Na documentação da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras – FIPECAPI (2010) consta que:
O Brasil teve, durante muitos anos, dois documentos sobre a estrutura conceitual de contabilidade. Um deles, elaborado em 1986 pelo Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuárias e financeiras (FIPECAFI) sob as mãos do prof. Sérgio de Iudícibus, aprovado e divulgado pelo Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (IBRACON) (antigo Instituto Brasileiro de Contadores) como pronunciamento desse instituto e referendado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por sua deliberação n° 29 /861.
O outro documento foi emitido pelo Conselho Federal de Contabilidade, pela sua Resolução n° 750, em 1993, Princípios Fundamentais de Contabilidade, seguida de um apêndice introduzido pela Resolução CFC n° 774/94 e da Resolução CFC n° 785/95; esta sobre as características da informação contábil, detalhando um pouco mais a anterior, e a Resolução CFC no. 785/95, ‘Das Características da Informação Contábil’.
A estrutura da CVM ‘discorria sobre os postulados, os princípios e as convenções contábeis, denominando-os genericamente de Princípios Fundamentais de Contabilidade’. (FIPECAFI, 2010, p. 31).
A CVM tratava de Princípios Contábeis de forma hierarquizada, dividindo-os em:
- 02 (dois) Postulados Ambientais: Entidade e Continuidade.
- 04 (quatro) Princípios Propriamente Ditos: Custo como Base de Valor, Denominador Comum Monetário, Realização da Receita, Confronto das Receitas com as Despesas e os Períodos Contábeis.
- E as 04 (quatro) Convenções Contábeis: Objetividade, Materialidade, Conservadorismo e Consistência.
Todos eles são mostrados na Figura 1.
Figura 1 – Postulados, Princípios e Convenções
Fonte: Elaborado pelo Autor com base emIudícibus e Marion (2006, p. 97)
O CFC trazia 07 (sete) Princípios Contábeis apresentados de forma não hierarquizada, como mostra a Figura 2.
Figura 2 – Princípios Contábeis Resolução CFC 750/93
Fonte: Niyama e Silva (2008, p. 38)
A Resolução CFC 1.282/10 revogou o Princípio da Atualização Monetária. Desta maneira, os outros seis princípios permanecem em vigor.
Para Pena (2008) e segundo o CFC:
Os Princípios Fundamentais de Contabilidade se apresentavam de forma não hierarquizada, pois cientificamente se considerava que os princípios são elementos predominantes na constituição do corpo orgânico, considerados axiomas, premissas universais e verdadeiras, não cabendo hierarquização entre eles, pois todos têm o mesmo grau de importância. Já a CVM admitia a hierarquização dos Princípios, entendendo-a como necessária para que se entenda a relação que existe entre vários conceitos, não considerando que este ou aquele seja mais importante, estabelecendo a observância de todos os conceitos apresentados, sob a pena de prejudicar a estrutura contábil adequada. (PENA, 2008, p.173).
De acordo com a FIPECAPI (2010, p.31):
Com o advento da Lei n°. 11.638/07 e a decisão pela convergência da Contabilidade Brasileira às Normas Internacionais de Contabilidade emitidas pelo IASB, o CPC adotou integralmente o documento daquele órgão denominado Framework for the
Preparation and Presentation of Financial Statements e emitiu seu
Pronunciamento Conceitual Básico – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis (informalmente denominado, às vezes, de CPC ‘00’), aprovado pela Deliberação CVM n° 539/08 e pela Resolução CFC n° 1 .121/08 para adoção pelas Companhias Abertas. Este Pronunciamento tem como objetivo servir como fonte dos conceitos básicos e fundamentais a serem utilizados na elaboração e na interpretação dos Pronunciamentos Técnicos e na preparação e utilização das Demonstrações Contábeis dos mais variado tipos de entidades contábeis. Faz abordagem dos principais conceitos contábeis, entre eles, o que chamamos de princípios.
O que este documento contém, basicamente estava de alguma forma, contido nos dois conjuntos de documentos conceituais brasileiros atrás referidos, mas apresenta o que aqueles não tinham: as definições dos principais elementos contábeis: ativo, passivo, receita e despesa. Um documento como esse tem a característica de não significar uma norma, uma regra, mas sim um conjunto básico de princípios a serem seguidos na elaboração dos pronunciamentos e das Normas propriamente ditas, bem como na sua aplicação; consequentemente, também, na análise e na interpretação das informações contábeis. É fundamental conhecer e entender essa estrutura conceitual, porque dela derivam todos os procedimentos e sobre ela se assenta toda a elaboração das demonstrações contábeis. (FIPECAFI, 2010, p. 31).
Marion (2009, p. 163) complementa:
Em termos de princípios, não havia unicidade no Brasil, havendo algumas divergências entre aqueles emanados da CVM / IBRACON e os estabelecidos pelo Conselho Federal de Contabilidade. Não há dúvida que com o pronunciamento do CPC e a Deliberação CVM n.º 539/08 chegamos a um sistema único, quem sabe parecido com um Código Brasileiro de Contabilidade.
No lugar de princípios, postulados e convenções, a estrutura do CPC e da CVM, aprovado pela Resolução 539/08 apresentava:
- Os pressupostos básicos: Regime de Competência e Continuidade.
- 04 (quatro) características qualitativas, que são atributos que fazem com que a contabilidade seja útil para o usuário: Compreensibilidade, Relevância (sendo a materialidade como fator primordial para observância desta característica), Confiabilidade (devendo ser observado a Representação Adequada, Primazia da Essência sobre a Forma, Neutralidade, Prudência e Integridade, na característica qualitativa da confiabilidade) e Comparabilidade.
Todos são mostrados no Quadro 2 que segue. Regime de Competência Continuidade Compreensibilidade Relevância/Materialidade Confiabilidade Representação adequada
Primazia da essência sobre a forma Neutralidade Prudência Integridade Comparabilidade Pressupostos Básicos Características Qualitativas das Demonstrações Contábeis
Quadro 2 – Pressupostos Básicos e Características Qualitativas das Demonstrações Contábeis constantes no Pronunciamento Conceitual Básico do CPC, Deliberação
CVM 539/08
Fonte: Silva (2010, p. 23)
O International Accounting Standards Board (IASB) está em pleno processo
de atualização de sua Estrutura Conceitual. O projeto dessa Estrutura Conceitual está sendo conduzido em fases, segundo o CPC 00 R1.
À medida que um capítulo é finalizado, itens da Estrutura Conceitual para Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis, que foi emitida em 1989, vão sendo substituídos. Quando o projeto da Estrutura Conceitual for finalizado, o IASB terá um único documento, completo e abrangente, denominado ‘Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro’ (The
Conceptua Framework for Financial Reporting). (CPC 00 R1).
A Deliberação CVM n.º 675/2011, publicada no Diário Oficial da União do dia 15/12/2011, revogou a Deliberação CVM 539/08 e aprovou o PRONUNCIAMENTO CONCEITUAL BÁSICO (R1) – Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro, elaborado a partir do The Conceptual Framework
for Financial Reporting (BV2011), emitido pelo International Accounting Standards
Board (IASB).
No Capítulo 3 da nova Estrutura Conceitual para Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis, é definido que apenas duas são as Características
Qualitativas Fundamentais das Demonstrações Contábeis e que obrigatoriamente devem ser sempre observadas: relevância e representação fidedigna. As demais são Características Qualitativas de Melhoria da Qualidade das Demonstrações Contábeis: comparabilidade, verificabilidade, tempestividade e compreensibilidade, menos críticas, mas ainda assim altamente desejáveis.
Essas características qualitativas de melhoria podem também auxiliar na determinação de qual de duas alternativas que sejam consideradas equivalentes em termos de relevância e fidedignidade de representação deve ser usada para retratar um fenômeno. (CPC 00 R1, QC19).
O Quadro 3 apresenta as Características Qualitativas.
Relevância Representação Fidedigna Comparabilidade Verificabilidade Tempestividade Compreensibilidade Características Qualitativas Fundamentais Características Qualitativas de Melhoria da Qualidade
Quadro 3 – Características Qualitativas da Informação Contábil-Financeira Útil, Deliberação CVM 675/11
Fonte: Elaborado pelo Autor com base em Silva (2010, p. 23)
Cabe ressaltar que os dois Pressupostos Básicos (competência e continuidade) constantes na versão anterior do Pronunciamento Conceitual Básico tiveram seu destaque eliminado dentro da nova estrutura introduzida pelo atual Pronunciamento Conceitual Básico (R1), entretanto, continuam presentes na versão atual em seu Capitulo 4, o qual traz o texto que ainda remanesce em relação à versão anterior, conforme segue:
a) Competência (seções 22, e 92 a 98 da versão anterior): tratado nas seções 4.47 a 4.53, as quais abordam questões relacionadas ao reconhecimento de receitas e despesas.
b) Continuidade (seção 23 da versão anterior): tratado na seção 4.1 como premissa subjacente.
A Resolução CFC 1255/09 que aprovou a Norma Brasileira de Contabilidade - NBCTG1000 – Contabilidade para Pequenas e Médias Empresas, considerada como uma complementação do processo de convergência às Normas Internacionais, e que está em concordância com a estrutura conceitual do CPC, também não apresenta os Princípios Contábeis e aborda os conceitos e princípios como sendo todos os tópicos que são tratados como conceituais, que dizem respeito a seção 2 desta Resolução.
Assim, a palavra “princípio” é vista sob outra perspectiva e toda a parte estrutural da Resolução são Conceitos e Princípios Gerais.