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Strateji Geliştirme Daire Başkan V. ( Hakan BÜTÜN )

A tese está organizada em seis capítulos. Em todos eles está presente uma pequena introdução, que visa poupar o leitor de uma apresentação mais minuciosa de todos os capítulos desta tese. Logo, o segundo capítulo traça uma genealogia da ideia de desenvolvimento como redenção e desenvolvimento como ameaça que remete aos conceitos e às ideologias de desenvolvimento como crescimento econômico e progresso, que, por sua vez, associam-se aos discursos da

modernidade, que têm na geração de energia um dos seus pilares. Estabelecem-se as críticas a essa associação direta entre desenvolvimento e crescimento, aventando outros conceitos alternativos como etnodesenvolvimento.

O terceiro capítulo aborda os modos de contestação e de luta de lideranças e moradores de Riacho das Pedras e Morrinhos opositores ao PSQ, que é tratado como uma ameaça posto que representa riscos à saúde, ao seu modo de vida e às conquistas mais recentes das comunidades, como o acesso à água e a posse da terra. Com a mobilização da Articulação Antinuclear do Ceará em resistência ao PSQ, eles passaram a perceber as posições oficiais que defendem a promoção do desenvolvimento que chegará com a operação da mina, como forasteiro, que possui seus riscos.

O quarto capítulo trata da compreensão dos discursos e dos modos de legitimação do PSQ de mineração de urânio e fosfato, o qual remete ao desenvolvimento como redenção do semiárido, que são acionados tanto pelos representantes do Consórcio quanto pelos seus apoiadores (políticos e gestores).

Os argumentos de legitimação são formados pelo discurso político e econômico da abundância dos bens naturais, e o discurso ambiental que afirma a sustentabilidade do Projeto Santa Quitéria, formados na estrutura burocrática-racional da estrutura governamental. Assim, não poderia deixar de tratar, a partir de dados secundários, sobre o interesse político do estado brasileiro no urânio de Itataia. Principalmente a justificativa em diversificar a matriz energética mediante a geração de energia nuclear, que é gestada nos governos militares e chega até o posicionamento dos presidentes eleitos democraticamente.

Para esse objetivo, foram utilizados livros, teses e dissertações que abordam a história do Programa Nuclear brasileiro e suas contradições políticas e econômicas. Refiro-me a Cornwall (2013), Veiga (2011), Santos (2009), Andrade (2006), Archer (2004) e Waldman (1992), principalmente no capítulo intitulado Questão nuclear e lutas antinucleares no Brasil, Oliveira (1989), Girotti (1984), Simon et al. (1981) e Biase (1979). Também utilizei o Plano Nacional de Desenvolvimento – PND II (1975-1979), tabelas e dados sobre energia nuclear e reservas de urânio no Brasil e no mundo disponíveis nas páginas oficiais das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), Relatórios da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) também disponíveis em sua página virtual, o Plano Nacional de Energia (PNE-2030), Plano

Nacional de Mineração (PNM-2030) e a Matriz Energética Nacional 2030, todos disponíveis online.

Afirma-se, antecipadamente, que a trajetória do programa nuclear brasileiro discutida aqui nesta tese não é um pano de fundo histórico luxuoso. Discorrer sobre esse programa é encontrar elementos que expliquem o presente sem, no entanto, conformá-lo em uma linha cronologicamente linear. A mineração de urânio em Itataia é o ponto clímax de um programa que apresentou, ao longo das últimas décadas, altos e baixos, controvérsias, e acompanhou as vicissitudes de um cenário contemporâneo em que o debate nuclear esteve sempre presente, configurando-se em um espectro que atemorizou todos no século XX e não parece deixar de fazê-lo nesse século XXI.

O quinto capítulo aborda as visibilidades dos discursos do desenvolvimento como redenção e ameaça, analisando suas ritualidades através de audiências públicas que debateram o Projeto Santa Quitéria de mineração de urânio e fosfato. Meu objetivo é confrontar os discursos e os atores situados na estrutura social, problematizando o dito e não dito. Para tanto, recrio especificamente o cenário de uma audiência pública, realizada pela Câmara Municipal de Santa Quitéria em parceria com a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, em 2014, mas recorro aos discursos, às posturas, e ações observados por mim em outras audiências públicas, especificamente às referidas ao processo de licenciamento ambiental ocorrido em novembro de 2015. Recorro também às atas disponíveis e disponibilizadas dessas audiências públicas. Finalmente, o sexto e último capítulo estabelece uma crítica da ideologia da redenção econômica e social do semiárido cearense pelo PGE Santa Quitéria.

Tive acesso aos relatórios das visitas empreendidas pelos técnicos da Secretaria do Meio Ambiente de Santa Quitéria à região da mina de Itataia e à cidade de Caetité, no estado da Bahia, onde se localiza outra unidade mineradora de urânio da INB. Esses relatórios são importantes para o pesquisador porque além de descrever os percursos da visita, eles trazem as percepções dos técnicos e revelam as estratégias de convencimento que são utilizadas pelo Consórcio quando das visitas organizadas por ele, com um roteiro pré-estabelecido. Conversas informais foram-me úteis para acessar as ações planejadas pela gestão municipal visando medidas que conciliem as vantagens econômicas do Projeto com contrapartidas sustentáveis por parte do Consórcio.

As matérias veiculadas nos meios de comunicação local, como os jornais O Povo e Diário do Nordeste, na imprensa nacional e na internet também serviram para identificar o posicionamento dos representantes do poder local que são favoráveis ao empreendimento e exercem um forte lobby para sua execução. Os blogs e canais de comunicação dos municípios de Santa Quitéria e Itatira foram úteis para

saber o “que é notícia” e acompanhar os eventos que dinamizam o cenário político

local.

O EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental) foi lido cotejando-o com as leituras e os posicionamentos dos grupos envolvidos na questão da mineração diante do que ele traz dos interesses políticos e econômicos respaldados no discurso da competência técnica-científica, quando de sua apresentação nas audiências públicas ocorridas em novembro de 2014.

No caso em tela, o EIA/RIMA fora aceito pelo Ibama em fevereiro de 2015. É o documento principal com o qual a prefeitura de Santa Quitéria, a AACE e a população contam nesse momento para balizar as ações do Consórcio Santa Quitéria. O EIA/RIMA figura, prontamente, um documento de esclarecimento de como funcionará a mina – mesmo que a linguagem técnica utilizada contribua mais para obstar do que favorecer a formação de um cenário de discussão pública – e apresenta as propostas de compensação aos impactos gerados pelo empreendimento. Ele é apresentado pelo empreendedor em uma audiência pública exigida para a emissão da Licença Prévia (LP), que compõe um dos requisitos administrativos do processo de licenciamento ambiental, que conta ainda com Licença de Instalação (LI) e Licença de Operação (LO).

Bourdieu (2013, p. 95-102) afirma que a competência do médico ou do jurista é uma competência técnica instituída e garantida juridicamente, que lhe dá autoridade para se servir de saberes científicos que estão subordinados a um poder social que organiza o campo no qual são construídos e reproduzidos. O saber médico que diagnostica a partir de indícios corporais e verbais fornecidos pelo paciente é construído por uma relação social assimétrica em que é feita uma tradução dos relatos daquele nos termos que institui o campo médico, relativamente autônomo.

Muito próximo ao mecanismo que institui essa competência é acionado por pesquisadores (físicos, geógrafos, biólogos, antropólogos, engenheiros, arquitetos, geólogos, entre outros profissionais) que ocupam um lugar na burocracia técnica e especializada responsável por encaminhar o processo de licenciamento ambiental e

avaliar os estudos de impacto ambiental, autorizados a fazer medição, testes e catalogações. Investidos de competência, os técnicos e especialistas contratados dão pareceres, constroem relatórios e estudos que estão investidos de legitimidade para produzir e impor uma leitura do mundo social.

Na construção do EIA/RIMA não se vê apenas o atendimento legal ao que foi estabelecido pelo termo de referência ou o imperativo institucional que cobra do empreendedor a apresentação de um estudo detalhado e interessado dos impactos ambientais que trará a mineração de urânio. Ao lê-lo como um texto, descortina-se a própria realidade descrita com interesses subjacentes, ganhando contornos geográficos (tipo de solo e de clima, qualidade da água e do ar, a fauna e a flora), sociais (uso e ocupação do solo, os usos da água) e econômicos (as relações de convivência e dependência entre as comunidades locais e os recursos ambientais disponíveis). Tudo isso obedecendo aos supostos critérios objetivos das normas judiciais (a legislação da Política Nacional do Meio Ambiente – PNMA), conforme o detalhamento de como serão feitas as apropriações e modificações da realidade em questão pelo PSQ.

2 PERCURSOS E DISCURSOS DO DESENVOLVIMENTO

[...] o conceito de desenvolvimento pode ser abordado a partir de três critérios, que se relacionam de forma complexa: o do incremento da eficiência do sistema produtivo; o da satisfação das necessidades básicas da população; e o da consecução de objetivos que se propõem distintos grupos de uma sociedade e que competem na utilização de recursos escassos. O terceiro critério é certamente o mais difícil de precisar, pois o que é bem-estar para um grupo social pode parecer simples desperdício de recursos para outro. Esta razão pela qual a concepção de desenvolvimento de uma sociedade não é independente de sua estrutura social, e tampouco a formulação de uma política de desenvolvimento é concebível sem a tutela de um sistema de poder. (FURTADO, 2013, p. 211).

Benzer Belgeler