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Mesmo o cotidiano mais irrisório retém um vestígio de grandeza e de poesia espontânea, exceto, talvez, quando não passa de aplicação da publicidade e encarnação do mundo da mercadoria, a troca abolindo o uso, ou o sobredeterminando. (LEFEBVRE, 1970, P. 82)

Sendo os Saraus encontros que possibilitam, entre outras atividades, a produção da poesia, esta pode ser considerada uma prática poética que, materializada no espaço, se converte em prática territorial. Retomamos aqui a

materialização do fenômeno no território, que se dá por meio das apresentações das produções poéticas em diversos espaços da cidade, que, a partir das parcerias estabelecidas com ONGs, Casas de Cultura e Instituições localizadas em suas regiões, irradiam-se para outras localidades da centralidade.

Na prática urbana, o discurso da/sobre a cidade circunscreve-se, inscreve-se, prescreve atos, direções. Poder-se-ia afirmar que tal prática define-se por um discurso? Por uma palavra e uma escrita? A realidade urbana só é o lugar de discursos ilimitados porque oferece percursos em número finito mas extenso. Esse discurso retoma unidades anteriores, naturais, históricas. Ele é escrito, lido, sem por isso esgotar-se na escrita e na leitura de textos urbanos.(LEFEBVRE, 1970, P. 123)

É por meio dos discursos, da leitura e releitura das poesias apresentadas, de um posicionamento frente à realidade e de uma mensagem de protesto e de valorização da cultura periférica em diversas localidades que investigamos a sua geograficidade. Para tanto, efetuamos um mapeamento dos equipamentos culturais frequentados pelos entrevistados do Sarau do Binho a partir da participação no evento, utilizando, novamente, as entrevistas individuais, por meio da pergunta: Você acha que, depois que as pessoas começaram a fazer parte do Sarau, passaram a frequentar espaços culturais na periferia da Zona Sul e no centro da cidade de São Paulo? Se sim, quais espaços? A partir das respostas, realizamos o Mapa 5, em que os bairros onde se localizam os equipamentos foram destacados:

Mapa 5 - Bairros frequentados pelos participantes do Sarau do Binho.36

Em relação ao Sarau Cooperifa, os dados foram extraídos dos questionários aplicados, em que 49% afirmaram que já participaram de eventos localizados em outros espaços fora de seus bairros, e 51% só participaram do Sarau. A partir dos lugares citados, identificamos os respectivos bairros, localizados no mapa 6:

36 Os mapas 5 e 6 foram produzidos com base no Guia Geográfico de São Paulo. Disponível em: <http://www.sp-

turismo.com/cidade-sp.htm> Acesso em: 14/02/11.

SANTO AMARO JD. BONFIGLIOLI BELA VISTA LIBERDADE MOEMA REPÚBLICA CAMPO LIMPO JD. SÃO LUIS CAPÃO REDONDO

Mapa 6 – Bairros frequentados pelos participantes do Sarau Cooperifa

A análise desta materialização no território, feita por meio dos mapas apresentados, nos permite inferir que, para uma parcela da população que participa dos eventos, houve a acessibilidade a espaços localizados tanto na Região Sul quanto no centro da cidade. Esta acessibilidade sustenta-se nas práticas poéticas,

SANTO AMARO BARRA FUNDA

IPIRANGA CONSOLAÇÃO

definindo, portanto, uma forma de ocupação destes espaços, em que a arte desempenha um papel fundamental:

Necessária como a ciência, não suficiente, a arte traz para a realização da sociedade urbana sua longa meditação sobre a vida como drama e fruição. Além do mais, e, sobretudo, a arte restitui o sentido da obra; ela oferece múltiplas figuras de tempos, e de espaços apropriados: não impostos, não aceitos por uma resignação passiva, mas metamorfoseados em obra.(LEFEBVRE, 2009, p. 116)

É este modo particular de ocupação e apropriação que fomenta a criação de espaços de intersecção entre a população da centralidade e da periferia, consistindo na possibilidade de democratização do espaço urbano, intrínseca ao fenômeno.

6.1 Espaços de intersecção

Donde tirar o princípio da reunião e seu conteúdo? Do lúdico. O termo deve ser tomado aqui na sua acepção mais ampla e no seu sentido mais ‘profundo’. O esporte é lúdico, o teatro também, de modo mais ativo de mais participante que o cinema. As brincadeiras das crianças não devem ser desprezadas, nem as dos adolescentes. Parques de diversão, jogos coletivos de todas as espécies persistem nos interstícios da sociedade de consumo dirigida, nos buracos da sociedade séria que se pretende estruturada e sistemática, que se pretende tecnicista. Quanto aos antigos lugares de reunião, em grande parte perderam seu sentido: a festa, que perece ou se afasta deles. O fato de eles reencontrarem um sentido não impede a criação de lugares apropriados à festa renovada, essencialmente ligada à invenção lúdica.(LEFEBVRE, 2009, p. 131)

Afirmamos que o resgate do sentido lúdico (e, acrescentamos: poético) da reunião é realizado pelos eventos em suas apresentações. Como demonstramos no Capítulo 2, no que se refere ao Sarau do Binho, a dinâmica do evento em outros

espaços incorpora o canto e pequenas marchas para atrair o público. De acordo com essa observação, retomamos Lefebvre:

“Isso quer dizer que os tempos-espaços tornam-se obra de arte e que a arte passada é reconsiderada como fonte e modelo de apropriação do espaço e do tempo.” (LEFEBVRE, 2009, p. 133)

Esta atuação em outros lugares estrutura a criação dos espaços de intersecção entre a população periférica e a população da centralidade, possibilitando o encontro, e, consequentemente, as trocas.

Recorremos novamente à obra A Revolução Urbana para analisar esta intersecção, principalmente no que se refere às suas considerações sobre o espaço urbano enquanto lugar de encontro e de múltiplas trocas entre as pessoas.

Para tanto, o autor desenvolve o conceito de heterotopia, que significa o lugar do outro, que se situa fora do campo de significações de determinado sujeito:

Entretanto, ao lado do “lugar mesmo”, há o lugar outro, ou o outro lugar. O que o torna outro? Uma diferença que o caracteriza, situando-o (situando-se) em relação ao lugar inicialmente considerado. Trata-se da hetero-topia. Desde que se considere os ocupantes dos lugares, a diferença pode ir até o contaste fortemente caracterizado, e mesmo até o conflito. Esses lugares são relativos uns aos outros no conjunto urbano, o que supõe a existência de um elemento neutro, definido aqui ou ali, que pode consistir na ruptura-sutura dos lugares justapostos: a rua, a praça, o cruzamento (de caminhos e percursos), ou então o jardim, o parque. E agora há também o alhures, o não-lugar que não acontece e, entretanto, procura seu lugar. (LEFEBRE, 1970, p. 120)

A partir de tais considerações, afirmamos que a consolidação das atividades localizadas em espaços culturais da centralidade constitui a conquista do espaço do outro, uma vez que os próprios movimentos literários periféricos mobilizaram-se para a criação de espaços de intersecção, diluindo a segregação espacial e, deste modo,

possibilitando que tais espaços sejam, também, locais de troca entre grupos sociais até então antagônicos em suas condições econômicas e sociais.

Em relação ao Sarau Cooperifa, a expansão dos seus eventos ocorreu, basicamente, em duas regiões: na própria Zona Sul e na centralidade de São Paulo (especificamente no bairro Bela Vista, pertencente à Subprefeitura Sé). O Mapa 7 consiste na cartografia dos eventos realizados pelo Sarau Cooperifa, no período de dezembro de 2007 a dezembro de 2009.

Como pudemos observar, esses eventos propiciam um contato do público da centralidade com a produção poética periférica, dotada de uma visão de mundo, de mensagens de protesto e de reivindicações.

Belgede BarkoPOS.com (sayfa 9-36)

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