De acordo com ANA (2009), em 1975 e 1978, o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca – DNOCS e a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba - CODEVASF, iniciaram, respectivamente, a implantação dos Perímetros Irrigados do Estreito (em Urandi/BA e em Espinosa/MG) e do Gorutuba (em Nova Porteirinha/MG), marcando a introdução da agricultura irrigada na bacia do rio Verde Grande.
O Ministério de Irrigação e Reforma Agrária – MIR, foi criado a nível federal, se tornou responsável pela coordenação do Programa Nacional de Irrigação – PRONI e pela Elaboração do Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Verde Grande em fins dos anos 70 e início dos anos 80. Ele tinha a finalidade de executar a Política Nacional de Irrigação fixando diretrizes e normas, além de coordenar e fiscalizar o uso das águas públicas de domínio da União para fins de irrigação, ficando vinculados os órgãos que já vinham atuando em questões ligadas à irrigação, como o DNOCS, a CODEVASF e o DNOS (Departamento Nacional de Obras e Saneamento).
Dentro desse programa federal foi criado o Projeto Nordeste a nível regional, dentro do qual foram inseridos os perímetros irrigados já existentes na bacia: Gorutuba e Estreito. As experiências advindas desses projetos, aliada à abundância de solos aptos para a irrigação e aos benefícios fiscais e subsídios oferecidos serviram de atrativos para que inúmeros projetos se instalassem na bacia, de forma que, entre os anos de 1975 e 1980, a área irrigada sofreu um incremento de 176%. Estima-se que essa área seja atualmente cerca de 22.000 ha, valor este muito elevado em relação à disponibilidade hídrica superficial e subterrânea da região e, sobretudo, considerando-se as infraestruturas instaladas, são superiores à possibilidade de utilização da água disponível.
Estudos mais específicos sobre a quantificação e qualificação dos recursos hídricos na
bacia foram realizados através dos trabalhos de CETEC de 1981, com o “Projeto Karst”, e
em 1984 e 1995, sobre a disponibilidade hídrica superficial e subterrânea da bacia.
No estudo do CETEC de 1995 sobre vazão específica, indicam que o potencial hidrogeológico no conjunto da bacia pode ser considerado médio a baixo, sendo que cerca de 75% dos poços têm produtividades inferiores a 1,0 L/s/m, e a distribuição das vazões específicas na bacia indica uma zona de maior produtividade, com valores entre 1,0 e 10,0 L/s/m nas faixas sul e sudoeste e uma zona de baixa produtividade (<1,0 L/s/m) ao norte e
26 leste da bacia. Foram obtidas também estimativas de recarga para a bacia através do método de Maillet (Custódio & Llamas, 1976), que analisa as curvas de recessão de hidrogramas. Os resultados obtidos para as 3 estações fluviométricas presentes foram:
Estação Boca da Caatinga (Matias Cardoso): recarga de 1,37 %; Estação Colônia do Jaíba (Jaíba): recarga de 2,23 %
Estação Gorutuba (Janaúba): recarga de 5,58 %.
Nesse mesmo estudo, pelo método do balanço hídrico, o valor de recarga obtivo foi de 3,3 % do total precipitado.
CETEC (1981) apresentou valores de coeficiente de infiltração para uma estação fluviométrica em fazenda Rio Verde em 2%, e foi considerado muito pequeno e restrito a estação e sub-bacia representativa.
Os primeiros registros de conflito entre usuários de água na região surgiram em fins de 1988, quando a crescente demanda e consequente redução na disponibilidade hídrica, criou um quadro de dificuldades de compatibilização dos vários usos. Estes conflitos podem ser agrupados em 2 categorias principais: entre irrigantes (incluindo os de irrigação pública e privada) e entre irrigantes e outros usuários.
Os conflitos continuaram e ocorreram várias denúncias aos órgãos públicos sobre a situação de disputa pela água, inclusive pedindo providências. Medidas paliativas foram tentadas, como a abertura das comportas da barragem Bico da Pedra.
Em 1995, o CETEC, Centro tecnológico de Minas Gerais, realizou um projeto de
caracterização da bacia denominado “Desenvolvimento metodológico para modelo de
gerenciamento ambiental de bacias hidrográficas. Estudo de caso: Bacia do rio Verde
Grande”. Os resultados desse projeto de pesquisa foram estruturados em 12 volumes sendo
este documento o Relatório Diagnóstico e Diretrizes para a Gestão Integrada, onde se contextualiza a questão da gestão integrada dos recursos hídricos com vistas à proposição de diretrizes para subsidiar a gestão na Bacia.
Os constantes conflitos e a constatação de que critérios técnicos e procedimentos utilizados na concessão de outorgas para esta bacia precisavam ser revistos, levaram o Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal a suspender a emissão de outorgas de direito de uso de água superficial para a irrigação em toda a bacia em 30/12/1996, através da Portaria nº 396, na expectativa de retornar o processo a partir da definição desses critérios.
27 Após a entrada em vigor da portaria, houve um acentuado incremento na utilização dos recursos hídricos subterrâneos que não sofreram restrição de uso.
Foi aprovada pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos, em 2003, a criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Verde Grande. O Comitê é um órgão público com competência legislativa e tem por finalidade promover o gerenciamento participativo e democrático dos recursos hídricos da bacia.
Em 2005, por meio de um convênio firmado entre a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba – CODEVASF e o Instituto Mineiro de Gestão das Águas – IGAM, iniciou-se o monitoramento qualitativo dos recursos hídricos subterrâneos do Estado de Minas Gerais, através de uma rede piloto constituída por 39 (trinta e nove) poços tubulares nas sub-bacias dos rios Verde Grande, Riachão e Jequitaí. Essa área é um importante pólo agropecuário regional, desenvolvida especialmente em função do Projeto Jaíba e pouco contemplada com o estudo de monitoramento da qualidade das águas subterrâneas.
Em 2009, foi iniciada a elaboração do Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do rio Verde Grande (PRH Verde Grande), que visa articular os instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos e embasa as ações para a gestão e o uso múltiplo e integrado dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos. Isso se reflete diretamente no enfrentamento dos dois principais problemas que se verificam na bacia: a escassez hídrica com suas repercussões sobre a qualidade e a quantidade de água e a fragilidade na gestão de recursos hídricos na região.
Em 2010, iniciou o projeto “Instrumentação e Operação do Sistema de Monitoramento de Águas Superficiais e Subterrâneas na Bacia do Alto São Francisco”, que consistiu em aperfeiçoar o monitoramento iniciado em 2005 pelo IGAM nas sub-bacias dos rios Verde Grande, Riachão e Jequitaí, aumentando o número de poços monitorados, de modo a abranger mais representativamente os municípios dessa região. O aperfeiçoamento e manutenção dessa rede de monitoramento são de extrema importância devido ao pouco conhecimento da região e da necessidade de informações que complementem aquelas já existentes para a realização de uma análise mais consistente. Nessas sub-bacias as águas subterrâneas são utilizadas principalmente para irrigação, seguida de uso industrial e em menor escala para abastecimento público, com 47%, 46% e 5% da vazão outorgada, respectivamente (dados de 2010).
28 A Agência Nacional de Águas -ANA, em 2008 contratou um estudo para elaborar um Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do rio Verde Grande, que compilou os trabalhos existentes da bacia. O estudo do balanço hídrico mostrou valor de recarga de 3,0% do volume precipitado.
Dos estudos acadêmicos realizados na região da bacia do rio Verde Grande, destacam-se os direcionados para a pesquisa sobre o flúor nas águas subterrâneas da região noroeste da bacia, compreendendo os municípios de Verdelândia, Varzelândia e Jaíba. Os trabalhos de Diniz (2006), Velásquez et al. (2007) e Freitas et al. (2008) concluíram que as concentrações elevadas de fluoreto nas águas subterrâneas analisadas no estado de Minas Gerais, em 25 municípios e nos municípios de Jaíba, Verdelândia e Varzelândia têm correlação positiva com o sódio e negativa com o cálcio. Correlações positivas com o fluoreto foram registradas ainda por Velásquez et al. (op. cit.) e Freitas et al. (op. cit.) para o pH, condutividade elétrica e STD, enquanto o Eh correlaciona-se negativamente com este elemento. Regionalmente, Velásquez et al. (op. cit.) observaram também a tendência de concentrações elevadas de flúor na água associadas a valores baixos de vazão e a poços associados a fotolineamentos. Na área pesquisada por Freitas et al. (op. cit.) não foi observada correlação significativa entre flúor e as vazões dos poços. Costa (2011) correlacionou as fácies mais enriquecidas em flúor aos calcarenitos e calcirruditos oolíticos e intraclásticos presentes nos aquíferos carbonáticos da Fm. Lagoa do Jacaré e da Fm. Serra da Saudade. Poços com vazões altas tenderam a apresentar águas de menor salinidade e menor concentração de flúor. Nessa região a noroeste da bacia, as águas subterrâneas são insaturadas em relação à fluorita alcançando concentrações altas em fluxos regionais, profundos, que apresentam águas mais antigas (com concentração de trítio inferior a 0,5 UT), de temperatura mais elevada e com alta razão Na+/Ca2+ (COSTA op.cit.).
Nesse ponto vale comentar alguns dados do tempo de residência ou renovação das águas subterrânea na região de Verdelândia e Jaíba, apresentado por Velásquez et al (2009), Nesse trabalho, que abrange a região de Verdelândia e Jaíba, foram determinados a concentrações de trítio nas águas subterrâneas para definir o tempo de renovação das águas subterrâneas ou de residência das águas no sistema aquífero. As análises indicam um tempo de renovação para as águas subterrâneas, localizadas na região norte–noroeste da Jaíba, superior a 250 anos. Na porção sudoeste da Jaíba e uma faixa norte sul onde o relevo apresenta feições cársticas (dolinas e sumidouros), os valores de trítio mostram concentrações compatíveis
29 com águas de precipitação recente, com idades entre 10 e 60 anos, evidenciando que se trata de uma área de recarga.
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