Iniciaremos esse tópico lançando uma questão, que pretendemos responder no desenrolar de nossa reflexão: não seria o cartógrafo nelidiano uma espécie de deus, criando mundos como um explorador maravilhado em torno da sua própria invenção? A fim de dar respostas a essa indagação, comecemos recorrendo aos estudos de Aguiar (s/d p. 5), a qual, realizando uma explicação detalhada sobre o significado do mapa, observa que “Entre os celtas, aqueles que possuíam uma arte – no caso a de imaginar mapas – colocavam-se no âmbito de deus.” Acrescentemos a informação da pesquisadora de que, na Antiguidade, quando a arte cartográfica ainda não havia se desenvolvido da forma como a conhecemos hoje, o homem representava o cosmos, o universo e a terra por meio de símbolos geométricos. Nessa época, a geometria era considerada uma ciência sagrada e a concepção geométrica do mundo era interpretada como uma revelação de Deus: “Acreditava-se que ela continha em seus traçados e formas a expressão de um plano divino e que os seus princípios refletiam a gênese e a estrutura do cosmo”. (CAVALCANTI, 2008, p. 13).
Vemos, assim, que representar o universo nos primórdios da ciência cartográfica, e mesmo antes de sua aparição, era algo considerado sagrado, pelo menos até a Idade Média, quando essa concepção começou a perder a sua força. Partindo dessa relação, que associa a gênese da cartografia ao universo do sagrado, é possível perceber no romance Fundador outras analogias responsáveis por estreitar a distância entre o inventor de mapas e a instância divina, transformando o cartógrafo numa espécie de simulacrum dei. A princípio, chama a nossa atenção a semelhança entre o tempo da criação do mundo, atribuída à divindade, conforme relata o texto bíblico, e outro relativo à interpretação do universo, feita pelo cartógrafo da narrativa:
Dispusera de sete dias para interpretar a terra, no mesmo nível de perfeição. Nenhum outro homem aproximando-se tanto das coisas que o Senhor reservou para as criaturas. Não vira bravura igual, nem nos trabalhos de cantaria, ou na transparência colorida dos vitrais. (PIÑON, 1997, p. 128).
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Relata a Bíblia, no livro do Gênesis, que a concepção do mundo ocorreu por um ato da vontade de Deus. De acordo com o primeiro livro do Pentateuco, a terra foi criada durante o período de tempo de seis dias, usando Deus o sétimo dia para descansar. Assim, do primeiro ato de criação ao descanso da divindade, a invenção do mundo realiza-se num decurso de sete dias, os quais passam a contabilizar o tempo de uma semana. Em algumas interpretações do mito cosmogônico, no advento da criação do universo, o número sete apareceria representando o próprio Deus: “O seis é o número arquetípico do processo da criação, o sete representa o criador, a presença de Deus que está no centro de todas as coisas, correspondendo aos sete dias da criação”. (CAVALCANTI, 2008, p. 18).
O número sete aparece pela primeira vez nas Escrituras Sagradas para contabilizar o tempo da criação, mas reaparece na mesma Bíblia cerca de 507 vezes, assumindo, assim, uma conotação sagrada, sendo considerado em outros campos do saber uma espécie de quadrado perfeito. É dessa mesma perfeição temporal, que contabiliza a duração da invenção do universo atribuída a Deus que se vale o cartógrafo Teodorico de Antióquia para interpretar a geografia da terra, consoante pudemos observar na própria narrativa.
Há uma semelhança, nesse caso, entre o tempo de Deus e o tempo do cartógrafo, ambos dispondo de sete dias para criar e interpretar a terra. A comparação entre eles, entretanto, não se encerra com esse fato. Veja que Teodorico de Antióquia é descrito pelo narrador como sujeito destinado às coisas do Senhor. Parece aquele homem criado à sua imagem e semelhança, conforme o próprio Deus prediz no Gênesis 1- 26: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, [...]”.
A deidade do cartógrafo se confirmaria também no nome que lhe é concedido propositalmente pela escritora do romance. Estudos onomásticos e da antroponímia, que examinam o significado dos nomes próprios, atribuem à palavra Teodorico o sentido de “Senhor do povo” e ao vocábulo Teodoro, do qual
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possivelmente deriva Teodorico, a definição de “dádiva de Deus.”6 Se
interpretarmos a palavra Teodorico como sendo formada em sua primeira parte pela transformação do prefixo grego theos, poderemos concluir que, por essa nomeação, o cartógrafo nelidiano possuiria uma instância divina inscrita no próprio nome, uma vez que “teo” carrega a acepção semântica de deus. Ele seria o deus da Antióquia ou Antioquia, uma cidade antiga erguida à margem esquerda do rio Orontes no final do século IV a. C., considerada berço da igreja cristã e que hoje é a moderna Antaquia, na Turquia. De acordo com o livro de Atos (11:26), Paulo de Tarso teria proferido o seu primeiro sermão cristão nessa cidade, onde encontrou- se pela primeira vez com Pedro.
Por que teria, então, nomeado Piñon o seu cartógrafo de Teodorico de Antióquia? Conforme podemos considerar nessa relação do cartógrafo com Deus, a escritora desejaria ratificar essa afinidade, conferindo ao personagem um nome no qual se pudessem revelar os seus atributos divinos, mas, sobretudo, cristãos. Afinal, será guiado pelos mapas do cartógrafo que o personagem Fundador, carregando uma cruz no pescoço, caminhará em direção a terras desconhecidas, onde fundará a cidade de Jerusalém. Considerada um dos maiores símbolos do cristianismo, a cruz ainda aparecerá no próprio mapa do cartógrafo, dividindo as terras escritas no papel, como se indicassem também os pontos cardeais, como veremos adiante. Assim, de posse de um nome que lhe investe dos predicativos divinos, o cartógrafo da Antióquia é aquele que, como todo deus, é consultado por seus súditos, revelando-lhes a sua onisciência, o seu conhecimento relativo ao clima e ao universo:
[...] Tanto que o consultavam a propósito das chuvas exageradas, do advento das estrelas e das guerras de expansão. E pertencendo a um povo nômade até então, que jamais se beneficiou de conquistas eventuais, sempre em busca de novo céu, destinou-se a fixá-los, dos seus estudos dependendo a agricultura daquela gente. (PIÑON, 1997, p. 52).
6 A consulta relativa ao significado do nome Teodorico, levando-se em consideração os estudos
onomásticos, foi realizada em alguns dicionários disponibilizados na internet, como o que se pode encontrar no site: www.significado.origem.nom.br, e no Dicionário da Bíblia: as pessoas e os lugares, citado nas referências desse texto.
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Outra característica atribuída ao cartógrafo e que o faz assemelhar-se ainda mais a uma divindade é uma espécie de imortalidade que o acompanha durante toda a narrativa. Assim como o Deus bíblico, Mestre Teodorico de Antióquia aparenta ter vida eterna, como se o poder de criar mundos por meio de seus mapas o destinasse a uma existência imperecível, razão pela qual o personagem Fundador afirma, não sem determinado espanto: “Eu não conhecera Teodorico de Antióquia. Dizia-se que ultrapassara cem anos, quem decifrou uma natureza milenar”. (PIÑON, 1997, p. 93).
A existência mais que centenária do cartógrafo eleva a sedução em torno da sua figura, dando ao Mestre e a sua obra uma expressão sobrenatural, sobretudo pelo retiro no qual ele se propõe a viver e do qual também não se pode calcular o tempo. Aos seus contemporâneos, o esclarecimento da geografia da terra realizado pelo cartógrafo equivale ao ato da criação feito por um deus, por isso pode o narrador afirmar a respeito de Antióquia: “Pois nenhum outro sábio do seu tempo despertara na multidão o sentimento da maravilha”. (PIÑON, 1997, p. 176).
Compondo cartografias como se descobrisse novos mundos, Teodorico desperta a admiração daqueles que o cercam e que são seus contemporâneos e também daqueles de uma existência em épocas diferentes da sua. A magia que reveste a fisionomia do cartógrafo ultrapassa a barreira dos tempos, tornando-o famoso pela posteridade: da temporalidade arcaica para a medieva, o nome de Teodorico de Antióquia ainda pode ser associado a fatos extraordinários, revestindo-se a sua figura de uma conotação fantástica, como se pode observar pela admiração que ele inspira em Johanus, o personagem viajante que aparece na narrativa em um tempo diferente daquele em que se narram as façanhas do cartógrafo: “Teodorico de Antióquia fascinava. [...] Entidade toda encantada Teodorico. E que outro homem se teria comparado a ele? Sua honra e sua trapaça. Nem rei. A majestade deflorava, mas não atingia extremos”. (PIÑON, 1997, p 97).
Considerado como superior aos outros homens e até mesmo aos reis, o cartógrafo é descrito como de essência ambivalente. Conjuga a honra e a trapaça,
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como se no seu trabalho aliasse mentira e verdade, razão e loucura, se valendo da burla para apontar caminhos que nascem de uma ilusão de óptica ou de lentes holográficas, o que o leva a dizer: “a terra é como eu a vejo!” (PIÑON, 1997, 177). Estabelecendo um contraponto entre a deidade do cartógrafo e a mitologia grega, diríamos que a visão de Antióquia remete à ação de uma atividade criadora dionisíaca da qual nos fala Nietzsche (2005). Desse modo, o cartógrafo inventa espacialidades num jogo que conjuga lucidez e embriaguez, saber e um não- saber. Olhando o mundo, ele o constrói, estendendo pontes entre o sensível e o inteligível, a fim de dar à paisagem formas novas, inesperadas, talvez. Trata-se de uma visão que não descansa sobre a paisagem, mas, ao contrário, põe-na em movimento constante, uma vez que o olhar do fazedor de mapas deseja o infinito, carrega a pulsão de ver o invisível, não se deixando deter por nada.
Se o cartógrafo afirma que a terra é como ele a vê é por que o seu olhar, além de percorrer as espacialidades possíveis, se estende por territorialidades impossíveis, busca a realização do sonho do infinito, por isso não se pode vislumbrar em seus mapas uma visão apolínea do mundo, uma vez que, de acordo com Nietzsche, Apolo é um deus que se caracterizaria pela exigência ética da medida e da beleza. Assim, nas cartografias do Mestre Antióquia, confirmar-se- ia antes a visão dionisíaca do mundo, pela qual se revela a desmedida, o excesso, a ilusão e a alucinação:
A força dionisíaca do encantamento comprova-se ainda aqui no mais alto Píncaro dessa visão de mundo: todo o real dilui-se em aparência, e atrás desta se manifesta a natureza unitária da vontade, inteiramente na glória da sabedoria e da verdade, envolta em brilho ofuscante. A ilusão,
a alucinação está em seu apogeu. (NIETZSCHE, 2005, p. 30).
A partir desse olhar alucinógeno, capaz de mapear até mesmo “o paraíso dos loucos” onde o próprio Teodorico de Antióquia habitaria, o mundo se principia, como se a visão do cartógrafo se associasse às potências do olhar de Deus, ambos responsáveis pelo advento da fundação do universo. Por essa razão, ao entrar na sala de criação do cartógrafo, o personagem Fundador afirma, não sem
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determinada admiração: “- A terra iniciou-se aqui, disse entre manuscritos e mapas”. (PIÑON, 1997, p. 128).
Invadir os aposentos de trabalho do Mestre Antióquia equivale, para Fundador, à penetração em solo sagrado, aquele onde Deus confabula a existência do cosmo. Essa invasão pode ser lida como um deslocamento no espaço, realizado pelo personagem entre diferentes mundos, como se saísse de um plano inferior e entrasse em outro superior. Meletínski (2002, p. 124) destaca que esse movimento entre níveis ou zonas do mundo é recorrente na literatura que tematiza a criação do universo, permitindo ao personagem herói entrar, geralmente, em contato com seres mitológicos, deuses, a fim de obter ajuda ou alcançar algum valor. Considerando essa interpretação, a sala de mapas de Teodorico de Antióquia se constituiria de uma dinâmica parecida com a celestial, podendo daí resultar o fato de ela se localizar no andar mais alto da casa do cartógrafo.
Nessa territorialidade, vendo-se cercado por manuscritos e mapas, os quais despertam o seu olhar maravilhado, Fundador produz suas conjecturas sobre a invenção da terra, acreditando ter feito descoberta sobre sua gênese. É lá que se realizará, pouco depois, o que poderíamos denominar teofania ou hierofania de Fundador: o encontro do herói com o seu deus cartógrafo. Com o objetivo de precisar o significado da hierofania, Eliade (s/d, p. 25) afirma que:
[...] este termo é cômodo, porque não implica qualquer precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos mostra.
No contexto do romance, por todas as conotações que lhe são atribuídas, é Teodorico de Antióquia quem manifesta para os homens do seu tempo a expressão do sagrado. Em certo sentido, conquanto não se faça entre eles um convênio como o realizado entre Deus e Moisés, a aparição do cartógrafo para Fundador teria o mesmo valor da revelação divina descrita no livro do Êxodo. Trata-se de um evento sobrenatural, no qual o cartógrafo aparece ao homem para lhe revelar, mesmo que de maneira emblemática, o seu destino de herói, quando lhe nega o mapa e entrega em seu lugar a espada de Sir Tristan.
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