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A Genealogia da Moral é talvez a obra onde Nietzsche explora essas questões com maior densidade ao analisar as três manifestações psicológicas do niilismo: o ressentimento, a

má-consciência e o ideal ascético. Nos três exames empreendidos, além de descortinar o

terreno humano, demasiado humano das metanarrativas morais da tradição, o filósofo exibe a tensão experimentada em configurações da vida, cujo traço paradoxal consiste na atitude de completa negação daquela. Essa tese é suportada pela conjectura histórico-filológica da preexistência de condições de avaliação e produção de valores de uma “humanidade antiga”51. Evidentemente, Nietzsche não foge à premissa da recuperação interpretativa desse período ao qual consagra a existência de uma tipologia humana caracterizada pela auto-afirmação e força como traços psicológicos, gozadora de poderosa condição sociopolítica. A ‘altiva estirpe senhorial’ pode reputar-se um paradigma nietzschiano em dois aspectos: é o modelo de ethos

50 AZAREDO, Vânia Dutra de. Nietzsche e a dissolução da moral. 2 ed. São Paulo: Editora Unijuí, 2003. p. 93. 51 KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 265 (GM. p. 24, I § 6.).

posto como contraponto às morais da negação e, ao mesmo tempo, possibilita a crítica à moral como crítica genealógica ao projeto civilizatório ocidental.

Com efeito, o ressentimento seria a primeira expressão da negação, e logo, a forma psíquica e histórica com a qual o referido paradoxo inicialmente tomou corpo. Eclode da reviravolta dos valores aristocráticos (instituintes da moral de senhores) realizada pelos judeus, como mola propulsora da primeira transvaloração de valores52, e estratégia psíquica de deslocamento para uma moral de escravos: “a revolta dos escravos na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador [schöpferisch] e dá origem a valores”53. Por seu intermédio, a vida cria sentido ao negar o outro, sendo o processo dessa geração propriamente uma inversão:

enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um ‘fora’, um ‘outro’, um ‘não-eu’ – e este não é o seu ato criador [schöpferisch That]. Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação54.

Segunda expressão da negação, a má-consciência deve sua origem a um duplo registro: à primitiva relação credor-devedor, forjadora da noção moral de culpa em decorrência da ideia material de dívida; e à passagem do homem para a vida gregária, inevitavelmente inibindo o afloramento de seus instintos. Nossa inscrição social está na base desta “doença” – afirma Nietzsche – “que o homem teve de contrair sob a pressão da mais radical das mudanças que viveu – a mudança que sobreveio quando ele se viu definitivamente

52 Cf. Além do Bem e do Mal § 195; Genealogia da Moral I § 7. 53

KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 270, I § 10. Grifo do autor. Der Sklavenaufstand in der Moral beginnt

damit, dass das R e s s e n t i m e n t selbst schöpferisch wird und Wether gebiert. Na tradução de Paulo César

de Souza, curiosamente não há o destaque encontrado na Kritische Studienausgabe com relação ao termo ressentimento. Por conta disso, optamos em fazer a tradução.

54 KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 270/271 (GM. p. 29, I § 10.). Em Nietzsche e a Filosofia, Gilles

Deleuze apresenta a dinâmica do ressentimento sob forma de silogismo: “as aves de rapina são más (quer dizer, as aves de rapina são todas elas más, os maus são as aves de rapina); ora, eu sou o contrário de uma ave de rapina; portanto eu sou bom”; tal raciocínio, segundo ele, repousa num paralogismo que assegura uma neutralização das forças ativas e afirmativas por intermédio do recurso ilusório transposto na seguinte fórmula: “a ficção de uma força separada daquilo que ela pode” (DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Ibidem. p. 184. Grifo do autor.). O ressentimento, cingindo a força de seus efeitos, consolida a imagem da lógica da causalidade e, por sua vez, de uma substância (ou sujeito) como força motriz que pode ser culpabilizado, que perdurará na tradição filosófica ocidental (seja o átomo epicurista, a res cogitans cartesiana ou a coisa em si kantiana). A urgência hebraica em não definhar enquanto povo (o que equivale a dizer, enquanto configuração da vida) torna compreensível esse estratagema de subversão da posição ocupada pelos senhores; e mais, desde o início, isso não é feito senão com o apoio ilusionístico de um outro mundo que paulatinamente vai ganhando terreno: “o instinto de ressentimento inventa outro mundo, um mundo a partir do qual a afirmação da vida apareceria como um mal, como algo reprovável” (MOURA, Carlos A. R. Nietzsche: civilização e cultura. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 134/135.).

encerrado no âmbito da sociedade e da paz”55. Ela é fruto de um violento trabalho de autoflagelamento, de negação do Selbst (corpo, multiplicidade de impulsos em luta), posto nos seguintes termos: é próprio dos instintos o exteriorizar-se; mas, com o deslocamento da vida animal para a social, e a conseqüente amarração dos costumes, tais instintos são revertidos para dentro do homem, voltando-se contra ele. Porém, este processo, embora negativo, é igualmente criativo, porquanto condizente à atividade mesma da vida como vontade de poder:

no fundo é a mesma força ativa, que age grandiosamente naqueles organizadores e artistas da violência e constrói Estados, que aqui, interiormente, em escala menor e mais mesquinha, dirigida para trás, no ‘labirinto do peito’, como diz Goethe, cria [schafft] a má consciência e constrói ideais negativos, é aquele mesmo instinto de liberdade (na minha linguagem: a vontade de poder)56.

Cume da “primeira psicologia do sacerdote”57, o ideal ascético é a expressão desesperada de uma forma de vida que definha, meio com o qual visa conservar-se. Os sacerdotes ascéticos, figuras prototípicas dessa conformação emasculada da vida e fontes donde dimana o referido ideal, valoram com o artifício de uma outra vida, confrontando-o com a vida em sua incomensurável totalidade:

esta (juntamente com aquilo a que pertence, ‘natureza’, ‘mundo’, toda a esfera do vir a ser e da transitoriedade) é por eles colocada em relação com uma existência inteiramente outra, a qual exclui e à qual se opõe, a menos que se volte contra si mesma, que negue a si mesma: neste caso, o caso de uma vida ascética, a vida vale como uma ponte para essa outra existência58.

Arrebanhadores, os ascetas estão persuadidos da existência como erro, e tão logo acabam por persuadir os outros, exigindo que os sigam e assumam tal valoração acerca da mesma. A automutilação da má-consciência encontra sua justificação última nesse ideal, bem como o ressentimento, redirecionado para o interior do homem pelo sacerdote, na medida em

55 KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 321/322 (GM. p. 72, II § 16.).

56 KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 325/326 (GM. p. 76, II § 18. Grifo do autor.). Nietzsche considera essa

interiorização do homem a patologia mais fatídica até então havida sobre a Terra, cuja imponderável

profundidade a transformou radicalmente. Da mesma forma, entende que a mudança para a vida gregária não ocorreu paulatinamente, mas, deu-se na condição de ruptura, pela mais extrema violência e automutilação: o movimento brusco de inserção de uma população desprovida de quaisquer freios normativos em uma organização estabilizada, imposta pela força e inteligência de indivíduos de caráter senhoril, ‘construtores de Estados’. Segue-se daí uma genealogia nietzschiana do Estado, de feição anti-contratualista.

57 KSA 6, Ecce Homo. p. 353 (EH. p. 98 – Genealogia da moral.). Esta designação compreende as três

dissertações de Genealogia da Moral, reputadas por Nietzsche preambulares à transvaloração dos valores.

que é convencido por este a acreditar-se culpado de seus infortúnios59. Negação equivale à debilitação da vitalidade fisiológica, contradição hipoteticamente depreendida por Nietzsche como intrínseca à vida: “aqui domina um ressentimento ímpar, aquele de um insaciado instinto e vontade de poder que deseja senhorear-se, não de algo da vida, mas da vida mesma, de suas condições maiores, mais profundas e fundamentais”60. Nesse sentido, tal ideal não passa de uma invenção criada por uma vida que, decaída, luta contra a morte sustentando-se na ânsia ascética de outra vida, seja qual for (paraíso, nirvana, bem estar social, democracia, comunismo).

Contudo, a nuança nietzschiana no trato do asceta enuncia sua incontornável condição: ele é, concomitantemente, negador e afirmador. Nega, posto que almeja além- mundos os quais cria em detrimento deste. Entretanto, mesmo em vista de além-mundos, afirma, à medida que institui circunstâncias favoráveis à manutenção do modelo existencial doentio, garantidor do acesso àqueles. Nas palavras do filósofo, “este sacerdote ascético, este aparente inimigo da vida, este negador – ele exatamente está entre as grandes potências

conservadoras e afirmadoras da vida...”61. Ao criar hiperurânios e tutelas transmundanas nada mais faz o sacerdote que exprimir uma vontade de poder ou uma vida que intumescida pela negação, cria, edifica valores e concepções.

A cisma nietzschiana inscrita na fórmula ascética ‘vida contra vida’, reputada um disparate em termos fisiológicos, é sugerida como apenas aparente, pois esconde justamente o anseio dessa conformação da vida em lutar contra sua própria morte62. Deste modo, a moral (à

59 Cf. Genealogia da Moral, III § 15. 60

KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 363 (GM. p. 107, III § 11. Grifo do autor.).

61 KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 366 (GM. p. 110, III § 13. Grifo do autor.). Dieser asketische Preister,

dieser anscheinende Feind des Lebens, dieser V e r n e i e n d e, – er gerade gehört zu den ganz grossen c o n s e r v i r e n d e n und Ja - s c h a f f e n – den Gewalten des Lebens... Paulo César de Souza traduz a expressão Ja – schaffen pelo adjetivo ‘afirmadoras’, na caracterização nietzschiana das potências configuradoras do

sacerdote asceta. A tradução não esgota, conforme pensamos, as possibilidades semânticas designadas por Ja -

schaffen no contexto reflexivo. Sobremaneira, ela parece indicar um nexo fundamental entre afirmação (aduzido

pelo Ja) e criação (transposto em schaffen), subentendido até mesmo no modo de atuação do sacerdote asceta, exemplo lapidar da superfluidade dicotômica entre negação e afirmação no tocante à atividade da vontade de poder, confundida por Nietzsche com a própria vida. Compreendemos com isso uma espécie de defesa nietzschiana do caráter indistinto entre afirmar e negar, e por sua vez, entre criar e destruir, o qual, por meio da figura tipológica do padre asceta obtém a imagem mais representativa: “o Não que ele diz à vida traz à luz, como por mágica, uma profusão de Sins mais delicados; sim, quando ele se fere, esse mestre da destruição, da autodestruição – é a própria ferida que em seguida o faz viver...” (KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 367 [GM. p. 111, III § 13. Grifo do autor.]). Também nesse sentido, “o criar, no entanto, caracteriza Nietzsche e suas personagens tanto ou mais do que o confrontar, pois coube-lhe redimensionar o não ao dar-lhe a contrapartida imediata do sim” (AZEREDO, Vânia Dutra de. Nietzsche e a aurora de uma nova ética. São Paulo: Editora Unijuí, 2008. p. 120. Grifo nosso.).

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Não obstante recorra à palavra aparência, típica da atmosfera lógica da metafísica clássica, para caracterizar a contradição do ideal ascético como interpretação psicológica, Nietzsche a pensa desde uma perspectiva epifenomênica segundo a qual o psicológico é meramente uma extensão do fisiológico. Nessa direção, haveria tão-somente uma diferença entre profundidade e superfície, entre as efígies da linguagem e acaso dos impulsos,

sombra de ideais ascéticos) é produto de uma vida decadente que, visando garantir sua continuidade, nega torrencialmente o processo vital; mas também é produto e parte inexorável da dynamis possibilitadora de manifestações vitais fatalmente afirmativas. Afigura-se-nos, diante do até então discutido, a seguinte hipótese: o conceito chave para compreender o vínculo das três formas de niilismo com os processos de criação na genealogia da moral é o conceito de alteridade. Por intermédio dele torna-se compreensível a contranatureza da moralidade, bem como a exigência nietzschiana em realizar a sua assepsia.

Se o escravo ressentido cria ao negar a alteridade do senhor, do nobre (o outro como interpelador externo pessoalizado), invertendo valores; se o indivíduo alimentador da má- consciência cria ao negar o outro (ou os outros) de si mesmo (o outro como interpelador interno), negando-se a si mesmo; e, por fim, se o sacerdote ascético cria ao negar a totalidade do devir ou a vida mesma (o outro como totalidade interpeladora externo-interna pessoalizada e despessoalizada), somente uma criação necessária e integralmente afirmadora da vida pode ser considerada fomentadora e espelhadora de um ethos pensado a partir de Nietzsche. Para tanto, a higienização da moral encampada pelas páginas da Genealogia ganha ares de desconstrução do ideal ascético, alicerce não apenas das morais deturpadoras da existência, mas, inclusive, das instituições que constituiriam a derradeira salvaguarda da crítica (a filosofia e ciência modernas).

Procedimento genealógico institui-se não somente como atestação da ‘humana’ condição dos valores, mas, principalmente, como possibilitação, legitimação (abertura) e reconhecimento (ou afirmação) de um modo de ser outro (um ethos) do humano que se sabe ‘colocador’ de valores a partir da vida. No horizonte em voga, moral e ética se excluiriam? É possível evocar esta terminologia quando tratamos com o pensamento nietzschiano, notadamente inscrito na contracorrente do movimento inaugurado pela tradição ética socrático-platônica? Dimensionar a justificação das ações morais na imanência psicofisiológica e histórica dos valores consiste igualmente em viabilizar outra autopercepção do homem e, por sua vez, outra compreensão do ethos.

como propala Vânia Dutra de Azeredo, asseverando que “com relação à superfície, trata-se, para o filósofo, de tornar comum, através da fala, os estados vivenciados. Por profundidade, ele entende os processos indeterminados, desconhecidos, inapreensíveis, que se passam na luta entre aquilo que ele denomina de impulso, força ou vontade de potência” (AZEREDO, Vânia Dutra de. Nietzsche e a aurora de uma nova ética. Op. cit. p. 243.). Em acréscimo à visão da autora, entendemos que Nietzsche, ao afirmar o ideal ascético como filho de uma vida degenerada que aspira conservar-se, de certo modo, interpreta a dinâmica do acontecer tanto naquilo que reconhece como superficial quanto profundo, designando-os, e, portanto, dizendo igualmente o âmbito do que a autora julga indesignável porque inapreensível. Sabe-se que, em Nietzsche, todo dizer, todo tornar linguagem para fins de comunicação, é já interpretar sob a ótica de uma determinada conformação da vida. Assim sendo, o ideal ascético é a narrativa superficial de um profundo instinto de preservação de uma forma de vida

Benzer Belgeler