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Os tempos de Rayuela, 1958 ou 1959 (foto Aurora Bernárdez)

Não tenho nenhuma ideia messiânica da literatura (…) mas continuo acreditando¸ com Rimbaud, que il faut changer la vie, que é preciso mudar a vida.

Julio Cortázar (2001) Interessa-nos, com alguma ansiedade, partir para um pensamento mais reflexivo da figura de Cortázar enquanto representante do ser latino-americano. Estender-se em considerações sobre sua filiação, estudos primários, etc. tornaria este texto quase que exclusivamente biográfico, ou com aparência de wikipedia, e não nos levaria a nada de sólido.

Procuraremos, então, apresentar sua trajetória nas letras, de suas primeiras irrupções literárias ao boom, pessoal – enquanto escritor – e histórico – enquanto fenômeno de rupturas e novas consolidações nos modos de vida latino-americanos – da forma mais prudente possível, sem deixar de ser fiel à concisão, focando, sobretudo, nas informações que contribuam a uma visão mais ampla e crítica de seu vanguardismo literário.

Que Cortázar tem a América Hispânica na nacionalidade, no peito, no ímpeto, na conduta, nas vibrações, no discurso, na defesa, no lazer – tudo isso muito bem perfilado em sua literatura – já é sabido, tanto pela crítica quanto pelo simples leitor cortazariano. Mas por que tanto afinco? Por que tão vivo e competente como representante desta voz múltipla, heterogênea, engendrada por discursos e fatos históricos que expliquem e, ao mesmo tempo, dissolvam qualquer noção de identidade redutora do ser americano? Dissolver para que se construa uma nova, mais fiel ao ―Portanto dai a cada um o que deveis: [...] a quem honra, honra6‖, que

fique claro. Porque sem identidade não há povo, não há identificação.

Embora nascido em Bruxelas, em 1914, na Bélgica, Julio Cortázar viveu em Buenos Aires, Argentina, desde os quatro anos, absorvendo, assim, toda a cultura latino-americana até 1951, ano em que se muda para Paris. A despeito de ter fixado residência na Europa ao longo de toda sua mais densa produção intelectual e literária, Cortázar nunca deixou de ser argentino. Nunca deixou de entender, com sagacidade, afinco e singularidade o ser americano. Deixou-se influenciar pelos movimentos político-sociais do contexto europeu, mas remetendo-se, sempre criticamente, à realidade latino-americana.

De acordo com a definição do pesquisador brasileiro Davi Arrigucci Jr. (1995:77), sobre a obra de Julio Cortázar e seu contexto histórico:

Vista no conjunto, mas agora de uma perspectiva basicamente diacrônica, a obra literária de Julio Cortázar pode ser vinculada a uma linhagem de rebelião e crítica da linguagem que se insinua no Pré-Romantismo, torna-se nítida a partir do Romantismo, acentuando-se no Simbolismo, para atingir o ápice da força demolidora com o Dadaísmo e o Surrealismo e continuar

ecoando em diversas tendências artísticas contemporâneas.

Até a década de 40, Cortázar havia publicado apenas um livro de poemas denominado Presencia, com o pseudônimo de Julio Denis, embora posteriormente o classifique como ruim, mostrando-se grato pela pouca repercussão da obra. Em 1949, houve a publicação de um poema dramático em prosa, Los reyes, assinado, desta vez, por Julio Cortázar, o qual igualmente não lhe rendeu reconhecimento expressivo. É com Bestiario, em 1951, obra que compila oito contos escritos em anos anteriores, alguns já publicados em revistas, que Julio Cortázar se instaura em definitivo no universo ficcional, cuja carreira literária, semelhante à de Borges, configuraria um novo tempo à literatura argentina do século XX.

Nesta primeira obra contística, a precisão de palavras, o gosto por animais insólitos, a brevidade como eleição e os encontros insólitos já compunham seu labor artístico. A despeito da evolução político-literária que assumiria a posteriori, Julio Cortázar já era, ainda no desabrochar, um gigante – ou melhor, gigantesco – das letras. Refaz a tradição e acolhe o melhor de sua condição de ser moderno, na medida em que instaura uma busca intelectual, metafísica e política, manifesta em sua literatura o grito e o silêncio das vozes, sacia e denuncia sedes, identifica e desconstrói noções do real, absorve o leitor e o liberta, denuncia um autor autoconsciente, que se solidariza com a pequenez humana, embora reconheça sua potencialidade à grandeza.

Com o risco de apresentar uma visão, de certa forma, mítico-religiosa sobre o posicionamento ideológico do autor, nossa defesa é de que Cortázar parece optar, entre um mundo a ser mudado e a potencialidade humana de provocar revoluções positivas, por focar nesta última. Deste modo, constrói uma literatura que desnorteia, à medida que sugere novos nortes. Coloca em risco a integridade da forma, como condição de encontrar a primazia do conteúdo. Ameaça a literatura para encontrá-la, não no discurso do que era dito a seu respeito, mas enquanto linguagem experimentada, mexida, reconectada.

Em 1956, Cortázar publica Final de Juego e Las Armas Secretas, em 1959, centrando seu olhar no homem e em suas circunstâncias. A partir deste terceiro volume de contos, suas obras passam a ser traduzidas em diversos países e

Rayuela, publicada em 1963, é consagrada como um dos grandes romances da

América Hispânica do século XX, embora desde Los Premios, seu primeiro romance, publicado em 1960, note-se uma busca incessante do homem em compreender o segredo da vida.

Em 1962, o escritor argentino publica Histórias de Cronopios y de Famas, onde cria os cronopios, espécie de força poética da natureza encarnada em seres humanos, cuja missão é perceber o belo e negar o pragmatismo, lançando mão de figuras mitológicas e temas oníricos. Cortázar logra unidade de estilo, através de americanismos e argentinismos, mesmo quando seus personagens não são da Argentina.

Em 62 modelo para armar, de 1968, Cortázar afirma que o leitor verá nesta obra diversas transgressões à convenção literária, e em Libro de Manuel, de 1973, retoma as linhas básicas de Rayuela: a reflexão sobre uma linguagem-objeto, a

identificação do narrador no interior do relato, a reflexão sobre os limites impostos pela linguagem, a relevância da evocação do passado e a reversibilidade do tempo, bem como a existência de elementos oníricos fundidos, como a vigília e sonho, convertidos em organizadores do relato.

Em Octaedro, de 1974, há a predominância do jogo do duplo, sendo este característico da obra cortazariana, tanto contística quanto romanesca, o qual será nosso objeto de investigação neste estudo. Em Alguien que Anda por Ahí, de 1977, Cortázar mostra-se, ainda, um criador de destinos, por intermédio de um entrecruzamento entre fantasia e testemunho do mundo. Sua escritura sempre apresenta uma experiência estética com permanente ideal ético e sua fantasia distorce a normalidade, ao dar lugar ao grotesco e irônico, a fim de alcançar o instante revelador do relato.

Uma das características predominantes de sua obra é o entrecruzamento de gêneros, como cultivo eficaz de uma única expressão literária. Sua obra estimula um estado de disponibilidade, pressupondo que a qualquer momento e em qualquer linha possa surgir uma mudança, uma alteração irreversível do que fora antecipado.

A preocupação de Cortázar é pela condição humana. Imerso em um contexto político de triunfo da Revolução Cubana, das ditaduras no cone sul, do sandinismo nicaraguense, da guerrilha salvadorenha, enfim, de diversas lutas sociais que atravessavam o continente americano no século XX, declarou-se, por diversas vezes, socialista e permitiu-se influenciar pelo Existencialismo e pelo Surrealismo, com o intuito de substituir categorias insatisfatórias por outras que exercessem uma aproximação maior entre o homem e seus semelhantes.

O teórico Saúl Sosnowski (2001:15), em seu ensaio ―Julio Cortázar diante da Literatura e da História‖, declara:

A ausência de uma conduta dogmática e de um pensamento doutrinário permitiu-lhe ser coerente com suas próprias apostas literárias e políticas e demonstrar ante os processos históricos uma generosa compreensão e uma flexibilidade alheia a muitos dos seus contemporâneos [...] Cortázar manteve como poucos um comportamento coerente com sua profissão e com seu compromisso político. Ser coerente não implica ausência de contradições; exige, porém, uma aptidão singular para registrar e assimilar as enormes transformações de uma época às necessidades próprias da especificidade literária. Assim, em cada encruzilhada a obra de Cortázar manifestou-se como fiel expressão de suas visões, frustrações e esperanças.

Com rejeição ao peronismo e apoio à Revolução Cubana, Cortázar se contrapõe frontalmente ao subdesenvolvimento político que dificulta ou impede o

acesso a seu mundo. Por ser americano, o escritor possuía a liberdade criativa de que careciam os europeus. Nas palavras de Sosnowski (2001:18) ―suas aventuras lhe mostraram a capacidade do momento poético, o poder transformador do humor e do reconhecimento do outro que só ocorre ao se rejeitar o egoísmo ácido que descompõe toda relação humana‖.

O interesse de Cortázar pela dimensão social é filtrado através de sua literatura. A partir dela e de regresso às suas páginas, Cortázar postula a participação ativa dos escritores na sociedade. Sua proposta não é mecânica nem guiada pela busca de palavras fáceis e, embora o escritor seja testemunha de seu tempo, sua participação política não envolveu, de forma alguma, a entrega de sua obra a enunciados e manifestos que pouco contribuíssem para a História.

O autor argentino manifestava um desejo de contato com o presente histórico do homem, uma participação em sua longa marcha rumo ao melhor de si mesmo, em seu caráter humano e coletivo. Cortázar logrou que sua obra fosse testemunho de sua história. O próprio escritor defende que, para sê-lo, é necessário pensar e agir em um contexto em que realidade geopolítica e ficção literária misturavam cada vez mais suas águas. Sosnowski (2001:21) salienta:

Cabe insistir que Cortázar não sugere a fórmula fácil de um paternalismo intelectual benevolente, mas sim a confluência nada fácil dos motivos que detectava em 1947, quando resgatou do Surrealismo e do Existencialismo aquilo que indicaria pautas culturais e humanas para a segunda metade deste século.

Em uma entrevista de Cortázar a Xavier Arguello, o escritor afirma ser a literatura algo que nasce do encontro de uma vontade da linguagem com uma vontade de empregar esta linguagem para criar uma nova visão de mundo. De acordo com o autor argentino, o escritor é, nesta conjuntura, um pequeno Cristóvão Colombo, que sai para descobrir outros continentes, com as suas caravelas de palavras7.

Em seu ensaio ―O estado atual da narrativa na América Hispânica‖, Cortázar (2001:88) se declara um escritor que suspende a incredulidade. A respeito do fantástico, gênero predominante em sua obra, esclarece:

O fantástico nunca me parecera excepcional, nem sequer quando criança, e nesse momento o sentia como uma vocação ou talvez, melhor, como um aviso originado em certas zonas de realidade que o Homo sapiens prefere ignorar ou relegar ao desvão das crenças animistas ou primitivas, das superstições e dos pesadelos. Disse vocação, e no meu caso sempre o foi;

7

há momentos em minha vida (e não são excepcionais; podem ocorrer durante uma viagem de metrô, num bar ou no meio da leitura de um jornal) em que deixo por um instante de ser quem habitualmente sou para me transformar numa espécie de passadiço. No meu interior ou fora de mim algo se abre de repente, um sistema inconcebível de receptáculos comunicantes faz a realidade ficar porosa como uma esponja; durante um momento, infelizmente breve e precário, tudo o que me cerca cessa de ser o que era ou eu deixo de ser quem sou ou quem creio que sou, e neste terreno, em que as palavras só podem chegar tarde e imperfeitas para tentar expressar o que não se pode expressar, tudo é possível e tudo pode sucumbir.

Para Cortázar (2001:90), a irrupção do desconhecido constitui uma ―sensação terrivelmente breve e fugaz de que existe um significado, uma porta aberta para uma realidade que se oferece a nós, mas, tristemente, não somos capazes de aprender‖. Ainda sobre a função do fantástico, com base nas reflexões do autor (2001:91):

[...] para mim a ideia do fantástico não significa somente uma ruptura com o razoável e o lógico ou, em termos literários, e sobretudo de ficção científica, a representação de acontecimentos inimagináveis dentro de um contexto cotidiano. Sempre pensei que o fantástico não aparece de forma áspera ou direta, nem é cortante, mas se apresenta antes de uma maneira que poderíamos chamar de intersticial, a deslizar entre dois momentos ou dois atos no mecanismo binário típico da razão humana a fim de permitir-nos vislumbrar a possibilidade latente de uma terceira fronteira, de um terceiro olho, como tão significativamente aparece em certos textos orientais. Há quem viva satisfeito numa dimensão binária e prefira pensar que o fantástico não passa de uma fabricação literária; há mesmo escritores que só inventam temas fantásticos e não acreditam de modo algum neles. No que me diz respeito, o que me foi dado inventar neste terreno sempre se realizou com uma sensação de nostalgia, a nostalgia de não ser capaz de abrir por completo as portas que em tantas ocasiões vi abertas de par em par durante alguns fugazes segundos. Neste sentido a literatura cumpriu e cumpre uma função pela qual deveríamos agradecer-lhe: a função de nos tirar por alguns momentos dos nossos esquemas habituais e mostrar-nos, mesmo que seja por intermédio do outro, que talvez as coisas não finalizem no ponto em que os nossos hábitos mentais pressupõem.

O autor estabelece uma relação produtiva entre a literatura fantástica que predomina na Argentina de sua época e os processos históricos atravessados pelo país. Cortázar (2001:99) estabelece o seguinte paralelo:

De certa maneira (e agora falo da Argentina, que conheço melhor que o Uruguai), poder-se-ia dizer que o meu país conseguiu sua independência somente no começo do século passado e foi entrando pouco a pouco numa perspectiva que o separava cada vez mais da realidade universal. Ao final das nossas intermináveis guerras civis, que coincidiram com o início da era industrial e o crescente convencimento de que não apenas o homem não é uma ilha, mas os países tampouco o são, a Argentina muitas vezes dá a impressão de virar as costas para si mesma e entregar-se a um jogo narcisista de espelhos e enganos. Mutatis mutandis, o país inteiro cultiva uma história fantástica, talvez preparando assim o terreno para o que tentei mostrar esta noite e que a simples crítica literária não basta para explicar. Sua crítica se dirige às numerosas décadas em que a história argentina parece ter orientado seus espelhos a modelos europeizantes impraticáveis,

permitindo uma invasão por interesses estrangeiros que sugariam o sangue do país como Drácula, de maneira a ignorar o vigoroso e ainda não domesticado corpo da nação. Além do mais, cultivava-se apenas a hipertrofiada capital Buenos Aires, que segundo Cortázar, estava cega de orgulho, de ópera e de dinheiro, fazendo com que muitos argentinos aceitassem uma existência em que o verdadeiramente argentino e sua autêntica linguagem fossem sistematicamente rejeitados por uma educação europeizante responsável por deixar o país inseguro e vulnerável.

Na perspectiva do autor, o intelectual latino-americano que se compromete na luta política de seu país o faz muito mais por impulsos vitais que retóricos. O combate é por seu povo. O compromisso político, para muitos intelectuais latino- americanos, faz parte de sua personalidade mental, moral e vital e escrever livros não é tão diferente, portanto, de engajar-se nas múltiplas formas de luta do cenário político. A política, deste modo, é absorvida como paixão, vida e destino. Em ambas – na política e na literatura – fala-se de vida e morte, amor e ódio, justiça e opressão, liberdade e prisão.

Em seu ensaio ―O intelectual e a política na América Hispânica‖, Cortázar (2001:109) menciona uma carta aberta elaborada por ele em anos anteriores, sobre a situação do intelectual na América Latina, na qual defendia o seguinte:

Se alguma vez se pôde ser um grande escritor sem sentir-se partícipe do destino histórico imediato do homem, neste momento não se pode escrever sem esta participação, que é responsabilidade e obrigação, e somente as obras que as reflitam, mesmo que sejam de pura imaginação, mesmo que inventem a infinita gama lúdica da qual o poeta e o romancista é capaz, mesmo que jamais indiquem diretamente esta participação, somente elas conterão de alguma indizível maneira o tremor, a presença, a atmosfera que as torna reconhecíveis e entranháveis que desperta no leitor um sentimento de contato e proximidade.

Cortázar sempre teve ciência de que a literatura não é apenas um produto histórico, mas, também, uma responsabilidade cultural. Em seu ensaio ―A literatura latino-americana à luz da História Contemporânea‖ ressalta sua consciência ao fato de que, além de ser escritor, é um argentino. Defende, assim, que o leitor que o conheça lerá seus contos fantásticos sem a sensação de que o autor o está tentando arrancar da História e anestesiá-lo com uma literatura de fuga e renúncia, cujo objetivo seria afastá-lo de sua própria responsabilidade histórica.

Cortázar convida o leitor a ter confiança em sua tentativa de deslocá-lo por um momento de sua dura condição, para acompanhá-lo por outros caminhos mais

irreais e experimentais, lúdicos e fantásticos, transcendendo a realidade imediata, sem jamais traí-la.