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Os arabismos portugueses são abordados em obras consideradas fundamentais, publicadas antes do advento da Lingüística Moderna, cuja proposta de abordagem científica da linguagem proporcionou avanços teóricos e metodológicos nas investigações, cabendo, portanto, uma revisão dessa literatura, inclusive dos sistemas de transcrição ou de transliteração usados à época da sua elaboração e publicação, como veremos mais adiante, na seção 2.2.4 (CORRIENTE, 1996, p. 02, 03; QUINSAT, 2005, p. 03-04).

A primeira incursão no assunto verifica-se em fins do século XVIII, no contexto da reforma pombalina e do início do estudo de línguas orientais (hebraico, árabe e siríaco) no Convento de Jesus da Ordem Terceira, em Lisboa, com a finalidade de se traduzir com maior segurança o Antigo Testamento (MACHADO, 1997, p. 125-126).

Deve-se ao Fr. João de Sousa, natural de Damasco, que chega a Lisboa por volta de 1750, exerce a docência de língua árabe na Universidade de Coimbra a partir de 1758, mas volta a Lisboa, passando a acompanhar representantes do governo em viagens a cortes norte- africanas - no reino do Marrocos, com partida em 1773, e da Argélia, de 1786 a 1796. É sócio-correspondente da Academia Real das Ciências e, com a oficialização por decreto régio, em 1795, das aulas de língua árabe do Convento de Jesus da Ordem Terceira, assume, neste, o cargo de professor, que exerce até o seu falecimento, em 1812 (MACHADO, 1997, p. 128- 131).

A sua obra Vestígios da Lingua Arabica em Portugal ou Lexikon Etymologico das

Palavras e Nomes Portuguezes, que Tem Origem Arabica, publicada em 1789, traz uma breve

história do influxo árabe na língua portuguesa e dos estudos até então realizados referentes ao tema, a que segue uma explicação sobre a presença do artigo árabe al nas palavras portuguesas. Trata, além do léxico, de topônimos, cujo estudo apresenta problemas, seja pelas

dificuldades encontradas no próprio tema – pela mudança do sentido original verificada na(s) palavra(s) que os compõe(m) e pela vitalidade dos topônimos, fatos estes que demandam maior quantidade de documentos como fonte de pesquisa, prudência nas correlações estabelecidas e muita prática de investigação linguística –, seja pelas fontes nas quais o Fr. João de Sousa se fundamentou. O tratamento dado ao léxico, na referida obra, se hoje requer leitura cautelosa e contextualizada na época da sua publicação, foi importante nos aspectos histórico, informativo e técnico, tendo sido considerado, por especialistas de renome na área, como o são Engelmann e Dozy, superior ao de obras congêneres. David Lopes, entretanto, critica a etimologia dos vocábulos apresentada pelo Fr. João de Sousa, que considera “fraca”, até mesmo “ridícula” (MACHADO, 1997, p. 133, 142; LOPES apud MACHADO, 1958, p. 10).

Em 1830, a obra do Fr. João de Sousa conhece uma segunda edição, comentada e ampliada por um antigo aluno de língua árabe do Convento de Jesus da Ordem Terceira: José de Santo Antônio Moura. Este, que, diferentemente do mestre, se dedica antes à tradução com vistas à divulgação de documentos árabes, principalmente de natureza histórica, já trabalha, em 1795, como professor substituto da disciplina de língua árabe no referido convento e sucede o antigo professor no cargo público de Oficial Intérprete da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, que exerce até 1840, quando falece.

Avanços teóricos e metodológicos nos estudos da linguagem, à época, não permitem a José de Santo Antônio Moura expurgar a referida obra dos equívocos que traz (MACHADO, 1997, p. 130-131, 133-135), compreendendo que a fase inaugural da Lingüística Científica não contempla aspectos relacionados especificamente ao contato de línguas e à língua árabe, surgindo estudos como o de Hermann Paul (1988) nos últimos anos do século XIX.

Mais e meio século depois, destaca-se David Lopes como historiador – dos muçulmanos na Península Ibérica e dos portugueses no Norte da África – e como lingüista. No campo dos estudos da linguagem, envereda, sobretudo, pela toponímia portuguesa de origem árabe, abordando o léxico comum apenas em Cousas arábico-Portuguesas: Algumas

Etimologias e Alguns Vocábulos Portugueses de Natureza Religiosa, Étnica e Lexicológica.

Publica, ainda, um tratado de fonética, o Trois Faits de Phonétique Historique Arábico-

Hispanique (1906), cujas explicações, dentre as quais a evolução do latim Tagus para o

português Tejo, são, hoje, clássicas. Infelizmente, falece antes de concluir a obra Os Árabes

na Língua e na História de Portugal, para a qual buscara dados inclusive em Paris e em

Mais recentemente, José Pedro Machado publicou Ensaios Arábico-Portugueses (1997), compilação de artigos sobre o tema, escritos entre os anos de 1959 e 1995, alguns dos quais revistos à época da publicação, mas originalmente escritos nos anos 40 do século XX. A obra traz índice remissivo dos assuntos e vocábulos analisados pelo autor, que ainda remete os interessados em arabismos a outras três obras suas, Comentários Sobre Alguns Arabismos do

Dicionário de Nascentes (1940), Influência Arábica no Vocabulário Português (1958) e Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1952).

Em Influência Arábica no Vocabulário Português, importante obra publicada em 02 volumes, Machado registra 954 arabismos, dentre nomes comuns, antropônimos e topônimos, cuja apresentação é antecedida por comentários extraídos das primeiras reflexões metalingüísticas sobre a língua portuguesa, trazendo inclusive citações diretas de João de Barros, Fernão de Oliveira e Duarte Nunes de Leão sobre a presença de arabismos na então

lingoaJe(m), além de abordar problemas de transcrição portuguesa do alfabeto arábico

(TEYSSIER, 2001, p. 22, 126; MACHADO, 1958, p. 7-13).

A obra de Miguel Nimer, Influências Orientais na Língua Portuguesa: os

vocábulos arabizados, persas e turcos, originalmente publicada em 1943 (tomo I) e 1944

(tomo II), foi reeditada em 2005 por seu sobrinho, Carlos Augusto Calil, com a colaboração da professora de língua e literatura árabes da USP, Safa Abou-Chahla Jubran. Este livro, cuja reedição levou 04 anos para ficar pronta, trata de vocábulos de várias origens, como hebraica, fenícia, aramaica e siríaca, além da árabe. Traz índice do vocabulário português de origem oriental e textos de filólogos brasileiros publicados em jornais à época da primeira edição da obra (de Serafim da Silva Neto e de Silveira Bueno, por exemplo), além de breve biografia do autor redigida pelo sobrinho-editor.

Caracteriza-se esta obra pela rica abonação textual, pela citação das raízes árabes, em geral trilíteras, e por comentários analíticos que a tornam acessível não apenas aos iniciados nos estudos filológicos (VARGENS, 2006, p. 240). O rigor teórico-metodológico com que procedeu à elaboração do texto se reflete, por exemplo, na transcrição fonética, ao considerar o contexto fônico e estabelecer símbolos diversos para um mesmo grafema, além de se valer da inventividade ao escolher símbolos para o registro de encontros vocálicos, tarefa que não é simples mesmo com os recursos proporcionados pela informática hoje (JUBRAN, 2004, p. 24).

Entretanto, a crítica de José Pedro Machado à primeira edição da obra não é favorável, e abrange teoria e método nesta empregados, como limitação à análise de raízes, falta de indicação de etimologia, aparente desconhecimento de processos de composição e de

derivação em árabe, falta de referência a dialetos árabes e andalusinos envolvidos no processo de transmissão de arabismos à língua portuguesa, análise limitada à comparação da forma portuguesa à correspondente em árabe clássico (MACHADO, 1958, p. 10-12).

Dentre as obras produzidas por nativos de línguas não-ibéricas, encontra-se o

Dictionnaire des Mots Espagnols et Portugais Derivés de l’Arabe, publicado pelo arabista

holandês W. H. Engelmann em 1861, mas cujos compromissos com a Sociedade Bíblica Holandesa o impedem de revisar uma segunda edição, necessária, dada a escassez de estudos a respeito e a receptividade da obra. Esta nova edição viria à luz em 1869.

Cabe a empreitada, assim, a outro erudito holandês, cuja produção se estende pelas áreas da História, Geografia e Lexicologia, mas cujo tema é, no mais das vezes, a presença muçulmana em solo ibérico durante a Idade Média: Reinhart Dozy, nascido em 1820 na cidade holandesa de Leiden, em cuja universidade leciona e onde morre aos 63 anos. Membro de uma família de origem francesa e huguenote, a sua produção acadêmica é geralmente escrita na língua dos seus ancestrais.

O seu profundo conhecimento da língua árabe lhe proporciona o contato direto com fontes primárias muçulmanas, além das cristãs, para obtenção de dados para suas pesquisas e as suas obras possibilitam o conhecimento de muitos aspectos resultantes da convivência intercultural, interétnica, inter-religiosa encetada na Península Ibérica, da qual resultam inevitavelmente conseqüências lingüísticas, para as quais Dozy tampouco deixa de atentar.

Das suas anotações resultam obras lexicológicas sobre a língua árabe – como o

Dictionnaire Détaillé des Noms de Vêtements chez les Arabes (1845) e o Supplément aux Dictionnaires Arabes (que conta com três edições, a última das quais datada de 1967) – e

sobre arabismos peninsulares, a saber, a supracitada revisão – e ampliação – do Dictionnaire de Engelmann, que viu o seu número de páginas triplicar, passando das 137 páginas iniciais para mais de 400, na edição seguinte.

O objeto de estudo da obra de Engelmann-Dozy é, na verdade, o vocabulário espanhol de origem árabe, servindo o português como parâmetro para o influxo lingüístico árabe na Península. Dentre as obras lexicográficas portuguesas consultadas por Dozy figuram as de Morais, Vieira e Viterbo. Apesar de não creditar aos frades João de Sousa, José de Santo Antônio Moura e Raphael Bluteau o mérito de fontes sistematicamente consultadas, estes têm o nome citado em um ou outro verbete. José Pedro Machado levanta a hipótese de Dozy não ter julgado confiável a obra do Fr. João de Sousa, apesar de constituir, até então, a de maior envergadura e importância sobre os arabismos portugueses. Com efeito, Engelmann não

considera confiável a tradução portuguesa da obra de Avicena na qual o Fr. João de Sousa recolheu os arabismos da área da Medicina, os quais não se encontram em outras obras em português e que, portanto, Engelmann julga criações do tradutor, o judeu Xalom de Oliveira (DOZY apud MACHADO, 1958, p. 09-10).

Ao texto de Engelmann, fielmente reproduzido, Dozy acresce o seu, que identifica com asterisco. Dozy se pauta na sua própria etimologia, recorrendo, às vezes, a Diez, Müller e Mahn.

Entretanto, e apesar de toda a sua erudição, a obra apresenta equívocos como: a) o reconhecimento enquanto arabismos de vocábulos que não o são (como o verbo açular e o substantivo papagaio); b) a atribuição de étimo equivocado a vocábulos (alarve resulta da evilução do coletivo al-‘arab, como já mencionara Engelmann, e não de al-‘arabî, como

pensou Dozy); c) o desvio na rota percorrida pelo vocábulo (sultão não vem diretamente do árabe clássico sultān, mas chega à língua espanhola por intermédio do italiano); d) a não

identificação de variantes de formas lexicais (mocadão, que introduziu no Dictionnaire, e

almocadén, já dicionarizado por Engelmann; maravedi, apontado por este, e morábito,

acrescido por Dozy; alfadia e odiá).

Por outro lado, Dozy é muito feliz no tratamento de casos de evolução semântica, graças à minúcia com que procedeu às investigações (como na associação de algoz à tribo turca conhecida por Gozz – termo este designativo também a etnia curda – que contava com prestigiados arqueiros, cujos préstimos, deixando de se fazer úteis, viram-se reduzidos a tão só executar a justiça, levando o vocábulo a assumir a atual acepção portuguesa de ‘carrasco’).

Dozy foi capaz, ainda, de perceber empréstimos – gregos, latinos – difundidos pela língua árabe e a via popular de introdução de inúmeros arabismos peninsulares, enfatizando a importância de se conhecer a pronúncia do árabe andalusino para a correta atribuição de étimos (MACHADO, 1997, p. 232-233, 240-245).

Muito citado é o Glosario Etimológico de las Palabras Españolas de Origen

Oriental, de Leopoldo de Eguílaz y Yanguas, publicado em 1886 e reeditado em 1974. O

orientalista Eguílaz ensinou na Universidade de Granada, na qual introduziu o estudo do sânscrito. Desta obra, caracterizada pelo pioneirismo e pela erudição do século XIX, bem como da de Engelmann-Dozy, ainda é possível recolher dados interessantes, apesar de a fundamentação teórica requerer prudência, por ser desatualizada.

Mencione-se, ainda, o Fr. Pedro de Alcalá, o qual, apesar de suas obras incidirem diretamente sobre a língua árabe de Granada, também merece atenção por ser freqüentemente citado em pesquisas sobre arabismos. Legou-nos a Arte para Ligeramente saber la lengua

arauiga (Granada, 1505), produzida no contexto de conversão forçada e em massa de

muçulmanos remanescentes no Reino de Granada, o que demandava o ensino da doutrina cristã aos mesmos. O arcebispo de Granada, de quem Pedro de Alcalá foi conselheiro e confessor, dirigia-se aos muçulmanos e cristãos-novos em árabe, exigindo o mesmo dos seus sacerdotes. Assim, Pedro de Alcalá propôs-se a lhes facilitar a tarefa, apesar de não ter se dedicado, em sua formação, ao estudo das Letras. Trata-se, portanto, de uma obra de instrução religiosa, precedida de uma gramática, às quais dedica, respectivamente, 54 e 42 páginas (DROST, 2002, p. 01, 02, 07).

Já no Vocabulista Arauigo en Letra Castellana (publicado em volume único com a Arte) constam vocábulos da língua árabe correntemente falada em Granada e arredores. Pautou-se Alcalá em uma compilação de palavras castelhanas realizada por António de Nebrija, a qual adaptou ao árabe. Para isso, contou com a colaboração de sábios alfaquis. O fato de não conhecer a língua árabe, de não ter estudado Letras e de ter contado com a colaboração de muçulmanos na elaboração do dicionário leva a crer que Pedro de Alcalá tenha investido pelo menos os últimos anos da década de 1490 nesta árdua empreitada. Assim, a sua redação seria anterior à da Arte (DROST, 2002, p. 03, 05, 06).

Benzer Belgeler