C- Kuruma İlişkin Bilgiler
5- Sunulan Hizmetler
26) “Stygomia fasciata” (no texto da página 158, bem como na leganda da figura 11, (em vez de “Stogonya aegypti”). (...)
37) “O sulfureto de cobre é uma combinação” em vez de o “sulfato de cobre é um composto”. (...)
E – Linguagem:
A linguagem nem sempre é precisa, como se pode verificar nalguns trechos mencionados na análise do conteúdo (...)
Achamos por exemplo, inadequado o adjetivo “formidável” aplicado a potência de um motor de explosão e aos aparelhos voadores (págs. 76 e 77). (...) (Parecer n° C-3/1941, de Adalberto Menezes de Oliveira. Aprovado por unanimidade em sessão de 14/02/1941. Grifos nossos).
Os erros apontados indicam que os pareceristas criticavam a falta de atualização dos autores em relação aos conhecimentos da ciência de referência. Apontavam conceitos descritos errados e termos científicos escritos incorretamente. O parecer finalizava com a observação de que os autores não haviam compreendido o significado da “disciplina de Ciências Físicas e Naturais, no plano de estudos do ensino secundário”. Não obedeciam, ainda, as instruções pedagógicas que acompanhavam os programas de junho de 1931, em complemento ao Decreto n. 19.890/31.
Outro livro que apresentou parecer completo negando sua autorização foi
Alves. O relator foi Cândido de Mello Leitão e os revisores foram Adalberto Menezes de Oliveira e João Pecegueiro do Amaral. Destacam-se, a seguir, alguns trechos do parecer de oito páginas:
O livro a que se refere o processo n° 37.413/40 não corresponde ao seu título, pois de suas 628 páginas 325 se referem ao homem, tratando propriamente da Anatomia e Fisiologia humanas. Nessa parte da Anatomia e Fisiologia humana apresenta apenas leves senões, que não seriam de modo a impedir a autorização de seu uso.
Na parte, porém, que trata da Zoologia há senões mais graves e muitos erros que passamos a referir:
Pág. 6 – Definição errônea da Zoogeografia.
Pág. 7 – Definição errada da nomenclatura binária. Pág. 8 – Dá protoplasma e citoplasma como sinônimos. Pág. 9 – Diz que a hemoglobina é amarelo-esverdeada (...) Pág. 48 – Fórmula leucocitária antiquada
Pág. 51 – Esquema escrito em ortografia não oficial (...)
Pág. 87 – Descrição errada da coluna vertebral dos Ciclóstomos e dos peixes (...)
Pág. 227 – Escreve cecun (sic!) (...)
Pág. 252 – Descrição imperfeita do aparelho circulatório dos Moluscos (...) Pág. 380 – Escreve Holoturoides por Holoturioides (...)
Pág. 501 – Classificação menos feliz das escamas (...) Pág. 542 – Descrição pouco exata das patas das aves. (...)
Pág. 592 – Referência inexata aos nossos negros e caracterização de uma raça ameríndia.
Pág. 595 – Diz que caraíba é o homem branco. É lamentável que tratando do nosso homem não cite os trabalhos de Roquete Pinto, que propositadamente parece ignorar. (...)
(Parecer n° C-48/1941, de Cândido Firmino de Mello Leitão. Aprovado por unanimidade na sessão de 15 de abril de 1941. Grifos nossos).
Novamente os pareceristas criticavam erros nas definições de conceitos, erros de conteúdo, descrições pouco pormenorizadas e falta de atualização na área de conhecimento. Nesse sentido é importante destacar que Mello Leitão era um dos pesquisadores brasileiros da época que desenvolvia estudos na área das Ciências Naturais e procurava estabelecer quais conhecimentos eram considerados legítimos. A crítica a “definição errônea da Zoogeografia”, ilustra esse fato, pois Mello Leitão possuía o livro Zoogeografia do Brasil, de 1937, que tratava do tema. É interessante enfatizar, ainda, a atuação de Adalberto Menezes de Oliveira. O professor era membro
da ABC e um dos intelectuais que nos anos 1920 criticou o positivismo de Comte e debateu novas teorias, como a Teoria da Relatividade de Albert Einstein49.
O professor Potsch recorreu ao resultado da avaliação de seu livro, processando a CNLD, na pessoa do professor Mello Leitão. O processo durou anos, como se constatou nos quatro volumes publicados sobre o assunto. O último volume do processo data de 194650.
De modo geral, os pareceres que autorizavam os livros acrescentavam que deveriam ser feitas correções nos manuais:
O livro, cuja apresentação material é satisfatória, contém grande número de erros e enganos, especialmente de ponto de vista científico, conforme passamos a mostrar (...)
Na pág. 24 declara que “é com peso que se comparam as forças para medi- las”.
Na mesma página dá uma definição incorreta de direção de uma força.
Ainda na p. 24 dá uma definição incorreta do quilograma-força asseverando pertencer esta unidade ao sistema métrico decimal (...)
Em vez de usar simplesmente a palavra “peso” usa a expressão “peso absoluto” não mais aceita (p. 130, 131, 162 e 164) (...)
Faz o A. confusão entre o peso e massa, chamando as mesmas aferidas de “pesos” (p. 152, 153) (...)
As hipóteses da existência do hidrogênio e do geocorônio na alta atmosfera não são mais aceitas – p. 241 e 242 (...)
Conclusão
Tendo em vista as alíneas a, b, c, do Art. 21 do Dec. 1006, é a Secção C de parecer que o uso do livro a que se refere o p. 35.076/40 só pode ser autorizado depois que forem corrigidos os enganos e senões nele existentes e, especialmente os acima assinalados (Parecer n° C-57/41, Física - 4ª série, de Hipepides Zanelle, Cia. Nacional. Relator: Adalberto Menezes de Oliveira. Aprovado em 6/5/1941).
(...) O livro está escrito em linguagem acessível, e com clareza, tratando dos assuntos de modo rudimentar, como convém ao grau de ensino a que se destina.
Em alguns pontos, escaparam deslizes na forma e no conteúdo que merecem ser corrigidos, tais como:
(...) pág. 249 – Imprecisão quanto ao valor da pressão atmosférica. (...) pág. 251 – Referência a densidade sem explicação do que seja. (...)
pág. 282 – A explicação da nomenclatura do pólo Norte do íman, como sendo o que se volta para o pólo Norte não está precisa. (...)
pág. 297 – A definição de raiz não está certa.A Seção C é de opinião que a CNLD pode autorizar o uso da presente edição do livro do processo
49 Albert Einstein veio ao Brasil em 1925. Nesse momento houve um importante debate em torno da teoria da relatividade entre Adalberto menzes de Oliveira e o professor da Escola Politécnica Licínio Cardoso. (Paim, 1982).
50 A discussão sobre o processo Potsch-Mello Leitão será analisada na parte sobre as repercussões das avaliações. Os volumes foram encontrados na FEUSP, na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro e no Colégio Pedro II.
36.094/40, exigindo, entretanto que sejam atendidas, em novas edições as observações deste parecer (Parecer n. C-129/41, Preparatórios ao alcance de todos, de Antônio Gonçalves, Geraldo Rodrigues e Marcelo Mesquita, Cia. Nacional. Relator: João B. Pecegueiro do Amaral, de 26/11/1941).
As análises dos pareceres da Seção de Ciências Físicas e Naturais evidenciaram, principalmente, o empenho dos avaliadores em normatizar e padronizar um tipo de conhecimento científico. Os pareceres enfatizavam, acima de tudo, os conhecimentos considerados errados, para estabelecer quais os conhecimentos seriam os corretos que, para os membros da CNLD, deveriam ser os conhecimentos atualizados. O programa de Ciências Físicas e Naturais para o curso fundamental do ensino secundário da Reforma Campos, dividia os conteúdos a serem ministrados detalhadamente, série por série. A maior preocupação do programa era determinar qual tema seria ministrado, em qual série, e os conteúdos desenvolvidos nos temas. Procurava conformar um conteúdo único51.
Os pareceres da Seção de Geografia - D
Os pareceres encontrados da Seção D criticavam os livros que não compreendiam os programas oficias, com metodologias inadequadas sem, contudo, detalhar os problemas. O exemplo a seguir mostra um dos tipos de parecer:
Trata-se de um livro que contém elementos que o tornam pouco aceitável ao ensino secundário. É um trabalho executado por um autor esforçado e bem intencionado, mas limitado em seus conhecimentos. Não tem método de apresentação, não sabe dosar nem discriminar os seus ensinamentos. Este, por sua vez, são vagos, imprecisos. O autor procura seguir conscienciosamente o programa, mas revela incompreensão de seu espírito. Nestas condições, somos de opinião que o livro não pode ser indicado para uso nas escolas secundárias (Parecer do livro Geografia, de Luiz Gonzaga Lez, Saraiva, s/d).
51
De acordo com os programas para o curso fundamental do ensino secundário de 1931, os conteúdos de Ciências Físicas e Naturais para a 1a série eram: Atmosfera; Calor e Luz; A água; Oxidação e Redução; A vida. 2a série: A terra; Magnetismo e Eletricidade; Os seres vivos; Som; As sociedades.
A partir da 3a série os conteúdos de Ciências eram separados em conhecimentos específicos de:
* Física: 3a série – Introdução no estudo dos fenômenos físicos; 4a série – I. Mecânica, II. Líquidos e Gases, III. Calor; 5a série – IV. Som, V. Luz, VI. Magnetismo e Eletricidade.
* Química: 3a série – Iniciação no estudo dos fenômenos químicos; 4a série – I. Química geral, II. Metalóides; 5a série – I. Química geral, II. Metais, III. Química Orgânica.
* História Natural: 3a série – I. Botânica, II. Zoologia, III. Mineralogia, IV. Geologia; 4a série – I. Botânica, II. Zoologia, III. Mineralogia, IV. Geologia; 5a série – I. Botânica, II. Zoologia, III. Mineralogia, IV. Geologia, V. A História da Terra.
Os pareceres da Seção de História – E
Somente foi encontrado um parecer detalhado da Seção E, assinado por Jonathas Serrano, que aprovava a obra História da Civilização, 3o ano ginasial, de Joaquim
Silva, mas indicava que deveriam ser consideradas, em futuras edições, as observações descritas pelo relator do parecer. Os principais questionamentos de Jonathas Serrano diziam respeito as correções de informações históricas, necessidade de atualização quanto as novas pesquisas da área, a forma correta de escrever palavras em outras línguas e palavras que derivavam do Latim:
(...) Herzog é duque e não propriamente rei (pág. 13). O plural de Zwerg não é Zwerges (pág. 15).
Civitas, no singular, não pode equivaler a cidades, no plural (pág. 16, 4a linha).
Os efetivos bárbaros, enormemente exagerados na quasi totalidade de autores de compêndios, já é tempo que se reduzem às justas proporções, de acordo com a erudita lição de mestres qual Ferdinand Lot (19 e 21, por exemplo). A batalha travada em 451 é hoje localizada entre Orleans e Troyes e denominada de Campus Mauriaque (pág. 21).
Pitas não é boa forma para indicar Pietos (latim Picti) (pág. 24). (...)
Hennin, palavra francesa, com nn, não deve ser arbitrariamente simplificada em Henin, com um só n (pág. 82). (...)
A data da batalha de Crécy é de 1346 e não de 1347 (pág. 227) (...). (Parecer n. E-23/1941, relator: Jonathas Serrano, de 4/11/1941).
Freitas (2010), que analisou mais pareceres de Jonathas Serrano, indica que o membro da CNLD considerava, prioritariamente, forma e conteúdo em suas avaliações. Serrano apontava em seus pareceres erros de linguagem, omissões, exageros e equívocos em termos de conteúdos históricos, problemas metodológicos e didáticos, estilo inadequado e deficiências materiais e tipográficas. Segundo Freitas (2010), a crítica de Serrano quanto aos nomes corretos de autores e personagens históricos, relacionava-se ao “seu empenho em normatizar esse tipo de escrita” (p. 189). No livro
Como se ensina História, de 1935, Serrano procurava padronizar a grafia dos nomes
históricos. Outro aspecto que Serrano considerava determinante para a reprovação de uma obra era a falta da História contemporânea do Brasil, de 1920 a 1940 (Freitas, 2010, p. 192).
No aspecto didático e metodológico, os manuais analisados por Serrano eram criticados quanto a falta de um estilo didático, com linguagem adequada a faixa etária dos alunos. Os manuais precisavam, ainda, ter letras com tamanho correto, papel de boa
qualidade, precisavam conter iconografias, como gravuras, mapas, retratos, etc. (Freitas, 2010, p. 191). Os manuais deveriam obedecer as instruções metodológicas da Reforma Campos, de 1931, que tratavam da “Didática aplicada ao ensino de História da Civilização” (Freitas, 2010, p. 192). Para Serrano a maioria dos autores somente elaborava resumos da matéria a ser ensinada, sem contudo, observar as recomendações de “caráter metodológico e didático” (Freitas, 2010, p. 193).
De acordo com Schmidt (2005), Serrano tinha preocupação central com a metodologia do ensino da História e defendia uma didática renovada para o ensino da disciplina, baseada na obra de John Dewey (p. 217). O ensino da história deveria ser ativo, “com a participação viva da inteligência do discípulo” (Serrano, 1943, p. 9). Desse modo, Serrano destacava a necessidade de se aplicar “ao ensino da História todas as conquistas reais da psico-pegadogia e da didática renovada” (Serrano, 1943, p. 13). Serrano valorizava o ensino pelos “olhos” e não somente pelos “ouvidos”, com as “monótonas e indigestas preleções” (Schmidt, 2005, p. 222). O novo método de ensino utilizaria diversos recursos didáticos: o cinematógrafo, mapas, globos, quadros coloridos, coleções, gabinetes e museus escolares (Schmidt, 2005, p. 224). Para o professor, era importante que os alunos “visualizassem” os fatos para que se interessassem pelo estudo da História.
Os pareceres da Seção de Filosofia, Sociologia e pedagogia - F
Os pareceres da Seção F recusaram livros que não apresentavam organização metodológica satisfatória e com falta de conteúdos essenciais, como foi possível notar nos trechos a seguir:
Não pode ser autorizado em virtude:
a) da ausência de apreciação de fenômenos sociológicos capitais. b) Da ausência de método na organização e na distribuição da matéria. c) Da determinação da alínea b do artigo 21 do Decreto-lei 1006, de 30-12- 1938, que nega autorização de uso do livro didático “regido de maneira inadequada pela violação dos preceitos fundamentais da pedagogia...” (Parecer de Antônio Carneiro Leão, para o livro Elementos de Sociologia, de Nelson Omegna. Aprovado por unanimidade na sessão de 19/08/1941).
Sobre os pareceres da Seção F, um caso em especial mereceu atenção, pois evidenciou a divergência entre os membros da CNLD. O livro Noções de História da
membros eram Álvaro Ferdinando S. da Silveira, Hahnemann Guimarães e Jonathas Serrano), por apresentar “expressões pouco felizes” no capítulo “A educação na America Latina”. Por não concordar com o parecer, a Seção F solicitou vistas ao processo e apresentou novo parecer em 7 de outubro de 1941. No novo parecer, escrito por Carneiro Leão, o livro foi autorizado com os seguintes argumentos:
(...) No tocante às observações da Seção I referentes às expressões pouco felizes, sobretudo do pequeno capítulo – “A educação na América Latina” – está a Seção F de pleno acordo, não acontecendo o mesmo, entretanto, quanto às conclusões.
Pensa a Seção F (e submete seu parecer ao julgamento da CNLD) que as referidas expressões não inutilizam a parte são do livro (aliás mais de 90%) e na qual a matéria está superiormente apresentada, não só quanto ao método de exposição, a forma e a orientação didática. (...)
Conclusão – Em face do exposto é a Seção F de parecer que o livro em apreço e constante do processo n. 37.321/40 pode ter seu uso autorizado logo que seu autor elimine as expressões assinaladas pela Seção I (...). (Parecer de Carneiro Leão, para o livro Noções de História da Educação, de Afrânio Peixoto, da Cia. Nacional, de 7/10/1941).
A solicitação de aprovação do livro pode ter relação com a importância do autor – Afrânio Peixoto -, tanto academicamente (foi professor da Faculdade de Medicina, do Instituto de Educação do Distrito Federal, além de Reitor da Universidade do Distrito Federal, em 1935), como pela sua atuação política (foi diretor da Instrução Pública do Distrito Federal e signatário do Manifesto de 1932) ao longo dos anos 1920 e 1930. Pode-se considerar, ainda, o lugar da obra de Afrânio Peixoto, um livro para formação de professores de grande sucesso52, publicado pela coleção Biblioteca Pedagógica Brasileira, na Série Atualidades Pedagógicas, da Companhia Editora Nacional, da qual Carneiro Leão fazia parte e que propunha uma “constituição do campo da educação”, como afirma Toledo:
autores como Anísio Teixeira, Celso Kelly, Almeida Jr. Carneiro Leão, Venâncio Filho articulam, sob a perspectiva específica dos temas e objetos tratados em seus textos, análises da sociedade brasileira em relação à cultura e à educação e procuram estabelecer os seus fins para chegar ao que consideram ser o progresso social (2001, p. 85).
52 De acordo com Toledo (2001, p. 98), o livro de Afrânio Peixoto, Noções de História da Educação, era um dos títulos da Cia. Nacional de grande tiragem, com 5000 exemplares.
Fazia-se necessário, assim, a aprovação do livro de Afrânio Peixoto, que era utilizado nas instituições de formação de professores e procurava difundir determinado conhecimento sobre a História da Educação, como sendo um novo “campo do saber” (Toledo, 2001, p. 91).
Os pareceres da Seção Matérias do ensino Primário – H
Um caso se destacou nas avaliações da Seção H, o processo de avaliação do livro Nosso Brasil – 3º ano primário, de Hildebrando de Lima. O livro Nosso Brasil, para 1o ano primário foi aprovado sem nenhuma observação por Carneiro Leão, na sessão de 24 de setembro de 1941. Apesar de ter o uso autorizado para o volume do 1o ano, a aprovação do volume da mesma coleção para o 3o ano passou por um processo que se desenrolou de modo mais complicado.
O livro Nosso Brasil – 3º ano primário obteve autorização de uso da Seção de Ensino Primário, em 30 de maio de 1941, cujo parecerista foi Carneiro Leão. Contudo, a professora Maria Junqueira Schmidt – da mesma Seção Primária - solicitou vistas ao processo. Em 3 de outubro de 1941, dois pareceres foram expedidos sobre o livro. O primeiro, da Seção de Ciências Físicas e Naturais, com parecer de Adalberto Menezes de Oliveira autorizou o uso do manual do ponto de vista dos assuntos científicos. O segundo, da própria Maria Junqueira Schmidt, que acentuou, entre outros questionamentos, que fossem retirados do manual as indicações e recomendações dos livros O poço do Visconde, História do Mundo e O Saci, todos de Monteiro Lobato. O livro não poderia ser autorizado enquanto não fossem corrigidos os senões apontados por Schmidt.
A respeito de Monteiro Lobato é importante destacar que o autor entrou em diversos conflitos durante o Estado Novo. Criticou o governo de Getúlio Vargas, na campanha pelo petróleo, em que defendia a necessidade de exploração do petróleo brasileiro. Entrou em embate com o governo, ainda, ao criticar a política nacional dos minérios, chegando a ser preso em março de 1941. Segundo Alcanfor (2010), as discordâncias de Monteiro Lobato com o Estado Novo “lhe custou, parcialmente, a censura de suas obras infantis” (p. 92). Suas obras também foram criticadas pela Igreja Católica, que se mobilizou para proibir seus livros infantis. Alcanfor (2010) observa que quanto mais Lobato se voltava para a literatura infantil, mais acentuava os “elementos críticos, ateus e irreverentes” em suas obras, que provocaram “crescente resistência à
difusão de seus livros entre certos mediadores culturais da época, desde os censores católicos e autoridades estadonovistas e certas figuras representativas do movimento escolanovista” (pp. 94-95).
Por já ter editado uma grande quantidade de livros – baseado no parecer de 30 de maio de 1941 – o autor, Hildebrando de Lima, entrou em contato com a CNLD para discutir o assunto. Em carta à Octalles Marcondes Ferreira, editor e dono da Companhia Editora Nacional, de 7 de outubro de 1941, Hildebrando afirmava que, em 5 de outubro, havia conversado com a professora Schmidt para questionar o parecer e argumentar que a Companhia Editora Nacional teria feito uma grande edição de seu livro. Solicitou então à parecerista que os livros já editados pudessem ser utilizados em 1942. Ao mesmo tempo, afirmava já ter reformulado o livro para futuras edições, seguindo as emendas indicadas. Para o autor, as críticas feitas por Schmidt quanto às obras de Monteiro Lobato tinham motivos religiosos. Nas palavras de Hildebrando:
Junto aqui o parecer número 2, de autoria da D. Maria. Como o senhor vê, a preocupação foi dar no crânio do nosso caro Monteiro Lobato. Creio que há nisto dedo de padre (Carta de Hildebrando de Lima para Octalles Marcondes Ferreira, de 7/10/1941).
Em nova carta, de 8 de outubro de 1941, Hildebrando afirmava que o problema não tinha sido solucionado e que a CNLD havia deixado para 10 de outubro a discussão do caso. Por fim solicitava que Octalles escrevesse uma carta pessoalmente à CNLD. Atendendo a solicitação de Hildebrando, Octalles escreveu ao Presidente da CNLD, requerendo que o Livro Nosso Brasil – 3, não fosse proibido no ano de 1942, com a argumentação da quantidade de edições no estoque. O editor se comprometeu em atender todos os senões do parecer de Schmidt para as próximas edições.
Em carta de 11 de outubro de 1941, endereçada à Octalles, o representante da Companhia Editora Nacional no Rio de Janeiro argumentava que o impasse sobre o livro Nosso Brasil - 3º ano fora criado por Adalberto Menezes de Oliveira que considerava os livros de leitura de Monteiro Lobato antinacionalista53. Avisava, ainda, que já havia solicitado a substituição do exemplar entregue à CNLD em 1940, pelo exemplar da nova edição com as correções indicadas no parecer de Schmidt.
53 Não ficou claro se a informação dada pelo representante da Companhia Editora Nacional estava correta, em relação ao membro da CNLD que questionou o livro Nosso Brasil. O representante do Rio de Janeiro pode ter confundido o nome dos pareceristas. Escreveu Menezes de Oliveira, mas quem solicitou vistas ao processo e exigiu a retirada dos textos de Monteiro Lobato foi Maria Junqueira Schmidt.
O caso em apreço ilustra o único processo encontrado de avaliação de livro didático pela CNLD que fazia referência explícita a questões ideológicas nos manuais escolares. O caso evidencia que a Comissão não funcionava em plena harmonia e que