A metodologia escolhida para a pesquisa apresentou algumas dificuldades referentes à coleta e ao tratamento dos dados.
Inicialmente, o método foi limitado pela seleção de sujeitos para as entrevistas, vez que foram escolhidos pela acessibilidade. No que concerne às organizações praticantes ou defensoras de modelos de GC, os entrevistados podem ter valorizado posições firmadas no conceito desenvolvido em suas próprias organizações, apresentando pontos de vista influenciados pelo desejo organizacional de ver construído o modelo de GC.
A quantidade de entrevistas em cada organização se pautou pela acessibilidade dos entrevistados. Na organização bancária, a ênfase ocorreu no setor comercial, vez que a grande maioria dos entrevistados atuava nesta área. Nesta empresa, os depoimentos obtidos refletiram a opinião dos funcionários diretamente responsáveis pelos resultados financeiros. Trata-se de grupo notadamente crítico, não apenas a respeito de programas de treinamento, como também de práticas gerenciais inovadoras, entre as quais se inclui a GC.
Na federação patronal conseguiu-se maior diversidade com relação à atividade desempenhada pelos entrevistados, atuantes em áreas distintas umas das outras.
Reconhecendo a natureza política das organizações, o entrevistado pode agir em seu próprio interesse ou do grupo a que pertence. Assim, os entrevistados podem mentir ou contar a verdade, de forma seletiva e com viés que lhes favoreça (DEETZ, 1992; MORGAN, 1996; PFEFFER, 1981, apud ALVESSON, 2003).
O mesmo autor assevera que aceitar entrevistas como uma técnica superior para avaliar tópicos, conhecimentos e experiências negligencia a situação da entrevista como uma situação social e linguisticamente complexa. Ele propõe um modelo reflexivo, que implique esforços conscientes e consistentes para analisar a temática a partir de diferentes ângulos e evitar privilegiar um único ponto de vista ou vocabulário.
A este respeito Fairclough (2001) lembra que o discurso falado necessita ser transcrito, incluindo-se sistemas que consigam representar diferentes características da fala, com distintos níveis de detalhamento, como, por exemplo, ênfase e entonação, pausa e ritmo. O maior risco está no fato de que a transcrição impõe necessariamente um interpretação da fala, a cargo do pesquisador.
A partir do esquema reflexivo, há que se considerar três aspectos, a saber: a cena social, que envolve o entrevistador e a instalações físicas; o indivíduo, entrevistado, com suas impressões e motivações; e a duplicidade de linguagem, a natural e aquela usada para provocar efeitos nos ouvintes (ALVESSON, 2003).
Em relação aos dados bibliográficos, em sua grande maioria refletiram práticas adotadas em nações desenvolvidas, tanto do ocidente quanto do oriente, e centradas em organizações industriais. Objetivou-se descortinar as práticas em organizações de setores de serviços, em território brasileiro. Não se deve esquecer que, à semelhança do que vem ocorrendo no resto do mundo, o setor de serviços no Brasil desbancou o setor industrial de uma posição hegemônica como centro das atenções nas diversas economias, durante a segunda metade do século passado, e hoje representa seguramente mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
O tratamento dos dados pelo método da desconstrução é outro aspecto limitador no presente estudo, devido à sua complexa utilização, que exige capacidade de abstração frente ao objeto a ser pesquisado, essencial para a compreensão dos fenômenos a serem pesquisados, requerendo do pesquisador grande rigor acadêmico.
Kilduff (1993) explicita a seguinte opinião sobre a dificuldade de exercício do método:
Derrida’s refusal to offer a clear definition of the deconstructive process and its implications, for example, is consistent with his overall suspicion of abstraction and generalization. Those who dare to deconstruct a text must rely on their own understanding of the gestures of deconstruction as practiced by Derrida: There is no programmatic summary of the techniques of a deconstructive reading (KILDUFF, 1993:28-29).
Deconstruction does not exist somewhere, pure, proper, self-identical, outside of its inscriptions in conflictual and differentiated contexts; it “is” only what it does and what is done with it, there where it takes place (DERRIDA, 1988: 141, apud KILDUFF, 1993: 16).
Enfim, mesmo diante das limitações acima, consideramos ser o método mais apropriado para alcançar o objetivo final da pesquisa.
Resumo do capítulo
Neste capítulo discutiu-se a metodologia empregada na execução da pesquisa de campo. Partiu-se de um modelo com ênfase na reflexão a respeito do debate em torno do discurso que domina o mundo empresarial, centrado no desejo de construção de um significado para a GC que independe do ser humano. Argumentou-se que este discurso desconsidera as necessidades, vontades e disponibilidades dos indivíduos, assim como minimiza os impactos provenientes de sua reunião em grupos e equipes de trabalho.
Analisou-se o método quanto à sua tipologia, que se serviu do método conhecido como desconstrução, conceito introduzido pelo filósofo francês Jacques Derrida no início da segunda metade do século passado.
Quanto à natureza e classificação, classificou-se a pesquisa como exploratória, devido ao pouco conhecimento acumulado sobre o tema, com bases empíricas.
Quanto ao universo, amostra e seleção dos participantes, pesquisaram-se indivíduos em organizações de portes diversos, do setor de serviços financeiros e do setor de serviços sociais engajadas em algum estágio de projeto voltado à GC. Os sujeitos da pesquisa foram os profissionais em nível técnico e gerencial, atuantes nestas organizações.
Pelo critério de acessibilidade duas foram as organizações estudadas, a saber: federação patronal de indústrias, onde a prática da GC é um projeto em fase de desenvolvimento e um banco de varejo, de capital estrangeiro, onde a GC é um projeto em fase inicial na área de Recursos Humanos, com o incentivo da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN);
Quanto à coleta de dados, a pesquisa de campo utilizou-se de entrevistas focalizadas, por pautas, e entrevistas informais.
7 Resultados
Neste capítulo estão apresentados os resultados da pesquisa de campo, a partir do ponto de vista dos indivíduos entrevistados nas organizações analisadas, gestores e pessoal de nível técnico.
As entrevistas foram conduzidas tendo em vista as questões levantadas no início desta dissertação, notadamente no capítulo introdutório, bem como em diversos outros momentos, quando da discussão dos temas relacionados à dinâmica de grupos e à conceituação do poder e da competição nas organizações ou quando da construção do significado.
O roteiro trouxe em seu formato perguntas semi-estruturadas, além de conversas informais, tendo como pano de fundo as variáveis assinaladas no capítulo 5, englobando a organização (seção 5.1), o grupo (seção 5.2) e o indivíduo (seção 5.3). Com base na fala dos entrevistados foi possível identificar, em alguns, a incorporação do discurso organizacional em favor do compartilhamento do conhecimento, ainda que posteriormente tal fato tenha sido contradito por depoimentos de funcionários em linha de subordinação seqüencial inferior.
A incorporação do discurso conforme parágrafo anterior reitera a ilusória crença na linguagem como produção do indivíduo e sujeita a seu controle: são as instituições que estabelecem as convenções e práticas lingüísticas (SOUSA FILHO, 1983).
Para conferir didática à apresentação que se inicia, a análise das entrevistas seguirá a seqüência já disposta para as variáveis, começando com as variáveis da organização, passando pelas variáveis do grupo e finalizando pelas dos indivíduos.