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III. TÜKETİCİNİN KORUNMASI HAREKETİ VE SOSYAL SORUMLULUK
Segundo Karl Reinhardt os discursos iniciais que antecedem o discurso socrático podem ser divididos em duas partes. A primeira seria constituída pela introdução temática do discurso de Fedro o qual possuiu um acordo sonoro que, precisamente por esta razão, não ultrapassa o tom encomiástico e glorificador dos belos cantos épicos. A segunda parte seria composta pelos quatro demais discursos que, ainda conforme a concepção de K. Reinhardt, apresentam uma outra perspectiva, cada um representando uma verdade particular acerca do amor. Esses discursos, além disso, estariam reagrupados em pares contrastantes. De um lado,
os discursos de Pausânias e Erixímaco; de outro, aqueles de Aristófanes e Agatão, simbolizando, respectivamente, a divisão entre lei/novmo" e natureza/fuvsi"59.
Rötscher60, ao contrário, defende que os discursos estão arranjados em ordem de ascendência de importância, do mais leve – o discurso de Fedro - ao mais impressivo, isto é, aquele de Agatão. Para Steinhart e Hug, por outro lado, eles estariam arranjados em pares, de acordo com a lógica principal, isto é, de acordo com a esfera da atividade de eros que eles representariam. Por exemplo, os discursos de Fedro e de Pausânias dizem respeito à ética, os de Erixímaco e de Aristófanes representariam a física e, finalmente, o discurso de Agatão – assim como o de Sócrates-Diotima – daria ênfase à dimensão psicológica ou espiritual. Além disso, ainda segundo Steinhardt e Hug, um “princípio estético” poderia ser o critério de divisão desses discursos, uma vez que haveria uma progressiva inserção de imagens a cada nova narrativa, o que denotaria um enriquecimento de detalhes frente ao discurso anterior.
No entanto, quando Rötscher afirma ser o discurso de Agatão mais dramático que o de Fedro, por exemplo, ele não considera que o eros agatônico se revele extremamente vazio de significado em relação à concretude, por exemplo, da narrativa de Fedro, acerca do exército de amantes. Além disso, o discurso do poeta trágico se mostra fundamentalmente cômico ao apresentar uma visão de eros semelhante às representações estéticas tardias, àquelas que visam o deus-Amor como uma criança meiga e alada, ao mesmo tempo dócil e ardilosa61. Por
59 REINHARDT, 2007, pp. 64-66. O autor interpreta, de um lado, os discursos de Pausânias – claramente
apoiado na lei – e de Erixímaco – acerca da ordenação do cosmos pela ação do Amor, como sendo ambos referentes à discussão legal. Por outro lado, Aristófanes e Agatão apresentariam encômios estritamente fisiológicos, um apontando para a natureza humana originária e o outro para a ação de Eros sobre a busca natural pelo belo. Ambos, portanto, discursos fisiológicos.
60 Os dois parágrafos que se seguem resumem as observações feitas por Bury, 1932, em sua clássica introdução
do Simpósio e que é brevemente retomada em CORRIGAN & GLAZOV-CORRIGAN, 2006, p. 47.
61 Como se verá mais à frente, o discurso de Agatão é, sem dúvida, cômico e mostra um Eros fluido à
semelhança, por exemplo, deste trecho de Meleagro: “Je fais publier le signalement d’Éros le vaurien: à l’instant même, ce matin, il a quitté ma couche à tire-d’aile. C’est un enfant aux larmes douces, toujours babillant, leste, intrépide, riant d’un nez retroussé, des ailes au dos, portant carquois. Quel est son père ? je n’em sais plus rien: ni le Ciel ni la Terre ne veulent avoir donné le jour au mutin, pas plus que l’Océan, car partout et à tous il est odieux. Prenez garde qu’il n’aille maintenant, ici ou là, tendre encore ses pièges à vos âmes”. (MÉLÉAGRE.
Épigrammes, 177. In: DESCOINGS & CHANTAL [Org], 2008, p. 8). Essa imagem de uma criança alada, intrépida e ardilosa percorrerá séculos e se revelará extremamente difundida tanto na poesia, quanto nas pinturas e afrescos do Renascimento, por exemplo. Aqui, no Simpósio, o discurso de Agatão é o que se mostra mais
outro lado, Steinhart e Hug, bem como mais tarde Robin e Cornford, tratam os cinco primeiros discursos que compõem o Simpósio como não-filosóficos, ou seja, como pontos de vista estranhos à filosofia62. Dorter, por sua vez, argumenta que cada discurso deve ser medido de acordo com a adequação de suas concepções de eros em relação ao bem, o que significaria que cada novo discurso corrige e transcende a concepção de seu antecessor não diretamente sobre a imagem que ele faz de eros, mas sobre a relação deste com a noção de bem. No entanto, Dorter concorda com a visão de que a posição de Sócrates e Diotima incorpora esses retratos do bem que foram progressivamente considerados ao longo dos discursos.
Outra importante divisão é aquela proposta pela leitura de L. Brisson. Nela, aparecem três pares de discursos reagrupados do seguinte modo: num primeiro grupo, temos os discursos de Fedro e de Agatão, que corresponderiam ao exame de um eros singular – mais velho e mais jovem, respectivamente; num segundo grupo, encontraríamos as narrativas de Pausânias e de Erixímaco, para os quais há dois Amores, correspondendo à Afrodite Celestial e Vulgar; e, finalmente, no terceiro grupo, estariam os discursos atribuídos a Aristófanes e a Sócrates, para os quais o Amor é um deus e um daimon, respectivamente, que auxiliaria a humanidade em diferentes caminhos para a realização da meta de suas aspirações63.
Por fim, e com uma posição totalmente avessa às anteriores, temos a leitura de Guthrie que não vê uma ordem significativa na narrativa dos discursos, mas algo acidentalmente proposto por Platão64.
próximo desta imagem meiga do deus-criança que, ao mesmo tempo, é cheio de artimanhas, como veremos mais adiante.
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Esta é a visão clássica de Robin, Cornford e Rosen, de que esses discursos iniciais não passam de exercícios retóricos, alheios ao discurso filosófico. Nós, contudo, discordamos da posição desses autores, uma vez que o que procuramos mostrar, neste capítulo, é justamente a reflexão filosófica de Platão implícita já em cada um dos diálogos que antecedem o de Sócrates-Diotima. Cf. CORRIGAN & GLAZOV-CORRIGAN, 2006, p. 47.
63 PLATON, 2005, pp. 39-40; 48-49.
64 GUTHRIE, W. K. C. A History of Greek Philosophy. Vol. 4. “Plato: The Man and His Dialogues”.
Cambridge: Cambridge University Press, 1975, p. 382, apud CORRIGAN & GLAZOV-CORRIGAN, 2006, p. 47.
Todavia, a ordem nos parece fundamental para a compreensão do que denominamos uma progressiva desdivinização da figura de eros no Simpósio. Isto se deve ao fato de que cada discurso que antecede o discurso socrático contribui para o exame crítico de Platão acerca do caráter divino do amor. Logo, não se trata de uma ordem acidental, mas de algo intencionalmente proposto pelo filósofo, a fim de atingir seu objetivo: mostrar a impossibilidade de se conceber eros como um deus, à maneira do que fizera a tradição. A enigmática crise de soluço de Aristófanes, por exemplo, que faz com que o médico Erixímaco faça seu elogio enquanto o comediógrafo se recupera dos espasmos, parece ser um indício da importância da ordem na composição do diálogo [185c4 ss.]. Afinal, por que Platão introduziria um pormenor como este na dinâmica da narrativa se não houvesse uma importância clara nesta inversão? Como veremos mais adiante, o discurso de Erixímaco se aproxima muito mais daquele realizado por Pausânias do que com a proposta hermenêutica que será colocada posteriormente pela narrativa de Aristófanes. Afinal, Erixímaco e Pausânias falam na mesma perspectiva de um eros duplo, enquanto que o discurso de Aristófanes estará mais voltado a uma dimensão unitária do amor como responsável por uma atração psico- física.
Por outro lado, essa ordem dos discursos não se deve única e exclusivamente pela divisão entre narrativas que dizem respeito ora mais à ética, ora mais à física, ou à passagem de uma reflexão sobre o amor particular à discussão de um amor mais geral. Trata-se, sobretudo, de uma linear e progressiva desdivinização de eros que, a partir do mito reconstituído por Fedro ao encômio do belo por parte de Agatão, deixa entrever uma provocação sistemática de Platão acerca do caráter divino do amor.
Cabe-nos, portanto, analisar o Simpósio como uma narrativa, por um lado, descendente – quanto à crítica progressiva à concepção da natureza divina de eros – e, por outro, ascendente - frente à divinização da própria alma humana e de sua potência
desiderativa intrínseca que a conduz ao conhecimento verdadeiro. Nesta linearidade da narrativa do Simpósio, podemos destacar, entretanto, dois grupos principais. O primeiro seria composto pelos discursos de Fedro e de Pausânias, que atribuem ao amor a natureza explícita de um deus. Já o segundo grupo, constituído pelos discursos de Erixímaco, Aristófanes e Agatão, apresentariam uma imagem do amor muito mais próxima de uma faculdade anímica – seja do cosmos, seja da alma humana, como veremos – do que da imagem divina que os dois primeiros discursos lhe outorgaram.