Tanto as declarações internacionais como as nacionais são referências para o desenvolvimento de políticas de inclusão para alunos com necessidades especiais, anunciando uma educação para todos, independentemente das condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras que a clientela apresente. Isso significa considerar todos aqueles que estão tendo acesso à escola, ou se encontram fora dela por não terem conseguido permanecer, justamente em razão das diferenças que apresentam.
O direito de cada criança à educação foi proclamado na Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, sendo vigorosamente reafirmado na Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada em Jomtiem, na Tailândia, em 1990. A Declaração Mundial sobre Educação para Todos, publicada pela UNICEF, representa o consenso mundial sobre o papel da educação fundamental, bem como o compromisso em garantir o atendimento às necessidades básicas de aprendizagem de todas as crianças, jovens e adultos. Nessa mesma linha, a Declaração de Salamanca, de 1994, traduz o resultado da Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais quando, sob o patrocínio da UNESCO e
do governo da Espanha, adotou-se o princípio orientador de que todas as escolas18
devem acomodar todas as crianças, independente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras.
No documento (BRASIL, 1997), a Educação Inclusiva é o modo mais eficaz para construir a solidariedade entre crianças com necessidades educacionais especiais e seus colegas. O encaminhamento às escolas especiais, às classes especiais ou, ainda, às sessões especiais, dentro da escola e em caráter permanente, deveria constituir exceção, a ser recomendada somente em casos pouco frequentes em que fique claramente demonstrado que a educação na classe regular será: a) incapaz de atender às necessidades educacionais ou sociais da criança; b) a melhor alternativa para o bem-estar da criança ou de outras crianças.
18 Deveriam incluir crianças com deficiências e superdotadas, crianças de rua, as que
trabalham, as de origem remota ou de população nômade, bem como crianças pertencentes a minorias linguísticas, étnicas ou culturais, além daquelas vinculadas a outros grupos em desvantagem ou marginalizados.
O termo “necessidades educacionais especiais” é definido na Declaração de Salamanca (BRASIL, 1997, p.3) como adequado para se referir “[...] a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades se originam em função de deficiências ou dificuldades de aprendizagem”. Na Declaração de Salamanca, o desafio está no desenvolvimento de uma pedagogia centrada na criança, capaz de, sem exceções, educá-las bem, inclusive aquelas que possuem desvantagens severas. O currículo deve ser adaptado às necessidades das crianças e não vice-versa, cabendo às escolas prover oportunidades curriculares apropriadas aos alunos com habilidades e interesses diferentes.
No Brasil, a Constituição de 1988 elegeu como fundamentos da República a cidadania e a dignidade da pessoa humana, garantindo, no Art. 5, o direito à igualdade e, nos artigos 205 e seguintes, o direito de todos à educação, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Ainda de acordo com a carta Magna de 1988, garante- se a todos o direito à educação e ao acesso à escola, não sendo possível excluir nenhuma criança em razão de sua origem, raça, sexo, cor, idade, deficiência ou ausência dela.
A Convenção de Guatemala, da qual o Brasil é signatário, foi aprovada pelo
Congresso Nacional por meio do Decreto 3.956/200119. Ela exigiu uma
reinterpretação da Lei de Diretrizes de Educação Nacional -LDBEN, Lei n°. 9394/96 nos artigos que estavam em desconformidade com a Constituição20, deixando clara a impossibilidade de tratamento desigual com base na deficiência e definindo como discriminação toda diferenciação, exclusão ou restrição nela baseada. O direito de acesso ao Ensino Fundamental é, portanto, um direito inalienável, o que justifica o acesso de pessoas com deficiência, em idade adequada para frequentá-lo. Ninguém pode, dessa forma, ser privado dele, sob pena de cometer crime previsto na Lei no. 7.853/89, art. 821.
19A Convenção de Guatemala tem o mesmo valor de uma lei ordinária para o Brasil.
20 Art.58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais. A crítica se refere ao termo “preferencialmente” usado nesse artigo, o que dá margem para a discriminação ao abrir possibilidade para que nem todas as crianças sejam matriculadas no Ensino Regular.
21 Aprovada em 24 de junho de outubro de 1989. No art. 8 constitui crime punível com reclusão de um a quatro anos e multa para quem: (Inc. I) recusar, suspender, procrastinar,
O Plano Nacional de Educação (PNE), instituído pela Lei no. 10.172/01 tem os
seguintes objetivos gerais para a educação brasileira: a) a elevação global do nível de escolaridade da população; b) a melhoria da qualidade do ensino em todos os níveis; c) a redução das desigualdades sociais e regionais quanto ao acesso, à permanência e ao sucesso escolar; d) a democratização da gestão do ensino público. As diretrizes do PNE indicam claramente a necessidade de políticas educacionais destinadas à regularização do fluxo escolar, à correção da distorção idade-série em classes de aceleração e à ampliação da jornada escolar para turno integral. Elas mencionam, ainda, a importância de levar adiante melhorias na infraestrutura das escolas, incluindo-se, nesse eixo, a acessibilidade de educandos com necessidades especiais, a conectividade com as redes virtuais de informática e de telecomunicações e a adequação dos espaços escolares ao desenvolvimento de atividades culturais, artísticas, desportivas e recreativas. Destaca-se, também, alguns objetivos e metas do PNE (BRASIL, 2000) para o ensino de crianças com deficiência:
Meta 5. Generalizar, em dez anos, o atendimento dos alunos com necessidades especiais na educação infantil e no ensino fundamental, inclusive através de consórcios entre municípios, quando necessário, provendo-se, nestes casos, o transporte escolar. [...]
Meta 10. Estabelecer programas para equipar, em cinco anos, as escolas de educação básica e, em dez anos, as de educação superior que atendam educandos surdos e os de visão subnormal, com aparelhos de amplificação sonora e outros equipamentos que facilitem a aprendizagem, atendendo-se, prioritariamente, as classes especiais e salas de recursos.
Meta 11. Implantar, em cinco anos, e generalizar em dez anos, o ensino da Língua Brasileira de Sinais para os alunos surdos e, sempre que possível, para seus familiares e para o pessoal da unidade escolar, mediante um programa de formação de monitores, em parceria com organizações não governamentais.
Meta 12. Em coerência com as metas nº 2, 3 e 4 da educação infantil e com as metas nº 4.d, 5 e 6, do ensino fundamental:
cancelar ou fazer cessar, sem justa causa, a inscrição de aluno em estabelecimento de ensino de qualquer curso ou grau, público ou privado, por motivos derivados da deficiência que porta. Disponível em: <http://www.trt02.gov.br/geral/tribunal2/Legis/Leis/7853_89.html>. Acesso em: 10 maio 2008.
a) estabelecer, no primeiro ano de vigência deste plano, os padrões mínimos de infra-estrutura das escolas para o recebimento dos alunos especiais;
b) a partir da vigência dos novos padrões, somente autorizar a construção de prédios escolares, públicos ou privados, em conformidade aos já definidos requisitos de infra-estrutura para atendimento dos alunos especiais;
c) adaptar, em cinco anos, os prédios escolares existentes, segundo aqueles padrões.
[...]
Meta 14. Ampliar o fornecimento e uso de equipamentos de informática como apoio à aprendizagem do educando com necessidades especiais, inclusive através de parceria com organizações da sociedade civil voltadas para esse tipo de atendimento.
O documento do Ministério Público Federal – O Acesso de Alunos com Deficiência às Escolas e Classes Comuns da Rede Regular (BRASIL, 2004, p. 42) - reforça os pressupostos da inclusão total, apresentando orientações para o ensino de crianças com e sem deficiências:
atendimento no contraturno do horário, de modo que o aluno matriculado no ensino comum possa frequentar as instituições para serviços clínicos e/ou serviços de atendimento educacional especializado;
a eliminação de barreiras arquitetônicas pedagógicas e de comunicação, adotando métodos e práticas de ensino escolar adequados às diferenças dos alunos em geral, bem como o oferecimento de alternativas que contemplem a diversidade dos alunos, além de recursos de ensino e equipamentos especializados, que atendam a todas as necessidades educacionais dos educandos, com e sem deficiências.
Considerar que as crianças sempre sabem alguma coisa, de que todo o educando pode aprender, mas no tempo e do jeito que lhe são próprios. O professor deve nutrir uma elevada expectativa pelo aluno. O sucesso da aprendizagem está em explorar talentos, atualizar possibilidades, desenvolver pré-disposições naturais de cada aluno.
Os critérios de avaliação e de promoção, com base no aproveitamento escolar, previstos na LDBEN, Lei n°. 9394/96 (art. 24) não podem ser organizados de forma a desrespeitar os princípios constitucionais:
É urgente substituir o caráter classificatório da avaliação escolar, através de notas e provas, por um processo que deverá ser contínuo e qualitativo, visando depurar o ensino e torná-lo cada vez mais adequado e eficiente à aprendizagem de todos os alunos. (BRASIL, 2004, p. 35).
O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE22), de iniciativa do Ministério da Educação, ao eleger a Educação Básica como prioridade para atingir a qualidade de ensino, definiu em 2007, diversas metas para melhorar a qualidade do ensino no país. Dentre elas, existe uma (meta IX) que se refere à garantia de acesso e permanência das pessoas com necessidades educacionais especiais em classes comuns do ensino regular, fortalecendo a inclusão educacional nas escolas públicas. De acordo com as políticas voltadas para um ensino para todos, pode-se observar que a temática da Educação Inclusiva vem ganhando destaque a partir dos anos 90, sendo foco no campo das políticas sociais e educacionais, internacionais23 e nacionais24, quer seja como palavra-chave de proposições políticas, quer seja como bandeira de propostas pedagógicas inovadoras. Em todas elas, algo em comum: uma educação voltada para todos os alunos, posição esta que não é a mesma nos olhares críticos de pesquisadores que respondem à questão que se coloca a seguir: