A necessidade de inversão do paradigma de desenvolvimento vigente, a conclusão de que essa mudança se deveria começar por realizar a partir dos centros urbanos e a inexistência de um modelo de planeamento, a nível local, capaz de viabilizar na prática essa mesma inversão, conduziu à criação e elaboração de um novo modelo de planeamento, o Planeamento Urbano Sustentável.
De facto, para Amado (2002) o processo do Planeamento Urbano Sustentável constitui o principal modo de atuação e resolução dos problemas gerados no seio das cidades, a partir dos quais devem ser colocadas em prática os pressupostos teóricos do modelo de desenvolvimento sustentável. Deste modo, o modelo assenta numa lógica operacional de racionalização de todos os recursos naturais locais, considerando-os e aproveitando-os de forma responsável ao longo de todo o processo. Os agentes bioclimáticos são então considerados como um dos fatores condicionantes de todo o processo, em especial no desenho das formas urbanas, e um importante veículo com o qual se pretende alcançar um desenvolvimento urbano sustentável. O novo processo operativo de planeamento urbano (Fig. 2.17) encontra-se assim estruturado para que seja possível, nas mais variadas etapas, estruturar o planeamento urbano em torno dos recursos naturais locais, sendo constituído por uma metodologia sequencial e assente num conjunto de quatro etapas.
A primeira etapa consiste no delinear dos objetivos da intervenção a realizar. Nesta fase definem-se os objetivos e estratégias de sustentabilidade, que posteriormente serão utilizados pelo processo em si e implementados na fase de conceção. Esta etapa é bastante importante pois tem como principal objetivo a satisfação das necessidades das populações, no presente e no futuro, possibilitando as gerações futuras de usufruírem do resultado deste processo, ou no caso de necessidade de alteração, não se encontrarem impossibilitados de o fazer por ausência ou falência de recursos. Assim, devem ser respeitados os limites de carga que o ambiente local proporciona -tanto a nível local como a nível regional. O respeito por estes limites e pelas premissas de um desenvolvimento urbano sustentável deve ser integrado nas linhas orientadoras de todo o processo de planeamento, tendo em vista a obtenção de um meio urbano responsável e adequado às demais condicionantes locais.
A segunda etapa é constituída por uma análise local, tendo em conta os três pilares do desenvolvimento sustentável: o pilar ambiental, económico e social, devendo o levantamento de dados configuradores das condições locais ser realizado, quer ao nível da localidade em estudo, quer ao nível da sua área envolvente. Segundo o autor, deve ser igualmente considerada a participação da sociedade civil local, já que a mesma pode, fornecer dados detalhados e precisos acerca da realidade territorial sobre a qual se vai operar.
A análise ambiental visa o levantamento dos valores ambientais, salientando o maior número de aspetos positivos e negativos existentes e definindo orientações a seguir na etapa seguinte do processo operativo. Segundo Amado (2002), alguns dos indicadores a analisar (Quadro 2.4) são:
Quadro 2.4 – Indicadores ambientais (Amado, 2002)
Meio Físico Biodiversidade
Uso do solo antes e após a
intervenção Clima e qualidade do ar
Espaços Naturais Gestão de Recursos
A definição da orientação e do local de implantação de edifícios, da rede viária, das zonas verdes e do acesso aos demais recursos hídricos, são alguns dos parâmetros que podem ser definidos através do estudo às condicionantes e potencialidades do sistema natural recetor. Estes estudos de carácter ambiental visam a integração da componente ambiental no planeamento urbano, assim como visam estimular a construção de soluções alternativas.
A análise social resulta da necessidade que o processo de planeamento urbano tem em conhecer as características da envolvente à área de atuação, de modo a que se possa facilitar o processo de integração com a comunidade local. Aspetos como a pirâmide etária, a cultura e o património histórico edificado, as diversas classes sociais, a criminalidade, a mobilidade, o levantamento de expectativas da população, entre outros, são aspetos a serem levantados - quer seja através de dados estatísticos, quer seja por amostragem de dados recolhidos junto da população local - aquando desta etapa e que terão relevância significativa na definição da localização e dimensão das mais variadas estruturas urbanas durante a fase de desenho urbano, nomeadamente das estruturas referentes aos equipamentos públicos.
Na análise económica, a informação a ser recolhida e a ser analisada passa pelo emprego existente na área envolvente e na região, pelo tipo e dimensão dos demais sectores de atividade, pelo nível de formação que esses sectores das atividades necessitam e por uma análise populacional. Esta informação é de elevada relevância no sentido de informar sobre a quantidade e dimensão dos espaços destinados aos sectores da atividade, aos tipos de vias e acessos e à quantidade e dimensão dos lotes destinados ao setor terciário.
A terceira etapa consiste na conceção do plano, transformando os pressupostos teóricos em realidade física através da utilização do potencial físico do território constatado na etapa anterior. A fase de conceção tem associada a si a tomada de decisões e a correlação e coordenação de uma equipa pluridisciplinar, visando, por um lado, cumprir o objetivo da intervenção e, por outro, garantir o enquadramento do projeto na política do desenvolvimento sustentável. Esta etapa é a mais relevante no que diz respeito ao desenho urbano - localização de equipamentos e espaços livres, traçado da rede viária e implantação dos lotes -, contendo a solução da proposta e sendo igualmente necessário proceder a uma estruturação por ponderação dos dados recolhidos e já trabalhados. A ponderação a atribuir a cada dado é determinada pela equipa projetista, a qual deve ter a capacidade técnica para analisar e trabalhar os diferentes problemas e dar o seu contributo para o conhecimento das suas inter-relações.
Num modelo de planeamento urbano que se pretende sustentável, deve ser considerada a participação pública - nomeadamente a dos cidadãos dos meios urbanos – como elemento fundamental no processo de ordenamento do território e na definição de estratégias de promoção da qualidade ambiental, uma vez que estes se encontram em contacto direto com a realidade antes, durante e após a transformação urbanística do território. Deste modo, a participação pública nesta fase é de extrema relevância, participação essa que ocorrerá após a elaboração da proposta, de modo a aumentar a transparência do processo e assim informar a sociedade civil sobre a decisão tomada.
Ao longo desta terceira etapa, e devido à integração de agentes bioclimáticos e ao progresso tecnológico, deve igualmente ser considerada uma sub-etapa em torno da simulação do comportamento da solução proposta e a sua posterior avaliação. Esta etapa configura-se como um importante elemento de apoio nas tomadas de decisão, podendo fornecer informações complementares sobre o plano proposto.
A última e quarta etapa é a etapa de implementação da proposta, na qual se garante o cumprimento dos objetivos definidos no projeto, bem como o respeito pelos princípios estratégicos do desenvolvimento sustentável. A etapa é composta pela definição e elaboração de fichas de implementação, que asseguram a execução de todas as ações definidas e previstas nas fases anteriores. Estas fichas têm como principal característica serem elementos reguladores que
garantem a correta operacionalidade e eficiente implementação das soluções que constituem o cerne da proposta. Por último, é de referir a existência de uma etapa de monitorização com o propósito de avaliar a dimensão dos impactos realizados pela transformação física da realidade existente do território. A figura seguinte permite uma visualização da metodologia proposta pelo autor.
Figura 2.17 – Estrutura do processo de Planeamento Urbano Sustentável (Amado, 2002)