• Sonuç bulunamadı

TÜKETİCİLERİN İHTİYACI VE ALIM GÜCÜ OLDUĞU HALDE İHTİYACINDAN DAHA AZ TÜKETMESİ DURUMU

Para Alexandre Filho, a pintura é um ato sagrado distante da relação com o mercado, com a produção e comercialização das obras. Trabalho, para esse artista, era sua atuação como comerciário: com horário, cartão de ponto e carteira assinada. Para ele, o único vínculo da sua obra com a produção é a necessidade da sobrevivência imediata, quando a venda dos seus trabalhos mantém suas contas pagas. O ato de pintar, para esse artista, é um prazer necessário, um momento mágico, as formas surgem na sua mente e são transportadas para a tela como um ato espontâneo, como afirma: “(...) eu pego uma tela e vou criando na hora (...)

às vezes está estabelecida a imagem que eu quero, às vezes não (...) tudo o que vier na mente eu vou soltando na tela” (FILHO, 2006).

Dentre as inúmeras temáticas sacras pintadas por Alexandre, destacamos a cena do Gênesis bíblico, Adão e Eva46, abordados pela serpente no jardim do Éden. Essa cena tem sido representada pelo artista durante várias fases. Há, na sua pintura, um respeito à narração bíblica. As figuras nuas, recobertas em suas partes íntimas por folhagens, remetem às imagens estereotipadas dessa passagem, amplamente difundida na história da arte, gravada e pintada por grandes mestres em técnicas e dimensões diferentes e reproduzidas à exaustão pelas reproduções da bíblia em todo o mundo. Por analogia, o artista transpõe a clássica imagem da maçã na imagem do caju, fruto representativo da sua infância. Atualizando o discurso bíblico, Alexandre aproxima a cena do Nordeste brasileiro. A imagem do paraíso bíblico é um marco na obra de Alexandre pela sutileza das cores e formas, tratamento temático inovador e simbolismo das figuras representadas. (Ver figura 72).

Outra imagem religiosa pintada por Alexandre é a figura clássica da Virgem Maria, cercada por anjos em cenários inusitados, com ramagens e flores imaginárias no entorno. A madona, a piedosa, a imaculada são temas presentes no legado da arte ocidental, que permeiam toda a arte religiosa cristã do ocidente47.

Na Arte Moderna, a imagem de Maria tem se perpetuado nas obras dos artistas naїfs em todo o mundo. Figura adorada pelas massas no Brasil, com linhas religiosas vinculadas à Igreja Católica, como a Renovação Carismática, direcionadas para o culto a sua imagem, a figura clássica da virgem permanece no imaginário popular como uma das imagens mais reproduzidas em todos os formatos e presentes na maioria dos lares, santuários e igrejas. A imagem de Maria foi banalizada pela reprodução em série, confeccionada em materiais diversos, como capas de cadernos, santinhos, cartões, camisetas, agendas, bolsas, sacolas etc. tornando-se ícone pop no Brasil.

46 Uma das imagens temáticas de “Adão e Eva” criadas por Alexandre Filho, que o Beatle John Lennon adquiriu

em Londres durante uma exposição. “[...] a tela fazia parte de uma coleção adquirida no Brasil pelo Marchand inglês Peter Hosenwood, do Manhein Gallery, que organizou, em 1970, a mostra Brasilian Primitives

Contemporary Works of Art, em Londres, onde todas as obras do artista paraibano foram vendidas.”

(RODRIGUES, 2001. p. 29).

47 Pintadas pelos mestres do Período Medieval, da Renascença, do Barroco e de praticamente todos os períodos

da história da arte posteriores, a Virgem Maria, um dos principais ícones religiosos de todos os tempos, é uma das imagens primordiais da arte figurativa ocidental.

Figura 72 – Alexandre Filho. Adão e Eva. Década de 1960, coleção particular.

Nas telas de Alexandre, Maria é a santificada, a personificação da pureza feminina. Sua figura encoberta por mantos azuis é representada em uma postura clássica de oração, de louvor, em contraste com outras figuras nuas, rechonchudas, mulatas, sensuais, que estão presentes na maioria das suas obras. Essas duas formas de representação da figura feminina nunca convivem no mesmo espaço pictórico dos seus trabalhos. A imagem da virgem está sempre rodeada dos anjos querubins, geralmente despidos, e com rostos infantis, lembrando as interpretações maneiristas e as reproduções neoclássicas dessa imagem. A santificação, para Alexandre, pressupõe a convivência harmônica do homem com a natureza, plantas, animais. Personagens femininos representados em um cenário imaginário, simbólico e fantástico, são elementos historicamente associados às concepções do primitivo na arte moderna, como descreve Perry (1998):

[...] A noção de “primitivo” como “outro” da cultura ocidental às vezes carregava um conjunto de oposições de gênero, de natureza “feminina” contra cultura “masculina”. Essas oposições simbólicas estão implícitas nas imagens de muitas das obras bretãs de Gauguin, como estão em muitos de seus comentários escritos. (PERRY, et. Al. 1998, p. 24).

Assim como no trabalho de Gauguin, as figuras femininas representam um importante tema na obra de Alexandre Filho. A virgem, os anjos, os animais e as plantas são elementos simbólicos que compõem o mundo imaginário da sua iconologia. Esses elementos são apresentados em um cenário montado com planos de cor limitados por linhas curvas, que procuram harmonizar o contexto dos personagens e equilibrar o movimento. Suas superfícies são suaves, sem profundidade e sobreposição, negação do volume, dos meios tons, dos adornos, dos enfeites. Sua pintura alcança densidade na simplicidade da paleta e na suavidade da linha. (Ver figura 74).

A imagem de São Francisco de Assis (Ver figura 75) foi pintada várias vezes por Alexandre, em períodos distintos da sua produção. O artista representa o santo como um homem simples, vestido de túnica marrom, rodeado de animais e plantas. A tônica da representação dessa imagem, na obra desse artista, reforça a concepção do primitivo, do homem integrado à natureza, convivendo harmonicamente com os animais e as plantas. Pode- se ver concepção semelhante nas figuras de anjos pintadas pelo artista (comentados no II capítulo).

Figura 75 – Alexandre Filho. São Francisco. Acrílica. Década de 1970, coleção particular.

No séqüito de anjos produzidos na obra de Alexandre, seu mais conhecido trabalho é a tela intitulada de “Lúcifer”48 (Ver figura 76). Esse trabalho congrega todos os símbolos recorrentes do conjunto da sua obra: superfícies curvas e linhas retorcidas, movimento visual intenso, figuras humanas, animais e vegetais integrados no espaço pictórico do trabalho. A

48 A tela “Lúcifer”, exposta no salão de arte moderna de 1966, foi publicada num dos principais catálogos

artísticos do mundo, o “Superstock Fine Art Catalog”, editado nos Estados Unidos, pela agência Keystone, em conjunto com os cem pintores mais importantes do mundo. A publicação desse trabalho, com a imagem colocada lado a lado, com importantes artistas universais como Cézanne, Gauguin, Da Vinci, Michelangelo, Matisse e Picasso, reafirmou a qualidade da sua obra, frente o cenário artístico mundial.

obra sacra de Alexandre reflete suas crenças pessoais de homem simples e reforça seu compromisso com a criação, com a estética, com a Arte.

Figura 76 – Alexandre Filho. Lúcifer. Década de 1960. Óleo s/tela, coleção particular.

Benzer Belgeler