• Sonuç bulunamadı

Su Kayıpları Konusunda Gerçekleştirilen Çalışmalar

As imagens fotográficas dos eventos cívicos das escolas pesquisadas apresentaram diferenças em relação aos anos que antecederam o Regime Militar. As diferenças inicialmente são sutis, quando as imagens são do início dos anos 60. No entanto, quando aproximam-se fotografias que datam do fim dos anos 60 e início dos anos 70, as diferenças foram se acentuando, o que propõe que sejam considerados alguns aspectos desse segundo momento.

Recorda-se que o golpe militar ocorreu em 31 de março de 1964, quando foi deposto o presidente João Goulart. Um período da história brasileira que teve seu fim, se assim pode- se assinalar, com a ascensão de Tancredo de Almeida Neves e José Sarney, por meio de eleição indireta em janeiro de 1985.

Durante o período em que o Brasil foi dirigido por militares (1964 -1985), como bem lembra Lombardi, “as instituições estatais são a voz do poder”;297 as escolas passaram a enfatizar com grande intensidade questões relacionadas à construção da identidade nacional, evocando o sentido de pátria e de nacionalidade nas crianças e nos jovens brasileiros. Embora esse sentimento de enaltecimento da sociedade brasileira anteceda o Regime Militar, as ações por ele promovidas, tornaram-se claras e efetivas no sistema de ensino brasileiro. É, neste sentido, que Rocha descreve sobre o tratamento destinado à disciplina de Educação Moral e Cívica, a partir de 1964, no País:

A partir do processo de redemocratização do País (1945), e das discussões da LDB (1961), a Educação Moral e Cívica vinha sendo tratada como prática educativa. Depois do golpe militar de 1964, o Estado passa a sentir a necessidade de revitalizar o ensino de Educação Moral e Cívica à luz da doutrina de Segurança Nacional.298

295

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO E CULTURA. Revista do Ensino, Porto Alegre, ano X, n. 74, mar. 1961. p. 5.

296 Idem.

297 LOMBARDI, José Claudinei; CASIMIRO, Palmira Bittencourt S.; MAGALHÃES, Lívia Diana Rocha. (Org.). História, memória e educação. Campinas, SP: Alínea, 2011. p. 16.

298 ROCHA, Aristeu Castilhos da. O regime militar no livro didático de história do ensino médio: a construção de uma memória. 2008. Tese (Doutorado em História) – UFRGS, Porto Alegre, 2008. p. 70.

Dentre estas ações, destacam-se as produções, sejam em manuais, revistas ou em livros, produzidas no intuito de auxiliar os professores na formação de alunos. No Rio Grande do Sul, a Revista do Ensino publicou em 1964 artigo do Dr. João Ribeiro dos Santos, em que estavam descritos o que seriam os “princípios para uma pedagogia do Civismo”.299 Destacou- se a seguinte passagem:

Civismo é essencialmente educação. Tem aspectos de disciplina informativa quando estuda a Constituição do país, o mecanismo da elaboração das leis, as estruturas dos órgãos de governo ao nível nacional, estadual e municipal, as agências governamentais ou particulares da sua comunidade, etc. Em tudo mais será uma prática educativa dentro e fora da escola. [...] Na educação cívica a Escola não pode estar desligada do lar e da igreja. Normalmente o regime será de estreita colaboração. Mas em muitos casos a escola e a igreja terão de compensar a ausência ou a má influência do lar. [...] Há o grave risco de a educação cívica, devido à liberdade de cátedra, se tornar a tribuna de propaganda de outras formas de governo e de outras filosofias políticas. Mesmo que os programas fixem o estudo nos temas da democracia e da república, a malícia fará o resto. Ignoro se há alguma forma legal de defesa. Mas será uma ingenuidade inqualificável ter o lobo ou a raposa como cão de pastor. A educação cívica deve esclarecer a juventude sobre as vantagens da democracia, da nossa república, da nossa formação cristã, da nossa filosofia e da nossa política econômica. Dever dar argumentos para que se defendam dos pregadores de doutrinas contrárias ou subversivas. Eles não tem escrúpulos em politizar a juventude, e será tolice adotarmos uma atitude suicida de neutralidade.300

Como se observa, a atitude era combater realmente qualquer ameaça que corroborasse uma possível tentativa de oposição contra o discurso propagado; para tanto, o ensino foi direcionado a conferir legitimidade ao discurso patriótico. Conforme a LDB de 1961, na educação de grau médio, previa-se no art. 38, que a formação moral e cívica do educando fosse realizada por meio do processo educativo. Será na LDB de 1971 que as orientações tornaram-se mais claras e objetivas. Conforme o art. 7 da lei, tornou-se a partir daquele momento obrigatória a inclusão de Educação Moral e Cívica nos estabelecimentos de 1º e 2º graus.

Contudo, já em 1968, após o AI-5, ficou determinado que a disciplina de Educação Moral e Cívica, assim como prática educativa, deveria ter caráter de obrigatoriedade e fazer parte de todos os currículos escolares em todos os níveis e em todas as modalidades de ensino.301 Lei que entrou em vigor a partir do Decreto 869, de 12 de dezembro de 1969,302 e que fora revogada somente em 14 de junho de 1993303 pelo então presidente da República

299

Revisa do Ensino, v. 13, nº 99, ano de 1964. 300 Ibid., p. 35.

301 CUNHA, Luiz Antônio; GOÉS, Moacyr de. O golpe na educação. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1991. 302

Disponível em: <http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=195811>. Acesso em: 25 abr. 2013.

Itamar Franco. No tocante, é importante relembrar que foi constatada a inserção da disciplina de Educação Moral e Cívica nas escolas de Torres/RS já em 1968, estando em conformidade com as obrigatoriedades previstas pelo AI-5.

Assim, a partir de então, muitos materiais foram desenvolvidos com o intuito de fortalecer a orientação patriótica no ensino. Destaca-se o material desenvolvido pelo Departamento Nacional de Educação, pelo Ministério de Educação e Cultura para a campanha nacional de material de ensino em 1967, que publicou para alunos e professores a “pequena

enciclopédia de moral de civismo”,304

de autoria de Fernando Bastos de Ávila. Nesse, estão as principais denominações que representavam os valores humanos, com a definição do que corresponderia cada termo. Compunham parte desta enciclopédia as palavras: Cidadania; Cidadão; Civilização; Civismo; Classe social; Coação; Colaboração; Democracia; Desenvolvimento; Desordem; Dever; Doutrina; Educação; Estado; Eugenia; Forças armadas; Higiene Escolar; Ideologia; Igreja; Moral; Nação; Nacionalidade; Patriotismo; Símbolos Nacionais e Tradição. Estas palavras não por acaso faziam parte desta enciclopédia. Por elas, afirmavam-se os princípios da ditadura militar. Interessante é obervar que muitas denominações, como pátria e nação, correspondiam à descrição do termo Estado, este é apontado como responsável por grande parte do gerenciamento da sociedade neste momento.

Constava ainda, na enciclopédia, um decálogo cívico composto de dez princípios básicos:

1 – Amarás o Brasil, tua Pátria, com um amor inteligente e forte. Inteligente, para conhecer seus problemas e grandezas; forte, para empenhar-se em prol de seu desenvolvimento e na defesa de sua soberania.

2 – Amarás os teus irmãos brasileiros, reconhecendo em todos a igual dignidade de pessoas humanas, sem discriminações de raça, origem, condição social, situação econômica, opiniões doutrinais, ideológicas ou religiosas.

3 – Não excluirás de teu amor e respeito os filhos de outras terras que vierem colaborar lealmente para a grandeza da pátria comum.

4 – Prezarás os teus valores humanos, espirituais e físicos, procurando, através de todos os recursos de ensino e da educação, levá-los a uma plenitude ordenada e harmoniosa.

5 – Amarás entranhadamente o bem, a virtude e a verdade, detestando o mal, a mentira e a iniquidade.

6 – Amarás com predileção a tua família, cuja promoção te dedicarás pelo trabalho competente e honesto, no exercício de uma profissão.

7 – Procurarás conhecer sempre melhor teus deveres e direitos de cidadão, para observá-los com maior fidelidade, esforçando-te por participar da vida de tua cidade, de teu município, de teu Estado e da Federação.

8 – Lembrar-te-ás que um bom cidadão não pode ignorar os elementos fundamentais da organização jurídica e administrativa de sua Pátria.

304 ÁVILA, Fernando Bastos S. J. Pequena enciclopédia de moral e civismo. Brasília: Departamento Nacional de Educação, Ministérios da Educação e Cultura, 1967.

9 – Deverás também te esforçar por conhecer sempre melhor os elementos da organização econômica e dos processos sociais do Brasil, bem como os sistemas propostos para resolver os seus problemas, a fim de formar, a respeito de todos, uma opinião clara e segura.

10 – Não deverás nunca esquecer que o Brasil faz parte de uma Cultura e de uma Comunidade Internacional, para com as quais tem também direitos inalienáveis e deveres urgentes, de cujo respeito depende o advento de uma paz justa e definitiva. (Grifo nosso). 305

Apesar dos princípios acima sugerirem ter caráter aconfessional, a prática era distinta, pode-se inclusive questionar o porquê de serem exatamente dez os princípios básicos. Assim, Cunha afirma que,

apesar do parecer do arcebispo-conselheiro proclamar que a educação moral e cívica devesse ser aconfessional, isto é, não vinculada a nenhuma religião e a nenhuma igreja, a incorporação das doutrinas tradicionais do catolicismo e de seus quadros não era sequer disfarçada nos textos e diretrizes da Comissão Nacional de Moral e Civismo, nem nos livros didáticos que ela aprovava para uso nas escolas. O parecer proclamava que a religião é que era a base da moral a ser ensinada.306

Portanto, essas considerações justificam a presença do clero em muitas fotografias dos desfiles cívicos, assim como o registro em documentos das escolas de sua participação no cotidiano escolar.

Destarte, a publicação “Educação Moral e Cívica nos três níveis de ensino como

disciplina obrigatória”,307

de 1970, definia os programas desta disciplina no ensino, com orientações gerais acerca do tema e prescrições para a estruturação dos currículos. Destacava que este conteúdo deveria ter continuidade em todas as séries e, ainda, determinava a intensidade de sua aplicação. Iniciando com questões gerais de formação do “homem moral”

para a respectiva formação do “homem cívico”, que deveriam permear todas as séries. Logo,

no que se referia a questões de cunho sociopolítico-econômico, preconizava-se que deveriam ser ministradas nas séries finais dos cursos. E, por fim, o material previa o que precisaria conter em cada nível de ensino da época, ou seja, o Primário, o Ensino Médio e o Ensino Superior.

Nesse material, afirmam-se as posições elencadas até o momento, nas quais ficou evidenciada a necessidade de os alunos reconhecerem e assim valorizarem os símbolos brasileiros, a tradição e os “heróis” da história. Para tanto, deixa claro que a simples

305

ÁVILA, Fernando Bastos S. J. Pequena enciclopédia de moral e civismo. Brasília: Departamento Nacional de Educação, Ministérios da Educação e Cultura, 1967.

306 CUNHA, Luiz Antônio; GOÉS, Moacyr de. O Golpe na educação. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1991. p. 76. 307

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA. Educação Moral e Cívica – nos três níveis de ensino como disciplina obrigatória: prescrições sobre Currículos e Programas Básicos. Brasília: Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos em Colaboração com a Comissão Nacional de Moral e Civismo, 1970.

exposição teórica dessas questões não era suficiente, os alunos deveriam aplicá-las na prática, por meio de diversas atividades, como, por exemplo, em exposições e festas cívicas.

É assim que surgem os Centros Cívicos Escolares.308 Segundo o manual, seria por meio deles que “os educandos comemoram as grandes datas cívicas, prestam culto aos símbolos nacionais e desenvolvem o amor ao Brasil”.309 Previa-se, ainda, no Ensino Médio, a inserção da disciplina de Organização Social e Política Brasileira, que complementaria a formação dos alunos.

Atualmente, no ensino brasileiro se encontram os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que contemplam propostas para articular a formação para a cidadania, correlacionando questões e conceitos históricos. Pretendem ser um instrumento de trabalho que venha a auxiliar o educador no cotidiano escolar. Todavia, constata-se que, ainda hoje, esse material não obteve muita atenção dos profissionais de ensino, pois “ainda não foram bem aproveitados, como uma referência, precisam ser mais investigados, reavaliados, atualizados e ampliados”.310

Essas ponderações sobre o culto à nação, aplicado no ensino brasileiro durante o Regime Militar, permitem a compreensão da forte presença dos eventos de caráter cívico na educação torrense. E, conforme já mencionado, é uma prática que se mantém nas escolas brasileiras; no entanto, com outras características e objetivos. Sendo assim, parte-se agora para a análise das imagens fotográficas da categoria temática Desfiles Cívicos, donde poder- se-á identificar muitos aspectos descritos acima, assim como correlacioná-los com questões que norteiam as práticas atuais.

Benzer Belgeler