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2.3.2. Törenin Kutsal Temelleri: Töre ve Din 1 Törenin Dinsel Olmayan Tarih

2.3.3.3. Töreye Irkçı Bakış

A aparência possui um dispêndio, do mesmo modo que a pele não se resume a uma função. Ela não está submissa a uma economia restrita que a regula em um plano funcional e utilitário. A partir do dispêndio, Jacques Dewitte aproxima o pensamento de Adolf Portmann das reflexões de Georges Bataille, mais precisamente em torno da noção de utilidade. A pele possui uma função e uma utilidade, o que é um fato comprovado por sua estrutura que envolve o corpo, além de pelos estímulos que ela recebe do ambiente. No entanto, existem elementos de gasto e de dispêndio presentes em sua própria aparência, que tem como um de seus aspectos a sedução, o que possivelmente levou Maurice Merleau-Ponty a escrever, em seu curso La Nature, que se a sexualidade visasse apenas o útil, ela poderia se expressar por vias mais econômicas.54

Seria ainda diante da pele que as diferenças entre os modos de pensar a aparência e o dispêndio se encontrariam, uma vez que a pele aciona, segundo Didier Anzieu, um “pensamento plástico”. Sem dúvida, trata-se de uma contribuição para aproximarmos a animalidade da plasticidade, em princípio, na superfície da pele. A própria matéria com sua definição corporal torna-se incerta e a partir de Anzieu poderíamos nos perguntar de qual matéria se trata.55 O espaço pode modificar sua própria matéria, pois tratando-se de um espaço literário, a pele possui uma textura distinta de uma instalação artística ou uma

52

BATAILLE, Georges. Œuvres Complètes VII. Paris: Gallimard, 1992. p. 316-317.

53 BATAILLE, Œuvres Complètes VII, p. 200. “a la vérité, la bourgeoisie fait de l’homme un animal servile et mécanique.”

54 MERLEAU-PONTY, Maurice. La Nature. Paris: Seuil, 1995. p. 99-100. 55

Segundo Didier Anzieu “a noção de Eu-pele aparece no cruzamento de diversas cadeias semânticas: viscosidade, aderência, sucção, apego, aglutinamento, inclusão recíproca.” (“la notion de Moi-peau apparaît au carrefour de plusieurs chaînes sémantiques : viscosité, adhésivité, agrippement, attachement, agglutinement, inclusion réciproque.”). Essa plasticidade nesse caso nos interessa mais precisamente pela viscosidade, pelas secreções orgânicas, muscosidades, saliva, suor, muco, esperma, perdas brancas. ANZIEU, Didier. L’épiderme

performance. Além disso, no espaço literário o corpo é capaz de tornar-se cada vez mais informe, impossível, paradoxal, participando do texto com sua matéria incerta.56

Com o corpo mais próximo da matéria, que características a pele teria no espaço literário? Decorrente de contínuas mudanças físicas, não seria apenas um corpo fisiológico, mas um corpo fragmentado, rearticulado, enfim, um “corpo-montagem” que tem uma autonomia e que está ligado à animalidade nos seus movimentos de formas. Essa variedade de corpos na literatura também se prolonga até outros animais, os quais também fazem parte de um conjunto heterogêneo de corpos fictícios e impossíveis porque, uma vez inscritos no texto, mesmo regidos pela linguagem, delocam-se dos corpos anatômicos e factuais. No texto, o corpo se animaliza. Assim, tais corpos criam aberturas para discutirmos um conceito de animalidade, que recortamos como um movimento contínuo de formas animais. Um corpo fictício ainda não se inscreve na condição de um fantasma,57 mas resulta de camadas de pele alteradas pela transformação do tempo. É daí que perguntamos: quais peles teria esse corpo ficcional e quais animalidades o constituem? Seria essa pele semelhante à pele que realmente tocamos, que nos seduz e que ainda nos assombra? O fato é que um conjunto de corpos nos aciona, nos movimenta, nos estabiliza. Ele ainda aciona uma vizinhança que seria capaz de propor uma história contraditória, como a do erotismo que implica em uma exposição do corpo ao pathos, a uma reutilização do excesso, dos écarts, do apodrecimento pelas transformações da matéria.

A pele é, materialmente, o ponto de maior exposição aos prazeres e aos sofrimentos, enfim, aos excessos. Ela contém uma história que não descarta seus mitos e ficções58 por sua “autoexposição”, por sua “biopoética”, por sua animalidade. Mesmo sabendo que o objetivo deste trabalho não é traçar uma história da pele, ela nos apresenta eixos diacrônicos, sincrônicos e, ainda, anacrônicos no que diz respeito às forças de linhas

56

ANZIEU, L’épiderme nomade et la peau psychique. 57

Será aprofundada posteriormente a questão do fantasma, a partir da leitura de Friedrich Nietszche feita por Pierre Klossowski em Nietzsche et le cercle vicieux.

58 Sobre a questão corpo, pele e história, antes de chegarmos à questão da plasticidade, mais precisamente a partir de Hegel e de Nietzsche, buscamos o caráter informe da história, das genealogias como invenção mítica, e o plasmático da ficção, a partir de um autor de origem desconhecida, Sexto Empírico (II e III d.C), cujos

Esboços exerceram uma grande influência em Hegel, e para quem a história era uma “matéria informe” que

tinha, aliás, uma tripla organização com a qual jogamos para ler a questão da animalidade do corpo no texto. Ela se dividiria em história (historia), mito (muthos) e ficção (plasma). O sentido nietzschiano e depois benjaminiano da críticae a rearticulação do conceito de genealogia, de algum modo, altera a leitura do que ele falava da genealogia como algo que faz parte da história falsa, isto é, mítica. Quanto a isso, ele exemplifica com o surgimento de aranhas e serpentes venenosas nascidas do sangue dos Titãs (HARTOG, François; WERNER, Michael. Histoire. In: CASSIN, Barbara. Vocabulaire européen des philosophies. Paris: Seuil/Le Robert, 2004. p. 554-565).

históricas fundamentais que marcam a questão da aparência e da superfície frente à animalidade como uma textura do humano.

Na produção de Georges Bataille, existem reflexões que traçam um pathos da aparência do corpo até o limite entre seu modo de habitar o mundo, em uma definição ainda complexa, violenta e delicada como a de erotismo.59 Em ensaios, poemas e narrativas, Bataille levou a dimensão erótica aos limites do humano e talvez por isso a animalidade ocupe uma parte importante em sua obra ensaística e literária. Ao mesmo tempo, o autor de

L’érotisme enfatiza um tipo de tradição presente em diversas culturas. Em “Le paradoxe de

l’érotisme”, Bataille opõe erotismo e literatura ao afirmar que “a pintura do erotismo não pode ser renovada, [pois] o paradoxo que é essencialmente do erotismo é uma repetição inútil e, por aí, entra na norma e no tédio.”60

Ao expor o erotismo como uma situação imutável, Bataille toma a própria incapacidade da literatura de se fechar em um termo como “literatura erótica”. O que Bataille põe em questão nesse momento é que “a possibilidade da literatura erótica é aquela da

impossibilidade do erotismo.”61 O termo nos leva a uma redundância, pois ele nos faz pensar que o movimento vital contido na literatura já é, por si, erótico. Aliás, ela seria uma manifestação do desejo erótico. Não muito distante dessa questão, Georges Bataille chegou a se valer do termo “fenomenologia erótica” (La phénoménologie érotique) em um projeto de 1939 que permaneceu inacabado. No entanto, a partir desse projeto de Bataille nota-se uma derivação direta de sua leitura do filósofo alemão Friedrich Hegel:

Fenomenologia erótica se refere à Hegel e significa fenomenologia do

espírito tal como ela aparece na existência erótica. O domínio erótico tem talvez certas prerrogativas em relação a aquele da angústia etc. Portanto, fenomenologia erótica também significa, evidentemente, fenomenologia parcial.62

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A definição se torna mais complexa e delicada quando nos perguntamos sobre o grau de erotismo contido na tentativa de fusão da matéria orgânica e inorgânica em movimento, o que nos fará desenvolver uma plasticidade da animalidade.

60 BATAILLE, Georges. Œuvres complètes XII. Paris: Gallimard, 1988. p. 321-322. “La seule objection valable opposée à l’érotisme en littérature: la peinture de l’érotisme ne peut être renouvelée, le paradoxe que l’érotisme est par essence se change en une répétition oiseuse et, par là, rentre dans la norme et dans l’ennui.”

61 BATAILLE, Œuvres complètes XII, p. 323. “Au-delà de la répétition, la possibilité de la littérature érotique est celle de l’impossibilité de l’érotisme.” Não seria para nós a animalidade uma armadilha, a própria impossibilidade de um contato direto com os animais? Seria, neste caso, a animalidade, finalmente, uma mediação?

62 BATAILLE, Georges. Œuvres complètes VIII. Paris: Gallimard, 1976, p. 524. “Phénoménologie érotique se réfère à Hegel et signifie phénoménologie de l’esprit telle qu’elle apparaît dans l’existence érotique. Le domaine érotique a peut-être certaines prérogatives par rapport à celui de l’angoisse, etc. Toutefois phénoménologie érotique signifie évidement aussi phénoménologie partielle.”

Mesmo criando, com seus desvios, a partir pensamento filosófico – pois criticava duramente a filosofia –, Bataille incorpora em sua obra uma leitura particular de filósofos como Friedrich Hegel e Friedrich Nietzsche, lidando com o que há de mais “érótico”, isto é, “excessivo” em ambos. Por esse viés, ele fez um vasto recorte dos pensamentos de Hegel e de Nietzsche, ressaltando que ambos foram tratados de modo particular por Alexander Kojève, em L’introduction à la lecture de Hegel, em 1947, e por Pierre Klossowski, em Nietzsche et le

cercle vicieux, publicado em 1959. A partir do primeiro, Bataille esboçou uma

“fenomenologia erótica” que se liga à animalidade a partir de uma parte do corpo, a boca. “Boca” (Bouche) é o título do verbete publicado no nº 5 da revista Documents, em 1930:

A boca é o início, ou, se desejarmos, a proa dos animais: nos casos mais característicos, ela é a parte mais viva, quer dizer, a mais assustadora para os animais vizinhos. Mas o homem não possui uma arquitetura simples, como as feras, sendo impossível afirmar onde ele começa. A rigor, ele começa pelo alto do crânio, mas o alto do crânio é uma parte insignificante, incapaz de atrair qualquer atenção; são os olhos ou a testa que desempenham, como no maxilar dos animais, uma importante função. Nos homens civilizados, a boca até mesmo perdeu a característica relativamente proeminente que ainda se mantém nos homens selvagens. Todavia, o violento significado da boca é preservado em estado latente: de repente, ele vem à tona com uma expressão literalmente canibal como boca de fogo, aplicada aos canhões com os quais os homens se matam. E, nas grandes ocasiões, a vida humana ainda se concentra de forma bestial na boca, a cólera faz ranger os dentes, o terror e o sofrimento atroz fazem da boca o órgão dos gritos dilacerantes. Sobre esse assunto, é fácil observar que o indivíduo perturbado levanta a cabeça, tensionando freneticamente o pescoço, de modo que sua boca tenta, ao máximo, ocupar o prolongamento da coluna vertebral, ou seja, a posição que

ela normalmente ocupa na constituição animal – como se as impulsões

explosivas jorrassem diretamente do corpo pela boca, sob a forma de vociferações. Essa característica ressalta, ao mesmo tempo, a importância da boca na fisiologia ou até mesmo na psicologia animal, bem como a importância da extremidade superior ou anterior do corpo, orifício de profundos impulsos pelo menos de duas vezes diferentes, no cérebro ou na boca, mas assim que esses impulsos tornam-se violentos, ele é obrigado a recorrer à maneira bestial de liberá-los. Daí o caráter de limitada constipação de uma atitude estritamente humana – o aspecto magistral da fisionomia

boca fechada, bela como um cofre-forte.63

63 BATAILLE, Georges. Bouche. Documents. V.2. Paris: Jean Michel Place, 1991. p. 299-300. “La bouche est le commencement, ou, si l’on veut, la proue des animaux : dans les cas les plus caractéristiques, elle est la partie la plus vivante, c’est-à-dire la plus terrifiante pour les animaux voisins. Mais l’homme n’a pas une architecture simple comme les bêtes, et il n’est même pas possible de dire où il commence. Il commence à la rigueur par le haut du crâne, mais le haut du crâne est une partie insignificante, incapable d’attirer l’attention et ce sont les yeux ou le front qui jouent le rôle de signification de la mâchoire des animaux. Chez les hommes civilisés, la bouche a même perdu le caractère relativement proéminent qu’elle a encore chez les hommes sauvages. Toutefois, la signification violente de la bouche est conservée à l’état latent: elle reprend tout à coup le dessus avec une expression littéralement cannibale comme bouche à feu, appliquée aux canons à l’aide desquels les hommes s’entretuent. Et dans les grandes occasions la vie humaine se concentre encore bestialement dans la bouche, la colère fait grincer les dents, la terreur et la souffrance atroce font de la bouche l’organe des cris

Bataille ensaia uma arquitetura do corpo humano ao buscar um começo para o corpo. Ao diferenciar a boca do alto do crânio, o autor compõe os eixos (horizontal e vertical) que marcariam a imanência da boca, realizando uma relação oximoresca que considera o contraste entre um grito de dor e uma prática verbal puramente retórica. Toda a diferença, portanto, é marcada pelo estado latente de violência que a boca representa, isto é, o de ser um “orifício dos impulsos físicos mais profundos”. Bataille se vale de termos como “fisiologia”, “psicologia animal” e “impulsões físicas”, que evocam um vocabulário da biologia ou até mesmo da zoologia. Assim, se lermos o Traité de psychologie animale do biólogo e fisiologista neerlandês Frederick Buytendijk, no qual a crescente complexidade dos organismos está justamente na pele – que também é uma fronteira entre as trocas térmicas, possibilitando condições para um meio interno –, a boca seria um meio de trocas energéticas entre a comida e a palavra, entre alimento e linguagem.64 A boca, assim, produziria uma outra pele, a pele da linguagem, uma “pele fônica”, como já afirmou Emanuele Coccia, pois falar seria uma maneira de “dar existência a uma pele fora de nós mesmos”, afinal “a linguagem não seria mais que uma pele móvel.”65 Quanto ao alto do crânio, ou mais precisamente a cabeça, Adolf Portmann nos ajuda a expandir o ápice dessa complexa arquitetura humana:

A cabeça caracteriza uma organização superior; ela é o ponto de encontro de três polos funcionais importantes para a vida sensorial, para a nutrição e para o movimento. É preciso que uma boca e seus mecanismos, os órgãos de percepção e um cérebro sejam agrupados a uma extremidade do corpo e constituam o elemento avançado de um degrau para que nós tenhamos realmente uma cabeça.66

déchirants. Il est facile d’observer à ce sujet que l’individu bouleversé relève la tête en tendant le cou frénétiquement, en sorte que sa bouche vient se placer, autant qu’il est possible, dans le prolongement de la colonne vertébrale, c’est-à-dire dans la position qu’elle occupe normalement dans la constitution animale. Comme si des impulsions explosives devaient jaillir directement du corps par la bouche sous forme de vociférations. Ce fait met en relief à la fois l’importance de la bouche dans la physiologie ou même dans la psychologie animale et l’importance générale de l’extremité supérieure ou antérieure du corps, orifice des impulsions physiques profondes: on voit en même temps qu’un homme peut libérer ces impulsions au moins de deux façons différentes, des le cerveau ou dans la bouche, mais à peine ces impulsions deviennent violentes qu’il est obligé de recourir à la façon bestiale de les libérer. D’où le caractère de constipation étoite d’une attitude strictement humaine, l’aspect magistral de la face bouche close, belle comme un coffre-fort.”

64 BUYTENDIJK, Frederik. Traité de psychologie animale. Paris: Puf, 1952. p. 56. 65

COCCIA, La vie sensible, p. 133. “Donner une existence à une peau hors de nous”, pois “le langage ne serait plus qu’une peau mobile.”

66 PORTMANN, La forme animale, 1961, p. 66-67. “La tête caractérise une organisation supérieure ; elle est le lieu de rencontre de trois pôles fonctionnels importants de la vie sensorielle, la nutrition et le mouvement. Il faut qu’une bouche et ses outils, des organes de perception et un cerveau soient groupés à une extrémité du corps et constituent ‘élément avancé de la marche pour que nous ayons réellement une tête.” PORTMANN, La forme

animale, 2013, p. 96. “La tête caractérise une organisation supérieure; elle est le lieu de rencontre de trois pôles fontionnels importants: la vie sensorielle, la nutrition et le mouvement. Il faut qu'une bouche et ses outils, des organes de perception éloignée et un cerveau soient rassemblés à un pôle du corps qui constitue l'élément avancé de la marche pour que nous ayons réellement une tête".

Da ação de uma boca passamos à exigência de uma cabeça, da exigência de um corpo, enfim, à exigência de uma pele. Diante de toda a problemática da “autoapresentação” e da aparência contida na questão da pele, nos perguntamos o que é ter uma boca. A fotografia feita por Jacques-André Boiffard para o verbete “Bouche” acentura o grito como uma suspensão da linguagem em Bataille, ela acrescenta ainda o momento da formação de uma pele, pois o grito é um pele, a pele do medo e do horror na sua força fônica. Essa fotografia evidencia um corpo interior enquanto a pele real está fora de foco e todo o campo semântico da boca amplia o sentido do conflito entre essas duas peles.

Figura 7 – Fotografia para o verbete “Bouche”, de Jacques-André Boiffard

Fonte: Revista Documents v.2. Paris: Jean Michel Place, 1991. p. 299-300.

Entre essas duas peles existe toda uma suspensão do pensamento sob o efeito do grito. O que é então esse grito? O som emitido com força pela voz humana é um pele no sentido dado por Emanuele Coccia, mais trata-se de uma pele sem uma forma bem definida, ainda informe. Trata-se de um signo, mais um signo cego que percorre a animalidade. O grito, no sentido dado a partir de Bataille, evoca um estado suspendido do pensamento que nos leva a um projeto ao qual ele participou, a Acéphale.

O conceito de acéfalo marca toda uma geração do período entre-guerras. Nesse caso, a acefalia torna-se um elemento político, sendo uma parte constitutiva do “corpo- montagem”. A imagem do acéfalo encontra sua origem figural67 em um desenho de André Masson. O corpo humano sem cabeça apresenta duas estrelas no tórax e, ao invés de exibir o sexo, ele mostra um crânio. A Acéphale constitui uma revista que conta com cinco números, publicados entre 1936 e 1939. Nesses números, as águas-fortes de Masson dão um ar telúrico às suas páginas, onde ora o homem está sem cabeça, ora com uma cabeça de touro. Nesse período existe uma recepção ao pensamento de Nietzsche. Nessa revista existia um ódio ao signo, como escreve Michel Camus no prefácio da revista. Tal como Bataille declarou seu ódio à poesia que por sua vez também era um ódio à política, Camus toma esse “ódio do signo impotente para assinalar a presença do “sem-signo” no centro no homem sem nome.” 68 O acéfalo insinua-se como um homem sem nome. Ele não seria tão somente o homem anônimo na massa e muito menos o homem de negócios em vias de acumular capital, como Bataille escreveu em La part maudite quando critica o espírito capitalista na América protestante ou ainda o “homem-mercadoria” ao quel ele se refere em Théorie de la religion. As imagens apresentadas, da boca na revista Documents e das águas-fortes concebidas par André Masson na revista Acéphale estão ligadas ao excesso e ao desgaste de um “eu”. Como pergunta Michel Camus: “Por acaso podemos sair da prisão do eu (moi) sem sair da prisão da linguagem? Com o homem acéfalo a ferida do sentido está aberta.” 69 A animalidade segundo Bataille surge como um excesso da linguagem, ao lado de diverses desgastes de um “eu”. O grito seguido da decaptação fazem parte de uma exposição desse ferimento do sentido. A leitura que Georges Bataille faz de Hegel e de Nietzsche faz parte dessa ferida, pois, ela torna- se a realização de um corte. A decaptação que consta nas páginas da Acéphale é uma abertura que busca a perda absoluta do indivíduo.70 Essa acefalia, que une fortemente a vida e a morte, para Bataille encontra ainda suas origens em Hegel e Nietzsche.

Antes de passar diretamente à leitura de Friedrich Nietzsche feita por Pierre

Benzer Belgeler