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1.3. Kornea Neovaskülarizasyonu

1.3.3.2. Tümor Nekrozis Faktör-α

O asilo se constitui, a partir dos pressupostos da experiência clássica do internamento, como organização ou configuração institucional da visibilidade do louco no contexto da reclusão, bem como da disposição dos parâmetros do exercício de sua liberdade em um contexto institucional restrito. Nesse sentido, apesar de o dispositivo institucional do asilo apresentar fortes traços repressivos, coercitivos e negativos, ele introduz uma inovação em relação ao internamento clássico: um espaço de liberdade. É a circunscrição de condições e formas de uso da liberdade por parte dos insensatos, libertos de suas correntes, de sua coação física imediata. No interior do círculo que os muros do asilo delineiam, o louco é livre. E deve fazer “bom uso” dessa sua liberdade. Assim, o contexto asilar, ao quebrar com o caráter negativo do internamento, lança

novos parâmetros para o poder. Uma vez “livre”, o louco é incitado a usar sua liberdade, seu discurso, sua vontade – entre os muros do asilo. O poder opera então uma função (que, como veremos, reaparecerá na obra de Foucault) – a da incitação. Ao libertar o louco de suas correntes e tirá-lo das mais violentas formas de aprisionamento e contenção física, o poder o lança em um espaço onde a manifestação confessional de sua interioridade é um imperativo – esse louco deve dar-se a ver para um poder que o vigia em sua liberdade, e para um saber que versa sobre suas manifestações, buscando através delas atingir a essência de uma patologia objetiva, bem como alcançar a verdade sobre o homem, através daquela manifestação fundamental e constitutiva desse mesmo homem e seu inconsciente: a loucura107.

O que ocorre aqui? O próprio poder torna o louco, em sua livre manifestação, disponível a um saber sobre o homem. Trata-se de um poder que não se exerce negativamente, mas, pelo contrário, por afetos positivos: incitar a falar, a produzir, a agir. A discussão de Foucault sobre o nascimento do asilo não somente mostra esse poder que não reprime, mas incita (evidentemente, no âmbito de um espaço circunscrito, também crivado de aspectos repressivos e coerções), como também apresenta alguns dos efeitos nessa mudança estrutural na forma de exercício do poder. Efeitos que remetem aquilo que veremos ser uma positividade, ou seja, um poder que instaura algo na ordem das coisas, das relações, que constitui realidades, ao invés de meramente impedir sua constituição.

Qual seria o efeito dessa mudança, dessa nova modalidade de poder que se exerce sobre o bom uso de uma liberdade vigiada no asilo? Que efeito produz? A resposta possível a essas questões seria dada pelo surgimento de um saber médico-psi, que encontra por fim a experiência de longa duração do internamento.

Esse poder, nesse rearranjo institucional, produz as possibilidades de que a loucura se individualize: a experiência coerente que, na Idade Clássica, unificava loucos, indigentes, feiticeiros, libertinos, prostitutas, pederastas e toda ordem de “insensatos”, é agora vista pelos expoentes do asilo como confusão e um “escândalo”. Por quê? Certamente, não porque o louco inocente está misturado aos celerados, mas o contrário, porque ele representa um perigo aos recuperáveis. Tal poder produz também as condições concretas de possibilidade de que a loucura e o louco, individualizados,

sejam objetivados, isto é, sejam tornados objetos de um olhar neutro, positivo, científico de um saber médico agora aproximado às estruturas institucionais de administração dos desviantes. Novo efeito do poder: uma forma de olhar. Essa ideia, introduzida com a discussão sobre o asilo, de um poder que tem como condição de seu exercício a liberdade será, não sem retificações e mudanças semânticas importantes, uma constante na obra de Foucault. Poder não é o contrário ou a privação da liberdade – pelo contrário, poder se exerce estrategicamente sobre a liberdade, sobre o campo de ações possíveis que ela abre. Por isso, não há poder sem resistência.

O arriscado reconhecimento de que, na experiência moderna, a possibilidade deste conhecimento - deste saber que interrogará o homem a partir da loucura e da doença mental desde o universo institucional do asilo - é paralela à realização de operações de poder positivas, o que nos leva a algumas temáticas centrais a Vigiar e

punir. Poder-se-ia dizer, mesmo sob risco de anacronismo, que existem aqui duas imagens possíveis do poder envolvidas nesses dois momentos da História da loucura? Talvez sim, à luz dos rumos posteriores da obra foucaultiana. Pois, se o asilo será a característica essencial da sociedade disciplinar108, na qual o poder passa a funcionar acompanhado e indissociável de um aparato de saber positivo sobre o indivíduo (por sua vez estabelecido através do que Paul Rabinow denomina práticas de divisão), esse modelo disciplinar complementa e ultrapassa - poderíamos até dizer que, em sentido fraco, substitui - aquele do poder soberano, marcado essencialmente pelo poder de reprimir, de punir, pela dimensão negativa, contraprodutiva do poder, por um poder que impede, castra, impossibilita, nega e bloqueia – cuja ação máxima seria causar a morte. Ora, os gestos do poder na Idade Clássica são fundamentalmente aqueles gestos negativos, repressivos, que caracterizarão o poder soberano em Vigiar e punir, enquanto que o asilo moderno, a partir de onde se produzirá o próprio saber científico positivo sobre a loucura, faz antever as dimensões produtivas do poder disciplinar.

Porém, ainda que reconheçamos traços efetivos daquilo que poderia ser chamado de uma polivalência que a noção de poder adquire na obra de Foucault, é necessário

108 O aspecto prisional é definido por Goffman, em Asylum, como característica central do asilo e das instituições totais. O "prision-like" é, para Goffman (1961), um design estrutural subjacente e comum às instituições totais, a partir do qual é possível compreender seus problemas sociais. As prisões são um claro exemplo desse design, possibilitando que apreendamos aquilo que há de semelhante às prisões ("prision-like") em outras instituições ou naquelas em que os membros ou internos não quebraram alguma lei, como manicômios ou conventos (Goffman, 1961).

admitir que esse caráter múltiplo não esteja presente na totalidade da história que nos é narrada na tese maior de Foucault. Para perceber uma narrativa organizadora da obra, devemos atentar para o recorte historiográfico colocado sobre a Idade Clássica. Desse modo, diferindo essencialmente da Renascença pela experiência repressiva do internamento, a Idade Clássica, no que tange à loucura, veicula uma imagem do poder que é essencialmente repressiva. Desse modo, a narrativa que organiza a argumentação da História da loucura como uma arqueologia do silêncio fica clara desde o prefácio de Hamburgo. Trata-se de uma argumentação que apresenta aspectos essencialmente repressivos e negativos: a narrativa do silenciamento, do confisco, da repressão e do esquecimento de uma experiência fundamental: “A História da loucura é (...) a história da repressão da verdade da loucura” (Chaves, 1988, p.18)

Um poder que se instaura a partir da partilha entre mesmo e outro, entre razão e desrazão – que passará a silenciar todas as manifestações dessa desrazão, desse desatino que, no entanto, resistirá, e voltará a emergir estética e transgressivamente nas artes, nos símbolos, na literatura – nos vultos de Van Gogh, Nietzsche, Artaud.

Essa narrativa, no entanto, não anula momentos da obra em que Foucault mobiliza outras operações do poder que não sejam aquelas silenciadoras e repressivas? Como superar esta aparente incoerência da proliferação de modos de ação do poder? Como não subscrever a uma crítica que encontra, entre as concepções de poder e de resistência mobilizadas ao longo da obra de Foucault, apenas incoerência e paradoxo? Talvez seja necessário situar duas formas de narrativa que operam em níveis diferentes da História da loucura: (I) uma narrativa geral, de amplo espectro, que diz respeito ao solapamento e ao esquecimento de uma experiência fundamental; (II) outra, que fala de pequenos universos onde o poder age de maneira local, quase que assentado sobre esse esquecimento original, para trás do qual não há mais volta.

A primeira narrativa (I) seria uma espécie de metanarrativa, uma espécie de filosofia fundamental da História da loucura. Essa filosofia narraria um poder negativo, explícita no prefácio de Hamburgo, que reduziu ao silêncio e ao esquecimento a experiência fundamental da loucura. A experiência dessa “loucura pura”, como colocam Dreyfus e Rabinow (2010), é vista como uma realidade primeira, espécie de fonte ontológica para todas as manifestações da loucura na história, e que parece mesmo preexistir a ela. E essa realidade - que só pode ser interrogada por uma filosofia da

loucura, ou pelas linguagens e símbolos da arte - será soterrada por densas camadas de esquecimento e silêncio, no qual a linguagem da razão prolifera. Esta narrativa, que seria a desse esquecimento e desse silenciamento de uma dimensão trágica fundamental, da qual Foucault tentará se desvencilhar posteriormente, constitui o próprio núcleo filosófico da História da loucura, núcleo do qual os longos percursos descritivos sobre o “grande internamento” não são mais que a faceta histórica e, poderíamos dizer, empírica. Ou seja, o silenciamento da loucura se faz desde dentro da história, através de práticas sociais e instituições, mas implica a dimensão mais fundamental da partilha, a escolha por manter a loucura numa espécie de exterioridade absoluta. Esta grande narrativa, espécie de filosofia da história da loucura, só pode estar baseada numa concepção repressiva e negativa do poder, como algo que está em relação de exterioridade com aquilo sobre o qual se exerce, e que mantém sempre no exterior. E é essa a concepção que subjaz à proposta de uma arqueologia do silêncio, ou de uma filosofia que tematiza o ocultamento de uma loucura fundamental.

Um segundo nível narrativo (II) mobilizado por Foucault na construção da

História da loucura estaria aquém de uma metanarrativa de como a loucura originária foi silenciada – e ficaria mais visível e evidente com a exclusão do primeiro prefácio. Nesse segundo nível, só é possível vislumbrar o que se desenrola a partir desse grau zero que foi a partilha, que foi a repressão e o esquecimento fundamental da loucura. Assim, é uma narrativa que só pode ser articulada desde dentro da história, estando fechada nela, sem acesso a qualquer instância ontológica fundamental ou não histórica.

Nesse âmbito (II), não há uma instância exterior às práticas sociais e históricas. A ênfase é dada às práticas que fazem com que a loucura seja um objeto histórico, sem jamais poder atingir a loucura originária referida na primeira narrativa (I). Esse nível é o da descrição histórica densa das maneiras como a sociedade agiu e reagiu frente à loucura, em momentos específicos e localizados de sua história. Seria um nível formado por uma série de narrativas de menor alcance, que estão compostas sobre essa narrativa de amplo espectro sobre o silenciamento da experiência.

É nessas pequenas narrativas que é possível localizar um “nominalismo” de Foucault na História da loucura, e não na grande narrativa filosófica do esquecimento

da loucura fundamental109. Esse campo das pequenas narrativas que versam sobre as maneiras concretas, efetivas pelas quais nossas sociedades se relacionaram com a loucura, só pode ser constituído a partir do trabalho histórico, que só pode reconstruir histórias de experiências, e não a filosofia de uma experiência fundamental. Nessas narrativas locais e particulares, é possível entrever formas de operação do poder que não se restringe à metanarrativa da repressão do trágico, da loucura fundamental. A partir dessas narrativas, é possível pensar em formas positivas e produtivas do poder, que prefiguram algumas abordagens de Vigiar e punir ou Vontade de saber110.

109 Roberto Machado, em Ciência e saber (1981), critica Paul Veyne por denominar nominalista o método de Foucault na tese maior. Acreditamos que, feita essa distinção entre dois campos narrativos, é possível afirmar que, se Foucault está ontologicamente comprometido com uma experiência originária da loucura, num primeiro nível, o que o caracterizaria no âmbito de uma espécie de realismo da experiência, e revelaria uma série de pressupostos metafísicos ou ontológicos; num segundo, este que só pode existir dentro da história e para o qual qualquer acesso a uma instância ontológica fundamental está vetado, que seria o campo das narrativas locais, documentadas, fundamentadas historiográfica e empiricamente, seria possível localizar princípios nominalistas que serão aqueles que reaparecerão em outras pesquisas históricas de Foucault. A opção por esse segundo campo, a partir do distanciamento de uma filosofia nietzschiana da cultura ou de ecos heideggerianos, parece ser o que orienta o abandono do prefácio de Hamburgo.

110 Limito-me a aqui a sugerir, como hipótese, uma chave explicativa da obra de Foucault a ser desenvolvida em estudos e artigos futuros. Para formular essa chave de leitura seria necessário tomar como ponto de partida uma analogia estrutural possível entre a História da loucura (2005a) e Vigiar e punir (1984). Essa analogia levaria em conta o advento de instituições, práticas e saberes modernos a partir do diagnóstico histórico do desaparecimento de outras instituições. A partir daí, seria necessário traçar o paralelo entre o nascimento do asilo (na História da loucura, a partir do desaparecimento da instituição classicista do internamento) e o nascimento da sociedade disciplinar, da ortopedia moral e das penas corretivas (em Vigiar e punir, a partir do desaparecimento da instituição dos suplícios). A hipótese seria: Foucault passa do poder soberano repressivo e silenciador – visível na estrutura das penas explicada em Vigiar e punir, e na mudança do internamento para o asilo em História da loucura – para uma noção positiva de poder. Isso seria uma afirmação banal. No entanto, a hipótese que aqui formulo é a de que este não é um movimento meramente conceitual de Foucault – uma mudança que diz respeito a maneia como ele pensa o poder. É, sim, uma mudança histórica na estrutura das relações de poder que define a passagem da Idade Clássica para a Modernidade. Essa transição ou ruptura histórica está explicada em Vontade de saber (1988), “Direito de morte e poder sobre a vida”, que fala sobre a mudança de um poder cuja realização máxima seria causar a morte, para uma biopolítica, no âmbito da qual vislumbramos um poder capaz de gerir a vida, sendo a vida o foco das ações de poder e resistência. Infelizmente, essa intuição deverá ser desenvolvida em outra ocasião.

Benzer Belgeler