Contemporaneamente à formação e constituição das cidades industriais outras cidades eram construídas, reconstruídas, ampliadas ou planejadas sem implicações diretamente relacionadas a resultados da industrialização. Estes projetos, embora não contassem com a projeção de uma nova sociedade ou a preocupação principal de se produzir moradias, denotariam, assim como os projetos idealistas, a preocupação recorrente com a salubridade e higiene urbana, bem como a eficiência do plano, representada principalmente por boas condições de circulação viária. Entre os projetos do período destacam-se pela repercussão e influência sobre outros autores a construção de Washington, planejada por L'Enfant em finais do século XVIII, a reconstrução de Paris por Haussmann e a ampliação de Barcelona elaborada por Cerdà, ambas na segunda metade do século XIX.
Em 1787 a Constituição dos Estados Unidos promulgou o estabelecimento de uma sede para o governo federal. O próprio presidente George Washington escolheu o local onde seria estabelecida a Capital e o responsável pelo planejamento do centro administrativo e da cidade, o engenheiro francês Pierre L'Enfant12 (A HISTÓRIA DO PLANEJAMENTO..., 2005). No plano para a cidade de
Washington (Figura 04) L’Enfant faz uso de uma malha ortogonal e irregular, traçado que, segundo Andrade (1992), se adapta ao relevo do sítio e sobre o qual é imposto um sistema de grandes avenidas diagonais. Estas, eventualmente, interceptam umas às outras e o tecido ortogonal básico,
sendo localizadas praças, largos e monumentos nestes cruzamentos de seis ou oito avenidas. Estas interseções, onde se formam grandes espaços abertos, visam interligar física e visualmente as diversas regiões entre si e os edifícios federais em destaque, o Capitólio e a Casa Branca, localizados em pontos mais elevados do sítio na junção de grande número de avenidas, o que lhes confere ainda maior evidência. Nestes pontos nodais, de acordo com Andrade (1992), o engenheiro faz uso do patte-d’oie, junção de três ou mais vias com aproximadamente 20º a 25º graus entre si, de modo a criar perspectivas interessantes tanto para quem viesse pelas vias, quanto para quem estivesse na interseção, numa clara preocupação quanto à visualidade do conjunto.
Figura 04: Plano da cidade de Washington elaborado por L’Enfant. Fonte: ANDRADE, Carlos R.M. A Peste e o Plano: O Urbanismo Sanitarista do Engenheiro Saturnino de Brito. Dissertação (Mestrado), FAU-USP, São Paulo, 1992, vol.II., s/p.
O Capitólio, símbolo do poder legislativo, foi localizado na área central da composição e, junto dele, segue rumo a oeste até a direção da Casa Branca uma ampla e longa avenida, hoje conhecida como The Mall. A faixa deveria contemplar atrações diversas e locais de descanso pitorescos, de modo a ser utilizada por toda a população, além de minimizar a distância formal que separava os dois prédios governamentais. A integração entre áreas construídas e áreas livres era elemento essencial do planejamento feito por L’Enfant para Washington, onde fica demonstrada a importância dos espaços abertos, parques e bulevares.
No quadro pós-Revolução de 1848 o Imperador recém-conduzido ao poder Napoleão III determina a reconstrução da cidade de Paris, coordenada pelo prefeito de Paris – administrador do Sena –, o engenheiro conhecido como Barão Haussmann entre 1853 e 1870. O novo governo, segundo Benévolo (2009), assume uma posição de controle estatal sobre vários aspectos econômicos e sociais, efetuando uma série de reformas, com grande preocupação quanto à possibilidade de novas revoltas e, nesse quadro, a urbanística figura como um dos mais eficazes instrumentos de ação.
Algumas características da cidade existente preocupavam quanto à possibilidade de desenvolvimento e quanto ao prestígio do novo imperador e ditaram os rumos da reforma:
O centro da antiga cidade é cada vez mais claramente incapaz de suportar o peso de um organismo tão crescido; as ruas medievais e barrocas não são suficientes para o trânsito, as velhas casas parecem inadequadas face às exigências higiênicas da cidade industrial, a concentração das funções e dos interesses na capital fez com que aumentassem tanto os preços dos terrenos que uma radical transformação nas edificações tornou-se inevitável. (BENÉVOLO, 2009:96).
Nesse sentido, foram construídos 95 quilômetros de novas ruas no centro, sendo o antigo núcleo medieval atravessado em todas as direções por amplos bulevares, e 70 quilômetros na periferia, com a criação de novos bairros (BENÉVOLO, 2009). As novas avenidas facilitavam a circulação através de leitos ampliados e anéis viários, ligando pontos estratégicos da cidade como casas de espetáculos, edifícios administrativos e estações ferroviárias e, ainda, garantindo o aspecto estético do novo arruamento, com a conformação de perspectivas que terminavam em edifícios e monumentos. (Figura 05). Mais do que aprimorar o sistema de circulação e garantir a salubridade, os bulevares retilíneos, em substituição às estreitas ruas medievais, dificultavam a formação de barricadas, símbolo do poder popular na revolução de 1848, e facilitavam o acesso militar aos bairros, como forma de conter possíveis rebeliões.
Muitos edifícios são construídos durante a reconstrução da cidade, com a utilização de elementos neoclássicos nas fachadas e novas relações entre altura das edificações e largura das vias. Ao mesmo tempo, porém, em que os novos edifícios característicos da reforma são construídos junto aos bulevares, quarteirões inteiros são demolidos, com retirada da população pobre dos bairros centrais. Alguns conjuntos de moradias operárias são construídos com financiamento estatal, o que no entanto, não alterou o caráter essencialmente privado desse tipo de empreendimento, imbuído de forte especulação.
Um novo sistema hidráulico é proposto para a nova Paris com a ampliação da rede de 747 para 1545 quilômetros que garantiram uma provisão eficiente de água e um novo sistema de esgoto, com aproximadamente 415 quilômetros a mais e a separação das águas de consumo e águas servidas. Também as instalações de iluminação pública são ampliadas e os transportes públicos reorganizados, sendo ainda construídos dois grandes parques, o Bois de Boulogne e o Bois de Vincennes, além de outros espaços verdes menores, que constituíam locais saudáveis para a prática de esportes e de atividades de lazer.
Figura 05: Plano de reconstrução de Paris elaborado por Haussmann. Em preto as novas avenidas e boulevares. Fonte: BENÉVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. 4. ed., São Paulo:Perspectiva, 2009, p. 97.
Embora a reconstrução de Paris tenha tido consequências negativas como a expulsão da população operária dos quarteirões centrais, decorrente da expropriação dos terrenos e grande especulação imobiliária em torno das novas obras, Benévolo (2009) afirma que é na proposta de Haussmann que pela primeira vez é colocada a questão de um plano regulador para uma cidade moderna na escala adequada à nova ordem econômica, residindo aí sua maior importância.
Na mesma época, em 1859, o plano para expansão da cidade de Barcelona idealizado pelo engenheiro espanhol Ildefonso Cerdà foi aprovado. Apresentava traçado em quadrícula regular e duas avenidas diagonais que se superpunham ao primeiro tecido e se cruzavam num ponto central, facilitando a comunicação metropolitana e conectando-se a ocupações externas ao plano, que se localizava no espaço livre entre a cidade medieval murada, mantida praticamente intacta, o Mar Mediterrâneo e povoados vizinhos. (Figura 06)
Cerdà reconhece na quadrícula o traçado que “reúne tanto vantagens de ordem circulatória, topológica, construtiva [...] como urbanística” (GONSALES, 2005), que se reproduz de maneira homogênea por todo o plano. Na quadra-tipo cada esquina é recortada em ângulo de modo a ampliar os cruzamentos, conformando largos e permitindo maior visibilidade dos edifícios. O engenheiro atenta para a questão da circulação, que entende ser, assim como o alojamento, fundamento da urbanização, projetando vias com vinte metros de largura e hierarquia viária.
A cidade começa na casa, mais precisamente no dormitório do homem, de onde começa a se articular uma cadeia de relações cuja escala varia até abranger a cidade e as suas vinculações com o território. A adoção do sistema de quadrícula para o ordenamento do território corresponde ao princípio da igualdade que nela se manifesta. (ALARCÓN, 2013:s/p, tradução nossa)
A salubridade das habitações é entendida por Cerdà como condição essencial a ser atendida no planejamento da nova cidade. Considerando a moradia como base para uma melhor qualidade de vida, toma como ponto de partida para seu plano a imagem da residência ideal, higiênica, iluminada, ventilada e que ponderasse critérios de custo, de modo a poder alojar a população operária. Diante
do imperativo de abrigar uma grande população, necessária para o desenvolvimento industrial que se almejava, Cerdà abre mão de modelos de habitação unifamiliar no lote ajardinado e desenvolve blocos de habitação em altura que ocupavam perifericamente a quadra em dois ou três lados, sem ultrapassar dois terços de sua superfície, de modo a criar um espaço livre no interior da mesma13, onde poderiam existir equipamentos urbanos e áreas arborizadas.
Figura 06: Plano Cerdà para a cidade de Barcelona; Projeto de 1859. À esquerda e abaixo, em cor mais escura, a cidade medieval existente. Fonte: Museu de História da Cidade de Barcelona. Disponível em:
<http://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:PlaCerda1859b.jpg> Acesso em 10 out. 2011.
Em 1867 Cerdá escreve a “Teoria Geral da Urbanização”, obra em que se propõe a estudar as origens, causas, desenvolvimento e condição de "todo esse conjunto de coisas diversas e heterogêneas que harmonizadas pela força superior da sociabilidade humana, formam o que chamamos cidade” (CERDÁ, 1867:29, tradução nossa), a que denomina “urbanização”, um neologismo para designar
um conjunto de conhecimentos, princípios, doutrinas e regras, destinadas a ensinar de que maneira deve estar ordenado todo o agrupamento de edifícios afim de que responda a seu objetivo, que seus moradores possam viver comodamente [...]. (CERDÁ, 1867:31, tradução nossa).
[...]
um agrupamento de alojamentos, postos em relação e comunicação mútua, para que os alojados possam tratar-se, possam ajudar-se, defender-se, auxiliar-se reciprocamente e prestar uns aos outros todos aqueles serviços que sem prejuízo próprio possam concorrer ao acréscimo e desenvolvimento do bem-estar e prosperidade comuns. (CERDÁ, 1867:32, tradução nossa).
O termo é aplicado ainda ao “ato de converter-se em urbe um campo aberto ou livre" (CERDÁ, 1867:29, tradução nossa), mais uma vez empregando um termo pouco utilizado, “urbe”, com a acepção de assentamento humano, porém com sentido diferenciado de termos mais comumente utilizados para definir um grupo de edificações, tais como cidade, vila, povo, lugar, aldeia, cujos significados, segundo o autor, se relacionam a categorias, dimensões e hierarquias,
enquanto o termo “urbe”, estaria relacionado “simples e genericamente a um grupo de edifícios sem relação alguma com sua magnitude, que é quase que de todo indiferente para a aplicação dos princípios fundamentais da urbanização” (CERDÁ, 1867:30, tradução nossa).
Na “Teoria geral da Urbanização” Cerdá demonstra a aplicação dos princípios da urbanização na reforma e expansão de Barcelona, constituindo o que é para alguns autores o primeiro tratado do urbanismo moderno, a que se atribui a inauguração da urbanística como disciplina e origem do termo “urbanismo”, embora este não apareça no texto, sendo empregado alguns anos depois por Alfred Agache.
É importante perceber a diferença ideológica entre os planos de L’Enfant e Cerdà e aquele executado por Haussmann. Nos casos norte-americano e espanhol as operações se deram em terrenos não ocupados e no momento de sua elaboração houve por parte dos autores a preocupação, embora não completamente concretizada, de garantir o acesso da população em geral ao projeto implantado, mesmo contando com a valorização da terra; já no projeto francês, o plano é sobreposto ao tecido urbano pré-existente, com a execução de trajetos que levam à demolição de quarteirões inteiros, incitando a especulação imobiliária e afastando a população pobre.
As considerações quanto à salubridade estão presentes nos três projetos, conforme se nota pela inserção de áreas verdes e espaços abertos que garantissem iluminação e circulação de ar adequadas. No entanto, as condições prévias são diferentes em cada caso, assim como a finalidade do planejamento e, portanto, os conceitos aplicados. De acordo com Andrade (1992:51), em finais do século XIX, “a ideologia do melhoramento acompanhará a entrada do pitoresco na cidade, fazendo com que no urbanismo nascente as operações de embelezamento e os projetos de melhoramentos se confundissem”.
Os planejamentos realizados por L’Enfant, Cerdà e Haussmann seriam referência para projetos urbanos posteriores em que se buscava ponderar aspectos de higiene, circulação e embelezamento, como aqueles realizados em Viena, Nápoles, Florença, Chicago e La Plata. Também no Brasil nota-se a vinculação com estes programas, como no plano de Aarão Reis para Belo Horizonte e nos projetos de Pereira Passos e Agache para o Rio de Janeiro e, ainda, no plano elaborado por Saturnino de Brito para a cidade de Santos.