Caminhando passo-a-passo é também relevante frisar, conforme analisa Lévy (1999), que como há certa impossibilidade de totalização do universo da internet, o que justamente lhe confere o caráter de universalidade, é arriscado precisar a data sobre o início das transmissões de rádio via web no Brasil e no mundo24.
24 No mundo, as primeiras experiências de transmissão de rádio pela Internet foram registradas já na década de 1990, nos Estados Unidos, país onde praticamente nasceu o novo meio de conexão e transmissão de dados: a internet. Para entender esse pioneirismo vale lembrar que a internet surge em 1969, quando a Agência de Pesquisas e Projetos Avançados (Arpa – Advanced Research Projetcts
Agency), organização do Departamento de Defesa norte-americano, criou a Arpanet, uma rede nacional
de computadores para garantir a comunicação, caso os Estados Unidos fossem atacados por outros países. O tráfego de dados cresceu rapidamente e novas redes de comunicação começaram a surgir, oferecendo
No entanto, acredita-se que a primeira experiência de rádio criada no Brasil exclusivamente para a rede tenha sido empreendida por integrantes do movimento Mangue Beat25. Tal evento data de 1996 e tinha por objetivo promover o diálogo entre elementos da rede e do rádio. Há também registros da primeira rádio brasileira totalmente virtual:
A primeira rádio brasileira 100% virtual, 24 horas por dia no ar, só foi aparecer em 1998. A rádio Totem surgiu com a proposta de ser um portal de rádio, oferecendo várias emissoras musicais, segmentadas em ritmos. Em 2001, a emissora chegou a operar com 11 canais diferentes, além de oferecer videoclipes, entrevistas e promoções aos internautas. Mas o projeto não sobreviveu e o portal saiu do ar (TRIGO-DE- SOUZA, 2004, p. 290).
De acordo com tais registros, o que tivemos foi o ingresso gradativo das rádios para a internet. Um detalhe importante é que a maioria dessas emissoras “era versão
web de estações regulares de AM e FM e apenas 12% delas transmitiam exclusivamente
pela rede” (NEGROMONTE, 2000 apud TRIGO-DE-SOUZA, 2004, p. 291).
Uma rápida classificação das experiências do rádio na internet nos aponta que há três modelos recorrentes, de importante compreensão: as rádios offlines, onlines e as
web-radios.
No caso da rádio offline, podemos caracterizá-la pela presença institucional na rede, ou seja, o objetivo maior é apenas a divulgação do nome/marca da emissora e de seu trabalho no dial. Nesse tipo de experiência não há disponibilização literal do áudio que é veiculado pela rádio correspondente no suporte analógico. Ainda assim, as gravações que podem ser encontradas nesse tipo de experiência offline estão mais relacionadas à característica multimídia da internet que ao rádio em si. As rádios offlines têm necessariamente existência fora da rede, no dial analógico.
inicialmente acesso a informações para pesquisadores e universidades dentro do país. [...] Como observa Sônia Virgínia Moreira (2002), duas companhias americanas reclamam os direitos e reconhecimento histórico de serem as emissoras pioneiras na transmissão de suas programações via Internet: “a AudioNet, que já em setembro de 1995 teria disponibilizado pela Internet a rádio KLIF, de Dallas, no Texas; e a
Broadcast.com, que seria uma das primeiras a operar via Internet através de um portal específico de áudio
e vídeo, tendo realizado a primeira transmissão de rádio também em setembro de 1995. Em julho de 1999, a Broadcast.com já estaria transmitindo ao vivo a programação de aproximadamente 410 emissoras de rádio.” Disponível em: <http://www.oparanasondasdoradio.ufpa.br/00radiointernet.htm>. Acesso em: 25 jun 2011.
25 Mangue Beat: movimento cultural criado em Recife que teve na música sua maior expressão por causa de Chico Science e Nação Zumbi. O programa veiculado chamava-se Manguetronic. A proposta da rádio era de veicular um programa quinzenal inédito, além de entrevistas, trechos de shows e músicas de novos grupos em MP3, formato de áudio com alta taxa de compactação, muito utilizado por internautas para gravação e distribuição de músicas.
Conforme Trigo-de-Souza:
É neste grupo que encontramos os sites mais primários, com menor volume de informações e com os maiores problemas de navegabilidade. Como estão offline, não oferecem seu sinal normal. Quando os recursos de áudio são utilizados, são em sua maioria com a função de efeitos sonoros, mais identificados com a característica multimídia da Internet já citada que com uma programação on demand. [...] Não existe por parte dessas emissoras uma preocupação com a documentação de sua atuação na Internet. Quando existe algum histórico, ele se volta, geralmente, para os fatos ligados à sua existência no dial, onde ela, de fato, realiza sua vocação radiofônica (TRIGO-DE-SOUZA, 2003, p. 97).
O segundo modelo, classificado com rádios online, disponibiliza programações radiofônicas pela internet e oferece novas possibilidades de acesso e serviços na tentativa de agregar novos públicos. São emissoras que estão conectadas e que necessariamente também existem no mundo não-virtual, ou seja, no suporte analógico. Nesse modelo, pode-se perceber que a interatividade
[...] é oferecida mas está mais ligada à adaptação do que já é feito no rádio/dial que à utilização dos modelos introduzidos pela Internet e sua adaptação para o rádio. Assim, os principais recursos oferecidos são a participação em programas (com pedidos musicais, envio de perguntas, sugestões de temas, etc.) e em promoções, que são, efetivamente, modos de interatividade já adotados no dial (TRIGO-DE-SOUZA, 2003, p. 98),
O terceiro e último modelo é justamente o que caracterizamos como web-radio: experiência radiofônica criada exclusivamente para a rede. Trata-se literalmente de uma rádio virtual. Entre outras peculiaridades, as web-radios tem se destacado no cenário comunicacional brasileiro por não necessitarem de autorizações públicas para seu funcionamento, o que é um fator incontestavelmente democratizante, ainda que a nossa realidade seja, em pleno século XXI, de exclusão digital.
Numa web-radio existe a possibilidade instigante de se produzir e veicular conteúdos estritamente locais numa esfera global, já que a rede mundial de computadores oferece tal recurso. O rádio digital, por sua vez, certamente terá que absorver tal característica. Na web-radio há também a possibilidade de se desenvolver mais hibridizações entre as duas mídias: rádio e internet, ou seja, a conexão entre as características da rede às do rádio encontra, em tal modelo radiofônico virtual a sua maior expressão: o conteúdo sonoro, base do rádio analógico, ganha componentes
textuais e imagéticos, como animações, gráficos, tabelas, fotografias, textos, vídeos etc.. Além disso, podemos corroborar que:
São rádios que resultam da integração do multimídia num suporte também novo, o único que permite a convergência de meios. O esquema de funcionamento da rádio é alterado, apresentando os seus conteúdos de forma diferente, preparados de acordo com o percurso que o site tem para oferecer, através de hipertexto e hiperligações (CORDEIRO, 2004, p.03).