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O Programa de Educação para a Sustentabilidade baseia-se nos princípios da Educação Biocêntrica e Permacultura na comunidade de Sussui e pretende cultivar a semente da ética do cuidado através de vivências, círculos de cultura e da arte. Partindo dessa reflexão, a metodologia foi desenhada tendo como base o princípio Biocêntrico e a Permacultura. O Programa parte do entendimento de que toda comunidade deve estar engajada para atingir a sustentabilidade e a convivência com o semiárido. Assim, metodologicamente o programa foi dividido em quatro eixos que se conectam entre si, a saber:

-Círculo de Cultura Mães Cuidadoras da Terra - Temas geradores relacionados ao Universo Feminino da mulher sertaneja e oficinas de Patchwork9 para produção de roupas femininas.

-Círculo de Cultura Jardins de Saberes - Oficinas de permacultura e arte-educação com as crianças. As crianças participarão de vivências que busquem despertar a relação orgânica com o meio ambiente.

-Circulo de Cultura Histórias do Meu Lugar - Desperta a consciência histórica da comunidade a partir dos jovens, através da sensibilidade, da arte, do coração e da razão, para que se tornem agentes transformadores da sua realidade.

O Grande Círculo - Momentos de diálogos e partilha de saberes produzidos nos três círculos com toda a comunidade.

Todo o processo de desenvolvimento das temáticas de convivência com o semiárido é desenvolvido mediante um trabalho criativo e participativo, no qual criamos um espaço de reflexão e expressão, utilizando o Círculo de Cultura, com a visão dialógica de Paulo Freire, dinâmicas de grupo, aulas vivenciais, apresentação de vídeos, partindo do pressuposto que o conhecimento se constrói numa relação dialética com o mundo.

A promoção de atividades como os Círculos de Cultura é uma das formas como podemos deixar sementes de desenvolvimento ético e racional da sociedade humana, para tal a Permacultura e seus princípios tem papel de destaque.

A Permacultura como proposta ecossistêmica fornece ferramentas extremamente úteis para a construção e implementação desse novo paradigma, por nos fornecer ética, princípios e

métodos de design (planejamento) necessários para trabalharmos pela sustentabilidade da Terra.

O círculo de cultura é o meio que utilizamos para compartilhar novos saberes de convivência. Meio ambiente, higiene, cidadania, patrimônio, educação, associação, permacultura, água, alimento, conflitos, convivência. Todas as palavras geradoras que podem surgir quando estamos inseridos na vida e participando ativamente dela. No círculo, ensinamos e aprendemos, definimos, criamos agendas e descobrimos que somos muito importantes para a transformação da realidade. Utilizamos também vídeos, palestras, visualização criativa, oração, jogos cooperativos, vivências na natureza dentro de um contexto real, na comunidade não é necessário simular, a dinâmica de grupo é no grupo, acontecendo e produzindo. O facilitador tem papel fundamental na condução, pois é na orientação que podemos dar o tom dos trabalhos. A técnica é vivida em tempo real e seu resultado aparece como fruto da obtenção das metas estabelecidas.

Figura 45: Círculo de Cultura “Histórias do meu Lugar”

O estudo da história local possibilita a compreensão do entorno, identificando o passado sempre presente nos vários espaços de convivência – escola, casa, comunidade, trabalho e lazer-, e igualmente por situar problemas significativos da história do presente (BITTENCOURT, 2008). A proposta pedagógica dos “Círculos de Cultura em Sussuí” fundamenta-se a partir de uma construção coletiva, envolvendo moradores e facilitadores

(professores), visando ao estudo e a pesquisa sobre a história local da comunidade de Sussuí através de práticas que analisam o processo de formação histórica da comunidade, suas memórias, seus saberes e fazeres, sua paisagem, seu cotidiano do trabalho e do lazer e suas transformações.

No caso específico do Círculo de Cultura – História do Meu Lugar, estamos no campo da educação e cultura, que é uma das áreas chaves da Flor do Sistema de Design (HOLMGREN, 2007), símbolo do uso do pensamento sistêmico para criação de uma cultura sustentável.

Ao focar em oportunidades ao invés de obstáculos, esse Círculo vem para contribuir na construção de uma ética comunitária, em que o principio explorado é o de Cuidado com as Pessoas (cuidar de si mesmo, parentes e comunidade). Através das atividades propostas de resgate e fortalecimento da cultura tradicional de Sussuí, a ideia é que os moradores possam emergir na cultura local, proporcionar - lhes uma nova experiência que lhes permitam enxergar sua paisagem e sua comunidade de uma nova maneira, que possam olhar para si e para o entorno com olhos de admiração e orgulho.

Nossa prática educativa na comunidade trabalha na perspectiva de transformação social, o estudo feito junto aos círculos de cultura tem o objetivo de despertar a consciência do grupo a partir da ética do cuidado com o outro, cuidado com o planeta, com a valorização do ser e, sobretudo com a certeza da superação dos obstáculos. “A idéia da ecopráxis reveste-se do necessário engajamento efetivo na transformação política e ética do mundo.” (FIGUEIREDO, 2007 p.60) O ser passa a se perceber integro, inteiro, integrado na sua comunidade e age como um agente transformador, e esse ser, representado pelos jovens, é o foco da nossa ação educativa, alicerçada num projeto de convivência com o semiárido.

Alguns jovens já estão atuando como monitores no projeto “Sala de Leitura” e nas “Trilhas do Sertão”, são meninos e meninas que se destacam na comunidade pelo seu senso de responsabilidade e desempenho nos mutirões e diversas atividades do Instituto Nordeste Cidadania – INEC e do Núcleo de Estudos e Práticas Permaculturais do Semiárido-NEPPSA. A cooperação e a criatividade se manifestaram naturalmente, no momento da apresentação do projeto de educação biocêntrica e permacultura. Um dos campos de atuação da Permacultura lida diretamente com a cultura e educação, a leitura de mundo se faz imprescindível para o indivíduo se integrar com o seu lugar de origem.

Acreditamos que a aplicação e a realização das propostas voltadas para a convivência com o semiárido não devem ficar a cargo apenas do poder público nem se limitar a uma exposição por parte dos grupos que as propuseram, mas devem ser partes constituintes de um processo de aprendizagem e experimentação por parte dos grupos sociais cujo resultado será a construção de um saber parceiro. Guimarães Duque (2004) dava destaque a uma proposta de educação para o contexto socioambiental que habilitasse as famílias sertanejas a viverem contentes, satisfazendo suas necessidades fundamentalmente e produzindo os bens para a coletividade com o objetivo de resgatar e valorizar as atividades e o modo de vida rural. Não se trata de um processo exógeno, protagonizado por pessoas e organizações que propõe a ensinar as famílias sertanejas no semiárido a conviver com a seca. Não se trata do predomínio da ciência e da técnica desvinculado dos saberes locais, é uma rede de saberes que está se formando a partir da convivência.

Benzer Belgeler