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Simone Scarpin de Sá1 Cláudia Sampaio Fonseca Repetti1 Alessandre Hataka1 Juliana Kahn Pereira Nunes1

Palavras-chave: Hemangiossarcoma, terceira pálpebra, felino. INTRODUÇÃO

Os tumores envolvendo a glândula da terceira pálpebra são raros principalmente aqueles de origem vascular (15). No entanto, já foram relatados casos de carcinoma, sarcoma, melanoma e linfoma (13). O hemangiossarcoma (HSA) é uma neoplasia maligna com origem nas células do endotélio vascular, podendo acometer qualquer tecido que contenha vasos sanguíneos (3,7). Em um estudo retrospectivo, os autores (1) observaram que apenas 7,4% dos felinos apresentaram neoplasias originadas do endotélio vascular. Embora a etiologia seja desconhecida (14) sabe-se que o surgimento de HSA em cães está associado à exposição à luz em indivíduos com pele menos pigmentada ou com pêlos curtos (11). Os felinos com essas características também possuem maior predileção ao HSA, porém são menos acometidos do que os cães (3). O diagnóstico definitivo é obtido por biopsia incisional ou excisional (3). Histologicamente, o HSA apresenta áreas difusas de hemorragia e necrose. O tratamento de eleição é a excisão cirúrgica (3) respeitando as margens de segurança, visando a completa excisão de tecidos acometidos (4). A quimioterapia é uma modalidade terapêutica adjuvante no pós-operatório devido à natureza metastática do HSA. O prognóstico depende da localização do nódulo, características infiltrativas, envolvimento de linfonodos e presença de metástases, variando entre reservado e desfavorável (11). Porém, esse tempo de sobrevida ainda é muito baixo (3). Devido a poucos dados em literatura no Brasil, o objetivo deste trabalho é relatar um caso de hemangiossarcoma em terceira pálpebra em um felino.

1 Setor de Clínica Cirúrgica de Pequenos Animais e Patologia Animal da Universidade de Marília

UNIMAR. Av. Higyno Muzzy Filho, 1001, Campus Universitário. Marília/SP. CEP: 17525-902. E-mail: [email protected]

RELATO DE CASO

Foi atendida no Hospital Veterinário da Universidade de Marília, uma gata, sem raça definida, dez anos de idade, apresentando neoformação tecidual na terceira pálpebra do olho direito há um mês, com crescimento progressivo. Ao exame oftálmico observou-se presença de um nódulo ulcerado, de aproximadamente 1,5 cm de diâmetro, de coloração vermelho escuro, aderido na superfície externa da terceira pálpebra do olho direito. Havia hiperemia e edema conjuntival. O teste de fluoresceína foi negativo para ceratite ulcerativa e não se observou qualquer outra alteração local. Foram solicitados exames complementares como hemograma, creatinina sérica, ALT, ultrassonografia abdominal e radiografia torácica, porém todos os parâmetros encontravam-se normais. Devido às características da lesão, o animal foi encaminhado para cirurgia para realização da exérese do nódulo. Na anestesia foram administrados como medicação pré-anestésica acepromazina (0,05 mg/kg, IM) e meperidina (4 mg/kg, IM), na indução foi utilizado propofol (4mg/kg) e manutenção sob anestesia inalatória com isoflurano. No pós- operatório foi prescrita medicação tópica com cloranfenicol, três vezes ao dia e flurbiprofeno, duas vezes ao dia durante 10 dias, além do uso do colar elizabetano. O nódulo foi encaminhado ao laboratório de patologia animal da UNIMAR, e o exame histopatológico foi conclusivo para hemangiossarcoma. À avaliação macroscópica, o nódulo apresentava-se ulcerado, hemorrágico, friável, de consistência firme, com dimensões de 1,1 x 0,7 cm de diâmetro. Nos achados microscópicos, observou-se a formação de lacunas vasculares revestidas por células endoteliais com atipia moderada sustentadas por estroma de tecido conjuntivo frouxo. As células neoplásicas apresentavam morfologia pleomórfica com variação de fusiformes a ovalada. O citoplasma era escasso de coloração levemente basofilica. Os núcleos variavam de elípticos a ovóides, de cromática grosseira à vesicular. Os nucléolos, em número de um a dois por núcleo, eram evidentes e por várias vezes macronucléolos de formato irregular. O índice mitótico era baixo (menor que 1 por campo). As margens cirúrgicas laterais e inferiores apresentavam-se limpas. O proprietário compareceu ao retorno após 10 dias e o animal apresentava-se bem com completa cicatrização da ferida cirúrgica. Foi orientado realizar protocolo de quimioterapia, porém o proprietário foi relutante em aceitar tal opção terapêutica. Após 15 meses, o animal encontra-se em bom estado geral sem recidivas até o momento.

DISCUSSÃO

O hemangiossarcoma (HSA) é um tumor de origem mesenquimal ocorrendo mais comumente em baço, fígado, coração e pele (9). É um tumor fácil de ser diagnosticado por citologia aspirativa por agulha fina (CAAF) (3), no entanto tal procedimento não foi realizado devido à localização da neoplasia, optando-se pela realização de biópsia excisional. As características histológicas do tecido excisado (células endoteliais pleomórficas, com núcleos hipercromáticos e citoplasma abundante) (6) permitiram a confirmação do diagnóstico definitivo de HSA. Os exames pré cirúrgicos são importantes na avaliação pré cirúrgica (3), pois o HSA pode-se disseminar para órgãos como pulmão e fígado (2,5). A cirurgia é uma das modalidades terapêuticas de eleição para animais com HSA (11,14). A instituição precoce do tratamento cirúrgico pode ter contribuído para o sucesso do caso, visto que o tumor não se apresentava infiltrado, possibilitando a remoção completa do mesmo, apresentando ausência de comprometimento das margens cirúrgicas. Laus et al. (8) realizaram exérese cirúrgica de um HSA em membrana nictitante de um cão e após 20 meses de pós cirúrgico não haviam observado recidiva tumoral ou aparecimento de metástases. Multari et al. (12) reportaram o primeiro caso de HSA em terceira pálpebra em felino, realizando tratamento cirúrgico e criocirurgia, e após sete meses de pós operatório não observaram recidiva. Resultado semelhante foi descrito por Liapis e Genovese (10) em um cão com HSA submetido a cirurgia em que não observaram aparecimento de metástases após nove meses de pós operatório.

CONCLUSÃO

Os dados clínicos e histológicos deste caso permitem concluir que o hemangiossarcoma é um dos tumores que afetam a terceira pálpebra em felinos e a remoção cirúrgica com amplas margens de segurança previne o aparecimento de recidiva local e metástases.

REFERÊNCIAS

1. Berselli M, Guim TN, Guim TN, Kaiser JF, Bonel-Raposo J, Gevehr-Fernandes C. Estudo retrospectivo dos hemangiomas e hemangiossarcomas durante o período de 1998 a 2009. In: XVIII Congresso de Iniciação Científica, o XI Encontro de Pós- Graduação e a I Mostra Científica; 2009, Rio Grande do Sul.

2. Brown N, Patnaik A, MacEwen EG. Canine hemangiosarcoma: retrospective analysis of 104 cases. J Am Vet Med Assoc. 1985; 186: 56-8.

3. Fernandes SC, De Nardi AB. Hemangiossarcoma. In: Daleck CR, De Nardi AB, Rodaski S. Oncologia de Cães e Gatos. São Paulo: Rocca, 2009. p.526-37.

4. Ferraz JRS, Roza MR, Caetano Júnior J, Costa AC. Hemangiossarcoma canino: revisão de literatura. J Bras Ciên Anim. 2008; 1(1): 35-48.

5. Gabor LJ, Vanderstichel RV. Primary cerebral hemangiosarcoma in a 6-week-old dog. Vet Pathol. 2006; 43: 782-84.

6. Gülbahar MY, Guvenc T, Besalti O. Splenic hemangiosarcoma with abdominal dissemination in a dog. Turkish Journal of Veterinary and Animal Sciences. 1998; 22(5): 459-63.

7. Hammer A. Hemangiossarcoma. In: Rosenthal RC. Segredos em Oncologia Veterinária. Porto Alegre: Artmed, 2004. p.253-260.

8. Laus JL, Ortizi JPD, Brito FLC, Lisbão CBS, Silva Júnior VA, Maia FCL. Hemangiosarcoma of the nictitant membrane in a Brazilian Fila dog: case report. Arq Bras Med Vet Zootec. 2008; 60(6): 1413-17.

9. Lawall T, Witz MI, Baja KG, Pinto VM. Hemangiossarcoma em cães – estudo de três casos clínicocirúrgicos no hospital veterinário da Universidade Luterna do Brasil (HV- ULBRA) no ano de 2008. In: 35° Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária; 2008, Gramado.

10. Liapis IK, Genovese L. Hemangiosarcoma of the third eyelid in a dog. Vet Ophthalmol. 2004; 7(4): 279–82.

11. MacEwen EG. Miscellaneous Tumors. In: Withrow SJ, MacEwen EG. Small Animal Clinical Oncology. Philadelphia: W.B. Saunders, 2001. p.639-46.

12. Multari D, Vascellari M, Mutinelli F. Hemangiosarcoma of the third eyelid in a cat. Vet Ophthalmol. 2002; 5(4): 273–76.

13. Schaffer EH et al. Malignant nictitating membrane tumors in dogs and cats. Tieraerztl. Praxis. 1994; 22: 382-91.

14. Thamm DH. Miscellaneous Tumors - Hemangiosarcoma. In: Withrow SJ, Vail DV. Small Animal Clinical Oncology. 4a ed. Philadelphia: W.B. Saunders, 2007. p. 785-795. 15. Wilcock B, Peiffer RLJr. Adenocarcinoma of the third eyelid in seven dogs. J Am Vet Med Assoc. 1988; 193(12): 1549-50.

Benzer Belgeler