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Proclo é classificado na tendência especulativa-teúrgica, ou seja, é herdeiro do pensamento já iniciado por Jâmblico. Contudo, é válido lembrar que o grande expoente, e tido

por muitos como iniciador do neoplatonismo136, é Plotino, ainda que Proclo pouco fale sobre o

Licopolitano137. Embora Proclo não tenha posto Plotino como um pensador central, não se pode

desconsiderar que Plotino lançou as bases do neoplatonismo. Deste modo, Dodds defende que Plotino é o filósofo de referência do neoplatonismo, de sorte que o neoplatonismo tardio não

deveria a nenhum outro, exceto a Platão, o que deve ao Licopolitano 138. Logo, é necessário

perceber no que consiste a filosofia plotiniana.

Parte-se do entendimento de que Plotino não se dedica a um estudo sobre o ser, e

sim sobre a unidade, i. é, ele não elabora uma ontologia, mas uma henologia139. Portanto, seria

na unidade que o pensamento grego teria seu núcleo. Sobre esta relação entre ontologia e henologia, é dito:

No nível “ontológico”, o discurso metafísico protológico se funda sobre os conceitos de ser e aqueles estreitamente relacionados a ele, ou seja, sobre os conceitos: “ser”, “não-ser” e “devir”. No nível “henológico”, ao invés (já implicitamente em Platão, mas explicitamente no neoplatonismo), o discurso metafísico ao nível protológico se põe sobre um plano que podemos chamar “metaontológico”, ou seja, acima do ser.140

Se com Platão há uma protologia quando o Uno e a Díade são postos como Princípios e causas do que vem após eles, com Plotino este esquema se delineia mais claramente. Com o Licopolitano, não mais o Uno e a Díade são postos como Princípios e causas

136 Como Amônio Sacas nada escreveu, não se sabe até onde ele teria desenvolvido o sistema que é exposto por

Plotino. Este fato leva os estudiosos do neoplatonismo a discordarem quanto à consideração de Plotino como iniciador do neoplatonismo ou somente como o seu grande expositor. Sobre esta discussão, ver: BEZERRA, Op.

cit., 2006, e REALE, Op. cit., 2008.

137 Neste sentido, Trouillard afirma que para o Diadoco “Plotino é um membro (do Neoplatonismo) entre tantos

outros”. Cf. TROUILLARD. Apud. REEGEN, Jan Gerard Joseph ter. Os Elementos teológicos de Proclo. pp. 267- 286. In: O Neoplatonismo. Org. Oscar Federico Bauchwitz. Natal: Argos, 2001. p. 269.

138 Cf. DODDS, E. R. Introduction. In: PROCLUS. The Elements of Theology. 2° Ed. A revised Text with

translation, introduction, and commentary by E.R. Dodds. New York: Oxford, 2004. p. XIX.

139 Reale informa que os estudiosos da modernidade estão cada vez mais convencidos de que o grande paradigma

grego é henológico, sendo a ontologia uma de suas vertentes. Isto porque, só com Aristóteles a ontologia teria ganhado contornos mais delineáveis.

140 “A livello ‘ontologico’, il discorso metafisico protologico si funda sui concetti dell’essere e su quelli ad Esso

strettamente connessi, ossia, sui conetti: ‘essere’, ‘non-essere’ e ‘divenire’. A livello ‘henologico’, invece (implicitamente già in platone, ma esplicitamente nei Neoplatonici), il discorso metafisico a livello protologico si pone su un piano che potremmo chiamare ‘metaontologico’, ossia, al di sopra dell’essere”. PROCLO. Teologia

Platônica. Traduzione, note e apparati di Michele Abbate. Prefazione di Warner Beierwaltes, introduzione di Giovanni Reale. Texto Greco a fronte. Milano: Bompiani, 2012. p. XXV. (Tradução nossa).

de tudo, mas tão somente o Uno, que é tido como aquele que está além de todo ser e de todo o

devir. Plotino postula três hipóstases: Uno (ἕν), Noûs (νοῦς) e Alma (ψυχή), em um esquema

em que toda realidade tem sua existência a partir do Uno, que por superabundância faz proceder a segunda hipóstase, a do Noûs. É no Noûs que se encontra, pela primeira vez, a multiplicidade, dado que diz respeito à relação entre sujeito e objeto. O Noûs também é caracterizado pela multiplicidade e universalidade, na medida em que compreende todos os seres que nele coexistem. Assim, pensando a si próprio, por superabundância faz proceder a Alma. A Alma se diferencia das hipóstases anteriores por possuir movimento. Neste sentido, ela não só contempla a si mesma, como o que vem antes dela. Por contemplar o Noûs, ela é capaz de produzir, dando origem à realidade sensível e podendo a ela descender, se afastando cada vez mais de seu princípio.

A divisão em hipóstases que ocorre com Plotino se dá, segundo Saffrey e Westerink, com base no exame das hipóteses presentes no Parmênides de Platão. Segundo os referidos estudiosos: “Em todo caso, a interpretação das três primeiras hipóteses do Parmênides apontando para as três hipóstases que tem lugar de princípio, o Uno, o Intelecto e a Alma, são sem dúvidas obra de Plotino. Sobre esta perspectiva, toda a escola neoplatônica somente

estendeu e sistematizou tal exegese.”141 Plotino estabelece três perspectivas de análise das

hipóteses do Uno do Parmênides de Platão, a saber: o Uno absolutamente uno, o uno-múltiplo e o uno e o múltiplo, que corresponderiam às suas três hipóstases. Deste modo, se tem que, para o Licopolitano, o diálogo não abordaria os diferentes modos de investigar um mesmo objeto,

senão uma diferenciação de objetos que são subordinados uns aos outros hierarquicamente142.

Podemos dizer que este é o primeiro ato da geração: nada buscando em sua perfeição, o Uno transbordou e sua superabundância produziu algo diverso dele mesmo. O que foi produzido voltou-se de novo para a sua imagem e, contemplando-a e sendo por ela preenchido, tornou-se a Inteligência. O ato de ter-se detido e se voltado para o Uno deu origem ao Ser; o ato de ter contemplado o Uno deu origem à Inteligência. O ato de ter-se detido e se voltado para o Uno a fim de contemplá-lo tornou-o simultaneamente Ser e Inteligência. Desse modo, repetiu o ato do Uno e imitou um grande poder. Esse segundo transbordamento, o da essência da Inteligência, é a Alma, que veio assim à existência.143

141“Quoi qu’il en soit, l’interprétation des trois premières hypothèses du Parménide comme visant les trois

hypotèses qui ont rang de principe, l’Un, l’Intellect et l’Âme, est sans nul doute le fait de Plotin. Sur cette lancée, toute l’école néoplatonicienne n’a fait qu’étendre et systématiser cette exégèse». PROCLUS. Théologie

Platonicienne; Livre I. Texte établi et traduit par H. D. Saffrey et L.G. Westerink. Paris: Les Belles Lettres, 1968. p. LXXIX. (Tradução nossa).

142 Cf. SAFFREY; WESTERINK, In: PROCLUS, Théologie Platonicienne. Livre I, p. LXXVIII.

143 PLOTINO. Tratados das Enéadas. Tradução, apresentação, notas e ensaio final de Américo Sommerman. São

Tudo o que existe tem sua existência no Uno por meio da emanação144, que Berti

interpreta como uma geração que se dá a partir do próprio ser devido uma necessidade. Todavia, ainda que o Uno seja superior, pelo caráter necessário da geração, tudo o que participa dele é

necessário145. Deste modo, embora haja uma interdependência entre causa e efeito, uma vez

que a causa só é causa relativa aos seus efeitos, o Uno é postulado como aquele que a tudo transcende. Assim, Plotino deixa para a tradição dois legados: um sistema no qual todas as coisas de algum modo participam do Uno e dele descendem hierarquicamente e a tarefa de solucionar o problema de imanência e transcendência do Uno relativo a todas as outras

hipóstases. Estes dois pontos tornam-se manifestos quando é dito: “Se o que dele provém é a

atualização de todas as coisas, o Princípio deve estar além e fora de todas as coisas”146.

Benzer Belgeler