I. BÖLÜM: HASTA GÜVENLĠĞĠ KÜLTÜRÜ
1.7. TÜRKĠYE’DE HASTA GÜVENLĠĞĠ KÜLTÜRÜ
No capítulo 3, discuti as razões que motivaram a escolha da revista Caros Amigos. Por se tratar de uma leitura alternativa, sugeri que ela apontaria a possibilidade de a semiose
intervir de forma transformadora nas relações de dominação e, concomitantemente, contrastaria com o caráter disciplinador e regulador da revista Veja. Em contraste com os dois textos de Veja, no texto “A complexa guerra do complexado Bush Filho”, da revista Caros
Amigos, há uma explanação em torno das causas e efeitos da guerra. Fairclough (2003a: 94)
esclarece que o contraste entre a lógica explanatória e a lógica de aparências é que a primeira inclui uma elaboração das relações causais entre eventos, práticas e estruturas, e a última não o faz, apenas enumera certas aparências relacionadas a eventos sem referência a práticas e estruturas determinantes desses eventos.
Os dois textos da revista Veja apresentam uma lógica de aparências superficiais sobre a guerra, orientada para obtenção de consenso acerca da necessidade de depor Saddam, ao passo que nesse texto de Caros Amigos encontra-se uma discussão aprofundada sobre as causas envolvidas na decisão de George W. Bush invadir o Iraque, orientada para a compreensão. O gênero principal é a narração e como subgênero figura a argumentação. São doze parágrafos predominantemente narrativos e dez predominantemente argumentativos que compõem uma explanação em torno de causas econômicas e, principalmente, religiosas que motivaram a invasão. A primeira parte narrativa vincula a guerra ao protestantismo americano, que, segundo o jornalista, incorporou a noção calvinista de predestinação, o que faz com que hoje os EUA assumam-se como uma nação predestinada a salvar o mundo para Deus.
Enquanto os textos de Veja abordam negativamente a religião dos iraquianos para justificar a guerra, o texto em foco discute a problemática do fundamentalismo protestante dos EUA como uma causa do conflito. Esse procedimento pode ser visto como o uso contra- ideológico das formas simbólicas, que mina e subverte o modus operandi da dissimulação por deslocamento utilizado pelos governantes dos EUA, e recontextualizado pela grande mídia, para classificar o movimento social islamista (THOMPSON, 2002a: 83-4). Segundo
Thompson (2002a: 82), as formas simbólicas podem servir para “manter ou subverter, para estabelecer ou minar, relações de dominação”, portanto, o estudo da ideologia deve contemplar também as “formas incipientes da crítica da ideologia”, ou seja, as formas simbólicas contestatórias, pois elas podem ajudar a realçar aquelas formas simbólicas que servem para estabelecer e sustentar relações de dominação. Nesse texto, o uso contra- ideológico do termo “fundamentalismo” realça a estratégia de deslocamento de um termo originário do fundamentalismo protestante estadunidense39 que foi usado pela mídia em geral de maneira ideológica para se referir ao movimento social, de forma tal que as conotações negativas do termo foram transferidas para o movimento radical do islã político.
A segunda parte do texto narra passagens dos 5.000 anos de história escrita da antiga Mesopotâmia até a formação do Iraque e serve de apoio para a defesa da fragilidade e prepotência religiosa dos EUA frente ao Iraque. Em nível macroestrutural, há o argumento de que a decisão de invadir o Iraque encerra, dentre outras, causas econômicas e religiosas. Os
dados e razões são apresentados na parte narrativa a respeito da influência do calvinismo na
religião protestante e da riqueza histórica, cultural e econômica iraquiana. A conclusão a que se pretende chegar é a de que a invasão seria uma vaidade de George W. Bush, que esperaria superar o feito do pai, quem, em 1991, deixou inacabada a suposta tarefa imperial de salvar o mundo. Ao contrário da narração realizada no texto “O califado do medo”, de Veja, a narração nesse texto de Caros Amigos não parece legitimar as ações dos EUA, mas sim, fundada na lógica explanatória, desconstruir a eternalização (THOMPSON, 2002a: 88) utilizada por W. Bush, e recontextualizada pela grande mídia, que esvaziou o caráter histórico da invasão, apresentando-a como uma decisão imutável. Sendo assim, nesse texto a invasão é
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Castells (2001: 37) esclarece que “o fundamentalismo cristão é uma constante na história dos Estados Unidos [...] uma sociedade que busca, de modo desenfreado, a transformação social e a mobilidade individual inclina-se ao questionamento, de tempos em tempos, dos benefícios trazidos pela modernidade e pela secularização, ansiando pela segurança proporcionada pelos valores tradicionais e instituições fundadas na verdade eterna de Deus. De fato, o termo ‘fundamentalismo’, amplamente utilizado em todo o mundo, teve origem nos Estados Unidos, como referência a uma coleção de dez volumes intitulada The Fundamentals”.
representada como um fenômeno sócio-histórico perfeitamente mutável e passível de ser contido pelos próprios agentes que a desencadearam por motivações políticas.
O segundo texto selecionado em Caros Amigos, “Sob Ataque”, é o mais criativo em termos da fuga à regularidade genérica da reportagem de revista. O gênero principal na hierarquia é o diálogo, visto que apresenta treze parágrafos predominantemente dialógicos; doze predominantemente descritivos; oito predominantemente narrativos e três predominantemente argumentativos. A orientação é para a compreensão do ato inconseqüente que os EUA planejam contra pessoas inocentes. Ao narrar sua viagem até Bagdá, o repórter descreve a riqueza natural do Iraque, o comportamento amigável dos iraquianos, o respeito das pessoas para com o presidente à época Saddam, bem como a beleza e docilidade das iraquianas, em completa oposição com a imagem que a imprensa em geral tentou impingir à identidade dos iraquianos.
Conforme Brandão (2003: 30-1), baseada em Adam (1991), a descrição é um processo de enumeração, não linear, vertical e hierárquica, que obedece aos procedimentos de
ancoragem e de aspetualização, o que pode ser ilustrado pelo exemplo a seguir:
(7) Quando encontro Samir, ele está com uma passageira que acaba de chegar de Bagdá. Afhah M. Abdal Kader, iraquiana bonita, médica-radiologista de 36 anos, olhos amêndoa, delineados, luzes nos cabelos, visual moderno, nada de roupas pretas cobrindo o corpo e o rosto (Caros Amigos 2, p. 30)40.
No exemplo em destaque, o procedimento de ancoragem refere-se à indicação, por meio de um tema-título, da entrada do assunto. Neste caso, o tema-título é “uma passageira que acaba de chegar de Bagdá”, ou mesmo seu nome “Afhah M. Abdal Kader”. O procedimento de aspetualização visa ao recorte em partes do todo apresentado no tema-título,
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Os exemplos extraídos das reportagens são identificados pelo meio do nome da revista, número das reportagens, conforme disposição nos Anexos 1, 2, 3 e 4, e número de página.
segundo a orientação do efeito visado pelo autor ou do julgamento de valores assumido por ele. Sendo assim, é possível conjecturar que os parágrafos descritivos neste texto visam, de maneira contra-ideológica, valorizar positivamente um povo que tem sido representado pela grande mídia de forma estigmatizada.
Os diálogos são articulados na forma do gênero desencaixado entrevista. Nas trocas de turno entre repórter e entrevistados, a voz dos iraquianos, praticamente ausente nas notícias da grande imprensa, é representada majoritariamente em discurso direto. A imprensa em geral representou muito a voz de autoridades governamentais dos EUA, mas, em raríssimas vezes, as vítimas puderam se manifestar. Nessa conjuntura em que as identidades que destoam do projeto neoliberal tendem a ser minadas, a voz que não é ouvida transforma-se em revolta, bem como na busca de uma forma, mesmo violenta, de se fazer ouvir. A discussão sobre as vozes presentes e ausentes nessas reportagens, bem como a maneira como são representadas, é reservada para subseção seguinte.