• Sonuç bulunamadı

Apresento a seguir a história de Afrânio, cujo acidente não é típico. A informação do caso típico se esgota no dado estatístico, fundamental por certo, mas para enriquecê-lo de sentido, às vezes, é preciso recorrer a um caso que não sendo típico pode conter uma carga simbólica suficiente para penetrar o sentido dos dados e revelar a vida que neles se esconde.

Afrânio é um rapaz de dezessete anos, era auxiliar de escritório e cursava o segundo colegial. Foi atropelado quando voltava para o trabalho depois de tomar café no bar, sofreu traumatismo crâneo-encefálico (TCE). Ficou três dias em coma e foi operado duas vezes:cranioplastia e cranioctomia. Após o acidente apresentava gagueira, amnésia de aprendizado, dificuldade para a expressão verbal e desorientação espacial. O TCE consistiu de afundamento fronto-temporal esquerdo, comprometimento da região parietal, déficit do membro superior direito, déficit visual (visão dupla) e hemiparesia do lado direito.

Transcrevo a redação que ele fez para avaliação de escolaridade realizada no centro de reabilitação profissional pelos professores responsáveis em 11.12.1981. O título da redação era “A mais linda história que já li ou ouvi”.

Faz tempo que la perto da minha casa, haviam duas árvores, grandes, que não sei por que que derrubaram a duas árvores, tiraram a grama e agora é só uma grande terra sem nada, casas, árvores e sem grama.E para mim, aquela terra agora não vale nada, nada mesmo. E em outro lugar há também outras duas árvores maiores do que as outras os homes que constroem casas entraram na área para fazer a mesma coisa mas há muita que não quer sair daí, e não podem Fazer a mesma coisa que Fiseram nas outras árvores”“. (Rodrigues, 1984,p.42).

O tema inicial é a devastação, derrubaram as árvores, a grama “e agora é só uma terra sem nada” e para ele essa terra não vale nada, nada mesmo, traz a seguir o da resistência da vida e da esperança. A terra devastada parece expressar o seu sentimento em relação ao próprio corpo depois do acidente, que ele vive como um ataque “os homes que constroem casas entraram na área para fazer a mesma coisa mas há muita que não quer sair daí”. Os homens, que constroem, são potentes, fizeram uma devastação nele, mas alguma coisa resiste e talvez ele não tenha sido castrado, como a princípio sentiu.

O caso foi encaminhado para mim porque havia duvida quanto à capacidade intelectual do Afrânio. A equipe responsável pelo caso, médico, assistente social e eu, precisava avaliar se o caso tinha, ainda que remota, alguma possibilidade de aproveitamento profissional. A qualidade das associações do segurado demonstraram não haver comprometimento intelectual – esta havia sido a razão do encaminhamento do caso para mim pelo médico.

Ele estava obcecado pelo pai, falava compulsivamente sobre ele sempre em tom de menosprezo. Sua fala era monótona e repetitiva, além de fragmentada. Era perceptível uma forte identificação com a mãe e um inconciliável divórcio entre o elemento feminino e o masculino, o primeiro aparecia mais valorizado e mais forte. Devido à idade a equipe concordou em dedicar a este caso mais tempo que o habitual, eu o acompanhei durante dois anos, período que não foi suficiente para conseguir sua reabilitação profissional.

O acidente de trajeto faz pensar de onde ele vinha e para onde ia, se levarmos em conta o registro simbólico presente no caso singular, é possível sugerir que o acidente faz pensar no destino da classe subalterna em nosso país. Edith Seligmann-Silva (1994) num estudo obrigatório, pela riqueza de dados e pela discussão de todos os aspectos relacionados à saúde mental no trabalho, relata depoimentos que revelaram

A percepção de um doloroso ataque à dignidade. Esse ataque determinou diferentes representações, dentre as quais ressaltaram aquelas em que os trabalhadores demonstram uma identificação com escravos ou animais.

A imagem do escravo se associa simultaneamente à perda de liberdade e ao sobretrabalho.

“Ali, a gente é um verdadeiro escravo – não pode falar nada, tem que agüentar calado mesmo se tiver morrendo de cansado (ajudante industrial)”.

A expressão “ser tratado como animal” foi uma das mais utilizadas pelos trabalhadores de indústria de base, sobre os quais pesava o registro de “ajudante”, e estava correlacionada à vivência de desqualificação. Mas em relatos sobre conflitos com chefias autoritárias, mesmo por parte de trabalhadores detentores de uma profissão, ela também surgiu como uma das queixas mais revoltadas, revelando um sentimento profundo de ataque à dignidade. (p. 217).

As representações de escravos ou animais correspondem ao plano fenomenológico das vivências do trabalhador, elas se inscrevem no nível pré-consciente. O retorno do

reprimido requer um nível analítico que leva em conta as formações inconscientes, não só da história pessoal do sujeito, mas também do que permanece oculto na situação de trabalho e na subjetividade do grupo que ela conforma. No contexto de trabalho o retorno do reprimido é emblemático do processo de espoliação e humilhação do trabalhador, por isso ele é portador da dimensão política, oculta e inerente ao acidente de trabalho.

Os anos de experiência na clínica institucional com trabalhadores acidentados revelam dados que se repetem e incitam a investigação de como eles se articulam. O excesso de horas trabalhadas, a redução do trabalhador à força de trabalho, a ambigüidade do contrato de trabalho, a humilhação, o medo e a ameaça como estratégias da organização de trabalho para obtenção do lucro, a supressão da vontade e a coerção da autonomia são práticas vinculares. Elas se baseiam em valores ideológicos dos estratos dominantes que definem os processos característicos, transubjetivos, da situação de trabalho.

O ponto de articulação entre a subjetividade singular e a do conjunto se deve a que

pertencer à situação de trabalho é compartilhar dos processos psíquicos e valores nela consubstanciados. A identificação e o ideal do ego são os conceitos psicanalíticos através dos quais se realizam essas formações intermediárias entre a subjetividade singular e a do conjunto.12

O excesso de horas trabalhadas, a redução do trabalhador à sua força de trabalho, humilhação e coerção estão presentes nos depoimentos e suficientemente descritas na literatura. Nos casos analisados, essas práticas configuram a maneira de organizar as relações capitalistas de trabalho, respondem aos interesses da classe patronal e se veiculam através dos valores e das disposições significantes da sua ideologia.

A análise dos fatores que compõem a ideologia indica que seus efeitos sobre a subjetividade se dão no plano moral, já que sua eficácia consiste em qualificar moralmente os sujeitos, além de designar o sentido dos acontecimentos sob o prisma: bom ou mau trabalhador, ou seja, a favor ou contra seus interesses. Em termos psicanalíticos, os vínculos no trabalho estão mediados pela instância do superego tal como proposta pela organização do trabalho. O comentário de Maurício Tragtenberg no prefácio do livro de Edith é pertinente.

A interface trabalho-família aparece caracterizada neste depoimento de um trabalhador metalúrgico:”o primeiro dono era que nem pai para mim, fazia de tudo. Trabalhava com a gente, conversava sempre, alie era que nem uma família da gente. Devido ao meu problema de vista sei que ultimamente produzia menos que antes. Mas achava que eles estavam me considerando por eu ser antigo, por tudo que eu sempre fiz pela firma. Quando me mandaram embora, eu tive aquele choque.”

Isto demonstra o investimento afetivo que o trabalhador deposita na empresa, vista como figura parental. O choque com a demissão transforma o “pai” em “padrasto”.

Outra fonte de confusão emocional são os conflitos com a chefia. À vivência da opressão e do autoritarismo atual vinculam-se, na mente do trabalhador, imagens da infância de cunho parental, das quais nem sempre existe consciência. É assim que as leis do mundo da fábrica são fortalecidas pelas leis que a experiência familiar imprimiu no mundo interior de cada um. Obedecer ordens e evitar conflito são exemplos destes “regulamentos do íntimo”.(Edith Seligmann-Silva, p.30)

“Regulamentos do íntimo”, expressão muito feliz para designar as expectativas de conduta e sentimento provenientes do superego pessoal. A organização do trabalho propõe uma

autoridade -representada pelo superior hierárquico e válida no contexto de trabalho-, com função superegóica na subjetividade do grupo. As duas apresentações de representantes do superego se superpõem, condensam-se, aumentando a complexidade e força do processo, de forma a turvar no trabalhador a defesa dos seus interesses, função específica do ego enfraquecido pelo peso do superego.13

Na superposição entre regulamentos do “íntimo e do ambiente”, a que poderemos denominar “código vincular”, a atitude que fugir desse modelo -em busca de alguma autonomia, por exemplo-, tende a ser entendida como contrária e, portanto, considerada perigosa e indesejável. Esse modelo é normativo dos vínculos e funciona como um código para os usos e costumes nas relações de trabalho. A camisa de força que constringe o trabalhador, tem por objetivo diminuir os efeitos das contradições entre capital e trabalho; efeitos que parecem prejudiciais à ótica dominante, refratária, a compreender a dialética da situação.

O sujeito se define pelo lugar que ocupa na ordem que o constitui e pelas representações sobre o lugar e o conjunto14. Pertencer ao conjunto é compartilhar valores e identificar-se a partir dos modelos oferecidos segundo a ótica ideológica do dominante, o conflito acontece porque o ideal proposto além de ser contrário aos interesses do trabalhador, denigre o seu valor. A introjeção dos valores dominantes não elimina o conflito psicológico apenas o

torna mais complexo. Não é difícil perceber as repercussões na constituição da substância narcísica, cujo efeito mais visível se dá na auto-estima do trabalhador brasileiro.

O sujeito se define por um elemento subjetivo: as representações próprias e as apresentadas pelo conjunto (enquanto sujeito desse conjunto elas também fazem parte dele), e por um fator objetivo: a posição que ocupa no conjunto. A posição define seus interesses de modo

13 Em O ego e o id (1923), Freud trata do assunto, em especial no capítulo 8, “As relações dependentes do

ego”.

conflitante com as representações da ideologia patronal, cuja finalidade é sustentar o lucro não reconhecendo no trabalhador outra dimensão que não seja sua força de trabalho. É nesse campo que coloco a discussão sobre o acidente de trabalho e sobre as relações entre psiquê e sociedade.

Benzer Belgeler