C. Suikast Planları Cemiyet' in Ortaya Çıkarılışı ve Cezalar
1. Suikast Planları ve Cemiyet' in İfşa Oluşu
As canoas caiçaras (Fotos 35-39) acabaram cedendo espaço para outros tipos de
embarcações, sendo que hoje são utilizadas somente nas comunidades mais tradicionais,
mesmo assim, com uso concomitante de lanchas de alumínio. Em Picinguaba verificamos que
as canoas são, basicamente, utilizadas para as visitas de despesca nos cercos flutuantes. A
pesca com rede na costa é feita hoje, segundo alguns pescadores, com lanchas de alumínio
com motor de popa. Vimos também várias canoas guardadas em ranchos cobertos e trancados,
usadas somente na pesca de arrasto de praia da tainha, que, conforme dissemos anteriormente,
vem desaparecendo por causa dos impedimentos legais. O que mais se vê hoje no mar de
Picinguaba são os barcos corvineiros (uma espécie de baleeira, comprada ou fabricada pelos
próprios pescadores e utilizada para a pesca da corvina) e as lanchas de alumínio deitadas
sobre a areia, com seus motores de popa.
Em Ubatuba, encontramos um mestre-canoeiro que se considera o “último fabricante
de canoa da cidade”
272que utiliza o método tradicional. Instalado em uma oficina nos fundos
de uma imobiliária na Praia da Enseada, ainda recebe encomendas de pescadores de toda a
159
região, mas a sua renda principal é decorrente do trabalho de marcenaria e móveis artesanais
em madeira. Segue, abaixo, a transcrição dos principais trechos do relato desse mestre-
canoeiro:
“Eu me criei lá em Sete Fontes. Eu nasci no Guarujá, minha mãe e meu pai eram daqui, mas foram pra lá trabalhar, eu nasci lá, mas vim mora pra cá já com o ofício da construção da canoa caiçara na cabeça. Fui aprendendo, mexendo... Aprender eu não aprendi com ninguém, fui aprendendo sozinho, curioso querendo mexer com madeira pequena, pedaço de isopor fui aprendendo fazer desde meus 8 anos de idade, comecei a fazer canoa. Aí depois com uns 30, 32 anos, um senhor lá de Ubatumirim, o Baeco, a família dele me ensinou as técnicas da linha da canoa, que é bater a linha pra alinhar a canoa pra ela ficar estável no mar, ficar segura. Eles me ensinaram essa parte e foi o que hoje me ajudou muito na construção da canoa caiçara. Agradeço muito a eles até por ter me ensinado essa parte, né. Hoje, com essa técnica da linha, as canoas saem perfeita. Antes saia umas canoas meio torta, mas foi indo, fui aprendendo a mexer na canoas dessa forma.
(...) Há muito tempo atrás, você entrava na mata e você podia tirar uma árvore para construir uma canoa, você escolhia a qualidade da madeira, achava uma madeira reta, boa, em um lugar que pudesse cair legal, que não desse muito trabalho pra construir a canoa, aí você escolhe a tora uma grossura boa, a canoa a gente fala em palmos né, de três a quatro palmos de boca, com 5 ou 6 metros, é uma canoa boa pra você pescar, que é o uso da canoa caiçara é mais pra pesca mesmo. E antigamente era pra transporte de carga e mantimentos, tudo. Aí você vai olhar o fundo da canoa primeiro, na madeira você já vê o fundo da canoa depois você vai ver a boca, aí você vai rolando ela pra um lado e pro outro e vai fazendo. Há trinta, quarenta anos atrás o pessoal fazia canoa no machado e no enxó, e na linha de carvão pra poder fazer as medidas da canoa. Hoje eu tenho a técnica da motosserra, que adianta muito o serviço. (...) Adianto com a motosserra, mas não deixo de usar o machado, o enxó e a linha. O enxó é o que dá acabamento na canoa, que modela a canoa e que faz as curvas da canoa, sem essa ferramenta você acaba não fazendo a canoa. Você adianta alguma coisa, mas não dá acabamento. Trinta, quarenta anos atrás os antigos faziam a canoa em 40, 50, 60 dias. Hoje dá pra fazer uma canoa em 2, 3 dias com a ferramenta, que é a motosserra que adianta muito o serviço. Dessa forma eu to construindo canoa, só que hoje a gente não entra na mata pra tirar árvore.
(...) Eu aproveito madeiras que são tiradas pela defesa civil, ás vezes a secretaria do meio ambiente dá autorização pra tirar algumas árvores então, o que dá pra tirar com autorização a gente aproveita pra fazer o artesanato, aí eu faço as
160
canoas, faço alguns bancos, algumas mesas, uso alguns troncos pra fazer banquinho, pilão, remo...
(...) [Para o artesanato] Eu uso mais o guapuruvu, eucalipto mesmo, limoeira...(...) Pra canoa é mais o guapuruvu, a canela, taromã. Mas é dessa forma, só com as madeiras que dá pra trabalhar com autorização. (...) Eu faço sob encomenda e exponho pra vender, tipo aquela que está ali na frente, se chegar alguém que quiser comprar ela, eu vendo. Hoje eu vivo do artesanato caiçara, construo canoas, gamela, pilão, remo. Mas se me encomendarem, talvez amanhã tenha madeira, talvez daqui um ano ou talvez nunca tenha. Por isso que eu falei dessa forma, não entrando na mata porque se eu entrar na mata tem muita madeira, você vai lá escolhe a madeira que você quer, o tamanho e tira, aí fica fácil. Mas hoje em dia não pode mais, então dessa forma aí tem que ficar esperando não sei que dia que vai ter madeira. Se você me encomendar uma canoa pequena, às vezes eu acho mas se você encomendar uma grande eu não vou achar uma tora grossa pra poder construir uma canoa. (...) Os pescadores encomendam! Pra uso mesmo da pesca artesanal, né, pesca de linha, pesca de rede, pesca de cerco. (...) Picinguaba, Parati, Angra, aqui pra São Sebastião, Caraguá, Ilha Bela a maior parte desse litoral todo aqui o pessoal que me conhece sempre encomenda alguma coisa. (...) É mais ou menos o tamanho certo, algumas pra corrida, pra competição mais fininha com uma boa saída d´água. (...) Tem competição de canoa aí, põe uns caiçaras pra remar um pouco de vez em quando. (...) A gente faz a canoa mais bojuda, mais cargueira, pra pesca, e umas com mais saída d´água pra andar mais, pra ficar mais veloz um pouco.
(...) Essa [que está em exposição] tem quatro metros e meio com três palmos de boca. Vamos colocar uns cinco dias pra ficar acabadinha né! (...) Faço tudo, pintura, verniz. Aí, tipo assim, se fosse no mato, hoje, uma madeira, uma canoa, daquela eu conseguiria tirar ela do mato em dois dias, saio de manhã até de tarde, no outro dia de manhã até de tarde e você tirava ela do mato, deixa ela leve, meia grossa ainda. Juntava uma galerinha e consegue puxar ela do mato. Mas como aqui às vezes a madeira tá perto e o caminhão acaba trazendo, eu posso fazer um dia, dois dias, três dias, quatro dias....
(...) Eu trago ela pronta! [do mato].(...) Faço do jeito que ela está ali assim, só que mais grossa um pouco, sem lixar, fica com a marca do enxó, marca do machado e da motosserra. Aí, depois que vem pra cá que você dá acabamento e lixa com a lixadeira, esperar secar pra colocar os bancos. Demora mais pra secar antes a madeira né, pra poder sair aquela cica dela, a seiva, aí, depois, do que a mão de obra. A secagem da madeira demora mais do que a mão de obra. Depois que secar legalzinho você trata a madeira, passa um veneno pra não pegar bicho.
161 [sobre comércio com canoas de voga] A gente ainda faz uns rolos, ainda, de peixe
com combustível, quando precisa. Mas antigamente era feito rolo de peixe com carne de porco, farinha de milho, com farinha de mandioca, com verdura então eram feito esses rolos. Hoje em dia mais não. Antigamente era feito assim, há 40 anos atrás, 50 anos atrás, isso conta meu pai, meus avós contam isso aí pra mim. Mas eu peguei uma época boa que pescava no cerco na Sete Fontes, matava muito peixe, tudo de canoa, vinha entregar os peixes, tudo de canoa. Remei muito com o meu pai pescando, então eu aproveitei bem essa infância praticamente dentro de uma canoa, desde os meus sete anos de idade pescando em uma canoa. E eu consigo tirar o sustento da minha família hoje dentro de uma canoa a remo se eu quiser, não quero mais, mas se eu quiser fazer isso, eu largo tudo pra trás e volto a pescar. Em uma canoa dessa eu consigo sobreviver tranquilinho, aqui na beira da praia.
(...) [Hoje faço] Só artesanato. Ás vezes eu vou pescar um pouco, mas é mais pra sustento mesmo, pegar um peixe pra comer, né. Mas hoje eu to vivendo de artesanato, trabalhando bastante, fazendo bastante peça. Esta bom graças a Deus, não posso reclamar não.
(...) A melhor arte, acho, que o caiçara pode ter aqui em Ubatuba, na parte do nosso litoral, é a construção de uma canoa caiçara Pra você ver, não tem ninguém fazendo. (...) O Baéco que faz as canoas mesmo, que é lá de Ubatumirim, tá na África trabalhando, por causa das dificuldades de conseguir as madeiras ele não tá trabalhando aqui. (...) Ele foi fazer outro tipo de serviço, não sei o que é, mas não é canoa não. Eu to lutando pra construir as canoas ainda porque eu tenho muita força de vontade, porque, como eu to te falando, com essa dificuldade de conseguir as madeiras, era pra mim ter desistido faz tempo. Mas eu to batalhando, to trabalhando, fazendo uma aqui, uma ali, quando tem madeira, quando não tem eu faço outras coisas. Mas eu to vivendo do meu artesanato e a cultura da construção da canoa caiçara, pra mim é a coisa mais linda do mundo! A canoa, o remo e o pilão. Aí tem as gamelas, tem as esteiras de taboa, tem os balaios. Eu acho que tinha que ter mais gente pra poder construir canoas e continuar o artesanato caiçara e do jeito que vai indo... (...) Não tem [apoio] do governo, nem da prefeitura. (...) Nada, eu trabalho sozinho ninguém me ajuda e também não peço ajuda pra ninguém. Eu acho que tinha que ter um incentivo sim porque essa cultura que eu tenho na mão, esse dom, você pode procurar no litoral inteiro e você não acha. Acha um ou dois que já está desistindo por causa dessa dificuldade de conseguir a madeira.
(...) Pode botar daqui uns 5, 10 anos ninguém mais vai fazer. Que eu saiba eu sou o único caiçara em Ubatuba, no litoral, fazendo canoa, começando e acabando, no resto ninguém quer fazer mais. Tanto é, que o pessoal me chama pra fazer canoa em
162
tudo quanto é lado aqui nessa parte de Ilha Bela, São Sebastião, Caraguá, Toque Toque, Barra do Saí, Barra do Una, vou fazer canoa pro pessoal lá.
(...) Tem gente que quer aprender. Mas o que acontece, vê eu fazendo e acha fácil aí na hora que pega o enxó pra bater, que o enxó é uma ferramenta pesada e ela cansa um pouco o pulso, o braço. Aí eles dão quatro ou cinco batidas, pronto, já desiste. Então pra você fazer uma canoa, um pilão, um remo, você tem que ter força de vontade e vontade de trabalhar com essa ferramenta. Senão você não aprende! Então é essa a dificuldade porque cortar com motosserra é fácil que é um equipamento a gasolina, que tem muita força, você corta, mas pra você cavocar no enxó, fazer tipo um emboio com isso aqui, é pesado, é cansativo. É nessa parte que o pessoal desiste. Vê eu fazendo, parece fácil porque eu to acostumado a fazer. Se você vê o pessoal do seu Agrício lá, fazendo até melhor do que eu, e parece fácil, mas pegar pra fazer quem nunca fez vai sentir que é um instrumento difícil de trabalhar, pesado e cansativo. Essa é a hora que o pessoal desiste.(...) Tenho um filho, com quinze anos, mas não quer aprender nada não! Já tentei, já empurrei, já briguei, mas não tem força de vontade de aprender não.
[Pergunto quanto custaria, hoje, a encomenda de um pescador de uma canoa para usar pra pesca mesmo] Uns 3.500 a 4.000 reais, pronta, dá pra dar uma parcelada
pra eles, por que eles precisam né. (...)De vez em quando aparece alguma coisa
[encomenda].
[o mestre-canoeiro mostra as madeiras e as ferramentas para a confecção de canoas e artesanato. Comenta que há vários tamanhos de enxós, cujo uso vai do trabalho mais pesado até o acabamento - Fotos 40-47].
[Antigamente] Era machado, enxó e a linha de carvão, né, pra poder fazer a
marcação. É uma linha, mesmo, que você soca carvão nela, soca carvão e... você põem carvão e bate assim, ela risca no meio.(...) você soca carvão né, estica ela na madeira...(...) você estica ela aqui assim, estica uma aqui, outra ali, estica e puxa né, aí ela acaba riscando retinho o carvão. Só que agora tem que molhar ela um pouquinho com água pra fazer, aí você faz a marcação que você quer. (...) Era machado, o enxó e a linha, só, o nível, pra nivelar o nível, tudo.(...) hoje a gente usa a motosserra pra adiantar o serviço, mas do enxó você não foge pra fazer a modelagem. Essas ferramentas [os diferentes enxós] são de precisão. (...) Porque como que você ia cavocar as peças? Antigamente não tinha lixadeira, não tinha nada então, você ainda consegue fazer um acabamento no enxó. Aqui a gente tá picando a madeira, mas se fosse fazer um acabamento, você consegue deixar lisinho só no enxó. (...) Aí você usa aquele menorzinho pra dar acabamento, depois pode lixar até com lixa de mão, não precisa nem usar a lixadeira.
(...) Eu tenho várias canoas espalhadas por aí, mas aquela ali é a última que eu fiz, a mais nova. Fiz acho que há uns 4 meses atrás. (...) Essa canoa tá pronta pra usar
163
na pesca, já tá seca... Só falta um acabamentozinho de lixa aqui no canto, passar aqui e fazer a pintura ou verniz. O certo é pintura mesmo, o pessoal usa pintura de esmalte sintético, antigamente era tinta óleo né, que dura mais pra pescaria.(...) A parte da frente é é proa, a parte de trás é popa. (...) Proa, popa, fundo, costado, bordo, banco... Tem mais nome mas isso é pra linguagem naval. Bombordo, boreste... (...) Ali [parte de baixo] é a garra, chama garra de proa. Ela serve pra duas coisas, essa garra dela aqui. Na hora que você chegar na praia ela não bater o fundo na areia, ela vai cortando a areia e vai amaciando a chegada na areia, e pra dar o leme na canoa. Tanto faz, você andar olhando pra popa ou olhando pra proa, ela vai em linha reta. Então essa é a garra da proa, que a garra da popa ela tem que estar feita na linha certinho, se ela fica uma pra lá e outra pra cá, a canoa anda torta. Você vai remar vinte vezes de um lado e uma de um lado só, então isso aqui tem que estar certinho. Aí é por isso que tem que ter aquelas linhas da canoa, aquelas linhas de carvão pra você poder acertar. (...) Pela linha, tem que começar acertando a linha, senão fica torta.”273
Foto 40 - Enxós utilizados na confecção de canoas e outras peças artesanais pelo mestre-canoeiro, Praia da