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6. TÜREV FİNANSAL VARLIKLAR VE YÜKÜMLÜLÜKLER

Mas a força dos sindicatos da região cearense do Cariri não estava apenas aí, estava também na Igreja. Foi a Diocese do Crato que em 1962 instalou os primeiros sindicatos na região, eram cinco sindicatos com base em vários municípios para fechar qualquer possibilidade de fundação de sindicatos que não fossem tutelados por ela. Esse comportamento da Diocese estava associado ao movimento nacional promovido pela Igreja Católica para organização dos trabalhadores rurais, ela não queria perder sua influência sobre a população rural como tinha, ou acreditava ter perdido sua influência sobre as populações urbanas. Havia uma disputa entre o Partido Comunista do Brasil, as Ligas Camponesas7 e a Igreja, essa disputa se acirra quando

aparece, no horizonte, a criação da CONTAG. Segundo Martins:

“Parece que a partir de 1962 a Igreja começou a disputar também a possibilidade de ter o controle da Confederação dos Trabalhadores Agrícolas que viesse a ser fundada, passando a concorrer diretamente pelo controle do movimento camponês pela cúpula. Promulgada a legislação trabalhista em 1963 os diferentes grupos empenharam-se no reconhecimento dos seus sindicatos junto ao Ministério do Trabalho, tendo a Igreja, no segundo semestre de 1962, feito uma tentativa de criar e controlar uma Confederação para evitar que o Partido Comunista o fizesse.” (1995, p. 87) Criar federações estaduais se tornou uma meta dos movimentos sociais e das instituições (Igreja, Partido Comunista Brasileiro e Ligas Camponesas). Mas, para criá-las era necessária a existência de pelo menos cinco sindicatos, o que explica a urgência da Diocese do Crato para criar os cinco sindicatos que criou em 1962, no Cariri.

Essa preocupação faz com que a Arquidiocese de Natal, no Rio Grande do Norte, inicialmente crie o Serviço de Assistência Rural e depois mobilize a

7 Elide Rugai Bastos fala das Ligas Camponesas como entidade de direito privado com o intuito de

defender os trabalhadores do campo, especificamente os moradores e parceiros. O nome de Liga tem sua origem nas formas de organização dos trabalhadores do campo encontradas pelos comunistas para burlar as formas legais de representação.

fundação de sindicatos de trabalhadores rurais. Da mesma maneira, em Pernambuco, começa-se toda uma mobilização para a criação de sindicatos rurais tendo à frente o Padre Crespo e outros religiosos. Nessa época, segundo Cruz (1985), além desses dois estados, a Igreja cria equipes de sindicalização nos estados da Paraíba, Bahia, Alagoas, Piauí, Sergipe, Maranhão. Fica de fora apenas o estado do Ceará. Neste caso, apenas na região do Cariri a Diocese do Crato se sente obrigada a fundar os sindicatos rurais, acredito, pela proximidade fronteiriça com os estado de Pernambuco e Paraíba, espaço privilegiado das Ligas Camponesas.

Foi através de Natal que o bispo diocesano do Crato, D. Vicente de Araujo Matos, espelhou-se para criar a Fundação Padre Ibiapina, entidade da diocese voltada para a ação diocesana principalmente no campo. Sua função era ministrar cursos profissionalizantes, cursos sobre sindicalismo, preparar lideranças para as atividades sindicais, acompanhar e coordenar as ações da diocese em seu trabalho pastoral, e nela a Escola de Líderes Rurais, principalmente voltada para o acompanhamento e assessoramento dos sindicatos de trabalhadores rurais. Através da Fundação Padre Ibiapina a ação da Diocese do Crato se intensifica, principalmente na zona rural. Sua ação era voltada para a melhoria das condições de vida do homem do campo, compreendia como toda a Igreja Católica no Brasil, que havia possibilidades de deter a propaganda anticapitalista dos comunistas. Como acentuou Martins:

“A Igreja entrou na questão agrária através da pastoral de D. Inocêncio, por uma porta extremamente reacionária. Aquela pastoral nasceu numa reunião de fazendeiros, padres e professores rurais e não numa reunião de camponeses e trabalhadores rurais. A preocupação era com a agitação que estava chegando no campo, com a possibilidade da Igreja perder os camponeses, como tinha perdido os operários. A questão era desproletarizar o operário dos campos, evitar o êxodo que levava os trabalhadores para a cidade e os tornava vulneráveis à agitação e ao aliciamento dos comunistas, como assinalaram outros documentos produzidos por outros membros do episcopado.” (1995, p. 88)

Para a Igreja, a melhoria das condições de trabalho e produção, a assistência à saúde, a efetivação de direitos trabalhistas e a educação para os trabalhadores rurais seriam elementos importantes para evitar que os camponeses se deixassem envolver pelos marxistas, defensores de uma sociedade de iguais, inteiramente laica, centrada no homem e nas suas necessidades.

Sendo assim, em oposição, a Igreja defende o liberalismo e a sociedade capitalista, acredita que nela existem as possibilidades de superação da pobreza absoluta através do trabalho e do esforço de cada um. O investimento privado ou estatal é responsável pela criação de locais de trabalho, postos de trabalho que, ocupados, irão permitir a todos a capacidade de suprir suas próprias necessidades.

Essa ideologia disseminada no Brasil a partir do final dos anos de 19408, apregoando que o capitalismo em si não era responsável pelas mazelas que atingiam as populações dos países periféricos, chegou através de organismos internacionais, principalmente norte-americanos, assentada na idéia de que maior participação da população poderia evitar as diferenças econômicas e a exploração sobre o trabalho. Afinal esse tipo de exacerbação da exploração não era uma característica própria do capitalismo, mas era fruto da ganância de alguns capitalistas, se alguns controles fossem desenvolvidos na sociedade esse perfil selvagem do capitalismo poderia ser controlado e ele poderia trazer melhoria para todos: trabalhadores e capitalistas.

8 “Institucionalizado pela ONU após a II Guerra Mundial o Desenvolvimento de Comunidades é

postulado num momento histórico que as grandes potências – lideradas pelos Estados Unidos e Rússia – deflagram a chamada “guerra fria” pela conquista do primado político, econômico e ideológico de um mundo supostamente bipolarizado.” (AMMANN, Safira. Ideologia do Desenvolvimento de Comunidade no Brasil. Editora Cortez, 2003, p. 29) Na apresentação Ammann, se referindo ao Brasil irá dizer: “Durante os anos 1950 adotam-se os modelos norte-americanos pautados em supostos de harmonia e equilíbrio, que objetivam solucionar „o complexo problema de integrar os esforços da população aos planos regionais e nacionais de desenvolvimento econômico e social.‟ O Desenvolvimento de Comunidades afirma-se como instrumento capaz de favorecer o consentimento espontâneo e a adesão das classes subordinadas às Políticas Sociais definidas pelo Estado.” (idem, p. 9)

Para aqueles que defendiam, como a Igreja Católica, essa ideologia de que o progresso chegaria para todos, trabalhadores e burgueses, o desenvolvimento das comunidades era fundamental. Somente através da organização das comunidades e dos controles que esse tipo de organização permitiria criar, poder-se-ia ter um capitalismo mais humano e progressista, o que significava emprego e renda para todos assentados na comunidade. Comunidade cooperativa de proprietários e trabalhadores mediada pelo Estado e a Igreja.

A partir daí, seguindo a linha de interpretação do processo histórico dos anos de 1950 e de 1960 adotada por Ammann (2003) e Ricci (1999), a Igreja Católica, financiada pelos governos brasileiros desde Getúlio Vargas, passando por Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, passou a atuar mais incisivamente na sociedade. A Igreja era uma instituição, talvez a única no Brasil, que estava presente em todos os estados da federação e em todos os municípios brasileiros por meio de suas paróquias, de suas dioceses, padres, religiosas e leigos. Sua preocupação era com a expansão comunista que ameaçava sua existência como instituição, pois pregava o marxismo ateu ao mesmo tempo em que apregoava a associação da Igreja com os interesses dos ricos, fez com que recebesse a incumbência de, aproveitando sua rede de padres e a fé do povo simples, atuar em favor de um capitalismo humano, menos desigual e capaz de suprir as necessidades do povo.

O desenvolvimento, apregoado, passava necessariamente pela constituição de comunidades, pois todos os brasileiros seriam beneficiados por ele e todos participariam de sua construção. O desenvolvimento deveria ter como base a comunidade, entendida como espaço de relações iguais entre trabalhadores e burgueses, afinal, como Ammann deixa entrever em sua análise, é nos pequenos burgos que ele deve começar, onde as relações são mais humanas, as pessoas se conhecem e sabem de suas carências comuns.

Dessa forma, emergem conceitos fundamentais para justificar a ação da Igreja. Esta ação da Igreja junto aos programas de desenvolvimento de comunidades se justifica pela participação de todos na resolução dos problemas comuns e principalmente por objetivar a melhoria das condições de vida da população. Desenvolvimento humano significa, na doutrina da Igreja, educação, saúde, emprego, renda e cooperação entre os homens, irmãos na Igreja.

A Diocese do Crato, como tantas outras, assimila e assume essa postura que aparece como imbuída do espírito cristão da fraternidade e da caridade. Assim, através da Fundação Padre Ibiapina, procurava agir no meio rural discutindo os direitos trabalhistas, as condições de vida da população rural e promovendo discussões sobre a modernização do campo que permitisse aos trabalhadores salário e renda. Exemplo disso é o Seminário para o Desenvolvimento do Sul Cearense9 que ocorreu em 1961, com o patrocínio da Diocese. A partir dele, a Diocese cria a Faculdade de Filosofia do Crato, para formar professores capazes de melhorar o nível de educação do povo; cria os sindicatos dos trabalhadores rurais com o objetivo de competir com o PCB, mas também para criar canal através do qual os trabalhadores pudessem requerer direitos; fez cursos de liderança e sindicalismo; promoveu a instalação de mini-postos de saúde na zona rural; promoveu a educação de base através das escolas radiofônicas coordenadas pelo MEB; e tantas outras ações, inclusive na área profissional, como formação de costureiras.

Desse modo, a ação da diocese do Crato já chamava a atenção de todos. No entanto, sua ação era vista pelos segmentos de esquerda como conservadora, principalmente após o golpe militar. Era difícil, inclusive para os trabalhadores e suas lideranças formadas pela própria Diocese, o apoio que a mesma deu ao golpe militar. Anteriormente ela afirmava a democracia

9

O Seminário para o Desenvolvimento do Sul Cearense, ocorrido no ano de 1961, tinha como objetivo promover o desenvolvimento do Cariri Cearense, para tanto fez um levantamento das carências e dos entraves ao desenvolvimento regional a partir do qual pleiteia a educação superior, investimento na modernização das usinas de beneficiamento de algodão, modernização dos engenhos de rapadura permitindo a produção de álcool etc.

na medida em que promovia as comunidades a partir de processos de discussão e de tomadas de decisão sempre com a participação de todos os envolvidos. Ela discutia direitos, e os direitos foram suspensos, mas mesmo assim, continuava respaldando e justificando o Estado força da ditadura militar.

A minha preocupação com os sindicatos dos trabalhadores rurais aparece quando, na segunda metade de 1979 e início de 1980, estive à frente do movimento de criação de comissões provisórias pró-criação do Partido dos Trabalhadores no Cariri e, depois, na organização dos diretórios municipais do mesmo partido. Nessa época, eu contava com a ajuda de alunos da Faculdade de Filosofia do Crato que eram membros da equipe da Escola de Líderes Rurais da Fundação Pe. Ibiapina e de pessoas que eram ligadas à Delegacia da Federação dos Trabalhadores Rurais do Ceará – FETRAECE. Com eles, me aproximei dos sindicatos dos trabalhadores do Crato e de mais oito municípios (Milagres, Nova Olinda, Santana do Cariri, Barros, Brejo Santo, Assaré, Campos Sales e Potengi) e tomei conhecimento de que todos esses sindicatos haviam sido fundados a partir da ação da Fundação Padre Ibiapina, mais especificamente, a partir da Escola de Líderes Rurais - ELIRUR.

Nessa escola eram discutidas as condições de vida dos trabalhadores rurais e havia a preocupação com a formação de lideranças rurais; cursos eram ministrados sobre a legislação trabalhista e sindical e dava-se acompanhamento ao trabalho desses sindicatos: suas lutas, sua organização interna, as questões trabalhistas mais freqüentes, questões que envolviam a terra e a formação política das lideranças e das bases.

O trabalho desenvolvido era interessante porque, mesmo se tratando de questões do homem do campo, não deixava de lado a questão da Igreja e do seu papel no processo de organização dos trabalhadores. Os membros da ELIRUR estavam preocupados com o papel político da Igreja e questionavam, juntamente com os trabalhadores rurais, as posições

assumidas pela diocese do Crato. Esta questão, inclusive foi um dos pontos que gerou, já em 1981, o rompimento dessa equipe com a Diocese, possibilitando a criação da Associação Cristã de Base.

Quero, no entanto, esclarecer que me surpreendia a ação da Igreja. Aliás, o que me surpreendia não era propriamente a ação da diocese enquanto Igreja, mas a presença de jovens, homens e mulheres envolvidos em um trabalho político, trabalho que extrapolava a ação propriamente sindical, todos formados por essa Igreja reconhecida como tradicional e conservadora. Isso me inquietava e procurava respostas para a ação dos agentes da Diocese que ultrapassava os limites impostos por esta. Claro que eu conhecia, superficialmente, as teses discutidas no Concílio Vaticano II, de uma Igreja pobre e comprometida com os pobres, e a renovação que ele provocou no catolicismo, principalmente na América Latina.

Mas sabia também das características próprias do bispo diocesano, conservador e comprometido com a ordem capitalista e da autonomia que os bispos gozavam em suas dioceses. Como então esses jovens, homens e mulheres, se contrapunham à ação e aos princípios religiosos e políticos que a respaldavam e emanavam da Diocese? Como eles continuavam no interior da diocese se faziam um trabalho educativo junto às bases camponesas que criticavam a ação dessa Diocese? O que os respaldava nessa ação crítica e política? As diretrizes emanadas do Concílio Vaticano II? A presença em outras dioceses de religiosos imbuídos do espírito Conciliar? A própria repercussão que o Concílio Vaticano II teve na sociedade civil, entre religiosos e povo? E a ditadura?

Benzer Belgeler