De início saliente-se que a CGU foi criada em 2001 e é o órgão, diretamente
vinculado à Presidência da República, responsável pela coordenação dos temas relativos à
defesa do patrimônio público e ao incremento da transparência da gestão, por meio das
atividades de controle interno, auditoria pública, correição, prevenção e combate à corrupção
e ouvidoria.
Durante os trabalhos da Comissão Especial Temporária de Modernização da Lei
de Licitações e Contratos, a CGU se fez presente em audiência pública ocorrida na 4ª reunião
da comissão realizada em 05 de agosto 2013, conforme informações disponíveis na página
eletrônica de acompanhamento da atividade legislativa do Senado Federal.
Na oportunidade, a CGU foi representada pelo Diretor de Auditoria da Secretaria
Federal de Controle Interno, tendo o mesmo registrado o ponto de vista daquele órgão no que
respeita às alterações necessárias para modernizar a Lei nº 8.666/1993.
Foi apontado que as mudanças ao atual Estatuto das Licitações são bem-vindas,
mas não se pode mudar para atender interesses imediatos e sem análises profundas. Como
norte, as mudanças devem visar sempre o seu aperfeiçoamento e o bem da sociedade, em
busca, dentre muitas pautas, de meios mais eficazes para prevenir e combater a corrupção.
Na visão da CGU, dentre as problemáticas enfrentadas pelo modelo atual,
restringindo-se ao escopo desta pesquisa, listam-se:
a) o ordenamento das fases da licitação, haja vista que a habilitação se dá antes do
julgamento das propostas;
b) a duplicidades de fases recursais, já que há possibilidade de recorrer na fase de
habilitação e novamente na fase de julgamento das propostas;
c) rigidez excessiva de certas regras, o que leva à imobilização dos gestores diante
de problemas que requerem rápida solução;
d) a dificuldade de chegar-se a critérios objetivos de julgamento, no caso de
licitações por técnica e preço. Isso, inclusive, pode resultar em pontuações diferentes das
propostas técnicas quando avaliadas por diferentes julgadores;
e) a baixa utilização de medidas de transparência, visto que à época da edição da
Lei nº 8.666/1993 não existiam os meios eletrônicos de comunicação disponíveis na
atualidade, principalmente por meio da rede mundial de computadores;
f) ausência de parâmetros para elaboração do orçamento de referência,
principalmente no que tange serviços de engenharia e obras.
Por outro lado, o órgão de Controle Interno do Executivo Federal também
apresentou possibilidades de avanço para aperfeiçoar o marco legal licitatório.
A primeira delas, unanimidade entre os estudiosos do tema, é a inversão de fases
da licitação, com o julgamento das propostas de preços anterior à habilitação, incorporando a
sistemática exitosa do pregão.
Nessa mesma plataforma, foi sugerido considerar algumas inovações trazidas pelo
RDC (Lei nº 12.462/2011), tais como a desobrigação da administração de apresentar
previamente aos licitantes a estimativa de gasto com as contratações, a introdução da
possibilidade de negociar o preço entre os concorrentes, durante as fases externas da licitação
e a adoção da fase recursal única, com análise conjunta dos recursos referentes ao julgamento
das propostas e da habilitação.
No tocante à publicidade e uma maior participação da sociedade, a CGU aponta a
inclusão dos recursos tecnológicos às regras dos procedimentos licitatórios em todas as fases
em que seja possível utilizar a informática e a rede mundial de computadores (internet), assim
como a ampliação das hipóteses legais de realização obrigatória de audiência pública anterior
às licitações, hoje exigidas apenas para certames cujo valor estimado seja superior a 150
milhões de reais (art. 39, Lei nº 8.666/1993).
Para outro assunto bastante dificultoso, qual seja a elaboração do orçamento de
referência de obras e serviços de engenharia, o órgão central do Controle Interno indica a
incorporação das regras já introduzidas pelo Decreto nº 7.983/2013. Assinalada norma não
criou um novo regramento, contudo reuniu premissas do RDC e de entendimentos do TCU
sobre a matéria.
Dentre os pontos alcançados pelo Decreto nº 7.983/2013, merece realce a
obrigatoriedade de expressa concordância do contratado com a adequação do projeto que
integrar o edital de licitação, numa clara tentativa de inibir práticas nocivas como o
"mergulho" e potenciais aditamentos contratuais; a fixação do custo adicional máximo
relativo a aditivos motivados por falhas de projeto em 10% do valor do contrato; e o uso
preferencial de índices referenciais de preço para a composição do custo global, como o
Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi) mantido pela
Caixa Econômica Federal, para obras e serviços de engenharia, e o Sistema de Custos
Referenciais de Obras (Sicro) de responsabilidade do Departamento Nacional de
Infraestrutura de Transportes (DNIT), no caso de serviços e obras de infraestrutura de
transportes.
Além das proposições acima colacionadas, a CGU também aconselhou, com as
necessárias adaptações, o estudo de algumas soluções já testadas e positivadas em leis
estaduais de boa qualidade. Nesse aspecto, cabe ressaltar que compete privativamente à União
legislar sobre normas gerais de licitação e contratação. Logo, a princípio, sobre aquilo que não
for norma geral, Estados e Distrito Federal também, e de forma concorrente com a União,
podem legislar.
Por último, evidenciando a relevância das fases de planejamento e controle,
interessante trazer a contexto reflexão final do Diretor de Auditoria da Secretaria Federal de
Controle Interno da CGU (2013, p. 6), quando da sua participação na 4ª reunião da CTLICON
do Senado Federal:
Eventual alteração no marco legal das licitações jamais será remédio bastante e suficiente, se os órgãos gestores não apresentarem melhores projetos, não
planejarem e programarem devidamente suas necessidades de compras, não aprimorarem suas especificações, e, por fim, não fiscalizarem devidamente a execução dos contratos, de modo rigoroso e racional, de forma a garantir seu fiel
cumprimento. (grifou-se)