A medida de compensação está embasada em um princípio pouco conhecido, que é o princípio do protetor-recebedor.
Maurício Andrés Ribeiro apud Erika Bechara explica:
O princípio Protetor-Recebedor postula que aquele agente público ou privado que protege um bem natural em benefício da comunidade deve receber uma compensação financeira como incentivo pelo serviço de proteção ambiental prestado. O Princípio Protetor-Recebedor incentiva economicamente quem protege uma área, deixando de utilizar seus recursos, estimulando assim a preservação.190
Vários países já estão adotando a política de pagamento por serviços ambientais, inclusive o Brasil, o que já é uma realidade. Assim, será estudado um exemplo de compensação existente no Brasil e que tem relação com o MDL, vislumbrando assim tal mecanismo como medida de compensação.
Primeiramente, é preciso conceituar o que seria um serviço ambiental. Assim, toma-se como base o conceito apresentado por Bechara, nos quais “os serviços ambientais podem ser entendidos como serviços prestados pelos ecossistemas para a manutenção do equilíbrio ambiental, necessário à vida e à qualidade de vida na Terra e que, por isso mesmo, são imprescindíveis”.191
Importante destacar que os serviços ambientais são realizados pela natureza, assim como exemplos pode-se citar a produção de oxigênio pelas plantas, o equilíbrio climático, a capacidade de produção de águas e o controle da erosão entre muitos outros.
Para exemplificar melhor, tome-se como referência a floresta, que oferece vários benefícios tais como: a proteção da bacia hidrográfica, pois é responsável pela redução do assoreamento e regulação dos fluxos de água; sequestro de carbono por intermédio das árvores em fase de crescimento; e a conservação da biodiversidade em virtude de abrigar inúmeras espécies de fauna e flora, sendo que a perda de área de florestas ocasiona a extinção de espécies.
190 BECHARA. Op. cit., 2011, p 159. 191 Idem, p 158.
Com esse exemplo, verificam-se quantos serviços a floresta realiza e, por conseguinte, visa-se justamente a conservação da floresta, para que possa continuar oferecendo os mesmos serviços, buscando-se a venda desses serviços prestados, objetivando também a geração de fundos para aumentar os benefícios advindos da preservação para os protetores desse elemento natural.
Verificamos assim quatro tipos específicos de serviços ambientais:
a) de provisão – abarca o fornecimento de bens naturais como frutas, água, peixe entre outros;
b) de regulação – equivale a manutenção de elementos naturais tais como das chuvas, qualidade e quantidade de água, a regulação do clima etc.;
c) de suporte – corresponde aos serviços que auxiliam na manutenção do equilíbrio do meio ambiente como a polinização, manutenção da biodiversidade, formação do solo entre outros;
d) culturais – serviços relacionados à educação, como atividades formativas e recreativas no ambiente natural, manutenção da paisagem etc.
Diante da valorização do meio ambiente e a escassez de alguns recursos, muitas pessoas acabam não utilizando os recursos naturais existentes em sua propriedade ou até mesmo buscam a proteção do meio ambiente em prol da coletividade. Nestes casos, discute-se se esse grupo de pessoas mereceriam compensação ou gratificação pelo sacrifício que se submetem ou o investimento feito.
Importante aqui diferenciar os termos compensação e gratificação. Para isso utiliza-se a distinção feita por Bechara:
A compensação por serviços ambientais está atrelada a atos de conservação ou de abstenção de práticas degradadoras ou comprometedoras dos serviços ambientais (p. ex., não desmatar área de floresta nativa) e a gratificação por serviços está ligada a atos de produção ou otimização de serviços ambientais (p. ex., recuperar com mudas nativas a área degrada).192
Importantes personagens relacionados aos serviços ambientais são os provedores e os beneficiários desses serviços.
Primeiramente, trata-se dos provedores, “aqueles que auxiliam o ecossistema a prestar tais serviços, seja deixando de utiliza-lo ou de destruí-lo, seja promovendo melhorias que
192 BECHARA. Op. cit., 2011, p. 161.
culminam, ao fim, na otimização desses serviços”.193 Estão concentrados nesse grupo os proprietários de terras com florestas, biodiversidade ou outros recursos ambientais.
Já os beneficiários dos serviços ambientais são as pessoas físicas e jurídicas que se aproveitam dos resultados dos trabalhos executados pela natureza. Neste caso se encontra o beneficiário direto, que será o responsável pelo pagamento dos serviços. Pode-se ainda agregar a esse grupo o Poder Público que acaba oferecendo isenções tributárias em troca do provimento de serviços e também organizações não governamentais assumindo esta responsabilidade.
Tema importante a ser debatido refere-se aos provedores, que em muitas circunstâncias realizam a proteção em virtude de lei, sendo assim uma obrigação e não uma proteção voluntária. Assim sendo, os provedores que auxiliam o ecossistema em virtude da lei deveriam receber compensação?
Acredito que nada mais justo a premiação para os provedores que realizam tal atividade por vontade própria de proteção ao meio ambiente, mas paira a dúvida para os casos de compulsoriedade.
Tal dúvida ainda reina no cenário jurídico, conforme observação feita por Bechara:
Para se detectar se há ou não razoabilidade em se compensar os cumpridores da lei, considerando que, de um lado, eles nada mais fazem do que sua obrigação mas, por outro lado, essa obrigação é imposta a apenas alguns (os proprietários de terras), com benefícios para todos. Em outros termos: alguns suportam os ônus para que todos gozem dos bônus.194
Segundo Born e Talocchi, as formas de gratificação e compensação mais utilizadas são o “favorecimento na obtenção de créditos; isenção em taxas e impostos; aplicação de receitas de impostos em programas especiais; fornecimento preferencial de serviços públicos; disponibilização de tecnologia e capacitação técnica; subsídios a produtos e garantia de acesso a mercados ou programas especiais”.195
Existe ainda a dificuldade em mensurar o valor para os serviços ambientais. Para isso se devem considerar os custos e os benefícios reais gerados em decorrência da preservação do meio ambiente.
Ainda que os bens ambientais possuam caráter inestimável analisando-se os imensos benefícios que oferecem à sociedade, é necessário apurar um valor para os bens ambientais para estabelecer estes serviços.
193 Idem, p. 162.
194 BECHARA. Op. cit., 2011, p. 163. 195 Idem, p. 165.
Diante dessa necessidade, a economia ambiental desenvolveu alguns métodos para a mensuração do valor econômico aos bens ambientais, que utilizam como fatores a questão do benefício produzido, sendo este direto ou indireto ao bem-estar humano, e ainda o comprometimento ou não de consumo dos recursos naturais.
Consequentemente, foram definidas quatro categorias de valor expressas por Furlan:
a) valor de uso direto: deriva do uso direto da biodiversidade, como atividades de colheita dos recursos naturais, caça, pesca;
b) valor de uso indireto: oriundo dos usos indiretos, abrangendo, de forma ampla, as funções ecológicas da biodiversidade, como proteção de bacias hidrográficas, preservação de habitat para espécies migratórias, estabilização climática, sequestro de carbono etc.
c) valor de opção: decorre da opção de usar o recurso natural no futuro, podendo os usos futuros serem diretos ou indiretos;
d) valor de não-uso: é atribuído pelas pessoas aos recursos ambientais, sem que estejam ligados a alguns de seus usos; inclui os valores de herança e de existência. O valor da herança relaciona-se ao benefício econômico de saber que os outros se beneficiarão, futuramente, do recurso ambiental ao passo que o valor de existência reflete o benefício econômico da existência de um recurso ambiental, mesmo que não seja conhecido, nem usado.196
Após a apresentação das principais categorias surge a questão do conceito do valor econômico total (VET), que é a união de todas as categorias anteriormente especificadas e tem como finalidade a conjugação da preservação, conservação e uso sustentável da biodiversidade com a prestação dos serviços ambientais essências para a existência humana no planeta.
Isso acontece porque com um único elemento podem-se encontrar variados serviços ambientais que pertencem às categorias anteriormente mencionadas, existindo assim uma pluralidade de espécies de serviços concentrados em um único elemento.
Um exemplo para ilustrar a explicação acima fica claro ao recorrer novamente à floresta. Neste bem ambiental tem-se a presença de bacias hidrográficas protegidas e se enquadram como valor de uso indireto; a biodiversidade também encontrada na floresta tem valor de opção vislumbrando o uso futuro como fonte de informação genética para as empresas e também ainda reserva o valor de não uso, gerando a valorização na preservação de espécies ou do ecossistema sem utilizá-los.
Outro elemento que deve ser considerado na atribuição de valor aos serviços ambientais se correlaciona à escala geográfica ou política dos valores florestais, observando o benefício gerado em âmbito local, nacional e até mesmo mundial.
196 FURLAN, Melissa. Mudanças climáticas e valoração econômica da preservação ambiental: o pagamento
Importante mencionar que as técnicas utilizadas para o cálculo dos serviços ambientais são muito diferenciadas pela validade teórica que possuem, grau de aceitação entre os economistas, facilidade de uso e grau de aplicação em diversos países.
Conclui-se que os serviços ambientais necessitam de quantificação apesar de envolver bens com valores inestimáveis também estão diferenciados pelo valor que agregam aos homens e seus benefícios, sendo impossível estabelecer um valor único utilizado mundialmente e para todos os bens ambientais existentes no planeta.
Deve-se observar a diversidade e o uso em diversos espaços atendendo ao princípio da autodeterminação dos povos e demais princípios ambientais, principalmente do protetor- recebedor.