Para entender as razões que fazem do sudeste do Pará um dos principais focos dos conflitos por terra e das formas temporárias de escravidão no Brasil, é necessário conhecer os sujeitos sociais que se digladiam nessa fração do território e o quadro de correlação de forças que eles compõem. Como explicado anteriormente, a configuração socioeconômica que se observa atualmente na região ganhou contornos mais nítidos a partir da década de 1960, justamente com o incremento das “frentes pioneiras” e das “frentes de expansão” de que se falou anteriormente. Nessa época, foram criadas as bases legais para a expansão da agricultura capitalista e da empresa agropecuária sobre a floresta, com a concessão de incentivos fiscais propostos pela Sudam aos capitalistas que desejavam investir na região. A partir de então, como afirma Ianni, alguns personagens centrais passam a dominar a cena que se verifica até os dias de hoje. Em primeiro lugar, aparece o posseiro, camponês que se embrenhava mata adentro, construindo um rancho e limpando a mata, sem título legal sobre a terra em que trabalhava. Depois vem o
fazendeiro, que pode ser “uma pessoa, um grupo de pessoas, ou uma empresa” (IANNI,
1978: 114). Existe ainda a figura do peão, “o trabalhador braçal, que trabalha nas fainas da derrubada das matas e queima das árvores, além de outras tarefas. Em geral, o peão é migrante vindo dos estados do Nordeste, de Minas Gerais ou mesmo do próprio Pará” (Idem). Ele pode ser entendido como um proletário por excelência, mas filho de famílias camponesas, vítima potencial dos agenciadores ilegais (os famigerados “gatos”) de mão- de-obra que, em casos extremos, podem conduzi-lo a condições escravistas de trabalho.
Atuando na contramão da concentração de terra e de capital, aparecem as entidades que representam e assessoram camponeses e trabalhadores rurais do sudeste do Pará na luta pela terra. Até a chegada do MST à região, na virada da década de 1980 para a de 1990, a batalha pela reforma agrária era conduzida principalmente pelos Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs). Atualmente, o movimento sindical encontra-se representado basicamente pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Pará (Fetagri). Mas, durante o regime militar, os camponeses que lutavam para ter acesso a um pedaço de terra próprio eram chamados de posseiros, como aponta Ianni. Além disso, é inegável a contribuição da Igreja Católica, principalmente através do Conselho Indigenista Missionário, criado em 1972, e da Comissão Pastoral da Terra, fundada em 1975, para a organização política das populações indígenas, camponesas e de trabalhadores rurais contra o avanço do capital sobre a floresta e seus povos. A Igreja, como bem apontou Martins (1996), enxergou a princípio o golpe militar com relativa simpatia ainda sob temor do espectro do comunismo. Porém, deu uma guinada total em sua própria posição ideológica ao se deparar justamente com a questão da Amazônia. Ao se dar conta de que o desenvolvimento do capitalismo não trouxe benefícios, pelo contrário, só acarretou mais miséria à população já oprimida do país, uma ala mais progressista da instituição passou então a defender a chamada “opção radical pelos pobres”, que conheceram justamente na floresta amazônica as formas mais extremas da violência inerente ao avanço do capital. Vale lembrar que essa linha politizada, conhecida como “Teologia da Libertação”, não foi posta em prática apenas no Brasil, mas marcou profundamente a Igreja Católica de toda a América Latina na transição da década de 1960 para a de 1970. “A clara percepção de que o seu discurso e a sua prática tinham sido até então preponderantemente voltados para os setores dominantes da sociedade colocava em
questão a concepção dos grupos conservadores e abria o debate interno sobre os vários caminhos e as novas práticas a serem seguidas (IOKOI, 1996: 34).”
Dentre essas novas práticas, destaca-se a criação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), onde foram gestados sindicatos e movimentos sociais, além de importantes quadros dos partidos ligados à classe trabalhadora, como o próprio Partido dos Trabalhadores (PT). No sudeste do Pará, essa aliança da Igreja com o campesinato assumiu contornos mais viscerais do que em outras regiões da Amazônia. Ainda hoje a CPT com sede em Marabá tem prestado importante auxílio aos movimentos sociais, principalmente no que se refere à assistência jurídica. Ela também contribuiu ativamente no processo de resistência dos camponeses do MST na desapropriação da Cabaceiras e na construção do Assentamento 26 de Março, como será visto nos próximos capítulos.
“O choque entre a frente de expansão camponesa e os empreendimentos pecuaristas, madeireiros e especulativos traduzem-se em conflitos violentos. De um lado, o empreendimento capitalista latifundiário encampa todos os poderes constituídos; os juízes, os cartórios, a polícia e os órgãos públicos nada têm de imparciais. De outro lado, os lavradores têm o apoio da Igreja dos pobres. Essa conjunção entre Igreja Católica e os camponeses sobressai-se como um traço sociológico característico da região (PEIXOTO, 1991: 146).”
Também é preciso falar da classe dos latifundiários. A região de Marabá já foi conhecida como “Polígono dos Castanhais” e algumas famílias – dentre as quais os Mutran, antigos donos da fazenda Cabaceiras – ganharam muito dinheiro com a extração e a comercialização de castanha-do-brasil, a partir da exploração de vastas extensões de terras públicas aforadas pelo governo do estado às oligarquias. Contudo, o poder dessas famílias hoje em dia já não se compara à influência que elas exerciam meio século atrás. Da mesma forma, não são mais os donos de castanhais que compõem a força hegemônica do capital no meio rural. Atualmente, os grandes latifúndios do sudeste do Pará estão dominados pela pecuária de corte. De acordo com o Censo Agropecuário do IBGE de 2006, a unidade da federação aparece em quinto lugar no ranking dos maiores rebanhos do país, com cerca de 13,5 milhões de reses. Só a mesorregião sudeste do estado, em que se insere a maior parte dos municípios englobados pela SR 27 do Incra, concentra cerca
de 70% do contingente total. Porém, há quem diga que as estatísticas oficiais estão defasadas e não dão conta da realidade, já que o número de bovinos no Pará teria superado a casa das duas dezenas de milhão35. A atividade vem crescendo
vertiginosamente nos últimos anos, não só para abastecer o mercado nacional, mas também o internacional. Desde que a mesorregião do estado foi considerada área livre da febre aftosa em maio de 2007, recebeu passe livre para a exportação de bovinos, principalmente para a venda de animais vivos para o Líbano e para a Venezuela.
O capital industrial também se faz bastante presente na pecuária do sudeste do Pará – ou seja, não se limita à área de extração e processamento dos minérios da Serra dos Carajás, cadeia produtiva dominada pela bilionária multinacional Vale, que controla as maiores e mais valiosas jazidas da região. Os principais frigoríficos brasileiros de grande porte têm investindo maciçamente na construção de novas plantas industriais na Amazônia. Aliás, as principais empresas desse expressivo segmento do agronegócio brasileiro vêm recebendo bilionários aportes de recursos via instituições financeiras estatais, como o BNDES, ou multilaterais – como a International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial36. Nos últimos anos, também vem ocorrendo uma verdadeira febre de negócios envolvendo frigoríficos na região. Na verdade, está em curso uma reestruturação da cadeia da pecuária como um todo, motivada principalmente por um processo de recomposição do capital das empresas de abate de bovinos. As companhias de médio porte estão sendo compradas pelas grandes, cujo objetivo primordial é justamente o de conquistar novas fatias do mercado internacional37.
35 Essa é a opinião de diversos especialistas ouvidos por este pesquisador ao longo da pesquisa, como
representantes de entidades ruralistas e do próprio poder público.
36 De 2006 para cá, o BNDES desembolsou pelo menos R$ 7 bilhões para financiar a ampliação das
atividades de cinco grandes frigoríficos com forte atuação na Amazônia brasileira: Marfrig, Minerva, Bertin, JBS Friboi e Independência. Apesar do aporte de recursos públicos, o frigorífico Independência quase foi à falência e entrou em processo recuperação judicial para tentar reverter o processo de bancarrota, em março de 2009. (Folha Online. Frigorífico Independência entra com processo de recuperação judicial. 02/03/2009). Em setembro do mesmo ano, o Bertin e o JBS Friboi fundiram suas operações, criando a maior empresa de proteína animal do mundo. (Folha Online. Com Bertin e Pilgrim’s, JBS forma líder
global em carnes. 16/09/2009). Ainda em 2009, o IFC cancelou um contrato de US$ 90 milhões para
financiamento das atividades do Grupo Bertin no sul do Pará, por conta de denúncias de ONGs que associavam casos de trabalho escravo e desmatamento ilegal ao incremento da pecuária na região (Amazonia.org. Banco Mundial rescinde contrato com Bertin e pede dinheiro de volta. 13/06/2009)
37 A análise é de Maria do Carmo Américo, geógrafa e pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi,
vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, especializada na pecuária paraense. Em 2007, por exemplo, o Bertin (que fundiu suas operações com o JBS-Friboi em 2009) costurou um acordo para arrendamento, com opção de compra, de plantas industriais do antigo frigorífico Redenção em três
Até mesmo investidores de áreas não afins à da economia agrária têm canalizado recursos para o sudeste do Pará. É o caso recentíssimo, por exemplo, da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, empresa vinculada ao grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, que em menos de cinco anos de existência já controla centenas de milhares de hectares e detém quase meio milhão de cabeças de boi em fazendas localizadas na região. Crescimento tão fulminante que levantou suspeitas de lavagem de dinheiro por parte da Polícia Federal38. Mas esse interesse do capital financeiro pelo setor agropecuário na Amazônia não é de hoje. Décadas atrás, importantes instituições financeiras sediadas no Centro-Sul, como os bancos Bradesco e Bamerindus, além de multinacionais de peso, como a Volkswagen, tornaram-se donas de imensos latifúndios na região, atraídas principalmente pelos incentivos fiscais concedidos pela Sudam.