B. Domicile of Retail Equity Investors
IV. STRUCTURED PRODUCTS
Conforme vimos, é na vida cotidiana que os indivíduos e grupos vivem, se articulam, se relacionam, constituem unidades e pluralidades, exteriorizam suas paixões, gostos, pendores, necessidades, enfim, é o mundo da vida.
Segundo Heller, a vida cotidiana é a vida de todos nós. Todos, sem exceção, independente de qualquer coisa ou situação estamos inseridos num determinado contexto social: “[...] ninguém consegue identificar-se com sua atividade humano- genérica a ponto de poder desligar-se inteiramente da cotidianidade”186.
A vida cotidiana é o palco onde todas as atividades através das quais homens e mulheres reproduzem a si mesmo para poderem produzir e reproduzir a sociedade: “[...] as relações da vida cotidiana, na moderna sociedade burguesa, perderam cada vez mais sua autenticidade”187.
Essa inserção não só estabelece uma relação individual e grupal, como também contribui para a construção do humano-genérico e de suas particularidades.
184 Para maiores detalhes, ver: LEFEBVRE, Henri. A vida cotidiana no mundo moderno. Trad. Alcides João de Barros. São Paulo: Ática, 1991.
185 Para maiores detalhes, ver: MARTINS, José de Souza. Sociabilidade do homem simples. 2ª Ed.. São Paulo: Contexto, 2008.
186
HELLER, 2004, p.17. 187
O conceito de particularidade-totalidade significa a síntese entre o particular (ou parte integrante do mundo) e a totalidade social (a vida cotidiana), conforme já apontamos.
Heller (1977; 2004) aponta que a vida cotidiana não representa em si mesma um valor autônomo, pois, a cotidianidade só tem sentido porque é constituída e construída pelos sentidos e aspectos mais diversos dos indivíduos particulares e singulares e, por isso, é heterogênea.
Mas é na vida cotidiana que homens e mulheres desempenham e exteriorizam com vigor todos os sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, habilidades manipulativas, sentimentos, paixões, ideais, ideologias, crenças etc. Nela, homens e mulheres expressam seu modo de ser, sentir, agir, relacionar, pensar, ou seja, vivem-na “por inteiro” e é nela, também, que o mundo, a sociedade e os grupos se constituem e são constituídos.
A vida cotidiana ocupa todas as capacidades/potencialidades do ser social, porém, nem sempre ao mesmo tempo ou a todo o momento. Desde os sentidos mais primários até os superiores (a visão, a audição, o paladar, o olfato, o tato, as habilidades físicas, o espírito de observação, a memória, a sagacidade, a capacidade de reação etc.). Estes, por sua vez, operam nos afetos mais diversos (amor, ódio, desprezo, compaixão, participação, simpatia, repugnância, veneração etc.).
Heller (1977) exemplifica isso no processo de trabalho: dependendo do lugar ocupado na divisão sócio-técnica do trabalho, alguns sentidos serão mais ativados, enquanto outros poderão afloram em menor intensidade (por ex.: num trabalho mais embrutecido, mais rude, a força física tende a aflorar com maior vigor, enquanto que num trabalho mais intelectualizado, o intelecto, a capacidade de abstração é que afloram com maior intensidade), isso não quer dizer que num e noutro processo alguma das capacidades sejam atrofiadas ou subsumidas.
Mas o ritmo e o resultado podem alterar-se conforme a relação íntima que se estabelece com aquilo que se faz. Esta relação, por exemplo, pode estar carregada de ódio, implicando, assim, num determinado resultado e numa determinada relação e reação.
Vamos dar um exemplo mais concreto para melhor explicitar esta relação: numa sociedade escravista, a relação com o trabalho por daqueles que estão
privados de liberdade é diferente daqueles que o fazem livres e conscientes de sua condição essencialmente humana e genérica.
Para o/a escravo/a, o trabalho pode aparecer na forma de castigo, de peso, de opressão, de dominação, enfim, no sentido negativo da ação; para aqueles que se encontram livres de qualquer determinação, o trabalho poderá aparecer com algo prazeroso e carregado de significados.
O trabalho em si não é a causa desse ou daquele sentimento ou situação. O processo de trabalho não impede qualquer sentimento de ódio, vingança, amor, prazer etc., mas as determinações e as condições em que esse ocorre podem alterar a aparência e a essência de um mesmo processo, tanto para o lado positivo como para a sua negatividade.
Diferentemente das necessidades necessárias – ou situações obrigatórias -, Heller aponta que na arte (e também no conhecimento) todos os sentidos e sentimentos estão aflorados (tanto os físicos como os subjetivos). Isso é facilmente observado, por exemplo, quando se executa uma peça musical ou teatral. Sua expressão contém todos os elementos mais prementes da esfera individual do compositor/ar, do ator ou da atriz, assim como os elementos constitutivos do cotidiano. Todo o conjunto põe em relevo uma antítese (os afetos, gostos, desejos, motivação, circunstâncias, historicidade etc.).
Para melhor exemplificar, apresentaremos uma análise de uma das sonatas mais tradicional composta pelo compositor vienense Ludwig Von Beethoven - a op. 27, nº 02 – conhecida popularmente como Sonata ao Lua.
A forma sonata é uma peça instrumental composta em três movimentos188 distintos entre si, mas que contém o mesmo tema: o 1º movimento contém a exposição do tema; o 2º movimento exprime um contraste – uma tensão - estabelecendo, assim, uma ponte para um novo movimento; e finalmente o 3º movimento, que geralmente explode numa evolução do tema (o resultado).
Beethoven compôs a Sonata ao Luar em 1801, logo, aos 31 anos de idade, portanto, num momento em que sua maturidade já podia demonstrar a sua consciente paixão pela música, suas impressões amorosas com Juliette Guicciardi e Thérèse Bruswick, a ingratidão do seu amado sobrinho e o drama de sua surdez.
Esta sonata foi composta para piano e dedicada ao seu primeiro amor, a Condessa Juliette Guicciardi. Podemos observar duas impressões totalmente
188
distintas e co-relacionadas: as impressões do despertar do primeiro amor e o drama de sua surdez, ambas, concepções carregadas de elementos cotidianos.
Além disso, não podemos descartar os fatores históricos e sociais daquela época e o momento presente da composição. Porém, aqui vamos nos ater aos elementos relacionados às nossas análises: cotidiano e não-cotidiano.
A sonata refere-se ao reflexo da lua sobre as águas, daí o seu nome. O 1º movimento inicia-se por um andamento vagaroso, calmo, repetitivo, quase sonolento - um Adágio e Sustenuto189. Técnica e estilo se complementam. Este movimento
refere-se ao reflexo da lua sobre as leves ondulações das águas, compondo um cenário bucólico e reproduzindo nas notas musicais um “estado de espírito” em que a vida aparece como um leve reflexo e que, às vezes, é agredida por pequenas brisas (o peso dos acontecimentos e das emoções) – o despertar para o amor no caso em questão.
Esse movimento representa a juventude de Beethoven, como também, as emoções do primeiro amor, à leveza da vida, o desabrochar de sua genialidade – sua adolescência. Já no 2º movimento, um alegre (Allegretto) brincar (Scherzando) sobre as notas, constitui um intermédio, um interlúdio, d’onde Beethoven brinca com a vida e os sentimentos; um ar de mistério esconde as experiências do primeiro amor que explodem em sentimentos próprios da adolescência, como também, expõe as primeiras impressões sobre sua surdez.
O 3º movimento é constituído de uma rápida (Presto) furiosa tempestade sobre as águas, não escondendo sua harmoniosa essência. É o momento da agitação, da fúria dos ventos, como também do amor, embalado pelo desespero acarretado pelo descobrimento de sua surdez.
Estes três movimentos trazem em si toda subjetividade, sentimentos, paixões, impressões, emoções, enfim, o “por inteiro” numa única justaposição. Os elementos mais comuns do cotidiano aí estão expressos de maneira “sublime” e de uma genialidade essencialmente humana.
Obra e compositor se identificam. O compositor se vê na obra e a obra contém os traços mais singulares e particulares do compositor, mas a obra não é o compositor, nem tão pouco, parte do compositor. A obra expressa a síntese entre o
189 Sustenuto refere-se ao sustenido – acidente ascendente que faz subir meio tom uma determinada nota musical, normalmente exprime um som nasal.
singular, o particular e o universal da genericidade humana, conforme já introduzimos ao descrever o mito de Pigmalião e Galatéia190.
O cotidiano compõe o não-cotidiano e este, retorna ao próprio cotidiano. Esta suspensão momentânea (momento da criação e elevação da cotidianidade), não representa a anulação do cotidiano, assim como a cotidianidade não nega a não- cotidianidade. Em momento algum acontece à negação total do cotidiano, por isso, o não-cotidiano não exprime o contrário do cotidiano: “[...] a diferenciação entre cotidiano e não-cotidiano em absoluto é um fenômeno de alienação por principio, mas sim um único produto da específica dialética entre reprodução social e individual”191.
O cotidiano não é por si só alienado, mas pode expressar o fenômeno da alienação, conforme já expusemos. Isto se dá quando o cotidiano aliena-se (estranha-se) dos componentes essencialmente humanos. Quando as relações, tanto íntimas como coletivas, se estabelecem estranhas em sua natureza, dando lugar a coisificação/reificação da vida social.
Esta suspensão da cotidianidade é que exprime a não-cotidianidade. Ambas são dois estados distintos da mesma expressão. O grau de utilização e de
intensidade na vida cotidiana, expressa-se de diferentes formas: todos devem
aprender como comer, beber, vestir, ou seja, manipular as coisas simples e próprias da vida diária, porém, nem todos podem ter a mesma destreza de um/a cozinheiro/a, costureiro/a, arquiteto/a etc.
[...] Se dizemos que na vida cotidiana operam os sentidos e todas as capacidades, dizemos ao mesmo tempo, que seu grau de utilização, ou seja, sua intensidade fica muito por baixo do nível necessário para as atividades orientadas acima das objetivações genéricas e superiores (HELLER, 1977, p. 94)192.
Por outro lado, as atividades e habilidades direcionam-se na vida cotidiana em múltiplas dimensões e com a mesma intensidade. As atividades genéricas exigem habilidades e intencionalidades ainda maiores, um conhecimento da natureza orgânica de si mesmo e do mundo que o cerca. Também o particular pode se encontrar num nível superior em sua reprodução.
190
Ver nota nº. 54. 191
HELLER, 1977, p. 101. Grifos da autora. 192
Nessa direção, se coletivamente os sujeitos particulares e singulares estão insatisfeitos com alguma coisa, situação ou época e se juntam num mesmo objetivo, ideal, num mesmo compromisso e interesses ou por necessidades, constituem-se o sujeito coletivo revolucionário e, por conseguinte, caminha de forma organizada na direção de projetos coletivos, rumo à determinada ação revolucionária.
Assim, a união dos sujeitos sociais em torno de projetos sociais coletivos resulta, em grande medida, em melhores e significativas possibilidades de revolução193: “[...] as mudanças não derivam de uma pessoa particular, mas sim de uma simultânea pluralidade de particulares”194.
O entendimento desse dinamismo da vida, dos processos de mudança, individual e coletivo - de sua historicidade -, propiciam elementos avaliativos e propositivos para projeções e ações verdadeiramente revolucionárias.
Os desejos e as necessidades - numa determinada escala valorativa - podem ou não se distinguirem daqueles verdadeiramente humanos: “[...] cada afeto é medido pelo seu conteúdo de valor”195.
A valoração da essência humana requer, diante dos diferentes estímulos da cotidianidade, sentimentos e atitudes que valorem o trabalho, a sociabilidades, a universalidade, as capacidades criativas e proativas do ser social, teleologia, as possibilidades de mediação numa determinada direção, a consciência, a liberdade, a linguagem, enfim, os elementos essencialmente humanos.
Depende de uma atitude – um modo de ser, pensar e agir – diferente daqueles estimulados pela heterogeneidade da vida cotidiana: “[...] a heterogeneidade das formas de atividade não se evidenciam só porque estas são de espécie diferentes, mas também, porque tem distinta importância e, desde logo, não em último lugar, porque mudam de importância segundo o ângulo visual em que as considera”196.
Os aspectos da vida cotidiana são muito diversos e tem relação direta com o tempo histórico e o lugar ocupado na estratificação social. A vida cotidiana é, em seu conjunto, um ato de objetivações, sendo, portanto, a “[...] base do processo histórico universal”197.
193
Alteração do status quo das coisas e/ou situações. 194 HELLER, 1977, p. 97. 195 HELLER, 1977, p. 95. 196 HELLER, 1977, p. 95-96. 197 HELLER, 1977, p. 96.
Por conseguinte, pode apresentar-se em duplo sentido: por um lado, como processo de continua exteriorização do sujeito singular e particular; por outro, é também o perene processo de reprodução do particular.
[...] Se estas objetivações são sempre do mesmo nível, se “se repetem”, o particular também se reproduz sempre do mesmo nível, pelo contrário, quando as objetivações são de um novo tipo, contém o novo, hão alcançado um nível superior, também o particular se encontra num nível superior em sua reprodução. Se as objetivações são incoerentes, se falta nelas um principio ordenador unitário, se representam só “adaptações”, interiorizações, o particular se reproduz ao nível da particularidade; se as objetivações são sintetizadas, se levam a presença da personalidade, a objetivação da vida cotidiana – no plano do sujeito – é o indivíduo. O objetivar-se como
exteriorização contínua e de personalidade como objetivação são, por conseguinte, processo que se requerem mutuamente, que se interatuam reciprocamente, são dois resultados de um único processo (HELLER, 1977,
p. 97)198.
Acreditamos que Heller não estimula para uma consciência altamente privada (egoísta) e individualista, mas sim para uma consciência individual (de-si-mesmo,
em-si-mesmo, para-si-mesmo) e, ao mesmo tempo, coletiva (para-nós):
[...] a vida puramente privada é tão alienada (ainda de forma distinta) como a vida pública desligada dela. [...] A diferenciação do cotidiano e do não- cotidiano não constitui em absoluto um fenômeno de alienação por principio, mas sim um produto da específica dialética entre reprodução social e individual (HELLER, 1977, 101).
Quando nos reportamos às condições de suspensão da cotidianidade, ou melhor dizendo, as condições da não-cotidianidade (a arte, o conhecimento e a filosofia), não apontamos para que todos fossem artistas, cientistas ou filósofos. Ninguém precisa ser um exímio pianista, por exemplo, para saber tocar piano, ou até mesmo ter um determinado conhecimento musical. Ninguém precisa se tornar um filósofo, um artista ou um cientista para chegar ao estado de suspensão da cotidianidade: “[...] não existe nunca um mundo em que cada um possa ser cientista, nem possa liquidar sua própria vida cotidiana”199.
Quanto mais genéricas e conscientes forem as aspirações e objetivações do ser social na e para a vida cotidiana, quanto mais consciência do valor da essência humana e de comunidade, maior é o grau de genericidade, por conseguinte, maior
198 Grifos da autora. 199
será o campo das objetivações genericamente individuais e comunitárias - maior serão as possibilidades de suspensão da cotidianidade (da não-cotidianidade).
E ainda, quanto mais se agrupam os sujeitos individuais e coletivos revolucionários, maior as possibilidades de mudança, de libertação, de liberdade; o contrário, constitui-se o “reino da barbárie”.
Tendo em vista a importância da categoria valor enquanto categoria ontológica do ser social, é relevante analisar a maneira como esta é concebida e se expressa no pensamento helleriano.