A finalidade do presente tópico consiste em sistematizar as regularidades e transformações observadas no dizer do sujeito enunciador de nossa pesquisa, tendo em vista que consideramos um período que abrange seus dois mandatos presidenciais, de 2003 a 2010, no decurso do qual, constatamos significativas mudanças em sua fala pública ao longo desse recorte de tempo.
Inicialmente, ressaltamos que Lula faz pronunciamentos nos quatro primeiros anos de mandato, no Dia do Trabalhador. Nos três primeiros anos do segundo mandato, não
Atribuímos esta mudança a uma ampliação da gama de interlocutores: a saudação do presidente se dá de forma mais generalizada, “amigos e amigas”, embora delimite “companheiros trabalhadores”, transmitindo sua própria percepção de que se dirige a um público mais extenso, como de fato é o público de um pronunciamento transmitido por rádio e tevê -público invisível, que pode ouvir e ver o sujeito enunciador, mas com quem este sujeito não poderá interagir naquela instância enunciativa.
Houve pronunciamento para o Primeiro de Maio de 2010, em cadeia nacional de rádio e tevê, porém esta declaração não integra nosso corpus, visto que não fora publicada no site oficial da Presidência da República. Neste pronunciamento, não há qualquer manifestação acerca da carreira como dirigente sindical. Ver em:
faz declarações, mas envia o então Ministro do Trabalho, Carlos Lupi, em 2008, aos eventos das centrais sindicais aliadas. Por fim, em 2010, participa das comemorações de Primeiro de Maio de quatro centrais sindicais e da comemoração realizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, além de fazer pronunciamento com transmissão por rádio e tevê.
Nos dois primeiros pronunciamentos do presidente Luís Inácio Lula da Silva a trabalhadores em Primeiro de Maio, nos anos de 2003 e 2004, ambos acontecidos na tradicional missa dos trabalhadores, se dá uma legitimação por referências a sujeitos políticos presentes e a memórias atualizadas acerca de sua trajetória política de líder sindicalista, tendo como objeto legitimado o dizer sobre a reafirmação de promessas de campanha e anúncios de supostas ações de governo. Observamos a manifestação sobre a proximidade do PT coma Igreja Católica e a memória sobre a repressão policial aos movimentos grevistas do ABC paulista. Lula fala do presidente da República como se fosse um outro, uma quarta-pessoa discursiva.Afasta-se da posição daquele que cobra do governo, já que assume o governo. E, por fim, coloca no futuro as aspirações de uma “vida de sonho” para o país. O pronunciamento de 2005 na Missa dos Trabalhadores traz as mesmas características.
Também em 2005, o sujeito faz declaração veiculada por rádio e tevê. Neste pronunciamento, ocorrem mudanças significativas no dizer do presidente: não há nomeação de pessoas e o presidente exterioriza-se com relação ao trabalhador para logo em seguida reinserir-se discursivamente no grupo. Emergem críticas dirigidas a governantes antecessores, não aos cargos ou funções ocupadas por eles, característica própria do discurso político predominante no regime de democracia representativa. Mais uma vez, reaparece uma história de “sindicalista combativo”, que lhe autoriza a enunciar para os trabalhadores. O sujeito faz exposição de um saber-fazer agregado a supostas dificuldades sociais enfrentadas pelo presidente, ao mesmo tempo em que anuncia supostos feitos seguidos de justificativas para metas abaixo de uma provável expectativa dos eleitores. Reincide o enunciado sobre um futuro promissor.
Os anos de 2005 e 2006 têm em comum o fato de que o presidente Lula faz pronunciamentos em cadeia nacional por rádio e tevê. Tais pronunciamentos são bastante marcados por informes de supostos feitos do governo e pelo apagamento da memória acerca de sua prisão nos anos 80 em São Bernardo do Campo. Particularmente, 2006 é ano de campanha eleitoral, quando o presidente submete sua candidatura à reeleição. Em transmissão
por rádio e tevê, tem-se um público ainda mais heterogêneo de alocutores, com os quais não se tem contato visual, não há palanque, nem altar de igreja, sendo que somente os interlocutores tem acesso áudio-visual ao sujeito que enuncia. Nestas circunstâncias, a enunciação do sujeito se torna mais direta e genérica.
No ano de 2007, não houve pronunciamento. Em 2008, houve pronunciamento relativo ao lançamento da carteira de trabalho informatizada e do cartão de identificação do trabalhador, no dia 30 de abril daquele ano. O presidente então justificou sua ausência nos atos: “fui convidado para ir nos três 1º de maio e eu não posso ir a nenhum porque não dá para ir nos três e eu não posso privilegiar uma Central. De qualquer forma, Lupi, fale bem de mim no palanque” (Luís Inácio Lula da Silva, palácio do Planalto, 30/04/2008).
Em 2009, também não houve pronunciamento acerca do 1º de maio. Em 2010, Lula, acompanhado da candidata à presidência Dilma Rousseff, compareceu a atos organizados pelas Centrais, CUT (Central Única dos Trabalhadores, dirigida pelo Partido dos Trabalhadores), CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, dirigida pelo Partido Comunista do Brasil) e Força Sindical e CGTB (Central Geral de Trabalhadores do Brasil). Todas as referidas organizações são dirigidas por partidos aliados ao governo petista. O presidente volta ainda a São Bernardo do Campo, também com a candidata à presidência.
Como regularidade nos pronunciamentos selecionados para esta pesquisa, constatamos a construção de identidade de trabalhador no dizer do presidente. De 2003 a 2010, ocorre a repetição de que Lula é um trabalhador, a encarnação dos trabalhadores no poder. Este enunciado é mais evidente em declarações feitas em palanque, quando o sujeito enunciador deposita maior ênfase nesta construção. Contudo, nos pronunciamentos em rádio e tevê, também observamos a retomada deste discurso, embora de modo mais conciso e contido. Nas declarações transmitidas em cadeia nacional, o sujeito tende a identificar-se mais ao papel social ocupado por meio de anúncios de supostos feitos do governo e promessas de um futuro melhor.
Constatamos que, em suas primeiras declarações em Primeiro de Maio como presidente, Lula utiliza-se da quarta-pessoa discursiva para referir-se a si mesmo como sujeito político presidente, enunciando “o presidente” ou “o governo” em vez de utilizar-se da primeira pessoa do singular para tal dizer. A partir de 2005, em seu pronunciamento em cadeia nacional, Lula começa a inscrever-se discursivamente na forma-sujeito correspondente ao papel exercido, utilizando-se de verbos em primeira pessoa para tratar de assuntos
governamentais. Em contrapartida, quando se insere no lugar de presidente, reforça ainda mais a construção de uma relação de proximidade com o trabalhador.
Por fim, no conjunto das sequências selecionadas, pudemos observar traços característicos do discurso político contemporâneo, tais como memória de curta duração, manifestação de formulações sincréticas e concisas, dialógicas, conversacionais e desierarquizantes, e utilização de modalidades enunciativas personalizadas e ritmos dinâmicos em sua transmissão (PIOVEZANI, 2009, p. 349).
Em resumo, como demonstrativo de cada um destes traços, apresentamos o seguinte quadro:
1) Memória de curta duração: a retomada discursiva de um acontecimento histórico mais distante diz respeito à citação das greves do ABC paulista, não por acaso, já que fora protagonizado pelo próprio presidente, veiculado nos principais meios de comunicação do Brasil. Silenciadas outras greves que antecederam aquela do ABC paulista, como a greve dos bancários de 1935; a greve dos 300 mil em São Paulo de 1953; a greve da Paridade dos trabalhadores em transportes de 1960; a greve dos Metalúrgicos de Contagem e Osasco de 1968, dentre outras (MATTOS, 2003, p. 73-75). Tantos movimentos de luta e resistência política de trabalhadores por todo o país são apagados em função da retomada discursiva do acontecimento da greve do ABC, cujo principal dirigente foi o próprio. Ou eles passaram a ter consciência política somente após a entrada de Lula na vida política? Inclusive, como pudemos notar, a memória relatada restringe-se àquela de que o presidente dirigia as greves, em detrimento da memória daqueles que o viam como “traidor”, devido às negociações daquele dirigente com os empresários.
2) Manifestação de formulações sincréticas e concisas são mais observáveis em pronunciamentos veiculados por rádio e tevê, quando o presidente agrega todos os sentidos em circulação sobre sua trajetória política como dirigente na formulação “como ex-líder sindical”, por exemplo. Formulações dialógicas, conversacionais e desierarquizantes emergem tanto em tevê quanto no palanque, principalmente quando o presidente atribui o seu governo aos trabalhadores, colocando-se como um igual a seus interlocutores, retirando de si a responsabilidade política pela gestão do Estado.
3) As modalidades enunciativas personalizadas se fazem presentes quando interpela a seus interlocutores como “companheiros trabalhadores”, além da ausência de marca de hierarquia, especifica o público a quem destina seu dizer.
4) No que diz respeito aos ritmos dinâmicos em transmissão, percebemos também diferenças entre os pronunciamentos proferidos em palanque e em cadeia nacional: em palanque, o presidente tende a demorar-se mais nas considerações sobre sua trajetória política para adentrar os assuntos do governo; em rádio e tevê, como já afirmamos, as declarações são mais diretas, com marcas de legitimação mais precisas.
Por fim, avaliamos que o sujeito político Lula, assim como lançamos em nossas hipóteses de pesquisa, constrói uma identidade de trabalhador para dirigir-se a trabalhadores, sendo que, mesmo quando se identifica ao papel social de presidente, apresenta-se como o presidente que conhece as mazelas dos trabalhadores, é próximo aos trabalhadores e, em decorrência destas qualidades, já foi autorizado a falar em seu nome, passando a falar para eles.