2. MATERYAL VE METOT
4.1.1.1. Cins: Osmylus Latreille, 1802
4.1.3.1.7. Tür: Hemerobius (H.) handschini Tjeder, 1957 Morfoloji:
O diagnóstico de duas amostras de fezes de onças-pintadas do Parque Nacional das Emas positivas para parasitas intestinais é o primeiro relato de Cryptosporidium spp. e Giardia intestinalis para onças-pintadas de vida livre (Tabela 37).
As baixas frequências de Giardia intestinalis encontradas podem estar relacionadas com a eliminação intermitente dos cistos (PAPINI et al., 2007), limitando sua detecção nas fezes. Desta forma, não é possível descartar também a presença do agente nas populações do Parque Estadual do Cantão e Pantanal. Podem ser necessárias diversas coletas e análises de amostras fecais para diagnóstico de um animal positivo (DRYDEN; PAYNE; SMITH, 2006).
A infecção das onças-pintadas do PNE pode ter ocorrido através da ingestão de água contaminada (ROBERTSON; THOMSON, 2002) – uma vez que utilizaram preferencialmente áreas próximas a cursos d’água (Figura 45) – ou de presas contaminadas. Pequenos mamíferos são considerados potenciais fontes de infecção da Giardia spp. e do Cryptosporidium spp. (LALLO et al., 2009) e foram encontrados, embora em baixa frequência, na dieta da onça-pintada do PNE (IOP dados não publicados). Há também a possibilidade de animais domésticos das propriedades rurais do entorno terem sido fontes de infecções para essas onças-pintadas. Porém, amostras de animais domésticos não foram coletadas para esse propósito no presente estudo.
Silva et al. (2008) sugerem que os felinos silvestres possam agir como potenciais hospedeiros para Giardia spp., sendo capazes de disseminar o agente no ambiente. Entretanto, não se conhece o papel das onças-pintadas na manutenção desses agentes. Geralmente a ocorrência de Cryptosporidium spp. em carnívoros é menor do que em roedores (FENG, 2010).
Existem relatos de onças-pintadas mantidas em cativeiro positivas para Giardia spp. no Brasil (MÜLLER; GREINERT; SILVA FILHO, 2005), e negativas para Cryptosporidium spp. (ALVES et al., 2005; MATSUBAYASHI et al., 2005; LIM et al., 2008) e Giardia spp. (MATSUBAYASHI et al., 2005).
É importante considerar que as amostras de fezes do presente estudo foram coletadas em campo e muitas vezes encontravam-se expostas no ambiente por horas ou dias, o que pode ter interferido nos resultados. Sendo que: (a) os oocistos ou cistos dos parasitos identificados poderiam estar presentes no ambiente e não nas fezes analisadas (BARWICK et al., 2003); (b) os oocistos ou cistos dos parasitos poderiam estar presentes nas presas consumidas pelas onças- pintadas e não representar infecção do predador (PATTON et al., 1986; PATTON; RABINOWITZ,
1994; HAMNES et al., 2007); ou ainda, (c) os resultados negativos poderim ter ocorrido devido à desintegração dos cistos ou oocistos dos parasitos pela exposição prolongada no ambiente (PAPINI et al., 2007). Assim, esses resultados devem ser interpretados com ressalvas.
Nenhuma amostra foi positiva para protozoários da Família Sarcocystidae, concordando com De Camps, Dubey e Saville (2008), que também não encontraram nenhum oocisto de Toxoplasma gondii em amostra fecal de onça-pintada. Como as onças-pintadas das áreas de estudo foram altamente soropositivas para T. gondii (Tabela 20), a ausência de oocistos nas fezes era esperado, uma vez que o período de eliminação de oocistos é curto – diminuindo as chances de sua detecção nas fezes (DUBEY, 1986; DUBEY; THULLIEZ, 1989). Em Belize, oocistos de Hammondia pardalis e oocistos semelhantes a Toxoplasma gondii foram isolados de amostras fecais de onças-pintadas de vida livre, e oocistos de Sarcocystis spp. também não foram identificados (PATTON et al., 1986).
Mais estudos devem ser realizados para descobrir o potencial zoonótico desses protozoários a partir das amostras de onça-pintada. Porém, acredita-se que a ocorrência de Cryptosporidium spp. e Giardia intestinalis nas fezes de onças-pintadas pode ser uma importante informação para a epidemiológica dos parasitas no Parque Nacional das Emas.
6.15 ECTOPARASITAS
Todas as associações carrapato-hospedeiro encontradas no presente estudo (Tabela 38) já foram relatadas anteriormente (ARAGÃO, 1936; ARAGÃO; FONSECA, 1961; SINKOC et al., 1998; LABRUNA et al., 2002; LABRUNA et al., 2005; NAVA, 2008; MARTINS et al., 2009; WIDMER, 2009).
Em cães domésticos, Rhipicephalus sanguineus foi a espécie de carrapato mais identificada nas três áreas de estudo, similar ao relatado por Szabó et al. (2010) em área rural. Essa espécie de carrapato é considerada vetor da Babesia canis vogeli (DANTAS-TORRES; FIGUEREDO, 2006), mas não foi identificada nas onças-pintadas capturadas.
As onças-pintadas do Pantanal apresentaram a maior diversidade de carrapatos, entretanto essa informação deve ser cuidadosamente interpretada, uma vez que nesse bioma houve mais eventos de captura em comparação às demais áreas (Tabela 38).
Rhipicephalus microplus, identificado nos bovinos do presente estudo, é a espécie de carrapato mais prevalente em bovinos no Brasil (LABRUNA et al., 2005) e foi também encontrado nas onças-pintadas do Pantanal. Nesse bioma, devido ao fenômeno de inundação sazonal, o gado foi introduzido nos hábitats naturais das onças-pintadas (CANÇADO et al., 2008), fazendo com que as duas espécies utilizassem mais áreas em comum do que nas regiões do PNE e PEC. A ocorrência de R. microplus em onças-pintadas foi previamente relatada por Labruna et al. (2002), Labruna et al. (2005) e Nava (2008).
As onças-pintadas, assim como os demais carnívoros, são predadores topo de cadeia alimentar e podem se infestar com carrapatos que parasitam suas presas naturais (LABRUNA et al., 2005), sendo mais expostas a diferentes espécies de carrapatos. A alta frequência do A. cajennense encontrada no PNE e Pantanal sugere a boa adaptação dessa espécie de ectoparasita nas onças-pintadas. A espécie é endêmica da região neotropical e parasita principalmente herbívoros como antas, capivaras e queixadas (ARAGÃO, 1936; BARROS-BATTESTI; ARZUA; BECHARA, 2006). Possui baixa especificidade por hospedeiros (PEREIRA et al., 2000; LABRUNA et al., 2002), tendo sido também identificada em cães e bovinos do presente estudo. Em onças- pintadas, A. cajennense já foi relatado por Aragão (1936), Labruna et al. (2005), Durden et al. (2006) e Widmer (2009).
A. ovale, identificado em onças-pintadas do Pantanal e Parque Estadual do Cantão e cães domésticos do entorno do PEC, é normalmente encontrado em animais silvestres (ARAGÃO, 1936; LABRUNA et al., 2002; BARROS-BATTESTI; ARZUA; BECHARA, 2006). A espécie foi previamente relatada parasitando onças-pintadas por Aragão e Fonseca (1961), Sinkoc et al. (1998) e Labruna et al. (2005). A. triste, identificado em onças do Parque Nacional das Emas e Pantanal, tem como principais hospedeiros na natureza os cervos e veados (BARROS-BATTESTI; KNYSAK, 1999; SZABÓ et al., 2003). Sendo que a associação A. triste e onça-pintada foi previamente relatada por Durden et al. (2006), Labruna et al. (2005) e Widmer (2009). A. tigrinum, por sua vez, foi apenas encontrado nas onças-pintadas do Parque Nacional das Emas, e acredita-se que parasite exclusivamente carnívoros (GUGLIELMONE et al., 2000). Em onças- pintadas, já foi relatado por Labruna et al. (2005) e Durden et al. (2006). Por último, o carrapato A. oblongoguttatum identificado em cães do entorno do Parque Estadual do Cantão, também relatado por Martins et al. (2009), não foi encontrado em onças-pintadas no presente estudo, mas anteriormente foi descrita na espécie por Labruna et al. (2005).
Entre os demais ectoparasitas identificados nas onças-pintadas, a Tunga penetrans foi relatada em menor frequência neste estudo do que por Widmer e Azevedo (2009) em onças-
pintadas do Pantanal. Tunga penetrans é endêmica no Brasil e, animais domésticos e silvestres podem agir como seu reservatório (PILGER et al., 2008). Não se conhece o papel das onças- pintadas na manutenção desse ectoparasita na natureza.
Algumas lesões nas peles das onças-pintadas, causadas por mordidas de carrapatos, brigas intra ou interespecíficas provavelmente deram início as infestações por larvas de Cochliomyia sp. encontradas nos animais do Pantanal. Larvas de Cochliomyia sp. foram também relatadas em onças-pintadas por Rawlins (1985) na Guiana, porém não foram encontrados registros de larvas de Dermatobia hominis na espécie. A larva de Dermatobia hominis possui baixa especificidade parasitária sendo relatada em diversas espécies animais e considerada a principal agente da miíase na América do Sul (SILVA-JÚNIOR; LEANDRO; MOYA-BORJA, 1998; VEROCAI et al., 2010). Segundo Souza, Verocai e Ramadinha (2010), as infestações por Cochiliomyia hominivorax são consideradas mais agressivas, porém infestações pequenas e superficiais, como as observadas no presente estudo, normalmente são benignas.
Durden et al. (2006) relataram que a fauna de ectoparasitas associadas com as onças varia ao longo de sua área de distribuição. Outras espécies de ectoparasitas, diferentes das encontradas neste estudo, já foram identificadas em onças-pintadas: Ixodes boliviensis, I. affinis, Ctenocephalides felis e Juxtapulex echidnophagoides no Panamá, Pulex simulans e Ornithodoros rostratus no Chaco Paraguaio, Pulex irrittans no Brasil, Pulex porcinuns no México, e Felicola oncae na Costa Rica (revisado por DURDEN et al., 2006).
A erradicação ou controle de doenças transmitidas por carrapatos pode ser mais complicado do que responder a um surto de doenças infecciosas (GEORGE; DAVEY; POUND, 2002). Assim, a identificação de ectoparasitas em onças-pintadas é importante não apenas para entender o papel desse felino na manutenção dos vetores na natureza, mas também conhecer possíveis agentes que possam ser veiculados por eles. Embora não realizada neste estudo, considera-se de extrema importância a coleta de carrapatos para extração de material genético e pesquisa de patógenos através de testes moleculares.
7 CONCLUSÕES
• Este é o primeiro estudo de patógenos com enfoque em medicina da conservação para
as populações de onça-pintada, cães, gatos e bovinos nas regiões do Parque Nacional das Emas, Parque Estadual do Cantão e Pantanal sul mato-grossense.
• A Brucella abortus é endêmica nas populações de bovinos, mas aparentemente as
brucelas lisas não representam uma ameaça sanitária para as onças-pintadas nas três áreas de estudo.
• A epidemiologia da leptospirose nas onças-pintadas não envolve bovinos, cães ou gatos
domésticos como reservatórios no Parque Nacional das Emas e Pantanal.
• As populações de onça-pintada das três áreas de estudos provavelmente mantêm um
ciclo silvestre do Toxoplasma gondii na natureza, aparentemente não envolvendo animais domésticos.
• As onças-pintadas do Pantanal provavelmente foram expostas ao vírus da raiva e não
apresentaram infecção letal da doença.
• As onças-pintadas do Pantanal foram expostas ao vírus da cinomose, sendo necessários
mais estudos para elucidar o papel dos cães domésticos como fonte de infecção para o agente.
• O FIV não representa uma ameaça para as populações de onça-pintada e gato doméstico
das três áreas de estudo.
• O FeLV, mesmo presente em gatos domésticos do entorno do Parque Estadual do
Cantão, não representa uma ameaça para as populações de onça-pintada das três áreas de estudo.
• Embora cães dos entornos do Parque Nacional das Emas e Parque Estadual do Cantão sejam expostos a Babesia spp., esse hemoparasita não representa uma ameaça para as populações de onça-pintada nas três áreas de estudo.
• As onças-pintadas das três áreas de estudo provavelmente possuem um papel na
manutenção do Cytauxzoon felis, Hepatozoon spp. e ‘Candidatus Mycoplasma haemominutum’ na natureza.
• Cães e gatos domésticos das três áreas de estudo não parecem estar envolvidos na
transmissão do Cytauxzoon felis para as onças-pintadas.
• As onças-pintadas são suscetíveis ao Mycoplasma haemofelis e ao ‘Candidatus
Mycoplasma turicensis’, mas parecerem não desempenhar papel na manutenção desses agentes no ambiente.
• Mycobacterium bovis não representa uma ameaça sanitária para as populações de onça-
pintada nas três áreas de estudo.
• São necessários mais estudos para confirmar a presença de Giardia intestinalis e
Cryptosporidium spp. em onças-pintadas no Parque Nacional das Emas.
• Deve-se pesquisar a presença de Cytauxzoon felis; Hepatozoon spp., ‘Candidatus
Mycoplasma haemominutum’, ‘Candidatus Mycoplasma turicensis’ e Mycoplasma haemofelis em carrapatos que parasitam as onças-pintadas nas três áreas de estudo.
• É necessário o monitoramento em longo prazo das populações de onça-pintada e
animais domésticos nas regiões do Parque Nacional das Emas, Pantanal e Parque Estadual do Cantão.