1. Entre a ataraxia e a rebeldia: a participação da Stoá na política greco-romana
1.1. Estoicismo e cristianismo
No início de sua oitava carta, Sêneca pergunta atônito a Lucílio se com a sua argumentação ele realmente criara a falsa impressão de que pregava uma vida de inatividade1145. A mesma questão poderia ser dirigida hoje a muitos dos intérpretes do estoicismo, que de modo velado ou não preferem enxergar no filósofo estoico um inofensivo intelectual dedicado apenas a pensar o mundo mediante posições passivas, mansas e resignadas. Há certo número de especialistas que a fim de enxergar no estoicismo um proto-cristianismo buscam a todo custo descobrir traços da moralidade e da piedade cristã nas obras de autores como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, enfatizando nestes homens as virtudes da humildade, da docilidade e da submissão. Não é essa, contudo, a compreensão que temos da Stoá.
A identificação arbitrária entre estoicismo e cristianismo se deve em grande parte ao movimento intelectual que ficou conhecido como neoestoicismo, ativo nos século XVI e XVII. Seus principais representantes foram Justus Lipsius, Guillaume du Vair, Pierre Charon, Francisco Quevedo e Thomas Gataker. Os neoestoicos eram cristãos que pretendiam reconciliar a doutrina do Pórtico com os ensinamentos de Jesus, rejeitando, portanto, os aspectos materialistas e deterministas característicos do Pórtico1146. Apesar de terem auxiliado na divulgação do estoicismo, os trabalhos dos neoestoicos – em especial os de Lipsius – foram, nas palavras de Long, um desastre para a interpretação da Stoá como doutrina sistemática. Lipsius não utilizava o material mais técnico da escola e limitava sua leitura à Ética de Sêneca, seu filósofo favorito. Ademais, ele corrigia e diluía as fontes estoicas que lhe pareciam pouco ortodoxas, apelando para textos platônicos e cristãos para distorcer as propostas originais do estoicismo. Contudo, o mais grave erro de Lipsius, infelizmente ainda comum em estudiosos contemporâneos, consistia em tomar o cristianismo como critério para o completo entendimento
1145
SENECA, Letters from a stoic, VIII, p. 44.
1146 DUHOT, Epicteto e a sabedoria estóica, pp. 223-227, LONG, Epictetus, pp. 262-263 e SELLARS, Stoicism, pp.
do estoicismo, com o que ele transformou o caráter distinto da Stoá em “[...] uma antecipação
largamente branda do teísmo cristão”1147
.
Long afirma que a cristandade se apropriou de boa parte da Ética do Pórtico. Contudo, por não admitir adequadamente tal fato a Igreja contribuiu para a amalgamação indiferenciadora de teses estoicas ao complexo de ensinamentos greco-judaicos que se converteu na teologia cristã1148. Por isso o estoicismo é uma parte não reconhecida da tradição cristã que, por seu turno,
sempre tendeu a “[...] confundir as diferenças profundas que de fato existem entre os dois
sistemas de crenças, em detrimento da originalidade dos estóicos”1149. De qualquer modo, ambas as correntes são muito próximas. Sublinhar a influência do estoicismo – em especial a do romano
– nos padres da Igreja constitui uma tarefa legítima e que pode ser cientificamente orientada,
como o prova a obra de Long1150. Atitude bem diversa consiste na tentativa ideológica – e, portanto, não-científica – de enxergar no estoicismo um precursor e justificador das doutrinas cristãs, tal como se Zenão e Sêneca estivessem de alguma maneira inspirados pelo Espírito Santo ao escreverem os seus textos.
Sem desconsiderarmos os vários e importantes traços que irmanam o estoicismo e o cristianismo primitivo, parece-nos forçoso reconhecer que aquele não se reduz à mera preparação deste, ao contrário do que advogam vários estudiosos, tais como Reinholdo Aloysio Ullmann, cuja obra – rica em dados acerca das vidas de Sêneca e de Marco Aurélio – perde todo seu valor científico no obsessivo afã evangélico do autor, que vê em cada passo desses filósofos algumas imaginárias antecipações do cristianismo. Ainda que apresente uma compreensão imparcial dos estoicos gregos, Giovanni Reale se empenha em nos demonstrar que Sêneca teria sido “quase-
cristão” devido às noções por ele desenvolvidas de deus pessoal, pecado e eternidade da alma.
Todavia, Reale reconhece que para os cristãos Deus é quem nos salva, enquanto Sêneca aduz que somente nós mesmos podemos nos resgatar1151, diferença esta nada desprezível em termos filosóficos. Por seu turno, Laferrière descreve o estoicismo como um movimento de índole moralista que objetivava humanizar os feros costumes romanos, preparando assim o terreno para o advento do cristianismo no Império1152. Nem mesmo Adolf Friedrich Bonhöffer conseguiu
1147 LONG, Estoicismo na tradição filosófica, p. 419. 1148 LONG, Estoicismo na tradição filosófica, p. 405. 1149 LONG, Estoicismo na tradição filosófica, p. 406. 1150
LONG, Epictetus, pp. 259-260.
1151 REALE, La filosofia di Seneca come terapia dei mali dell’anima, pp. 151-154.
escapar da tentação de relacionar a Ética estoica ao cristianismo, fazendo notar que tal similitude torna os escritos de Epicteto valiosos para os que creem na mensagem de Cristo. Contudo, Bonhöffer apressa-se a acrescentar que o cristianismo apresenta um sistema moral superior se comparado ao estoico1153.
Imbuído do pietismo característico dos primeiros redescobridores da Stoá do século XX, Arnold sustenta que, devido ao surgimento do cristianismo, o estoicismo entrou em uma nova fase que ainda não terminou1154. Mas antes ele próprio ensinara que o Pórtico do século II a.C. em nada foi influenciado pelo cristianismo, embora alguns seguidores do Nazareno, cujo melhor exemplo seria Paulo1155, tenham buscado fundamentar algumas doutrinas no sistema filosófico estoico. Em resumo, Arnold classifica estoicos e cristãos como vizinhos estranhos entre si, incapazes de enxergar as similitudes de seus sistemas1156. A convergência entre certas doutrinas estoicas e cristãs dever-se-ia ao fato de ambas beberem de fontes comuns. Assim, o persismo está presente tanto na Stoá quanto no cristianismo, embora aquela o tenha recebido pela via de
Heráclito e este por força de sua herança judaica. Ademais, o “espírito do tempo” inspirava às
doutrinas filosóficas e religiosas mais avançadas o ascetismo e a resignação, levando-as a valorizar o âmbito moral interno do indivíduo em detrimento de sua participação ativa nos negócios públicos1157, o que não nos parece exato no que concerne ao estoicismo, como veremos na subseção III.1.2. Arnold conclui que o Pórtico não é apenas uma preparação para o Evangelho, mas sim parte integrante da mensagem de Cristo e por isso mesmo o pensamento da Stoá permaneceria vivo ainda hoje1158.
Apesar de admitir que o estoicismo não é religião, visto ser desprovido de ritos, cultos e revelações1159, Duhot vai ainda mais longe do que os autores supracitados e dedica boa parte de seu estudo a demonstrar como o estoicismo teria inspirado o judaísmo e o cristianismo. Ele começa apontando uma provável influência unilateral da Stoá no judaísmo alexandrino de Flávio Josepo e de Fílon, aduzindo que a Bíblia de Alexandria – a Septuaginta, assim chamada em razão de seus supostos setenta tradutores – teria sido vertida para o grego com base no vocabulário
1153 BONHÖFFER, The ethics of the stoic Epictetus, p. 6. 1154
ARNOLD, Roman stoicism, p. 407.
1155 Arnold traça uma série de paralelos entre o estoicismo e o paulismo que nos parecem irremediavelmente
ingênuos e deslocados do conhecimento que temos hoje acerca da Stoá. Cf. ARNOLD, Roman stoicism, pp. 414-432.
1156 ARNOLD, Roman stoicism, p. 408. 1157
ARNOLD, Roman stoicism, p. 409.
1158 ARNOLD, Roman stoicism, p. 435.
técnico do estoicismo, opinião que não encontra qualquer base documental. Com efeito, os termos gregos citados por Duhot – lógos, pneûma etc. – eram comuns a todas as escolas filosóficas da Grécia. Ainda segundo Duhot, foi graças a seu contato com o estoicismo que os judeus de Alexandria puderam nomear o Inominável, universalizando o conceito de Deus e inaugurando uma inovadora corrente de pensamento judaico-helenística que acabou sepultada após a destruição do Templo pelos romanos1160. A versão cosmopolita do judaísmo teria sido retomada por Paulo de Tarso, que libertou o deus único das últimas ataduras étnicas impostas pelo judaísmo tradicional e nos apresentou o Deus do universo, colorindo-o com as tintas da física vitalista do Pórtico. Ainda há mais: teria sido graças ao estoicismo de Paulo que o cristianismo rompeu de uma vez por todas com o judaísmo, e não devido à discutível culpa dos judeus na morte de Jesus1161. Sobre a correspondência mantida entre São Paulo e Sêneca, documento hoje já amplamente refutado, tido como falso e proveniente da Idade Média, um consternado Duhot reconhece que o texto [...] “atesta uma vontade de reescrever a história como
ela deveria ter acontecido”1162
. Ora, Duhot utiliza procedimentos arbitrários semelhantes ao do apócrifo autor dessas cartas para “reescrever” a história do estoicismo e demonstrar a sua influência central no pensamento cristão. De fato, Duhot nos oferece uma série de comparações gratuitas entre propostas e concepções próprias de ambas as correntes, chegando a afirmar que Cristo, o Deus que se fez homem, é o lógos dos estoicos1163. Como todos os que abandonaram a ciência e se curvaram diante da ideologia, Duhot procede sem qualquer base crítica ou filológico-histórica, chegando mesmo a forçar correspondências textuais. Assim, no pneûma bíblico que acabou traduzido para as línguas neolatinas como Espírito, Duhot teima em ver um legado da física do Pórtico, segundo a qual o mundo é preenchido pelo sopro vital de deus, que lhe dá substância1164. Entretanto, pneûma é um termo grego genérico utilizado não só pelos estoicos, mas por várias outras escolas filosóficas anteriores, podendo ser traduzido tanto por
“espírito” quanto por “sopro” ou “vento”1165
.
Para comprovarmos o absurdo de teses reducionistas como as de Ullmann, Reale, Laferrière, Bonhöffer, Arnold e sobretudo de Duhot, bastaria lembrar que o estoicismo é
1160 DUHOT, Epicteto e a sabedoria estóica, pp. 177-198. 1161 DUHOT, Epicteto e a sabedoria estóica, p. 204. 1162 DUHOT, Epicteto e a sabedoria estóica, p. 218. 1163
DUHOT, Epicteto e a sabedoria estóica, pp. 199-221.
1164 DUHOT, Epicteto e a sabedoria estóica, pp. 200-202. 1165 HANKINSON, Estoicismo e medicina, pp. 331-333.
Filosofia e não Teologia ou religião. Isso significa que a Stoá se ancora na razão, da qual não abre mão em nenhum momento. A busca quase neurótica de reflexos estoicos no cristianismo deriva da necessidade infantil de encontrarmos traços do que nos é conhecido naquilo que nos parece alienígena. Sem dúvida, o estoicismo é uma doutrina filosófica estranha e paradoxal caso nos limitemos à sua superfície. Para torná-la nossa, estudiosos como os que citamos acima tentaram conectá-la ao cristianismo, procedimento que trai indiscutíveis intenções ideológicas. Na verdade, as dessemelhanças entre o Pórtico e o cristianismo são marcantes demais para que possamos antever qualquer influência profunda do primeiro em relação ao segundo, ainda que algumas ideias estoicas tenham sido aproveitadas pelos apologistas do século II d.C., como também ocorreu com o platonismo e o aristotelismo.
Ao contrário dos cristãos, que acreditam na perenidade da alma, para o Pórtico ela é um ser corpóreo e mortal, configurando-se como um simples sopro que habita o homem. Zenão diz que a alma não sobrevive muito tempo depois da falência do organismo1166. O místico Cleantes alonga o prazo até o dia da conflagração universal, enquanto Crisipo reserva tal privilégio apenas às almas dos sábios. Com Panécio a Stoá leva às últimas consequências o seu materialismo1167. Segundo o filósofo de Rodes, qualquer alma se desvanece com a morte do corpo que lhe dá sustento1168. Lima Vaz ensina que o estoicismo se funda em um materialismo radical que rejeita a transcendência e mesmo a existência das ideias puras, da espiritualidade e da perenidade da alma, dado que para a Stoá o lógos se confunde com a phýsis1169. Ademais, recordemo-nos que o cristianismo se funda na crença escatológica da salvação final de todas as almas. Por outro lado, o estoicismo nos parece bastante pessimista nesse ponto, acreditando que apenas o sábio – figura irreal, como visto na subseção II.2.2 – pode alcançar a verdadeira bem-aventurança1170 nesta vida, a única que importa para o Pórtico.
A identificação estoica entre deus e o fogo-artesão e a negação da imortalidade da alma eram teses anatematizadas pelos primeiros cristãos, o que pode explicar porque nenhum texto da Física do Pórtico sobreviveu à Idade Média1171. Por outro lado, desafiando o castigo infernal
1166 GOURINAT, Jean.-Baptiste. Les stoïciens et l’âme. Paris: Presses Universitaires de France, 1996. 1167
Em sentido contrário, Giovanni Reale afirma que o materialismo típico da Stoá grega não foi assumido em sua integralidade pelos estoicos romanos. Segundo lhe parece, Sêneca inclusive teria flertado com o idealismo do médio- platonismo. Cf. REALE, La filosofia di Seneca come terapia dei mali dell’anima, p. 107 e 159-160.
1168 TATAKIS, Panétius de Rhodes, pp. 128-130. 1169
LIMA VAZ, Escritos de filosofia IV, pp. 147-148.
1170 TATAKIS, Panétius de Rhodes, p. 162.