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Antes da elaboração do conceito de transferência, Freud revelava-se otimista em relação ao trabalho da psicanálise na cura de pacientes psicóticos e o fazia de forma análoga ao trabalho clínico de tratamento da neurose; afinal, considerava a psicose como uma neuropsicose de defesa. Após a elaboração do que viria a ser uma reviravolta no processo da técnica analítica - o conceito de transferência -, Freud mudou sua perspectiva, apontando para a impossibilidade dos psicóticos de se submeter à relação transferencial, e a consequente anulação das interpretações do analista, invalidando qualquer tentativa de tratamento. Essa impossibilidade decorre da tese de Abraham (1908), adotada por Freud, de que “a demência precoce destrói a capacidade de transferência sexual, de amor objetal” (ABRAHAM apud MALEVAL, 2009, p. 341).

Para Freud, a transferência era entendida como uma atualização de situações e sentimentos ocorridos no passado que foram transferidos para a figura do analista; assim, ela é anterior à situação analítica, encontrando apenas um lugar para ser atualizada no contexto do tratamento e sendo considerada edições novas de conflitos

anteriores (FREUD, 1917b [1996]), de forma que a catexia numa das séries psíquicas que o paciente formou ao longo de sua constituição (FREUD, 1912 [1996], p. 112). Dessa forma, o contato com a figura do analista suscita algumas fantasias que são despertadas no decorrer do tratamento.

Nesse contexto, a postura adotada pelo paciente em relação ao analista é fundamental para que ocorra efetivamente o processo de análise; portanto, esse amor de natureza compulsiva surge com regularidade em situação de análise, sem a possibilidade de explicações racionais (FREUD, 1926 / 1996).

Nesse sentido, a transferência é considerada uma presença do passado, mas também uma presença atual e atuante. Por meio da transferência, o analisando irá identificar o analista com alguma figura primordial de sua vida, “nela, encontra-se coagulado àquilo que o sujeito espera do Outro a quem ele se dirige.” (MAURANO, 2006, p. 16). Sem o estabelecimento da transferência, portanto, não haveria análise. É necessário que o analisando faça esse endereçamento de sua demanda ao analista e é por meio da transferência que isso se efetivaria.

Freud atribui à transferência uma importância extraordinária para o tratamento, principalmente tratando-se de casos de neurose (histeria, neurose obsessiva, histeria de angústia) às quais ele atribui o título de neuroses de transferência e que vem se colocar no lugar da neurose comum.

Dessa forma, é notável que ele estava ciente da variação na transferência de acordo com o tipo clínico: de uma forma geral, na neurose, a transferência é de fácil desencadeamento; na perversão, a fantasia trazida pelo analisando exige um posicionamento diferente do analista e a transferência é constantemente explorada pelo analisando; na psicose, por sua vez, Freud relata que não há condições de estabelecimento de laços transferenciais por sua libido estar completamente investida no Eu.

No contexto de análise de um neurótico, a interpretação é o meio pelo qual o analista opera, sendo, portanto, uma ferramenta solidária ao sintoma e ao recalque. O mesmo não poderia ser atribuído ao contexto de tratamento psicótico, no qual a libido de objeto se mostra resistente à abordagem terapêutica. (STEINMETZ, 2010). Enquanto na neurose, a interpretação é uma eficaz intervenção para decifrar o sintoma e o gozo, na psicose, o analista não conseguirá o mesmo efeito (MACIEL, 2008).

Logo percebemos que a teoria da libido, em sua intrínseca relação com a neurose, foi um obstáculo ao prosseguimento de Freud ao tratamento das psicoses,

impedindo-o de “captar determinados fenômenos clínicos que, sem ser completamente ignorados pelo fundador da psicanálise, são considerados como restos insignificantes de transferência” (MALEVAL, 2009, p. 342), já que, no contexto libidinal, a partir do desinvestimento no objeto e retirada desses investimentos ao eu o resultado seria a impossibilidade de tratamento, uma vez que o analista não poderia ser investido libidinalmente.

No entanto Freud, em 1908, antecipa o futuro do tratamento da psicose ao próprio plano do delírio, confiando sua suposição em carta a Sándor Ferenczi, onde escreveu que somente pela via do delírio seria possível obter eficácia do tratamento com paranoicos e não utilizando argumentos lógicos (FREUD, 1908 [1994]). O pressuposto de que a intervenção só poderia se dar por meio do delírio e não de processos lógicos, implica novas possibilidades e consequências para o tratamento, já que nesse âmbito, “quem interpreta é o psicótico, não o analista” (STEINMETZ, 2010, p. 110).

Para o psicótico, ou o analista tem conhecimento de seus pensamentos ou de nada sabe, ele padece da certeza, portanto, não supõe um saber ao analista em forma de queixa ou dúvida. “Fazer vacilar a certeza em direção a uma suposição possível é o ponto sobre o qual o analista deve trabalhar na análise do psicótico.” (FIGUEIREDO, 1997, p. 148).

Podemos notar que, para Freud, são dois os pontos que mais contribuem para seu pessimismo em relação ao tratamento de psicóticos: o sujeito não possuiria outro objeto que não ele mesmo, não deixando espaço para o analista; e a restauração de objeto se daria pela forma de um delírio persecutório, como no caso de Schreber em relação a Flechsig.

Em seu estudo sobre a Gradiva (1908), Freud propõe, pela última vez, o tratamento de uma psicose baseado no tratamento de cura dos neuróticos (MALEVAL, 2009). Sua descrença em relação ao êxito terapêutico com psicóticos decorre da impotência das interpretações do analista, já que por sua própria especificidade, os fenômenos psicóticos seriam refratários à interpretação.

A partir da segunda tópica Freud elabora, conforme exposto no primeiro capítulo do presente estudo, que a psicose seria um embate entre o eu e o mundo externo e a neurose, por sua vez, um conflito entre o eu e o Isso, de forma que a própria definição da finalidade terapêutica de uma análise é a seguinte: “restaurar o eu, livrá-lo de suas restrições, e dar-lhe de volta o domínio sobre o ego que ele perdeu devido às suas primeiras repressões” (FREUD, 1926 [1996], p. 199). Sabemos que em nenhum

momento de sua teoria Freud aborda a análise como uma forma compatível com o tratamendo da psicose. Na definição acima, isso se torna claro, uma vez que ele restringe às patologias atingidas pela repressão, mas há em comum a restauração do eu – já tão problemático em questões constitutivas da psicose.

Em momento posterior desse mesmo estudo, ele afirma que a questão do diagnóstico é essencial para que se submeta à análise apenas pacientes que possam ser ajudados por esse método, ou seja, constituídos a partir de uma neurose. O diagnóstico diferencial nem sempre é facilmente realizado ou feito imediatamente, mas é essencial para a condução do tratamento.

Por fim, Freud (1940 [1996]) apontou em um de seus últimos trabalhos que a impossibilidade do tratamento da psicose por meio da psicanálise poderia se configurar como algo definitivo ou apenas transitório, a partir da descoberta de uma forma de tratamento mais adequada e satisfatória à psicose.

Alguns pós-freudianos dão continuidade aos esforços de Freud para o desenvolvimento de técnicas de análise para o tratamento da psicose, mas é Lacan, com sua releitura da obra freudiana, que dará um novo direcionamento para o conceito transferencial. Assim, além de apontar desvios que estavam ocorrendo na clínica pós- freudiana com foco no eu em detrimento do isso e do pulsional para explicações de obstáculos e de mudanças na técnica, especificamente na técnica interpretativa (MAURANO, 2006), Lacan não se opõe ao tratamento das psicoses; pelo contrário, o acha concebível a partir de uma nova perspectiva da relação transferencial e não apenas utilizar a técnica desenvolvida por Freud para os casos de neurose. Assim, com o desenvolvimento do conceito de foraclusão do Nome-do- Pai, da atenção dada às relações do psicótico com a linguagem e do processo de apreensão estrutural e não apenas fenomenológico, Lacan pôde avançar no tratamento clínico desses pacientes.

Benzer Belgeler