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A revista Yeah! contava com colaboradores free lancer (oriundos da cena musical paulistana) para desenvolver as resenhas dos discos punks, como o João “Gordo”, vocalista da banda Ratos de Porão ou mesmo o baterista da banda Titãs, Charles Gavin. Em seu primeiro número, por exemplo, numa seção chamada “Cotonete”, essa revista chegou a elencar as 10 principais bandas estrangeiras e nacionais que seriam interessantes para que os skatistas ouvissem ao praticar o skate. Nas listas transcritas abaixo, observamos, pelos nomes das bandas, que todas circulavam no universo do rock (principalmente do new wave e do punk rock), sendo outros estilos musicais que tanto movimentaram a juventude nas décadas anteriores, como MPB, Disco ou a Bossa Nova, formações culturais já estranhas ao universo do skatismo.

Lista de bandas estrangeiras (EUA/Europa) 1 – Dead Kennedys 2 – T.S.O.L 3 – The Cure 4 – The Sister of Mercy 5 – Agent Orange 6 – Siouxsie and The Banshes 7 – Black Flag 8 – The Faction 9 – New Model Army 10 – The Jesus and Mary Chain

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Lista de bandas brasileiras 1 – Garotos Podres 2 – Plebe Rude 3 – Grinders 4 – Replicantes 5 – Ira! 6 – Muzak 7 – Voluntários da Pátria 8 – Akira S. e as Garotas que Erraram 9 – Lobotomia 10 – Maria Angélica não mora mais aqui63

Tal lista, evidentemente, não era externa à “tribo” dos skatistas e sim correspondia a suas preferências musicais. A skatista paulista Mônica Polistchuk64, por

exemplo, dizia em entrevista publicada nesta mesma edição que gostava de praticar skate ao som de bandas como “Dead Kennedys, The Cure, Legião Urbana e Ira!”65. Tendo o rock e o punk rock como referências, o skatista Guto Jimenez, que ocupava um espaço de articulista nesta mesma publicação, explicava em linguagem pouco condizente com o jornalismo profissional66 que,

A música que acompanha os skatistas choca os que não estão acostumados. Tem que ser espontânea, ter uma batida rápida e um ritmo dançante, para que nas sessions [...] os praticantes do esporte mais radical da Terra possam debulhar e colocar toda a sua adrenalina nas manobras [...] Evidentemente, a resposta dos skatistas a “sons” do tipo Absyntho, Roupa Nova e outras merdas, é um brado a todo pulmão: FUCK OFF!67

63 Revista Yeah!, n. 1, 1986, p. 44.

64 Embora o skate tenha sido produzido como uma atividade mais direcionada às representações

comumente associadas ao gênero masculino, em alguns momentos as revistas traziam citações ou pequenas entrevistas com skatistas mulheres. Não é nosso objetivo debater questões ligadas ao gênero na prática de skate. Para uma discussão aprofundada sobre o assunto, ver: FIGUEIRA, Márcia Luiza Machado. Skate para meninas: modos de se fazer ver em um esporte em construção. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano), UFGRS, 2008.

65 Idem, p. 20.

66 Como já escrevemos no capítulo anterior, dentre as principais características das “mídias de nicho”

figuram a ausência de uma linguagem profissional e imparcial.

198 Como podemos observar, se a Yeah! pretendia construir “as bases sólidas para o esporte” – como expresso em seu primeiro editorial – ela também mandava um “Fuck off” para todos que ouviam músicas românticas ou, nas palavras de Guto Jimenez, “merdas” como os conjuntos musicais “Roupa Nova” e “Absyntho”. Assim, ao desprezar tudo aquilo que fosse estranho ao universo musical dos skatistas, essa revista assegurava certa coesão “tribal” aos mesmos, reforçando o aspecto coesivo dessa atividade e a fundamentando na partilha de valores, lugares e ideais68. Ao mesmo tempo, ao fazê-lo, assumia e atribuía a si mesma um papel normativo, estabelecendo parâmetros para a definição sobre quem era e quem não era membro.

As primeiras edições retrataram mais as bandas de rock e punk rock, como Plebe Rude, Garotos Podres, Replicantes e o Capital Inicial, geralmente enfatizando o fato de que alguns membros dessas bandas andavam ou já haviam andado de skate. Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, afirmava ter sido skatista no final da década de 1970, quando morava na Europa69. Já os integrantes da banda de punk rock Grinders diziam que o “skate é o esporte mais urbano e o que mais tem a ver com o Punk”70.

Nessa mesma linha, em entrevista com a banda de punk Cólera, um dos integrantes, chamado Redson, deixava a seguinte mensagem para os fãs: “Ande de skate, que é um tesão”71.

No livro “A Onda Dura: 3 Décadas de Skate no Brasil”, é relatado que o skatista paulista Maurício “Shit” foi um dos integrantes da banda “Os Inocentes”, gravando dois dos maiores clássicos do punk rock nacional: “Garotos do Subúrbio” e “Pânico em SP”. Bandas como “Grinders”, “Lobotomia” e “Coquetel Molotov” contavam com skatistas entre seus músicos. Em outras cidades fora do eixo Rio-São Paulo, como em Porto Alegre, alguns skatistas fizeram parte da formação inicial da banda “Replicantes”; e em Brasília, o skatista “Podrão” formou a banda “Detrito Federal”, sendo que uma de suas músicas, chamada “Desempregado”, foi bastante tocada em algumas rádios no país72.

Mas o universo musical retratado por Yeah! não se restringiu ao punk, pois com o crescimento do heavy e do trash metal, as bandas desse gênero também passaram a ter espaço com resenhas, entrevistas e, em algumas ocasiões, até mesmo manifestavam em

68 MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades pós-modernas.

Rio de Janeiro: Forense Universitário, 2006, p. 51.

69 Revista Yeah!, n. 4, novembro de 1986, p. 58. 70 Revista Yeah!, n. 2, maio de 1986, p. 48. 71 Revista Yeah!, n. 6, outubro de 1987, p. 54.

72 JIMENEZ, Guto. Skate-rock. In BRITTO, Eduardo (org.). A Onda Dura: 3 Décadas de Skate no Brasil.

199 cartas enviadas a redação o apreço que tinham pela prática do skate73. Em uma das edições da Yeah!, por exemplo, um dos integrantes da banda Sepultura – chamado Igor – era retratado pelo fato de, além de ser considerado o mais rápido baterista em atividade no Brasil, praticar skate regularmente na cidade onde morava, Belo Horizonte. Nas fotos, Igor aparecia ao lado de seu skate, deixando mais do que evidente a relação entre a música “pesada” e a prática desta atividade74.

Figura 28: O baterista da banda Sepultura fotografado junto com seu skate. Fonte: Revista Yeah!, n. 9, 1988, p. 63.

Os cabelos compridos, como podemos observar na imagem, eram uma das características associadas aos roqueiros adeptos do som “pesado”, como o heavy metal e o thrash metal. Segundo Abda Medeiros, as longas madeixas funcionavam, imaginariamente, como uma forma de identidade “construída pela experiência de ouvir e tocar Metal”75. Além dos cabelos, notamos o uso de anéis de caveira e a calça rasgada

73 Como exemplo, citamos uma carta escrita pela banda de trash metal paulistana chamada Korzus: “Nós

do Korzus piramos com skate e sempre que dá, compramos a revista”. Revista Yeah!, n. 8, 1988, p. 25.

74 Além da Yeah!, o grupo Sepultura também foi entrevistado pela revista Skatin’. Nesta ocasião, a

relação com o skate foi igualmente enfatizada. O baterista Igor, por exemplo, dizia-se “totalmente streeteiro”, afirmando praticar skate até mesmo em cemitérios. Outra informação importante diz respeito a inclusão do skate num vídeo-clipe da banda, que estava em produção. Além disso, Igor também afirmava que “os skatistas são muito mais radicais que os surfistas”. Revista Skatin’, n. 8, 1989, p. 69.

75 MEDEIROS, Abda. O espetáculo dos “metaleiros”: cenários e encenações corporais. In ForCaos:

muito além do sexo, drogas e rock and roll. Fortaleza: Editora da Universidade Estadual do Ceará (EDUECE), 2007, p. 14.

200 na altura do joelho. Sem dúvida, tratava-se de um traje que não lembrava em nada aqueles usados pelos esportistas convencionais. Os skates de Igor, na parte debaixo da prancha (shape), exibiam adesivos de algumas bandas: no que está em suas mãos podemos observar os nomes “Misfits” e “Suicidal Tendencies”, já no que aparece apoiado do muro, do seu lado direito, é possível deduzirmos a escrita do nome da banda “Metallica”, a partir das letras finais de seu logotipo.

Como já afirmamos, muito dessa estética que vinha com o punk e/ou o rock pesado (heavy metal) encontrava vazão na arte (e também nos adesivos) que estampava a parte inferior das pranchas de skate. Segundo afirma o pesquisador Tiago Cambará Aguiar, durante a segunda metade da década de 1980, a maioria dos fabricantes de skate (sendo que, entre eles, havia muitos que também eram praticantes ou ex-praticantes dessa atividade), passou a demonstrar uma predileção por elementos gráficos agressivos, os quais traduziam - mas também ajudavam a fomentar - a identificação existente com esses movimentos de contracultura juvenil. Para representar o caráter insurgente e também o fato do skate ser uma atividade perigosa e ousada, a maioria das pranchas começou a apresentar designs contendo grafismos que tinham, segundo Aguiar, “uma intenção de chocar e parecer subversivo ou transgressor”76.

No Brasil, o grande nome ligado a arte gráfica dos skates durante a segunda metade da década de 1980 foi o paulistano Billy Argel, o principal responsável pela concepção da maioria dos grafismos encontrados na parte inferior das pranchas de skate. Através do contato inicial com o editor da revista Tribo Skate, César Gyrão, foi possível chegar até Argel e realizar uma entrevista semi-estruturada em sua residência, localizada na cidade de São Paulo.

O artista nos relatou que, embora formado em Publicidade e Propaganda, seu interesse pela arte (principalmente pelos desenhos) nasceu muito antes de sua formação acadêmica. No final da década de 1970, Billy foi um dos grandes freqüentadores da Wave Park (que, como demonstramos no segundo capítulo, foi uma importante pista de skate situada no bairro de Santo Amaro, em São Paulo), onde fazia grafismos na parede dessa pista (ele desenhou, por exemplo, a caricatura de muitos skatistas que a freqüentaram). No início da década de 1980, com o fechamento da Wave Park, Billy começou a andar de skate nas ruas e também no Parque do Ibirapuera, local onde fez muitos amigos que também eram skatistas. Foi por volta dessa época que ele começou a

76 AGUIAR, Tiago Cambará. Skate e seu design gráfico: uma breve análise. In BRANDÃO, Leonardo;

201 se interessar pelo punk rock, fato que o motivou a montar, no ano de 1984, uma banda específica desse gênero, chamada Lobotomia77.

Billy Argel não foi, portanto, alguém que surgiu de modo externo à cena do skate, sendo recrutado pelas empresas para desenhar em seus modelos de prancha (shape). Como ele ressaltou em diversos trechos de sua entrevista, tudo em sua vida aconteceu de modo “natural”, isto é, nunca houve uma imposição do mercado ou algo desse gênero para que ele viesse a desenhar nas pranchas. Por ser um skatista desde o final da década de 1970, ele conhecia a maioria dos praticantes dessa atividade, sendo que os mesmos também já sabiam do interesse de Billy Argel pelo universo dos desenhos. Por isso o convite para ilustrar as pranchas de skate surgiu de modo espontâneo.

Para ele, o interessante “era estar envolvido com uma galera que falava a mesma língua”78, pois havia na época “um espírito que envolvia todos”. E este espírito, como lembrou, estava muito associado ao punk-rock, ao new wave e ao rock pesado. Billy Argel nos disse que ele buscava transportar para o seu desenho justamente aquilo que tanto ele, quanto os demais skatistas, gostavam. Por isso os grafismos encontrados na parte inferior das pranchas expressavam sempre o “inconformismo, a revolta, aquela sensação hormonal da juventude, isto é, a sensação de que a gente (os skatistas) podia ir contra todos os padrões engessados da sociedade”.

Mas essa arte inicial de desenhar na parte interna dos skates foi tomando grandes proporções, fato que levou Billy Argel a abrir um estúdio (chamado Highgraph) e também uma estamparia. Este estúdio, conforme nos relatou, virou um “verdadeiro ponto de encontro” na cidade de São Paulo, pois por lá passaram inúmeras bandas, como Sepultura, Ratos de Porão, fotógrafos e demais pessoas que se identificavam com os desenhos por ele elaborados. No ramo do skate, Billy Argel relata que chegou a desenhar para praticamente todas as marcas existentes na época, mas que as principais foram a Urgh! e a Lifestyle, justamente as duas que mais promoveram seus trabalhos e lhe trouxeram reconhecimento nacional. Nas imagens reproduzidas a seguir, podemos observar uma série de grafismos elaborados por Billy Argel durante a segunda metade da década de 1980. Em todas, não é difícil atentarmos para o fato de como sua técnica correspondia-se com a estética punk e com o rock pesado.

77 Embora Billy Argel não faça mais parte da banda Lobotomia, ela continua em atividade até hoje,

fazendo shows por diversas cidades do país.

78 Todos os depoimentos citados de Billy Argel fazem referência a sua entrevista concedida para o autor

Benzer Belgeler