cultural e mesmo